Os Portocarreiro ou Portocarrero

Estudo complementar a «Portocarreros do Palácio da Bandeirinha»

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedra de armas que encima o portão do palácio da Bandeirinha, no Porto, mandado fazer no início do séc. XVIII por Manuel da Cunha Coutinho de Portocarreiro, 16º senhor da torre de Portocarreiro e chefe de armas desta família. No portal da casa (foto abaixo)

 existe uma outra pedra de armas, esquartelada, claramente da época da construção. A pedra de armas do portão, contudo, parece anterior e deve ter sido para ali levada da casa que a família tinha próximo, no Padrão de Belmonte. O escudo desta pedra caracteriza-se por um enxequetado inverso (cinco peças em faixa e três em pala) e por ostentar uma bordadura de leões e castelos. Na pedra de armas do portal da casa, esquartelada de Portocarrero, Ozorio, Cunha e Coutinho, mantém-se o exequetado inverso, mas sem bordadura. O escudo é igualmente encimado por um coronel de nobreza.

No morgadio de Melres, de que o referido Manuel da Cunha Coutinho de Portocarrero era 3º senhor, existe no portão uma outra pedra de armas (foto acima), com o mesmo esquartelamento mas já com o enxequetado habitual e também sem a bordadura de leões e castelos. Na heráldica oficial, o brasão dos Portocarreiro ou Portocarrero é constituído por um escudo enxequetado de ouro e azul, de três peças em faixa e cinco em pala, tendo por timbre um cavalo nascente de ouro, bridado e enfreado de azul (infografia abaixo).

Notável família portuguesa descendente de Dom Raimundo Garcia, a quem o conde de Portugal Dom Henrique de Borgonha doou o couto de Portocarreiro, senhorio de que tomou o nome. Dom Raimundo Garcia de Portocarreiro nasceu cerca de 1090, e devia ser irmão de um Dom Monio Garcia, documentado como senhor da quintã de Vilar, que integrava a honra de Portocarreiro, quintã essa que seguiu na descendência de Dom Raimundo, pelo que aquele Dom Monio não terá tido geração. Seriam assim ambos filhos de Dom Garcia Afonso e de sua mulher Dona Estevaínha Mendes, que a tradição genealógica diz terem sido grandes fidalgos asturianos, sendo este Dom Garcia, ao que se julga, filho de um virtual Dom Afonso Garcia e neto de outro Dom Garcia Afonso, a quem o rei Dom Ordonho III de Leão chama primo numa doação de 954 que fez à Igreja de Santiago de Compostela. Modernas investigações, sem negarem a origem asturiana de Dom Garcia Afonso, dizem que terá sido ele a vir para o condado portucalense, onde terá refundado o mosteiro de S. Martinho de Soalhães, que de facto estava na posse dos netos de Dom Raimundo, sendo aquele Dom Garcia Afonso provavelmente descendente do fundador inicial.

Bem documentado entre 1129 e 1153, Dom Raimundo Garcia de Portocarreiro confirmou vários documentos régios e aparece como membro do concelho que governava Portugal, sendo indicado como um «de illos infançones qui erant in Porttucale». Numa questão julgada em Coimbra em 1153, sobre o mosteiro de S. Martinho de Soalhães, reuniram nessa qualidade Dom Fernão Peres Cativo, Dom Gonçalo Mendes de Souza, o arcebispo de Braga, os bispos do Porto, Lamego e Viseu, e os «infanções» Dom Gonçalo Gonçalves, Dom Raimundo Garcia, Dom Sarracino Mendes Espina e Dom Gosendo Moniz.

Dom Raimundo fez no seu couto a honra e torre paçã de Portocarreiro. A torre, muito arruinada, ainda no séc. XIX existia na posse da família, situando-se na aldeia hoje chamada a Torre, em Vila Boa de Quires. A honra estendia-se por 34 casais ou vilas, incluindo as de Louredo, Souto, Aguelas, Granja, Vilar, Abragão, Agrela, Ribaçais, Vez de Aviz, Samil e Manseles, que durante muitos séculos se manteriam na família. O couto de Portocarreiro deu origem ao concelho de Portocarreiro, extinto definitivamente a 31.12.1853, que integrava as freguesias de Abragão, Maureles, S. Pedro e S. Nicolau de Canavezes, S. Pedro de Portocarreiro e Vila Boa de Quires. Sabe-se ainda que Dom Raimundo foi alcaide do castelo de Sátão (Viseu) e, segundo o nobiliário do conde Dom Pedro, «deu grand'algo a Mancelos», o que se confirma pelo facto dos seus descendentes serem naturais do mosteiro de Mancelos.

