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Ensaio sobre a origem dos Ferreira

Os Ferreira de Aguiar de Sousa e sua
descendência até ao século XV,
incluindo a origem dos Faria
O nome
Ferreira é um daqueles apelidos portugueses que, para além das razões
habituais de disseminação extra-familiar, não conta seguramente com uma
única origem comum.
Há, desde
logo, uma série de indivíduos que, pelo menos desde o século XIV e
sobretudo no XV, se documentam como pertencendo claramente ao conto
plebeu, e outros que, não sendo possível documentá-los como tal, o
deviam ser pelo estatuto aparente. Entre estes Ferreira populares do
século XV aparece mesmo um alfaiate judeu e um mercador genovês (Ferrera
na origem, suponho).
Eis alguns
dos exemplos mais significativos:
·
Um Lopo Gonçalves
de Ferreira, almocreve, documenta-se com casas na Guarda na delimitação
de um prazo feito por D. Duarte de 21.10.1435.
·
A 7.5.1445 D.
Afonso V perdoa a justiça régia e concede carta de segurança a Margarida
Afonso Ferreira, moradora na Bouça, couto do mosteiro do Pombeiro,
acusada de pôr em perigo vários casamentos pela prática de adultério, de
furtos e agressões, e que fugira da prisão, tendo pago 100 reais brancos
para a Chancelaria régia, contanto que se livre de direito do que fora
acusada e presa.
·
A 1.4.1450 D.
Afonso V perdoa a justiça régia a Gonçalo Anes, morador em Assumar, por
ter participado na batalha de Alfarrobeira contra o infante D. Pedro, da
acusação de ter ferido Inez Ferreira, mulher de João Afonso, grumete.
·
A
12.7.1451 D. Afonso V privilegia João Ferreira, genovês, mercador,
morador na cidade de Lisboa, a pedido de Marco Lomilim, genovês,
servidor régio, mercador, morador nessa cidade, isentando-o do pagamento
de diversos impostos, pedidos, empréstimos, serviços, cargos, ofícios
régios e concelhios, de ter cavalo, armas e bestas, bem como do direito
de pousada, concedendo-lhe licença para trazer armas de noite e de dia.
·
A
12.10.1451 D. Afonso V privilegia João Anes de Ferreira, sapateiro,
morador na cidade de Lisboa, a pedido de Leonor Gonçalves, ama do rei,
isentando-o do pagamento de encargos e servidões concelhias, de ser
tutor e curador, de servir por mar e terra, salvo com o monarca.
·
A 26.8.1467 D.
Afonso V privilegia Isaque Ferreira, alfaiate, morador em Lisboa,
concedendo-lhe carta de contrato.
·
A
31.3.1469 D. Afonso V perdoa a justiça régia e concede carta de
segurança a João Rodrigues, morador na vila de Torres Vedras, pela fuga
da prisão, preso por um arroído que tivera com o sobrinho de João
Ferreira, alcaide pequeno nesta vila, contanto que se livre de direito
do que fora preso.
Na verdade,
há em Portugal muitos lugares com o nome Ferreira, que poderiam ser a
origem diversa de muitos destes locativos. Por outro lado, a profissão
de ferreiro poderia dar origem a uma alcunha, passando depois ao nome
familiar Ferreira, obedecendo a uma regra na onomástica portuguesa
segundo a qual os nomes pouco usuais tendem a passar para o nome usual
mais próximo. Deve ser este o caso, por exemplo, de Solimão Ferreira/o e
Gonçalo Ferreira/o, documentados respectivamente em 1106 e 1110 («Documentos
Medievais Portugueses - Documentos Particulares», vol. III), o que
atira para o século XI o uso em Portugal do nome Ferreira com origem na
profissão.
De resto, as
duas linhagens nobres que usaram o nome Ferreira surgem justamente de
duas terras distintas com o mesmo nome: Ferreira de Aves, na Beira Alta,
e Ferreira, hoje no concelho de Paços de Ferreira, distrito do Porto.
A primeira,
que já tratei brevemente no meu trabalho
«Ribadouro
e Pacheco (séc. X a XIII)»,
é a varonia dos Pacheco, o nome que obtiveram por via feminina mas o que
perdurou, se bem que algumas linhas de nobres com o nome Ferreira que se
documentam no séc. XV possam aí entroncar. Estes Ferreira, senhores de
Ferreira de Aves, tinham por armas aquelas que depois foram atribuídas
ao Pacheco, como explico no referido trabalho.
Os Ferreira
que são objecto do presente ensaio são os outros, os de Aguiar de Sousa,
julgado que deu depois os concelhos de Paredes, Paços de Ferreira e Paço
de Sousa, no termo do Porto, e que trazem por armas um escudo de
vermelho com quatro faixas de ouro, heráldica que, a partir da reforma
manuelina, passou a ser atribuída, sem qualquer critério genealógico, a
todos os indivíduos de nome Ferreira que obtiveram carta de armas, quer
entroncassem ou não nos de Aguiar de Sousa. Mesmo até quando o próprio
armoriado diz que os seus Ferreira descendem dos senhores de Ferreira de
Aves…
É ainda
interessante verificar que os Ferreira não nobres que se documentam nos
séculos XIV e XV aparecem indiferentemente só como «Ferreira» ou
como «de Ferreira». Por outro lado, os senhores de Ferreira de
Aves, antes de adoptarem o nome Pacheco, usaram sempre «de Ferreira».
Enquanto a linhagem dos Ferreira de Aguiar de Sousa usaram quase sempre
o nome sem a partícula.
Genealogias
tardias entroncam a linhagem dos Ferreira de Aguiar de Sousa nos Ferrera/Herrera
castelhanos, o que não tem o mínimo fundamento, como veremos. Mas estes
Ferrera/Herrera podem, no entanto, estar na origem de alguns outros
Ferreira portugueses, através de indivíduos daquela família que tenham
vindo para Portugal.
A tardia
ligação que fizeram dos Ferreira de Aguiar de Sousa aos Ferrera/Herrera
castelhanos é pura fantasia, não só porque as armas de ambas as
linhagens são totalmente diferentes, mas também porque (Paços de)
Ferreira, donde a família portuguesa tirou o nome, já existia pelo menos
desde os princípios do séc. XII e neste século nasceu o primeiro
Ferreira desta linhagem que se documenta.
Aliás, já se
documenta em 1059, no «Livro de Mumadona», a vila de Paços, com a
sua igreja de Stª Eulália (ainda hoje o orago de Paços de Ferreira), o
que condiz com as Inquirições de D.Dinis (1308), que se referem à
freguesia de Stª Eulália de Paços no julgado de Aguiar de Souza, muito
embora estas mesmas inquirições digam que aí não havia honra.
A Terra de
Ferreira foi uma das circunscrições administrativas medievais. Ainda
existia em 1220, mas em 1258 já estava integrada na Terra de Aguiar de
Sousa. A Terra de Ferreira localizava-se na bacia superior do rio Sousa
e incluía a maior parte do actual concelho de Paços de Ferreira (com
excepção das freguesias de Frazão, Penamaior e Seroa, que pertenciam à
Terra de Refojos de Riba de Ave) e grande parte do actual concelho de
Lousada, concretamente as freguesias de Casais, Castrelos, Covas,
Freamunde, Lustosa, Moreira, Ordem e Sousela. Mas em 1258 já se
distinguiam três Ferreiras contíguas, hoje todas incluídas no concelho
de Paços de Ferreira:
·
o couto e
mosteiro de S. Pedro de Ferreira, hoje Ferreira, que teve foral novo
manuelino a 15.9.1514
·
Stª Eulália
de Paços
·
a «quintã
velha de Ferreira», em S. João de Eiriz, hoje uma freguesia de Paços
de Ferreira, honra que já era velha em meados do séc. XIII
Com efeito,
nas Inquirições de 1258 o fidalgo Pedro Ferreira defendia por honra
Vilar, em Eiriz, com seis casais, onde viviam herdadores. Nestas mesmas
inquirições documenta-se a quintã de Ferreira, também em Eiriz, com seis
casais pertencentes ao mosteiro de Santo Tirso e a fidalgos, que aí
tinham a honra que tinha sido de D. Gonçalo de Souza, concluindo os
inquiridores que (grafia actual) «a honra da quintã velha de Ferreira
devem-na guardar como é conteúdo e julgado na inquirição que fez Rui
Pais e Gonçalo Moreira».
Verifica-se
assim que quer S. João de Eiriz quer Stª Cruz de Cacães (paróquia
distinta, depois integrada em Eiriz) eram largamente ocupadas pela honra
de Ferreira, já em 1258 muito desmembrada por partilhas e doações aos
mosteiros de Santo Tirso e S. Pedro de Ferreira. Sendo de referir que
estas duas paróquias (Eiriz e Cacães) parecem ter sido fundadas na
sequência do despovoamento da povoação castreja de Penamaior, no antigo
julgado de Refojos de Riba de Ave, entre Santo Tirso e a terra de
Ferreira.
Aquele D.
Gonçalo de Souza que fundara a honra e quintã de Ferreira, já velha em
1258, que o texto da inquirição deixa entender que teria morrido muito
antes desta data, não me parece, por isso, que possa ser o mordomo-mor
D. Gonçalo Mendes de Souza, que faleceu a 25.4.1243, escassos 15 anos
antes da inquirição. Pelo que tinha de ser seu avô homónimo, nascido nos
finais do século XI, que casou três vezes e ainda teve bastardos. E,
face às evidências, não se pode excluir a possibilidade de o «miles»
Pedro Ferreira, também documentado como Pedro Gonçalves Ferreira e Pedro
Gonçalves dito Ferreira, nascido no início do século XIII, ser dele
descendente.