Dom Raimundo casou, teria mais de 40 anos de idade, com Dona Gontinha Nunes de Azevedo, das principais famílias portuguesas, que depois de viúva casou em segundas núpcias com Dom Gomes Ramires Carpinteiro. Filha do célebre Dom Nuno Paes de Azevedo, o «Vida», alferes-mor do conde Dom Henrique, Dona Gontinha era neta paterna de Dom Paio Godins de Azevedo, da linhagem dos senhores de Baião, e de sua mulher Dona Gontinha Nunes Velho, falecida em 1108, filha de Dom Nuno Soares Velho, descendente da velha linhagem condal portuguesa dos Betotes, e de sua mulher Dona Ausenda Todereis, também descendente das linhagens condais portuguesas, nomeadamente dos Souza.

Do seu casamento, Dom Raimundo deixou apenas quatro filhas, duas freiras e outras duas casadas. Destas, a mais nova casou com Dom Rodrigo Anes de Valladares, senhor de Penela, com geração nos Vasconcellos, que vieram a ser condes de Penela. A mais velha, que sucedeu na torre e honra de Portocarreiro e por quem passou o nome desta linhagem, chamou-se Dona Ouroana Raimundes de Portocarreiro.

Dona Ouroana Raimundes de Portocarreiro, 2ª senhora do couto de Portocarreiro e herdeira do mosteiro de S. Martinho de Soalhães, é referida numa sentença de 1290, segundo a qual tinha doado à Sé do Porto a quintã de Vilar do Fundo, sita na freguesia de Abragão, que pertencia ao seu couto de Portocarreiro. Terá nascido cerca de 1140 e casou cerca de 1155 com Dom Henrique Fernandes de Toledo, o «Magro», senhor de muitos bens em Sever do Vouga e Cambra, que era descendente dos senhores de Marnel e, por eles, dos condes de Coimbra e da família real leonesa. Irmão mais novo de Dona Elvira Fernandes de Toledo, segunda mulher, sem geração, do conde Dom Mendo Veegas de Souza, Dom Henrique Fernandes de Toledo era bem mais velho do que sua mulher, pois terá nascido cerca de 1110. Era filho do conde Dom Fernando Afonso de Toledo, de origens moçárabes, e de sua mulher Dona Urraca Veegas de Marnel, que os LL dizem filha esta de Dom Gonçalo Veegas de Marnel, governador de Montemor (1017), senhor de Sever do Vouga, Canelas, Aveiro, Valongo, etc., falecido depois de 1057, e de sua mulher Dona Chamoa Honoriques, 4ª neta do famoso pressor (878) e conde de Coimbra Dom Hermenegildo Guterres e de sua mulher Dona Ermesenda Gatones, neta do rei Dom Ramiro I de Leão. É evidente, como já avisa Pizarro, que esta filiação é cronologicamente impossível. Urraca Gonçalves de Marnel, não podia ter nascido antes de 1070. O que implica que não podia ser filha de Gonçalo Viegas de Marnel, mas sim sua bisneta, filha de seu neto paterno Gonçalo Eriz de Marnel e de sua mulher Onega Romarigues e neta paterna de Ero Gonçalves de Marnel e de sua mulher Ildôncia Mendes «Madredulce». Urraca seria portanto irmã de Paio Gonçalves de Marnel, documentado entre 1103 e 1145.

De Dona Ouroana Raimundes de Portocarreiro e de seu marido Dom Henrique Fernandes «o Magro» nasceram dois filhos e duas filhas. O mais velho, cuja descendência varonil legítima se extinguiu, foi Dom Egas Henriques de Portocarreiro, o «Bravo», nascido cerca de 1146 e documentado na corte de do rei Dom Sancho I em 1187. Dom Egas fez paço na sua quintã de Louredo, na honra e quinta da torre de Portocarreiro, que partilhou com seus irmãos, e sucedeu no mosteiro de Soalhães, onde provavelmente foi sepultado. Casou com Dona Tereza Gonçalves de Curveira, que trouxe à família entre outros bens a torre de Curveira, e teve filhos ilustríssimos, entre eles o arcebispo de Braga (1245) Dom João Veegas de Portocarreiro, o célebre Dom Raimundo Veegas de Portocarreiro, o «Torres», que raptou a rainha Dona Mécia de Haro, mulher de Dom Sancho II, e Dom Gonçalo Veegas de Portocarreiro, o «Alfeirão», «nobili viro» que sucedeu na terra de Soalhães, onde fez paço na honra de Vila Pouca, e no seu mosteiro de S. Martinho, que Dom Sancho II lhe tirou para dar ao bispado do Porto. Deste Dom Gonçalo, que casou (dispensa papal de 17.7.1253) com sua parente Dona Sancha Pires da Veiga, foram filhos, entre outros, o célebre trovador Pedro Gonçalves de Portocarreiro, que viveu em Castela, o chantre (1281) e arcediago (1287) de Braga Dom Gonçalo Gonçalves de Portocarreiro e Rui Gonçalves de Portocarreiro, «o Bifardel», que teve uma única filha legítima, D. Senhorinha Rodrigues de Portocarreiro, que ainda solteira consta, entre os infançãos e infançoas,  na lista de 1339 dos padroeiros de Mancelos, e que casou com Rui Martins de Numães. De Dom Egas Henriques parece que ainda foi filha, talvez natural, Dona Fruela Veegas que casou com Lourenço Martins e foram pais do bispo de Lisboa e arcebispo de Braga Dom João Martins de Soalhães, muito herdado em Soalhães, onde a 13.5.1304 instituiu um grande morgadio, em que nomeia seu filho legitimado (28.1.1308) Vasco Anes de Soalhães e por sua morte o filho deste, Rui Vasques Ribeiro, com geração nos condes de Penela.

Das duas filhas de Dona Ouroana, a mais velha foi Dona Sancha Henriques de Portocarreiro, que casou a primeira vez com Dom Rui Gonçalves de Pereira e a segunda com Dom Paio Soares «Romeu». Dela descende nomeadamente o santo condestável Dom Nuno Álvares Pereira e, através dele, os duques de Bragança e os reis de Portugal. A outra filha foi Dona Urraca Henriques de Portocarreiro, que casou com Dom Gueda Gomes Guedão, de quem vêm os Guedes e os Cogominho.

O nome Portocarreiro acabou apenas por seguir através do filho mais novo de Dona Ouroana, Dom João Henriques de Portocarreiro, nascido cerca de 1152 e falecido a 20.7.1234, segundo a inscrição do seu túmulo no claustro velho do mosteiro de Alcobaça. Sucedeu na honra e quintã da torre de Portocarreiro, onde fez para si o paço de Pombal, concretamente num casal da vila da Granja, onde fora criado. Em 1209 testemunha umas compras feitas por Dom Martim Fernandes de Riba de Vizela. De resto, há pouca informação sobre ele, sendo certo que ocupou lugar de relevo no seu tempo, como atesta o facto de ter sido sepultado no privilegiado e selecto «claustro do silêncio» de Alcobaça. Casou com Dona Mor Veegas Coronel de Sequeira, que trouxe à família vários bens em Entre-Homem-e-Cávado, e que ainda vivia viúva quando das inquirições de 1258. Destes foi filho primogénito o notável Dom Fernão Anes de Portocarreiro, cónego (1240) e deão (1250) da Sé de Braga, conselheiro de Dom Afonso III (1250), capelão do Papa (1257), prior de Guimarães (1263) e notário do rei Dom Afonso X de Castela (1263), que fez testamento em Burgos em 1272, em que beneficiou vários sobrinhos, e faleceu pouco depois. De João Henriques foi ainda filho Gonçalo Anes de Portocarreiro, que acompanhou Dom Sancho II no exílio, testemunhando no seu testamento de 1248, com geração extinta; e Lourenço Anes de Portocarreiro, «miles» documentado nas inquirições de 1288, que foi pai de Dona Maria Lourenço de Portocarreiro, senhora da quintã de Goim, casada com o meirinho-mor de Entre-Douro-e-Minho e Além-Douro (1287) Pedro Martins de Soveral, o 1º deste nome, com geração nesta família, e de Rui Lourenço de Portocarreiro, cavaleiro documentado entre 1297 e 1311, que foi bisavô paterno do grande potentado João Rodrigues de Portocarreiro, senhor de juro e herdade de Portocarreiro e Vila Real (13.8.1372), de Vilarinho de Castanheira (20.1.1372), de Vila Nova de Anços e de Ansiães (13.3.1372), de Chacim, de Alfândega da Fé, de Vila Flor, de Castro Vicente, de Ferreirós e Soutelinho (12.8.1372), de Cotos e de Vilarinho (14.8.1373), de Resende (14.8.1374), de Ferreiros, de Tendais e de Lourinhã (7.11.1375), de Montalegre e de Tentúgal (18.3.1377), de Barroso, de Pena e de Miranda (31.3.1379), de Lamas de Orelhão (17.3.1380), etc., Este João Rodrigues de Portocarreiro parece ser o que aparece, entre os infanções, na lista dos padroeiros do mosteiro de Grijó de 1365, a que tinha direito «da parte de Vasconçellos», com dois filhos não nomeados.  Mas apenas uma filha sobreviveu e foi sua herdeira: Dona Mayor de Portocarreiro, 1º condessa de Viana (do Alentejo), que levou o senhorio de Vila Real, com geração nos condes e marqueses de Vila Real.