De resto, a
descendência deste Pedro Ferreira manteve-se centrada em Eiriz, pois seu
neto Martim Ferreira é dito cavaleiro de Vila Verde em 1364, numa
contenda com o mosteiro de Cête, sendo certo que aí possuía uma quintã e
honra, como se documenta nas Inquirições de 1355, e que ele diz que já
herdara de seu pai. Ora, Vila Verde, hoje lugar da freguesia de Eiriz,
pertencia à «quintã velha» de Ferreira, dizendo-se nas
Inquirições de 1258 que era de fidalgos e pertencera ao conde D. Mendo
de Souza.
Sendo assim,
seria de suspeitar que Pedro Ferreira fosse descendente do próprio conde
D.Mendo Gonçalves de Souza. Mas como? Gaio, não sei com que bases, mas
pela data devem ser justamente as Inquirições desse ano, diz que em 1258
vivia em S. João de Eiriz um Lourenço Gonçalves Ferreira. Pela
onomástica e cronologia, este Lourenço só podia ser irmão de Pedro
Gonçalves Ferreira, o que indicia que o nome já terá sido pelo menos
usado pelo pai de ambos, que pelo patronímico dos filhos se chamou
necessariamente Gonçalo Ferreira e que, como veremos, devia ser
Gonçalo Pires Ferreira. Com efeito, um Pedro Ferreira e sua mulher Maria
Vasques em Setembro de 1222 dão foral a Paço de Ferreira, não ao actual
Paços de Ferreira (Stª Eulália de Paços, que nas inquirições de 1308 não
tinha nenhuma honra) mas sim a um lugar de Paço na honra de Ferreira
(Eiriz ou Cacães). Pela cronologia, este Pedro não pode ser o referido
Pedro Gonçalves Ferreira, ainda vivo em 1290, com uma sua eventual 1ª
mulher. Podia ser um tio seu, portanto irmão do referido virtual Gonçalo
Ferreira, mas julgo que seria o avô paterno. Tendo cerca de 11 anos de
idade em 1222, Pedro Gonçalves Ferreira podia perfeitamente ter os avós
vivos nesse ano, nascido o avô entre 1150 e 1160, pelo que teria 62 a 72
anos de idade em 1222. Esta hipótese, além da onomástica (o mesmo nome
do avô e neto), tem por si a ideia de que o casal que deu foral a Paço
de Ferreira faz mais figura de patriarcas do que de jovens.
Aceitando
esta dedução, podemos apontar o início do chamadouro Ferreira nesta
linhagem para a segunda metade do século XII. O que torna, pela
proximidade, algo difícil o entroncamento no conde D. Mendo, falecido
depois de 1192, de quem não há notícia de nenhum filho ou neto Pedro. Na
verdade, só vejo uma hipótese de ligação ao conde D. Mendo, que é a de
Maria Vasques, mulher do Pedro Ferreira mais antigo, ser uma
desconhecida filha natural de Vasco Mendes de Souza e, portanto, neta do
dito conde. Este Vasco Mendes, que foi governador (tenents) de
Bragança e Panóias e faleceu solteiro a 10.3.1242, teve pelo menos um
filho natural, Rui Vasques de Panóias, como refere o conde D. Pedro.
Poderia aquela Maria Vasques, nascida entre 1170 e 1176, ser irmã
inteira ou meia-irmã deste Rui Vasques? Tendo em conta a inegável
sequência patrimonial entre os Souza e estes Ferreira, demasiada para
ter resultado de uma ocasional compra ou escambo, o estatuto fidalgo
deste Ferreira e o facto de terem usado o chamadouro da honra que fora
de D. Gonçalo Mendes de Souza, conjugado com a impossibilidade de outras
alternativas de ligação, a maior probabilidade de esta ligação não ser
por varonia e a viabilidade cronológica, estou em crer que esta minha
proposta é perfeitamente aceitável.
O que
explicaria, nomeadamente, porque Martim Ferreira tinha em 1355 a honra
de Vila Verde que pertencera ao conde D. Mendo Gonçalves. Porque, na
verdade, o primeiro Pedro Ferreira, cujo nascimento apontámos para
meados do século XII, podia talvez ser o Pedro Gonçalves que Almeida
Fernandes (Homenagem de Lalim ao Conde Dom Pedro, 1990) diz ter
sido filho do primeiro Gonçalo Mendes de Souza e de quem não se conhece
descendência. Este Pedro Gonçalves, cujo nome e patronímico lembra
imediatamente o de Pedro Gonçalves Ferreira, seria portanto meio-irmão
do conde D. Mendo. O velho conde D. Gonçalo Mendes de Souza, nascido nos
finais do séc. XI, ainda podia ter um filho natural nascido em meados do
século XII. Mas esta hipótese tem algum problema cronológico e não
explicaria tão bem a posse nos Ferreira de um honra que fora de D.
Mendo.
Assim, com as
cautelas necessárias, é possível propor que o Pedro Gonçalves Ferreira
do século XIII fosse filho de um Gonçalo Pires Ferreira e neto paterno de Pedro
Ferreira, o virtual 1º do nome nesta linhagem, e de sua mulher Maria
Vasques (de Souza), co-herdeira da honra de Ferreira, irmã inteira ou
meia-irmã de Rui Vasques de Panóias.
Segue um
esquema genealógico da família, com aquilo que consegui apurar e o que
me parece certo ou possível, tudo devidamente assinalado. De salientar
que estes Ferreira podem ser apresentados como o paradigma de uma velha
linhagem de Entre-Douro-e-Minho que, pelo menos na sua linha principal e
até finais do século XV, se manteve centrada e moradora na sua região de
origem, concretamente os actuais concelhos de Paços de Ferreira,
Paredes, Penafiel, Lousada, Santo Tirso, Póvoa de Varzim, Vila do Conde
e Maia, o que, por outro lado, porventura terá obstado a um maior
engrandecimento.
Esquema genealógico
1.
Pedro Gonçalves
Ferreira, «miles»
(cavaleiro fidalgo), certamente descendente dos Souza, como ficou dito. Nasceu cerca de 1211
e faleceu depois de 15.5.1290, sendo ainda referido nas inquirições de
1288. Documentado nas Inquirições de 1258 como Pedro Ferreira, «miles»,
onde se diz que defendia por honra o lugar de Vilar, em Eiriz, com seis
casais, onde viviam herdadores. Devia também ser senhor da quintã de
Vila Verde, igualmente em Eiriz, que seu neto possuía e que nas mesmas
inquirições se diz que era de fidalgos e pertencera ao conde D. Mendo de
Souza. Todos estes lugares (Paço, Vilar e Vila Verde) pertenciam à
grande honra e quintã de Ferreira, que no séc. XII fora de D. Gonçalo
Mendes de Souza. Documenta-se também como Pedro Gonçalves Ferreira,
morador em Aguiar de Sousa, quando a 15.5.1290, com autorização de sua
mulher e seus filhos legítimos e genro, obteve a legitimação real para
seu filho Martim Pires «Miracim»
[1].
Ficamos assim a saber que ainda vivia em 1290 e que sua mulher, também
ainda viva, se chamava Sancha, e que tinha então vivos os filhos
legítimos Estêvão, Joana (casada com João Pires), Sancha e Tereza. É
ainda o Pedro Gonçalves de Ferreira que em Agosto de 1241 testemunha em
Guimarães uma doação feita à Sé do Porto por Estêvão Vasques
[2].
Oliveira e Barros, citado por Gaio, diz que um Pedro Ferreira fora
fidalgo ilustre no tempo do D. Afonso III e que morava na quintã de Vila
Verde junto ao Rio de Ferreira, na freguesia de S. João de Eiriz, nos
limites do julgado de Refojos de Riba de Ave, e possuíra parte da quintã
de Rebollo, tudo honrado como consta das Inquirições que mandou fazer o
dito rei no ano de 1258, e que alcançou também parte do reinado de D.
Dinis, possuindo a honra da quintã de Gondezende, na freguesia de Medelo,
no concelho da Maia, e tendo comprado umas casas em Penamaior, no dito
julgado de Refojos, como consta das Inquirições que este rei
mandou fazer por Aparício Gonçalves. Com efeito, Pedro Ferreira é
referido nas Inquirições de 1290, onde se diz que no tempo de D. Afonso
III (falecido em 1279) fez uma casa em herdamento que ganhou de
herdadores em Gondesende (freguesia de S. João de Mindelo, julgado da
Maia), onde fez honra que honrava toda a vila e, quando teve Mindelo em
préstimo de D. Mem (provavelmente D.Mem Garcia de Souza, nesta hipótese
primo-direito de seu pai) fez aí uma grande arroteia no reguengo régio e
agora (1290), que perdeu este préstimo, tem a arroteia como sua,
mandando o rei que só a casa e o herdamento inicial permanecessem
honrados
[3].
E as mesmas inquirições referem que Pedro Ferreira, também no tempo de D.
Afonso III, comprou, com Martim Frazão (a freguesia de Frazão fica
justamente em Refojos), uns herdamentos devassos na freguesia de S.