A família prosseguiu através do filho sucessor de Dom João Henriques, Dom Pedro Anes de Portocarreiro, rico-homem da cúria (pelo menos desde 1237) de Dom Sancho II, governador de Parada de Riba Paiva (1223-48) e depois do Conselho de Dom Afonso III, documentado até 1251, ano em que deve ter falecido. Esteve nas conquistas de Sevilha (1248) e do Algarve, nomeadamente nas tomadas de Mértola, Alfar da Pena, Ayamonte e Cancela (1239-40). Sucedeu no paço de Pombal, na quinta da Torre de Portocarreiro e nas principais honras do couto. Documenta-se casado com Dona Maria Pires Bravo, irmã de Dom João Pires Redondo e de Dom Pedro Pires Velho, rico-homens de Dom Sancho II que também se notabilizaram nas conquista de Sevilha e do Algarve, todos filhos de Dom Pedro Soares Velho, o «Escaldado», da linhagem dos senhores de Baião. Mas no LL vem casado com Dom Mor Veegas de Regalados, que parece ser a 1ª mulher e a mãe de seus filhos, pois estes partilham em Janeiro de 1274 os bens de Regalados, entre eles a quintã e torre de Regalados. De Dom Pedro Anes foram filhos João Pires de Portocarreiro, o primogénito, Fernão Pires de Portocarreiro, que segue, Gonçalo Pires de Portocarreiro, com geração extinta, e o cónego da Sé de Braga Martim Pires de Portocarreiro, conselheiro de Dom Afonso III e aio do infante Dom Afonso, que sucedeu num vínculo instituído por seu tio o deão de Braga Dom Fernão Anes de Portocarreiro. A 15 de Janeiro de 1275, na torre de Regalados, fazem troca de vários bens de herança, tendo nomeadamente João Pires trocado com seu irmão Fernão os bens de Portocarreiro pelos de Regalados. Destes foi ainda irmã Dona Margarida Pires de Portocarreiro, também co-herdeira de Regalados, que casou antes de 1272 com Pedro Anes de Vasconcellos, senhor da honra e torre de Vasconcellos.

O primogénito, João Pires de Portocarreiro, apesar da troca que fez com seu irmão Fernão em 1275, acabou por ficar com a quintã da Torre de Portocarreiro e algumas das principais honras do couto, pois estas seguem na sua descendência, e a seu irmão Fernão apenas se conhece em Portocarreiro a honra e quinta de Pombal. João Pires teve vários filhos, que morreram sem geração, tendo sucedido nos bens de Portocarreiro a filha Dona Tereza Anes de Portocarreiro que casou com Gonçalo Martins «Camelo», o 1º deste nome, filho de Martim Lourenço da Cunha. Deste casal nasceram vários filhos, entre eles Nuno Gonçalves Camelo, o primogénito, que sucedeu em metade da quintã da Torre de Portocarreiro e principais honras do couto, Fernão Gonçalves Camelo, que em 1321 comprou a sua tia-avó Dona Margarida Pires de Portocarreiro a quintã da Torre de Regalados, e Dona Mor Gonçalves, que sucedeu na outra metade da quintã da Torre de Portocarreiro e principais honras do couto, tendo casado com Pedro Martins Alcoforado, alcaide-mor de Elvas (24.7.1357). Na geração deste último casal prosseguiu metade da herança Portocarreiro, que julgo terá influenciado a heráldica dos Alcoforado, um enxequetado de para e azul de seis peças em faixa e oito em pala, que parece muito ordenada por diferença dos Portocarreiro. Daquele casal foi filho sucessor Gonçalo Peres Alcoforado, alcaide-mor de Campo Maior (23.7.1357) , que aparece, entre os infanções, na lista dos naturais de Grijó de 1366, e casou com Beatriz Esteves de Avellar, representante dos Furtado medievais, pois era filha de Estêvão Dias de Avellar, senhor de juro e herdade de Povolide e de Nespereira (10.12.1385), senhor de Oliveira de Currelos (depois dita do Conde) e da quinta de Stº André de Azurara da Beira (9.8.1384), etc., e de sua mulher Senhorinha Afonso Furtado, herdeira da representação e bens dos Furtado medievais, que nada têm a ver com os Furtado posteriores, depois Furtado de Mendonça, como deixei tratado em «Os Furtado de Mendonça portugueses. Ensaio sobre a sua verdadeira origem», 2004, em co-autoria com Manuel Lamas de Mendonça. De Gonçalo Peres Alcoforado e Beatriz Esteves de Avellar foi filho Martim Gonçalves Alcoforado, que a 30.12.1406 tem de Dom João I confirmação de que eram honras de seus antepassados Portocarreiro as suas quintãs da Torre de Portocarreiro, de Lordelo e de Louredo, conforme então se mandou verificar nas inquirições. E esta mesma carta foi confirmada a seu filho Fernão Martins Alcoforado a 7.1.1435. Este Fernão foi fidalgo da Casa do infante D. Pedro, com quem esteve em Alfarrobeira, tendo por isso carta de perdão de 12.8.1451 de D. Afonso V, a pedido de Isabel Pereira, restituindo-lhe toda a boa fama, bens, liberdades e privilégios, a possibilidade ser recebedor em juízo e fora dele e de testar. Foi ainda senhor de Mourisca e Aguieira (Águeda), senhor da honra, quintã e torre de Alcoforado, morgado de Bustelo (Penafiel) e padroeiro do respectivo mosteiro, e sucessor em parte das honras e quintãs da Torre de Portocarreiro, de Louredo e Lordelo, por confirmação de Dom Duarte de 7.1.1435. Nesta sucessão estava incluído o padroado da igreja de Vila Boa de Quires, que perdeu por ter estado em Alfarrobeira, como se diz quando o dito padroado foi doado a 14.5.1451 ao duque de Bragança. Mas depois, pela referida carta de perdão, voltou a ter os