Salvador de Penamaior, no julgado de Refojos de Riba de Ave, e aí fez
honra, que as inquirições reconhecem e deixam assim ficar. Deve ainda
ser o Pedro Ferreira, cavaleiro, que nas Inquirições de 1308 se diz que
tivera dois casais em Vilarinho de Jusão, no julgado de Aguiar de Sousa,
que eram agora (1308) de um mercador do Porto
[4].
Pedro Ferreira casou com uma Sancha,
como se documenta, nascida cerca de 1215, de quem julgo vir o casal em Sanguinhedo e o
casal em Quintão, ambos em Lustosa, que aparecem na posse de seus
filhos. Ora, em Sanguinhedo documenta-se
nas Inquirições de 1258 que aí possuíam um casal Paio (Paes) Bugalho e
seus irmãos, e quatro casais e meio os filhos de Gomes Colmeeiro, sendo
os únicos fidalgos que aí tinham bens, a par com os mosteiros de S.
Pedro de Ferreira, de Vilarinho, da Costa e a matriz de Lustosa, todos
por doação de fidalgos. Esta Sancha parece assim ou uma irmã de Paio
Paes Bugalho ou uma filha de Gomes Colmeeiro.
1.1.
Estêvão Pires
Ferreira, que segue
no nº 2.
1.2.
Joana Pires,
documentada em 1290 como filha de Pedro Gonçalves Ferreira, estando
casada com João Pires, que também dá o seu acordo, como ficou
referido. Montarroio dá um João Pires como filho de Pedro
Ferreira e diz que teve um casal em Sanguinhedo que deixou ao sobrinho
Martim Ferreira. E, de facto, este Martim documenta-se com um casal em
Sanguinhedo. Sanguinhedo é hoje um lugar da freguesia de Lustosa, no
concelho de Lousada. Como ficou dito, este casal em Sanguinhedo, bem
como o casal de Quintães que sua irmã tinha também em Lustosa, deveria
vir da mulher de Pedro Ferreira. O problema é que não aparece nenhum
João Pires entre os filhos de Pedro Gonçalves Ferreira que dão o seu
acordo à legitimação do meio-irmão. Mas aparece um João Pires como seu
genro, tal como ficou dito casado com esta Joana Pires. Por outro lado,
documenta-se um João Pires, escudeiro, filho de Pedro Ferreira, quando
1.12.1293 confirmou um escambo que Pedro Martins, cavaleiro de Lijó, e
sua mulher fizeram com o mosteiro de Pedroso
[5].
Estou em crer que não era filho mas genro, sendo a expressão filho
utilizada, como muitas vezes acontece, com esse sentido. Dado que herdou
o sobrinho Martim, este casal deve ter falecido sem geração.
1.3.
Sancha Pires
Ferreira, que
Montarroio diz que casou (portanto depois de 1290), sem geração, com
Domingos Esteves, a quem deixou o casal de Quintães, nos limites de
Sanguinhedo, e que por sua morte se vendeu parte para sufrágios pela sua
alma e o resto Martim Ferreira doou ao mosteiro de S. Pedro de Ferreira.
Este casal de Quintães deve assim corresponder hoje ao lugar de Quintão
na freguesia de Lustosa.
1.4.
Tereza Pires,
documentada em 1290 como filha de Pedro Gonçalves Pereira, sem indicação
de marido, pelo que se entende solteira ou viúva nessa data.
1.5.
(L)
Martim Pires “Miranci”, morador em Aguiar de Sousa, legitimado por
carta real de 15.5.1290, a pedido de seu pai e com o acordo da mulher
deste e de seus filhos legítimos, como ficou dito. As genealogias, que
não referem a sua ilegitimidade, apontam-no sem mais notícia, mas julgo
que seria o pai dos seguintes primos documentados de Martim Ferreira:
1.5.1.
?João Ferreira,
que no testamento de Martim Ferreira, referido adiante, é dito seu primo
e, na falta do irmão e sobrinhos do instituidor, nomeado na sucessão da
capela de Cête. Não parece ter casado nem tido geração, porque a seguir
a ele é nomeado seu irmão Gonçalo e os filhos dele.
1.5.2.
?Gonçalo
Ferreira, que no testamento de Martim Ferreira, referido
adiante, é dito seu primo e nomeado na sucessão da capela de Cête, após
seu irmão João e antes de seus filhos, que seguem. Não sei com quem
casou.
1.5.2.1.
Gil Gonçalves
Ferreira, nascido
cerca de 1312, nomeado para a sucessão da capela de Cête no testamento
de Martim Ferreira. Um Gil Ferreira documenta-se com proprietário de uma
vinha em Guimarães na delimitação de um prazo feito por D. Afonso IV a
10.7.1331 a Martim Nogueira, tendeiro.
1.5.2.1.1.
?Vasco Gil
Ferreira, possível filho de Gil Gonçalves. A 23.6.1384 D. João I deu
a Vasco Gil de Ferreira as terras de Santo Tirso e Meinedo (Penafiel) e
seu termo, com todos os seus direitos, rendas e frutos. Documenta-se
casado (na legitimação da filha), mas desconheço o nome da mulher.
1.5.2.1.1.1.
?Diogo Gil
Ferreira, possível filho (legítimo) de Vasco Gil, uma vez que é
demasiado tardio para ser seu irmão. Em 1435 era vassalo de D. Duarte,
ouvidor da sua corte e logo tenente do corregedor. Foi depois juiz dos
feitos e dos órfãos da corte, corregedor de Lisboa e desembargador da
Casa do Cível de Lisboa. A 2.4.1441 D. Afonso V nomeia Pedro Lobato para
o cargo de juiz dos feitos régios na corte em Lisboa, em substituição de
Diogo Gil Ferreira, que fora nomeado corregedor em Lisboa. A 21.3.1444
o mesmo rei nomeia Diogo Gil Ferreira, juiz que foi dos órfãos da corte,
para o cargo de desembargador da Casa do Cível da cidade de Lisboa.
1.5.2.1.1.1.1.
?Génova
Ferreira, nascida cerca de 1430, que recebeu uma doação de Isabel
Vasques Ferreira, aqui dada como sua possível tia, mas não se dizendo na
confirmação real dessa doação que parentesco tinham. Foi a 2ª mulher,
julgo que sem geração, de Aires Pinto, nascido cerca de
1403, cavaleiro do 1º duque de Bragança e senhor do morgadio do Crasto,
em Real (Castelo de Paiva), onde também viveu, tendo em 1455 recebido do
povo o padroado da matriz local. Parece ser o que a 15.8.1454 teve carta
de privilégio de fidalgo para o Entre-Douro-e-Minho e para a Beira,
sendo então dito morador na cidade do Porto. E o que, com Gomes Pinto,
provavelmente seu irmão, teve forte querela com terceiros, de que
resultaram três cartas de perdão para três indivíduos moradores no termo
de Felgueiras entre 1441 e 1451. A 27.10.1472 D.Afonso V confirma a
doação a Aires Pinto, cavaleiro do duque de Guimarães, e a Génova
Ferreira, sua mulher, de uma quinta em Vila Cova, situada na freguesia
de S. Pedro Fins no julgado de Aguiar de Sousa, no termo da cidade do
Porto, outra quinta situada em S. João da Portela, no dito julgado, e um
casal na Torre, na dita freguesia, que pertenciam a Isabel Vasques
Ferreira, mulher viúva, que os doou por não ter herdeiros, por
instrumento público de doação de 24.8.1472.
1.5.2.1.1.1.2.
?Isabel
Ferreira, moça da câmara da rainha D. Isabel, que casou com Rui
Mendes, cavaleiro e escrivão da fazenda do infante D. Fernando, que
a 29.7.1462 teve de D. Afonso V mercê de 60.000 reais de prata por conta
do seu dote de casamento.
1.5.2.1.1.2.
?Isabel Vasques
Ferreira, nascida cerca de 1400, viúva sem geração em 1472, que
podia ser filha de Vasco Gil Ferreira. Por ser viúva e não ter
herdeiros, doou por instrumento público de 24.8.1472, confirmado a
27.10.1472 por D.Afonso V, a Aires Pinto, cavaleiro do duque de
Guimarães, e a Génova Ferreira, sua mulher, uma quinta em Vila Cova,
situada na freguesia de S. Pedro Fins, no julgado de Aguiar de Sousa, no
termo da cidade do Porto, outra quinta situada em S. João da Portela, no
dito julgado, e um casal na Torre, na dita freguesia, como ficou dito
acima.
1.5.2.1.1.3.
(L)
Leonor Martins Ferreira, legitimada por carta real de 13.7.1441,
como filha de Vasco Gil Ferreira, homem casado, e de Maria Anes, mulher
solteira. Não se entende aqui o uso excêntrico do patronímico Martins.
1.5.2.2.
Nuno Gonçalves
Ferreira, nomeado em
último para a sucessão da capela de Cête no
testamento de Martim
Ferreira. Terá nascido cerca 1313 e julgo que é este o célebre
alcaide-mor de Faria Nuno Gonçalves, que depois adoptou o nome Faria. Com efeito,
quando a 26.6.1357 teve de D.Pedro I o castelo de Faria vem como Nuno
Gonçalves de Ferreira. Mas quando a 14.12.1363 recebeu do mesmo rei o
préstimo de Faria, pela «contia de seus maravedis», já vem
referido como Nuno Gonçalves de Faria. A sua história é narrado por Fernão Lopes e
foi imortalizado por Alexandre Herculano (Lendas e Narrativas). Terá
sido, portanto, o 1º desta linhagem (que depois usaria o escudo de armas
que se conhece e invoca o fundador) a usar o nome Faria. Se bem que este
nome já antes existisse, o que significa a probabilidade de coexistirem
pessoas do mesmo nome mas de famílias diferentes. Com efeito, um
Garcia Martins de Faria já tinha falecido a 22.11.1362, quando se
documenta o seu testamenteiro Pedro Fernandes, de Portalegre (Mosteiro
de Stª Cruz de Coimbra, 2ª incorporação, caixa 56, m. 51, doc. com cota
antiga Alm. 33, nº 12, m.4). O casamento e descendência de Nuno
Gonçalves são desenvolvidos adiante,
em caixa intitulada Ensaio sobre a origem dos Faria.
2.
Estêvão Pires Ferreira,
que em 1290 se documenta como filho legítimo de Pedro Gonçalves
Ferreira, como ficou dito. Nasceu cerca de 1240 e sobre ele as
genealogias não dizem nada além do nome. Há contudo a possibilidade de identificar este
Estêvão Pires Ferreira com o Estêvão Pires documentado com bens em S.
Martinho de Recezinhos (Penafiel) nas inquirições da 2ª metade do século
XIII, com uma alcunha que é hoje uma das maiores obscenidades. Isto,
porque esse Estêvão Pires se documenta com sua irmã Sancha Pires (e
Estêvão Pires Ferreira tinha uma irmã Sancha Pires) e porque um filho de
Estêvão Pires Ferreira fez em 1344 doação de um casal em S. Martinho de
Recezinhos ao mosteiro de Tarouquela. Estêvão Pires Ferreira casou com Margarida Esteves,
por cuja
alma seu neto Estêvão Ferreira, no seu testamento de 1393, manda rezar
missas, chamando-lhe apenas Margarida Esteves, sua avó, a única dos avós
contemplada. Montarroio diz que era
Margarida Esteves Borges, irmã de Martim Esteves,
João Esteves e Mendo Esteves Borges, todos filhos de Estêvão Anes Borges
e netos de João Rodrigues Borges.[8]
E, de facto,
Martim Ferreira (filho desta Maria Esteves) declara que tinha a quintã
da Porta, que lhe deixara Martim Esteves Borges. Julgo, contudo, que se
trata da Margarida Esteves que se documenta irmã de Pedro Esteves «do
Casal» e ambos filhos de Estêvão Pires «do
Casal», senhor do Casal de Cavaleiros e de bens de S. Tomé de
Negrelos. Com efeito, Martim Ferreira, filho desta Margarida Esteves,
vinculou casais em S. Tomé de Negrelos, apesar de dizer que os comprara,
e teve pelo menos parte da honra do Casal de Cavaleiros, na freguesia de
Outeiro Maior (hoje Vila do Conde mas então Póvoa de Varzim). E o neto
desta Margarida Esteves documenta-se como Estêvão Ferreira, escudeiro do
Casal de Cavaleiros, e institui uma capela no mosteiro de S. Simão da
Junqueira (Santo Tirso). Ora, aquele Estêvão Pires «do
Casal» documenta-se nas Inquirições de 1258 com muitos bens em
S. Tomé de Negrelos (Santo Tirso), tendo aí quatros casais nos lugares
de Fonte, Vila Nova, Paço e Covas, sendo que os descendentes de Estêvão
Ferreira tinham pelo menos as quintas do Paço e de Covas, justamente em
S. Tomé de Negrelos. Acresce que aquele Pedro Esteves «do
Casal», que ainda vivia em 1331, foi sepultado em S. Simão da
Junqueira. E que Teresa Fernandes, sua viúva, em 1339, no Casal de
Cavaleiros, fez certa declaração sobre o testamento do marido. Por outro
lado, sabemos que Estêvão Ferreira era sobrinho Rui Gomes e Constança
Gomes, por cujas almas deixa missas no seu testamento, referindo-os como
seus tios. Trata-se, pois, de Rui Gomes,
escudeiro do Casal, que fez testamento no Casal de Cavaleiros a
15.5.1341, deixando um legado ao mosteiro de S. Simão da Junqueira e
indicando como herdeiros Constança Gomes, sua irmã, e Estêvão Ferreira,
seu sobrinho. Assim,
aquela Margarida Esteves «do Casal» era mãe deste Rui Gomes, que
nasceu cerca de 1277. Mas, como Rui Gomes não era nem podia ser filho de
Estêvão Pires Ferreira, isso significa que Margarida Esteves «do
Casal» casou duas vezes, a 1ª vez com um Gomes (Borges?), de quem
teve pelo menos Rui Gomes e Constança Gomes, e a 2ª vez com o Estêvão
Pires Ferreira em epígrafe. Margarida Esteves era assim filha de Estêvão
Pires «do
Casal», senhor do Casal de Cavaleiros e de bens de S. Tomé de
Negrelos, e neta paterna de Pedro Afonso «do Casal», falecido
antes de 1288, igualmente senhor do Casal de Cavaleiros, que teria
casado com uma Cunha, família dominante local, pois Estêvão Pires
«do Casal» refere que os ditos casais já
lhe vinham de seu pai. De resto, segundo a
tradição, a própria honra da quintã do Casal de Cavaleiros vinha dos
Cunha e teria sido fundada por D.Fafila Guterres. O que significava que
a mulher de Pedro Afonso «do Casal» talvez fosse mesmo filha de
uma prima ou sobrinha
[6]
de Lourenço Fernandes da Cunha, ou até de Maria Lourenço da Cunha
[7],
irmã inteira de Vicente Lourenço da Cunha, falecido a 6.2.1223, ambos
filhos naturais do dito Lourenço Fernandes da Cunha, documentado entre
1171 e 1225, cujos filhos legítimos do seu casamento tardio eram em 1258
os grandes proprietários em S. Tomé de Negrelos.
2.1.
Sancha Esteves,
que nasceu cerca de 1292 e terá falecido antes 1347, pois seu irmão
Martim deixa no seu testamento, desse ano, missas por sua alma, se bem
que também as deixe para si e para sua mulher, ainda viva.
2.2.
Martim Ferreira,
que nasceu cerca de 1293 e faleceu depois 1364. Documentado nas
Inquirições de 1355 como senhor das honras de Vila Verde, em Eiriz, e do
Casal de Cavaleiros, na freguesia de Outeiro Maior, hoje no concelho de
Vila do Conde e antes do séc. XIX no concelho de Póvoa de Varzim. Em
1332 (parece que há uma segunda instituição ou acrescentamento em 1356)
instituiu uma capela no mosteiro de Cête, a que vinculou a quintã de
Vila Verde e um casal em Sanguinhedo que foram de seu pai e todas as
mais fazendas que tinha no dito lugar, e a metade das que comprara em
Negrelos. Em 1344 instituiu o morgadio da sua quintã do Casal de
Cavaleiros. Documenta-se como cavaleiro de Vila Verde quando, com sua
mulher Ouroana Martins, tiveram em 1364 uma questão com o mosteiro de
Cête. Martim Ferreira fez segundo testamento em 1347 (Cartório de Cête),
onde deixou ao mosteiro umas casas por sua alma, de sua mulher e de sua
irmã (dele) Sancha Esteves, e por troca com o direito que o dito
mosteiro tinha na sua quintã da Porta, que lhe deixara Martim Esteves
Borges, e foi esse direito a razão da questão com o mosteiro. No seu
segundo testamento, Martim Ferreira deixou a quintã de Vila Verde e o
casal de Sanguinhedo, que tinham sido de seu pai, e a metade dos casais
de S. Tomé de Negrelos, que comprara, tudo obrigado à sua capela em
Cête, a sua mulher Ouroana Martins, em sua vida, e por sua morte passava
tudo a Estêvão Ferreira, nomeando ambos testamenteiros. Num testamento
anterior, parece que feito a 1.11.1332, Martim Ferreira, seria ainda
solteiro, nomeia na administração da capela de Cête em 1º lugar seu
irmão Pedro Ferreira, dizendo que na falta de seu irmão e seus sobrinhos
sucedesse seu primo João Ferreira e a este Gonçalo Ferreira seu irmão, e
depois sucederia Gil Gonçalves e depois Nuno Gonçalves, e por morte
destes o parente mais chegado da linhagem dele instituidor, com
obrigação de missa quotidiana na igreja de S. João de Eiriz enquanto
nela seu corpo estivesse depositado, e depois no mosteiro de Cête onde
mandou edificar uma capela, a que vinculou a quintã de Vila Verde e um
casal em Sanguinhedo que foram de seu pai e todas as mais fazendas que
tinha no dito lugar, e a metade das que comprara em Negrelos, ficando
por seus testamenteiros seus sobrinhos Estêvão Ferreira e Pedro
Ferreira. Segundo a «Corografia Portuguesa» (Tomo 1º, f. 94),
este Martim Ferreira teve a alcunha de «Narizes», por ter
recebido uma cutilada no nariz num confronto com um exército castelhano
alojado em Veiga de Favas, junto a Guimarães, a quem deu batalha, que
fez recolher o inimigo apressadamente para Chaves. Casou, portanto, com
Ouroana Martins, sem geração ou com filhos que morreram pequenos.