seus bens e direitos, nomeadamente este padroado de Vila Boa de Quires. Fernão Martins Alcoforado casou a 1ª vez com Mécia Vaz, e tiveram um filho, Gonçalo Alcoforado, fidalgo da Casa do duque de Viseu (infante Dom Henrique), que a 21.10.1475 teve de D. Afonso V carta de privilégio de fidalgo para a comarca e correição de Entre-Douro-e-Minho. A 24.2.1453 este Gonçalo Alcoforado tirou ordens menores em Braga, «qui per tantum tenpus quanto de jure suficiebat incollatum duxit im ista bracharensis diocesi», sendo filho de Fernão Martins Alcoforado e sua mulher Mécia Vaz, moradores em Vila Boa de Quires. Mas, como os herdeiros do pai foram os filhos do seu 2º casamento, este Gonçalo Alcoforado não teve geração, o mesmo acontecendo com os irmãos que possa ter tido. Fernão Martins Alcoforado casou a 2º vez com sua prima Dona Maria da Cunha, referida adiante, de quem foi 3º marido, com geração. A sua parte dos bens de Portocarreiro foi herdada por sua filha D. Filipa da Cunha, que casou com Vasco de Antas, morgado de Antas, no Alentejo, dos quais foi filho herdeiro Luiz de Antas que fez doação desses bens de Portocarreiro a sua prima D. Helena de Ozorio, que já tinha o restante, neta herdeira de Nuno Martins de Portocarreiro e sua mulher D. Maria da Cunha.  Voltando a Nuno Gonçalves Camelo, o primogénito que ficou acima e sucedeu na outra metade da quintã da Torre de Portocarreiro e principais honras do couto, casou com Inez Martins Pimentel e foram pais de Gonçalo Nunes Camelo, sucessor, que casou Aldonça Rodrigues Pereira. Destes foi filho D. Álvaro Gonçalves Camelo, prior do Hospital, que sucedeu na dita metade dos bens de Portocarreiro, que deixou a sua filha natural D. Isabel Pereira casada com Gil Vasques da Cunha, alferes-mor de Dom João I. Destes foi filha  Dona Maria da Cunha, sucessora em parte dos bens de Portocarrero, que casou com seu primo Fernão Martins Alcoforado, referido acima, já viúva de seu primo Nuno Martins de Portocarreiro, referido adiante, onde segue (1). Fernão Martins Alcoforado e sua 2ª mulher D. Maria da Cunha tiveram ainda um filho, Gonçalo Vaz Alcoforado, fidalgo da Casa Real, senhor de Mourisca e Aguieira (Águeda), senhor da honra, quintã e torre de Alcoforado, padroeiro do mosteiro de Bustelo (Penafiel), etc. Este Gonçalo Vaz Alcoforado tinha uma tença de 8.000 reais que lhe foi paga no almoxarifado de Ponte de Lima pelo menos em 1508 e 1509. Já a 15.2.1498 Gonçalo Vaz Alcoforado, fidalgo da Casa do rei, morador na Torre de Farazão, julgado de Refoios, fez procuração a seu filho Manuel de Castro para receber de qualquer almoxarife ou recebedor os 8.000 reais que tem de tença em cada ano. E já tinha falecido a 11.6.1522, data em que seu filho Manuel de Castro Alcoforado recebe a dita tença de 8.000 reais, no almoxarifado de Viseu, tença que recebe pelo menos até 1529, já no almoxarifado de Ponte de Lima. Casou duas vezes, a 1ª com D. Maria de Castro, mão do dito Manuel, e a 2ª vez com D. Margarida de Souza de Menezes, da Casa de Penteeiros. A 2.6.1540 o vedor da fazenda manda pagar 15.470 reais a D. Margarida de Sousa, como mãe e herdeira de Fernando Martins Alcoforado e seu irmão Cristóvão de Sousa Alcoforado, que faleceram na Índia. Deste 2º casamento foi filho sucessor António de Souza Alcoforado, com geração conhecida nas casas de Penteeiros, de Gominhães e da Silva.