2.3.
Pedro Ferreira,
que segue no nº 3.
2.4.
?Vasco Esteves
de Ferreira,
alcaide-mor de Marialva (12.7.1357) e vassalo de D. Pedro I.
2.5.
(L)
Gonçalo Esteves, cavaleiro, legitimado por carta real de 8.7.1318,
como filho de Estêvão Pires de Ferreira e de Maria Alva
[9].
3.
Pedro Ferreira,
cavaleiro, que nasceu cerca de 1294 e faleceu depois de 1344 e antes de
1347. No primeiro testamento de seu irmão Martim, parece que de
1.11.1332, é nomeado em primeiro lugar para suceder na capela de Cête,
com seus filhos Estêvão e Pedro. Tendo em conta o que já se disse de seu
pai e o que adiante se diz de sua mulher, terá vivido ou em S. Tomé de
Negrelos (Santo Tirso), cujos bens terá herdado, ou na honra de Fajozes
(Vila do Conde), que teve por sua mulher, já que os restantes bens
conhecidos ficaram para seu irmão mais velho. Mas também teve bens em S.
Martinho de Recezinhos, pois com sua mulher D. Inez fez em 16.1.1344
doação ao mosteiro de Tarouquela de um casal que aí tinha, sendo
testemunha o filho Gonçalo Pires, como se diz adiante, e Martim Anes de
Real, passando na mesma data, com sua mulher D. Inez Rodrigues, sendo
referido como cavaleiro, procuração para que fosse entregue ao dito
mosteiro a quintã e outros bens que ele tinha em S. Martinho de
Recezinhos. Pedro Ferreira casou com D. Inez Rodrigues (de Fajozes),
nascida cerca de 1298 e falecida depois ou cerca de 5.7.1355, sendo
sepultada em capela instituída nessa data por seu filho Estêvão, e
obviamente já falecida em 1393, quando no testamento do dito filho este
lhe manda rezar missas pela alma. Tendo em conta a onomástica, a
cronologia e o facto de o filho Estêvão ter a quintã e honra de Fajozes
(Vila do Conde), onde, como se disse, a 5.7.1355 institui morgadio com
capela no mosteiro de S. Simão da Junqueira, proponho que esta D. Inez
Rodrigues não possa deixar de ser filha do Rui Gonçalves de Fajozes que
tinha a dita honra nas Inquirições de 1258 e aí vivia com sua filha D.Elvira Rodrigues, que pode ser uma irmã ou troca de Inez por Elvira. E
este Rui Gonçalves era certamente filho de Gonçalo Pires de Fajozes,
senhor da dita honra. Nas Inquirições de 1288 explica-se que a freguesia
de Fajozes era toda honrada «de longo tempo» pela quintã e honra
paçã de Fajozes, que (grafia actual) «a honrou o rei Dom Sancho o
Velho a Pedro Gonçalves Talhacarne».
3.1.
Gonçalo Pires
Ferreira, que nasceu
cerca de 1309 e faleceu depois de 16.1.1344, quando testemunha a doação
de seus pais, e antes de 1347, pois não é referido no testamento de seu
tio Martim Ferreira e se entende que era o mais velho, pelo que
certamente faleceu solteiro sem geração.
3.2.
Estêvão
Ferreira, que segue
no nº 4.
3.3.
Pedro Ferreira,
nomeado, com seu irmão Estêvão, testamenteiro no primeiro testamento de
seu tio Martim Ferreira, mas já não referido no segundo, pelo que terá
falecido entre 1332 e 1347. Deve ser este o Pedro Ferreira que
casou com Senhorinha Anes de Cassende e foram pais de:
3.3.1.
Vasco Pires de
Ferreira, escudeiro e
vassalo do rei, que a 9.5.1361 renunciou aos direitos de natural do
mosteiro de S. Salvador de Moreira
[10].
4.
Estêvão Ferreira,
que nasceu cerca de 1310 e faleceu depois de 3.1.1393, data do seu
testamento na sua quintã do Casal de Cavaleiros. A 5.7.1355 instituiu o
morgadio de Fajozes (Vila do Conde), com sua capela de Stª Mª Madalena
no mosteiro de S. Simão da Junqueira, onde foi sepultado, tal como sua
mãe (Crónica de S. Cruz, Cap. 11, f. 322). Sucedeu a seu tio Martim
Ferreira nos morgadios de Cête e do Casal de Cavaleiros, documentando-se
como escudeiro do Casal de Cavaleiros, onde deve ter vivido e falecido
velho. Estêvão Ferreira, na instituição do morgadio de Fajozes, manda
que digam 12 missas mensais, uma pela sua alma, de sua mãe e de Rui
Gomes, seu tio, Constança Gomes, sua tia, e Margarida Esteves, sua avó,
Patrício Pais e Estêvão Anes, priores de S. Simão da Junqueira, Estêvão
Martins, Álvaro Gonçalves e seu irmão Nuno Gonçalves, Mor Martins e
Mécia Vasques, suas mulheres, e Rui Gonçalves, abade de Cedofeita.
Nomeia testamenteiros seus filhos Rui Ferreira e João Ferreira, e o
prior de S. Simão da Junqueira. Nomeia o dito Rui Ferreira nas fazendas
da Maia e Varzim, com obrigação de dar 100 libras anuais para as
obrigações do morgadio. Por falta de Rui Ferreira nomeia Martim
Ferreira, também seu filho e arcediago do Couto, e depois seu outro
filho Álvaro Ferreira, e em falta deste outro filho Gomes Ferreira. Por
morte de todos, fica ao parente mais chegado. Casou a 1ª vez com Mor
Martins Fariseu, filha herdeira de Martim Anes Fariseu, que levou em
dote o morgado que este tinha e fora instituído nas quintas de Espladem
(o paço que em 1307 Lourenço Anes Redondo tinha em Esposende?), Terroso
(Póvoa de Varzim) e Recezinhos (S. Martinho?) por D. Mor Lourenço de
Arões
[11],
por testamento de 1347, onde se diz que o dito Martim Anes Fariseu era
seu criado e o nomeia como administrador. D. Mor Lourenço casou a 1ª vez
com Lourenço Anes Redondo, meirinho-mor do reino, que a 14.6.1318
entregou a sua quintã de Terroso como penhor da sua palavra num acordo
de paz com Vasco Gonçalves Pereira, promovido pelo rei. Mor Lourenço
casou com Lourenço Anes Redondo antes de 1307, sem geração, e voltou a
casar antes de 16.8.1329 com Martim Lourenço da Cunha, de quem foi 1ª
mulher, também sem geração. Nas Inquirições de 1343 diz-se que havia 25
anos que Dona Mor sonegava bens e herdades em diferentes lugares da
freguesia de Terroso. Estêvão Ferreira casou a 2ª vez com Mécia
Vasques (b), como o próprio diz no seu testamento, sem
geração, pelo menos masculina.
4.1.
Rui Ferreira,
nomeado por seu pai como o 1º sucessor, nasceu cerca de 1333 e faleceu
depois de 3.1.1393, solteiro ou pelo menos sem geração legítima. Deve
ser este o Rui Ferreira que foi abade de S. Salvador de Minhotes e pai
de um outro Rui Ferreira, legitimado por carta de D. João I, como refere
Alão, sendo este, talvez, o Rui Ferreira, vassalo da Casa Real, morador
na terra de Cambra, que a 26.8.1445 teve do rei, a pedido de D. Fernando
de Menezes, do Conselho, privilégio de aposentação pela idade de 70
anos.
4.2.
João Ferreira,
nomeado por seu pai como o 2º sucessor, nasceu cerca de 1334 e faleceu
depois de 3.1.1393, solteiro ou pelo menos sem geração legítima, pois
sucedeu seu irmão Gomes.
4.2.1.
?(N)
Senhorinha Anes Ferreira, nascida cerca de 1355, que Gaio dá
anacronicamente como sobrinha ou sobrinha-neta do bispo de Coimbra D.
Álvaro Ferreira, referido adiante. Pela cronologia e patronímico,
contudo, parece que seria filha deste João Ferreira. Casou cerca de 1370
com Lourenço Anes Amado, que Alão diz ter sido irmão mais novo de
João Gonçalves Amado, alcaide-mor de Penedono, que entregou este castelo
à rainha D. Beatriz e morreu na batalha de Trancoso contra o mestre de
Avis, se bem que pelo patronímico Lourenço Anes mais parece ser
filho do que irmão de João Gonçalves, tanto mais que este era filho,
segundo Alão, de Gonçalo Mendes Amado. Gaio, aliás, dá simultaneamente o
mesmo Lourenço Anes como irmão e filho de João Gonçalves, explicando que
«um ttº de Amados que me veio de Coimbra» dá Lourenço Anes como
filho de João Gonçalves e sua mulher Elvira Martins de Alvellos,
sobrinha de D. Giraldo Domingues, bispo do Porto e de Évora, que
instituiu o morgado de Medelo (Lamego) a 28.4.1355.
4.2.1.1.
Pedro Lourenço
Ferreira, que nasceu
cerca de 1370 e faleceu depois de 12.11.1449 e antes 20.1.1450. Alão não
o refere e Gaio dá-o como filho do João Lourenço que leva por irmão, mas
que a cronologia obriga que fossem irmãos, se é que este João existiu,
conforme se diz adiante. Terá sido senhor de Povolide, tal como
se diz na carta a seu filho, mas não há documento desta doação. Como já
avisa Braamcamp, o senhorio de Povolide foi de Estêvão Dias de Avelar
(10.12.1385), que o vendeu a Gonçalo Vasques Coutinho, com confirmação
real de 13.2.1393. Pedro Lourenço foi alcaide de Castelo Bom (1394), de
Trancoso (1396), da Guarda (1397) e de Bragança, cargo que ocupava a
27.9.1404 quando D. João I o dispensou de pagar o foro (24 libras
anuais) da aldeia de Paradela, no termo de Mogadouro, que trazia aforada
ao rei, mercê que lhe foi depois confirmada a 7.10.1434 e 17.6.1441
(referindo-se aqui que a mercê se mantém sem embargo da doação feita da
terra de Mogadouro a Álvaro Pires de Távora). Foi alcaide-mor de
Penamacor antes de 1.8.1441, quando D. Afonso V nomeia D. Pedro de
Castro, do seu Conselho, para o cargo de alcaide-mor do castelo da vila
de Penamacor, com todas as rendas e direitos, em substituição de Pedro
Lourenço de Ferreira, cavaleiro da sua Casa. Foi depois alcaide-mor de
Pinhel (27.6.1441) e coudel de Pinhel e seu termo por carta do dia
seguinte, tendo antes mercê das rendas e direitos da vila de Pinhel
(28.3.1449). Teve o serviço real e novo dos judeus da cidade da Guarda
(16.1.1434 e confirmação de 23.6.1441) e carta de privilégio para seus
criados e apaniguados na correição da Beira (15.11.1433, confirmada a
22.6.1441). Com sua mulher Beatriz de Mello teve a 7.1.1434 (confirmada
a 19.6.1441) carta idêntica, isentando os seus amos e amas de pagar
qualquer encargo concelhio, bem como do direito de pousada. A 23.9.1444
o mesmo rei privilegia Beatriz de Mello, filha de Martinho Afonso de
Mello e mulher de Pedro Lourenço de Ferreira, concedendo-lhe licença
para retirar dos bens do seu marido, aquando da sua morte, as 2.000
coroas de ouro de dote de casamento a que tinha direito, ou das terras,
bens e rendas da coroa que o seu marido trazia, contanto que somente
fosse de 10.000 reais por cada 1.000 coroas, segundo instrumento público
de 24.5.1444. A 20.1.1450 D. Afonso V confirma a nomeação de Pedro
Lourenço de Ferreira, alcaide-mor de Pinhel, para o cargo de coudel de
Povolide, Castro Verde, Sá, Aldeia Nova, Martim Eanes, Alarde, Chãos,
Azurara, Castelo Mendo, Pinhel e Trancoso. Mas faleceu nos quatro anos
seguintes, pois a 10.12.1454 o rei doa a Rui de Souza, fidalgo da sua
Casa e vedor da Casa da rainha D. Isabel, a renda do serviço real novo
dos judeus de Pinhel e todos os outros direitos reais da dita vila e seu
termo, como tinha até aí Pedro Lourenço de Ferreira, alcaide-mor de
Pinhel. E logo a 13.12.1454 nomeia o mesmo Rui de Souza alcaide-mor de
Pinhel, em substituição de Pedro Lourenço Ferreira, que morrera. E a
3.1.1455 quita a Pedro Lourenço Ferreira o porto e menagem do castelo de
Pinhel. A 16 .5.1455 D. Afonso V perdoa a justiça régia a Gonçalo
Meirinho, e a outros dezoito homens, todos lavradores e moradores na
vila de Pinhel ou no seu termo, acusados de terem acompanhado a vários
lugares os filhos de Pedro Lourenço de Ferreira, alcaide-mor do castelo
da dita vila. Finalmente, a 27.8.1463 o rei confirma as doações feitas
por seus irmãos a João de Mello, fidalgo da sua Casa, de todos os bens
móveis e de raiz, dos quais eram herdeiros por morte de seu pai, (Pedro)
Lourenço Ferreira. Pedro Lourenço Ferreira casou, como se documenta, com
Beatriz de Mello, filha de Martim Afonso de Mello, 1º senhor de
juro e herdade de Barbacena (1.10.1398), 3º morgado da Torre de Évora
(30.8.1398), 1º senhor do couto de Val da Palma (9.5.1411), guarda-mor
de D. João II (1398), embaixador em Castela, alcaide-mor de Évora
(15.1.1390), Olivença, Campo Maior (1388), Castelo de Vide e Sever,
etc., nascido cerca 1348 e falecido antes de 1432. Como este Martim
Afonso de Mello já tem do seu 2º casamento com D. Briolanja de Souza uma
filha D.Beatriz de Mello, que foi condessa de Marialva pelo casamento, é
natural que a Beatriz de Mello que casou com Pedro Lourenço Ferreira
seja bastarda, como desconfia Gaio e que o facto de não se documentar
com Dona bem indicia. Pedro Lourenço Ferreira e sua mulher tiveram
vários filhos, que fizeram várias tropelias na Guarda e Pinhel, como se
indicia pela carta de perdão acima referida, tal como já seu pai tinha
trazido aterrorizados os moradores de Penamacor
[12].
O mais velho foi o João de Mello, acima referido, que na carta do
senhorio de Povolide passada a seu irmão se diz que teve esta terra mas
faleceu sem geração, sucedendo-lhe o irmão Nuno de Mello, que por causa
das tropelias que fez foi degredado para fora da Beira. Mas a 4.8.1468
D. Afonso V privilegia Nuno de Mello, fidalgo da sua Casa,
substituindo-lhe a pena de dois anos de degredo para fora da comarca da
Beira, pelo pagamento de 2.000 reais de prata, e concede-lhe licença
para que possa voltar às suas terras. A este Nuno de Mello já antes
(24.7.1464) o rei tinha dado os senhorios de Povolide e Castro Verde, e
a aldeia de Paradela, como tinha seu irmão, que morrera, e seu pai.
Deste Nuno parece também irmã a Isabel de Mello que casou com Diogo
Pereira
[13],
fidalgo da Casa do infante D. Fernando, a quem D. Afonso V confirma a
26.9.1450 os quartos, quintos, oitavos e direitos na vila de Tavira, e
seu termo, da alfândega régia, e do relego, assim como havia Fernão
Martins do Carvalhal, fidalgo da Casa do infante D. João, seu pai. Diogo
de Figueiredo e sua mulher tiveram vários filhos, entre eles um Álvaro
Ferreira, escudeiro do príncipe D. João, que a 27.4.1480 teve mercê real
do cargo de recebedor da sisa do pescado e madeira da cidade de Lisboa,
em substituição de seu pai Diogo de Figueiredo, que morrera.
4.2.1.2.
João Lourenço
Ferreira, que Alão
diz ter sido alcaide-mor de Penedono e ter casado com Margarida Anes,
filha de João Afonso, de Paços, o Velho de Pinhel. Ao contrário do que
acontece com o irmão, sobre ele não encontrei rasto documental. Mas é
possível que tenha vivido em Pinhel e dele descendam os Ferreira de
Pinhel e os de Viseu.
4.2.1.3.
Miguel Amado,
que Alão diz que foi morto em Trancoso por um touro.
4.2.1.4.
Rodrigo Amado,
padre lóio, segundo Gaio.
4.3.
Martim Ferreira,
que era arcediago do Couto a 3.1.1393, como diz seu pai.
4.4.
Álvaro Ferreira,
nomeado por seu pai como o 4º sucessor, nasceu cerca de 1333 e faleceu
depois de 3.1.1393, solteiro ou pelo menos sem geração legítima.
4.5.
Gomes Ferreira,
que segue no nº 5.
5.
Gomes Ferreira,
nascido cerca de 1336 e falecido depois de 3.1.1393, que por morte de
seus irmãos mais velhos, sem geração, acabou por suceder nos morgadios
do Casal de Cavaleiros, de Cête e de Fajozes, em que fora nomeado por
seu pai em último lugar. As genealogias dizem que casou com Maria da
Cunha, sobre a qual não dizem nada nem indicam a sua filiação. Pela
cronologia associada, este casamento ter-se-á realizado cerca de 1360.
Suspeito que esta Maria da Cunha fosse dos de Pombeiro da Beira e
provavelmente irmã da Leonor Anes da Cunha que foi sogra de seu filho
Martim, como se diz adiante.
5.1.
Martim Ferreira,
que segue no nº 6.
5.2.
Afonso Gomes
Ferreira, que as
genealogias dizem ter sido alcaide-mor de S. Romão, sem lhe indicar
mulher ou filhos. Contudo, pela cronologia e onomástica, podia ter sido
pai dos seguintes filhos, legítimos ou mais provavelmente naturais.
5.2.1.
?Diogo Afonso
(de) Ferreira, morador em Braga, que a 29.1.1446 teve de D. Afonso V
carta de privilegio isentando-o do pagamento de impostos ao concelho,
bem como do direito de pousada. Deve ser o Diogo Afonso de Ferreira que
foi tabelião do cível e crime do Porto, cargo de que foi destituído
porque não cumprira devidamente as suas funções, sendo a 10.2.1466
substituído por João Vasques, morador na cidade do Porto.
5.2.2.