De Dom Pedro Anes de Portocarreiro foi filho, como ficou dito, Fernão Pires de Portocarreiro, cavaleiro que estava na corte de Lisboa em 1265 e fez partilhas com seus irmãos em 1274-5. Sucedeu na quintã do paço de Pombal, teve paço e honra no julgado de Neiva e faleceu antes de 1301, sendo na sua geração que seguiu o nome Portocarreiro. Casou com Dona Maria Martins de Baguim, que a 19.5.1301 doou à Sé do Porto o direito de padroado da igreja de Stª Mª de Campanhã, estando em 1304 já casada em segundas núpcias, sem geração, e falecendo antes de 1319, data em que seus filhos fazem partilha dos bens.

De Fernão Pires foram filhos dois irmãos homónimos: Martim Fernandes de Portocarreiro, o «Maior», e Martim Fernandes de Portocarreiro, o «Gervaz», a quem seu irmão mais velho chama o «Menor». Com suas irmãs Dona Maria Fernandes de Portocarreiro, prioresa do mosteiro de Arouca, e Dona Guiomar, freira no mesmo mosteiro, fazem partilhas em 1319.

É nesta geração que os Portocarreiro passam para Castela, justamente com Dom Martim Fernandes de Portocarreiro, o «Maior», que foi adiantado-mor de Leão e Astúrias (já o era em 1310), cargo que em 1311 cumulava com o de alvazil do rei de Segóvia, tendo casado com Dona Inez Fradique da Lombardia, filha do conde Dom Fradique Pardo de Lombardia. Destes foi filho sucessor outro Dom Martim Fernandes de Portocarreiro, 1º senhor de Vila Nova del Fresno, rico-homem do Conselho de Dom Afonso XI e mordomo-mor do infante Dom Pedro de Castela. Casou com Dona Maria Afonso Tenório, senhora de Moguer, filha do almirante de Castela Dom Alfonso Jofre. Destes foi filho sucessor outro Dom Martim Fernandes de Portocarreiro, 1º conde de Modelhim, que casou com Dona Francisca Sarmiento. Destes foi filho Dom Martim Fernández Portocarrero, o primeiro a adoptar esta grafia do nome, senhor de Moguer, Modelhim e Vila Nova del Fresno, que casou com Dona Leonor Cabeza de Vaca e foram pais de Dom Pedro Portocarrero, sucessor, falecido a 3.2.1439, com geração que se alargou à principal nobreza de Espanha. Deste último Dom Martim Fernández Portocarrero, só entre os seus 4ºs netos contam-se os duques de Alba, de Escalona, de Medina-Sidónia, do Infantado, de Albuquerque, de Cardona, de Galisteo e de Alcala, os marqueses de Astorga, de Aguillar, de Montesclaros, de Priego, de Las Navas, de Comares, de Moya, de Monte Mayor, de Mondéjar, de Berlonga, de Alcala de La Almeda, e os condes Medelhim, de Palma del Rio, de Benavente, de Luna, de Monterrey, de Féria, de Miranda, de Cifuentes, de Los Molares, de Oropesa, de Santisteban del Puerto. Dele descendem também os duques de  Ossuna e de Caminha, os marqueses de Portocarrero, de Vila Nova del Fresno e de Barca Rota, os condes de Montijo, de Palma, de Puebla del Maestro, de Montedava, de Montalvim, etc.

O irmão mais novo, Martim Fernandes de Portocarreiro, o «Gervaz» ou «o Menor», sucedeu na quintã do paço de Pombal e em 1329 representava os direitos da família na igreja de Vilar de Porcos (hoje Vilar do Pinheiro) e em 1339 no padroado de Mancelos. Os nobiliários falam ainda de um terceiro irmão Martim Fernandes de Portocarreiro casado com Dona Aldonça Vasques da Granja, mas parecem homónimos a mais e, sobretudo, este hipotético terceiro Martim não aparece nas partilhas, pelo que suponho tratar-se de confusão com o «Gervaz». O mesmo Martim Fernandes terá assim casado a 1ª vez com a dita Dona Aldonça, de quem teve Gonçalo Martins de Portocarreiro, referido em 1329 como infanção natural da igreja de Vilar de Porcos, que casou com uma neta do rei Dom Dinis, e faleceu antes de 1351, sem geração. Martim Fernandes de Portocarreiro o «Gervaz» casou 2ª vez com Dona Inez Fernandes de Teixeira (filha de Fernão Martins de Teixeira, da linhagem dos senhores de Lanhoso, e de sua mulher Dona Beatriz Martins da Cunha), da qual teve quatro filhos, todos menores em 1329 quando referidos na lista das comedorias de Vilar de Porcos, e ainda menores em 1339, quando seu pai é citado, entre os infanções, na lista dos naturais de Mancelos, com seus filhos, não nomeados. 

Destes quatro filhos o sucessor foi Vasco Martins de Portocarreiro, nascido cerca de 1325. Foi 6º senhor da quintã do paço de Pombal e de muitos outros bens de raiz. Cavaleiro do rei Dom Fernando, dizem os nobiliários que o acompanhou na conquista de Monte Rey e na campanha da Galiza. Aparece depois como vassalo de Dom João I. Teve vários filhos, nomeadamente Diogo, Gil e Lopo Vasques de Portocarreiro, que se notabilizaram na tomada de Ceuta e cujos inúmeros feitos Gomes Anes de Azurara relata na «Crónica do Conde Dom Pedro». O sucessor foi seu filho Martim Vasques de Portocarreiro, 7º senhor da quintã do paço de Pombal, fidalgo de Dom João I, com quem, dizem os nobiliários, esteve em Aljubarrota com «muy merecimento», sendo aí armado cavaleiro pelo soberano. Dele foi filho Vasco Martins de Portocarreiro, cavaleiro d'el rei, como é referido no cartório do mosteiro de Paço de Sousa, que nasceu cerca de 1390 e faleceu depois de 11.6.1467, data em que, com sua mulher Dona Catarina da Cunha, vendem a quintã de paço de Pombal, por 50.000 reais, por interposta pessoa, a sua neta Dona Guiomar da Cunha.