?Rodrigo Afonso
(de) Ferreira, procurador geral do reino, que a 30.8.1469 foi
nomeado para o cargo de procurador do mosteiro de Santa Maria de
Guadalupe, na comarca de Entre-Tejo-e-Odiana, encarregue de
supervisionar os procuradores e mamposteiros deste mosteiro que pediam
as esmolas, contanto seja acompanhado por uma carta régia instituída
para o efeito, e isto, na sequência de alguns escândalos e
inconveniências que decorriam no reino, por parte de algumas pessoas que
se faziam passar por procuradores deste mosteiro, pedindo esmolas, sem
este recolher qualquer benefício.
5.3.
Aires Ferreira,
de quem Gaio diz que descendem os Ferreira da ilha da Madeira. Deve,
portanto, como a patronímico também indica, ter sido pai de:
5.3.1.
Gonçalo Aires
Ferreira, fidalgo da
Casa do infante D. Henrique e um dos companheiros de João Gonçalves
Zarco. Escreveu uma obra intitulada «Descobrimento da Ilha da Madeira»,
que não chegou a ser publicada, sendo nomeadamente referida na «História
Insulana», de António Cordeiro, e em «Saudades da
Terra», de Gaspar Frutuoso. Este diz que Gonçalo Aires Ferreira foi o primeiro homem a quem nasceram filhos na
Madeira, a quem deu os nomes de Adão e Eva (Gonçalves Ferreira).
5.4.
D. Gomes
Ferreira, cónego de
Santo Agostinho, falecido a 20.4.1448 no convento de Santa Cruz de
Coimbra. Estudou em Paris, indo depois para Roma, onde foi conselheiro
do Papa Eugénio IV, que lhe deu a abadia de Santa Maria de Florença,
ordem camaldulense de que depois foi geral. Em 1436 veio a Portugal como
legado do Papa, trazendo a D. Duarte a bula da cruzada com muitos
benefícios. D. Duarte fê-lo depois prior-mor do convento de Santa Cruz
de Coimbra, onde faleceu.
5.5.
Leonor Ferreira,
nascida cerca de 1380, que ainda estava viva a 15.12.1450 quando D.
Afonso V lhe faz mercê de uma tença anual de 3.000 reais de prata pelo
preço de 25 coroas de ouro, à razão de 120 reais por cada coroa, pelo
foro de um quinta. Casou com Rui Vaz Leitão, referido no meu
estudo
Leitão. Linha ascendente dos
senhores do paço da Torre de Figueiredo das Donas, que
foi legitimado por carta real de 28.9.1393, cavaleiro e «criado»
de D. João I. Terá nascido lá para 1375/80. É certamente o Rui Vaz
Leitão dito «criado» de D. João I quando a 6.1.1434 teve mercê
real de quatro moios de trigo anuais no almoxarifado de Santarém. Destes
foi filho Martim Ferreira Leitão, cavaleiro, nascido cerca de 1410, pois
ainda esteve em Tanger, com dez escudeiros e gente de pé, e em Alcácer
Ceguer, como refere a carta de armas de seu filho. Com geração que
seguiu o nome Leitão, como digo no referido estudo.
6.
Martim Ferreira,
que nasceu cerca 1361 e sucedeu nos morgadios do Casal de Cavaleiros, de
Cête e de Fajozes, e foi senhor de juro e herdade de Parada. Por duas
cartas de 20.8.1384, D. João I deu a Martim Ferreira, escudeiro, para si
e seus sucessores, o senhorio de juro e herdade da terra de Parada, no
julgado de Aguiar de Sousa, e todos os bens móveis e de raiz que tinha
em Guimarães Gonçalo Romeu, que entregou a dita vila e castelo ao rei de
Castela. Esta terra de Parada é certamente o lugar de Parada, que foi da
paróquia de Gosende e hoje é da freguesia de S. Pedro de Raimonda,
concelho de Paços de Ferreira, que em 1852 ainda pertencia ao concelho
de Aguiar de Sousa. Existe no Museu Nacional Soares dos Reis uma
inscrição aberta num lintel de granito da desaparecida casa medieval da
quintã do Casal de Cavaleiros, onde se lê era de 1432 mandou fazer
Martim Ferreira esta obra, tendo gravada uma cruz e um escudo com as
armas dos Ferreira, conforme o desenho abaixo
[14].
Esta
inscrição
tem sido atribuída ao Martim Ferreira referido adiante, que nasceu cerca
de 1442 e era neto deste, o que é um absurdo cronológico. Na verdade,
quer a era referida seja de César, portanto 1394, ou já de Cristo, só o
Martim Ferreira em epígrafe pode ser o seu autor. Apesar de a letra
parecer mais do século XV, dado que a datação, por não referir ano de
Cristo, deve ainda ser da era de César, Martim Ferreira teria cerca de
23 anos de idade quando a mandou gravar. Martim Ferreira documenta-se
como padroeiro da matriz de Terroso. Casou cerca de 1388 com Violante
da Cunha, possivelmente sua prima-direita, filha de Fernando Afonso
Correa e sua mulher Leonor Anes da Cunha, neta dos senhores de Pombeiro.
Violante da Cunha parece ser a filha referida mas não nomeada (se fosse
esta, seria recém-nascida) de Fernando Afonso Correa e sua mulher Leonor
Anes na lista dos padroeiros do mosteiro de Grijó de 1365, entre o
infanções, constando a dita Leonor, por quem vinha o padroado, como
filha de João (Rodrigues) da Cunha
[15].
6.1.
D. Álvaro
Ferreira, que nasceu
cerca de 1389 e pela cronologia parece ter sido o primogénito. Foi bispo
de Coimbra (1432), já eleito 1431. Esteve com seus irmãos na tomada de
Ceuta (1415), como se diz na Crónica de D. João I, ainda não estaria
ordenado. A 15.6.1445 D. Afonso V doa a Afonso Pereira, criado de D.
Álvaro Ferreira, bispo de Coimbra e procurador do mosteiro de Santa
Clara, as terras e estis compradas com o seu dinheiro e que tinham sido
pertença de Constança Martins e Marta Afonso, freiras professas desse
mosteiro. A 1.7.1445 D. Afonso V doa para sempre a João Gonçalves,
cavaleiro do infante D. Pedro, as casas que D. Álvaro Ferreira, bispo de
Coimbra, comprou na rua Escura da cidade do Porto, sem autorização
régia. As genealogias dizem que seus filhos foram havidos em sua prima
Luiza do Carvalhal, com quem especulam que teria casado antes de
se ordenar, mas este eventual matrimónio é fantasia, pois D. Álvaro é
claramente o mais velho e quem sucedeu foi seu irmão mais novo, pelo que
os filhos de D. Álvaro não podiam ser legítimos.
6.1.1.
?(N)
Diogo Álvares Ferreira, nascido cerca de 1411, que a 4.11.1432
testemunha o instrumento público, feito em Coimbra, em que D. Maria de
Azevedo doa a sua filha D. Catarina de Meira, em casamento com Gomes
Ferreira, o senhorio de Jales. Deve ser o Diogo Ferreira, prior de S.
Pedro de Castelãos, no bispado de Coimbra, que a 23.9.1452, com licença
do seu maior, tirou ordens de epístola em Braga
[16].
E o Diogo Ferreira, bacharel em degredos e ouvidor do bispo de Coimbra,
que a 2.7.1469 teve de D. Afonso V carta de privilégio, por servir o rei
com os seus homens e armas, para os seus amos, mordomos, apaniguados,
lavradores e caseiros, para a comarca e correição de Estremadura,
isentando-os do direito de pousada. Já antes, a 20.6.1469, D. Afonso V
privilegiou as freiras e convento do mosteiro de Semide, concedendo-lhes
licença para comprar, por qualquer título, umas casas de adega na cidade
de Coimbra, que pertenceram a Diogo Ferreira, bacharel, e a Beatriz
Anes, freira deste mosteiro.
6.1.1.3.
?Catarina
Ferreira, nascida cerca de 1435, que Alão não filia mas que Gaio dá
como filha de Martim Ferreira e irmã de Aires Ferreira e Leonor
Gonçalves Ferreira, o que é um absurdo cronológico. Dada a ligação ao
Porto, não sendo filha de Martim Ferreira,
devia ser sua sobrinha, portanto filha deste Diogo. Casou, como se documenta,
com Martim Vasques da Maia, a que Gaio chama Vasco Gonçalves da
Maia e diz filho de Fernando Álvares da Maia e sua mulher Guiomar de Sá,
e sobrinho paterno de Álvaro Gonçalves da Maia, todos largamente
referidos adiante. Este Martim Vasques diz Alão que era irmão de Álvaro
Gonçalves da Maia, o que não se pode aceitar, pois este Álvaro Gonçalves
nasceu cerca de 1390, como adiante se explica. Portanto, Martim Vasques
devia ser filho do Vasco Gonçalves que Gaio dá erradamente como marido
de Catarina Ferreira, e esse Vasco Gonçalves é que podia ser irmão de
Álvaro Gonçalves, solução que pelo menos respeita a cronologia e os
patronímicos. Segundo a Crónica de S. Domingos, de Frei Luiz de Sousa
(parte 2, cap. 17), esta Catarina Ferreira teve «amizade ilícita»
com Gil Vasques de Altero, comendador de Almada na Ordem de
Santiago e alcaide-mor desta vila, que instituiu uma capela no mosteiro
de S. Domingos de Benfica, onde tinha missa quotidiana na igreja velha.