Deste Vasco Martins foi único filho conhecido Nuno Martins de Portocarreiro, que faleceu antes de seus pais. Foi o 2º  marido de sua parente Dona Maria da Cunha, já referida acima, que trouxe a torre de Portocarreiro de volta à linha que usava este nome. Nascida cerca de 1414 no Porto e falecida em 1500 na sua quintã da torre de Portocarreiro, Dona Maria da Cunha foi senhora de juro e herdade de metade dos concelhos de Portocarreiro, de Montelongo e de Guilhofei (20.12.1434), bem assim como senhora da citada quintã da torre de Portocarreiro, das quintãs de Louredo (em Portocarreiro) e de Lordelo (Felgueiras), bem como do padroado da igreja de Vila Boa de Quires. Era  filha do alferes-mor do reino Gil Vaz da Cunha, senhor de juro e herdade de Basto, Portocarreiro, Montelongo, Maia, Borba, Guilhofei, Vale do Bouro e Armamar (1.6.1402), e de sua mulher Dona Isabel Pereira, co-herdeira da quintã da torre de Portocarreiro, como ficou dito.

De Nuno Martins de Portocarreiro e de sua mulher Dona Maria da Cunha descendem os Cunha Coutinho Ozorio de Portocarreiro, morgados de S. Tiago de Melres, que sucederam como senhores das quintãs da torre de Portocarreiro e do paço de Pombal e foram chefes desta família em Portugal. Deste casal foi 5º neto sucessor Manuel da Cunha Coutinho de Portocarreiro, fidalgo de solar referido na «Corografia Portuguesa» (1706), do padre Dr. António Carvalho da Costa, como sendo à época o chefe da família Portocarreiro, senhor do solar da Torre e do morgadio de S. Tiago de Melres, entre outros muitos bens patrimoniais. Foi este que iniciou a construção do palácio da Bandeirinha, no Porto, obra que seria concluída por seu filho João da Cunha Coutinho Ozorio de Portocarreiro antes de 1735, ano em que já aí vivia. No século XIX a família passou a adoptar a grafia Portocarrero, usada pelo ramo primogénito espanhol, no qual se incluía a então imperatriz de França Eugénia de Guzman y Portocarrero. Igualmente no século XIX foram dados a membros da família os títulos de barão de Pombalinho e de visconde de Portocarreiro.

A casa de Melres, hoje chamada quinta da Bandeirinha por osmose com o nome do palácio que a família tinha no Porto, em meados do século XX foi vendida a um particular e posteriormente adquirida pela Câmara de Gondomar, que em 2001 levou a cabo um restauro da casa, que estava muito arruinada, tendo aí instalado a Junta de Freguesia de Melres e um museu municipal. Para além do belo imóvel seiscentista, são de especial interesse os tectos em madeira trabalhada, um deles armoriado, também seiscentistas. O palácio da Bandeirinha, na cidade do Porto, popularmente conhecido também por palácio das Sereias, permanece um dos três ou quatro mais importantes imóveis históricos da nobreza portuense, tendo sido vendido pela família em 1954 à ordem italiana das Freiras Canossianas Missionárias, que ainda hoje aí permanecem. Com o interior já muito adulterado, permanece contudo o interesse arquitectónico do esplêndido imóvel, traçado por um discípulo de Nasoni.

1999


(1) Para mais detalhes sobre a filiação de D. Isabel Pereira e sua descendência ver o meu livro «Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII», Porto 2004, Vol. II, Cunha, onde acrescento, corrijo e completo a informação que dei em «Portocarreros do Palácio da Bandeirinha».

 

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