Trata-se do Gil Vasques de Altero que a 21.11.1462 era do Conselho de D.
Afonso V quando este rei nomeia João Camelo, escudeiro de Gil Vasques de
Altero, do seu Conselho, para os cargos de escrivão da câmara de
Abrantes e dos feitos das sisas. A 29.8.1472, o mesmo rei perdoa a
justiça régia a Lopo Dias, escudeiro do conde de Penela, acusado de
bater e ferir Álvaro Gonçalves, escudeiro de Gil Vasques de Altero e
alcaide pequeno na vila de Almada e aí morador, na sequência do perdão
geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e conquista da
vila de Arzila e da cidade de Tânger, e mediante o perdão das partes. A
1.4.1475 o mesmo rei perdoa a justiça régia a Álvaro Gonçalves, criado
de Gil Vasques de Altero, morador na vila de Almada, acusado de ter
queimado nove ou dez colmeias de Catarina Pires, mediante o perdão das
partes, tendo pago 300 reais para a Piedade. E a 17.9.1476 D. Afonso V
privilegia o mosteiro de S. Domingos de Benfica, autorizando-o a
usufruir para seu mantimento de uma quinta e suas rendas que lhe fora
doada por Gil Vasques de Altero, comendador de Almada.
6.1.1.3.1.
?Beatriz
Vasques, que Gaio dá como filha do casal, mas que podia ser filha
natural de Gil Vasques de Altero. Segundo o mesmo autor, casou com
Lopo Machado (de Góis), senhor da quinta de S. Clemente de Sande,
que viveu em Guimarães e algum tempo em Barcelos, com geração.
6.1.1.3.2.
Fernão Ferreira
da Maia, abade do
mosteiro de S. Martinho de Sande, que tirou ordens menores em Braga em
1477, pelo que não nasceu antes de 1460 e provavelmente nasceu depois.
Teve, pelo menos, um filho natural, António Ferreira da Maia, que foi
comendador de Stª Mª de Alvarenga e sua anexa de Cernadelo na Ordem de
Cristo, que a 11.8.1568 arrendou por 71.000 reais a André Freire, como
informam os editores da «Pedatura Lusitana».
6.1.2.
(N)
Martim Ferreira, que Alão diz ter sido vedor do infante regente D.
Pedro. No tombo do morgadio de Jerusalém, instituído por seu filho a
27.10.1491, este determina que os sucessores no morgadio não podem «se
casarem nem misturarem com os meus parentes Ferreiras do Casal de
Cavaleiros, por assim mo deixar meu pai que Deus tem mui encarregado
pellos agravos que elles lhe fizeram em o fazerem andar desterrado muito
tempo e tomar e destruir lhe toda a sua fazenda». No mesmo tombo,
entre as propriedades vinculadas, está o Casal das Póvoas, em S. Pedro
de Fajozes, que o filho diz ter pertencido a seu pai. Este Martim
Ferreira parece ser o que viveu em Atouguia e depois em Lisboa, pois
deve ser o homónimo, escudeiro da Casa Real, que a 24.10.1443,
sendo almoxarife, foi nomeado para o cargo de recebedor das rendas de
Atouguia, que pertenceram ao infante D. Fernando, sem embargo do
referido cargo ser exercido por Fernando Afonso, por alvará do infante
D. João. Antes fora coudel de Atouguia, pois a 5.5.1441 D.Afonso V
nomeia por 5 anos Gil Vasques Delgado, escudeiro do infante D. Pedro,
para o cargo de coudel na Atouguia, em substituição de Martim Ferreira.
A 6.7.1643, este rei nomeia Martim Ferreira, escudeiro da sua Casa,
morador na cidade de Lisboa, para o cargo de almoxarife do reguengo de Alfez, termo de Lisboa, sem qualquer mantimento, em substituição de
Fernão Gonçalves de Faria, escudeiro que foi do infante D. Henrique, que
se retirara devido à idade e problemas de visão, com o direito de
usufruir do seu mantimento. E a 26.7.1443 o mesmo rei doou para sempre a
Martim Ferreira, escudeiro da sua Casa, todos os bens móveis e de raiz
que Diogo, doutor das ilhas, havia na vila de Óbidos, por este ter
partido para Castela, contanto que não tenha mulher no reino, porque se
tiver apenas receberá a metade dos ditos bens. Segundo Alão, casou a 1ª
vez com Iria de Sampaio (a), filha de
Vasco Pires de Sampaio, senhor de Vila Flor, etc., já referido acima, o
que é um anacronismo, pelo que já ficou dito. Aliás, Alão, quando trata
os Sampaio, já não dá a Vasco Pires nenhuma filha Iria.
Ainda segundo Alão, este Martim Ferreira casou 2ª vez com Inez Álvares de
Azevedo, de quem teve os filhos João e Ana. Não sei se Martim Ferreira
casou ou não com uma Iria de Sampaio, mas é certo que casou com Catarina
Vasques (b), e que esta é a mãe pelo menos de João Martins
Ferreira, pois existe uma carta de quitação de 20.3.1454 em que Beatriz
Vasques se declara quite com sua irmã Catarina Vasques, mãe de João
Martins Ferreira, relativamente aos bens recebidos pelos pais de ambas.
Isto, embora o próprio João Martins Ferreira, na instituição do morgadio
de Jerusalém em 1491, refira os bens de alma de sua tia Catarina Vaz,
que só podia se tia-avó materna. Neste mesmo documento também refere seu tio
Fernão Lourenço, como se diz adiante, que certamente era tio materno.
6.1.2.1.
(b) João
Martins Ferreira, que em 1491 se documenta como moço fidalgo da Casa
do infante D. João e em 1511 como moço fidalgo da Casa do infante D.
Fernando. Foi, cidadão, vereador (1503) e
fidalgo inscrito nos livros do Porto, falecendo depois de 1511. A
11.9.1472 D. Afonso V, apesar de ter o nomeado para o cargo de contador
na cidade do Porto, e uma vez que João Brandão fora já provido pelo rei
no dito ofício, privilegia João Ferreira, filho de Martim Ferreira,
mantendo-lhe o mantimento do ofício para que o tinha nomeado e dando-lhe
o cargo de tesoureiro na dita cidade. A 27.10.1491 instituiu, por
escritura lavrada no tabelião público do Porto Pedro Fernandes, o
riquíssimo morgadio dos Ferreira, com sua capela de Jerusalém no
mosteiro de S. Domingos, no Porto, a que vinculou as suas «Casas
Torres em que vivo na cidade na Rua dos Mercadores abaixo da boca da Rua
Nova» (mais tarde chamada Casa do Patim), rendas de 270.000 reais,
mais dezenas de propriedades distribuídas pelo Porto, Gaia, Maia
(Vermoim, Fajozes, Guilhabreu, Vilar de Porcos, Águas Santas, Alfena,
etc.), Vila do Conde, Aguiar (Figueiró, Duas Igrejas, Aguiar, etc.),
Penafiel (Canelas, etc.), Barcelos e Refoios (Penamaior), que no seu
conjunto tinham um rendimento anual então avaliado em 200.000 reais. O
morgadio, portanto, tinha a elevadíssima soma de 470.000 reais de renda
nos finais do séc. XV. Em
1491, quando instituiu o morgadio, ainda não tinha filhos, nomeando com
sucessores em 1º lugar Baltazar Ferreira, seu criado, em 2º a irmã
deste, Clara Ferreira (ambos devem ser seus filhos bastardos), em 3º
Gaspar Salvadores Ferreira, em 4º seu tio (dele instituidor) Fernão
Lourenço, e em 5º sua irmã Ana Martins Ferreira. Obrigava os
administradores a usar o nome Ferreira e a morar no Porto e a capela
obrigava a duas missas cantadas por semana e nas festas. Deixou obrigação
de bens de alma para seu pai e irmã (que não nomeia), bem como a sua tia
Catarina Vaz. Determina ainda que os sucessores no morgadio não podem «se
casarem nem misturarem com os meus parentes Ferreiras do Casal de
Cavaleiros, por assim mo deixar meu pai que Deus tem mui encarregado
pellos agravos que elles lhe fizeram em o fazerem andar desterrado muito
tempo e tomar e destruir lhe toda a sua fazenda». A 4.1.1511 João
Martins Ferreira faz
novo instrumento público em que nomeia sucessor no morgadio seu filho Pantalião Ferreira, e faz o tombo de todas as propriedades vinculadas, o
que teve confirmação real a 2.4.1511. João Martins
Ferreira casou a 1ª vez com Inez de Azevedo, como ele próprio dia na
instituição do morgadio, então já falecida. Casou a 2ª vez, antes de
27.10.1491 (data em que ainda não tinha filhos) com Violante Correa, filha do bailio de Leça e
cavaleiro da Ordem de Malta Frei Paio Correa. Com geração, sendo seu
filho sucessor Pantalião Ferreira, 2º morgado dos Ferreira nesta cidade,
com a sua capela de Jerusalém no mosteiro de S. Domingos, confirmado
como tal, a pedido de seu pai, por carta de D. Manuel I de 26.10.1510, e
reconfirmado a 2.4.1511. No documento de 1510 aparece como «Pantelião
Francisquo, nosso moço da câmara, por ser lídimo e filho mais velho»,
mas já aparece como Pantalião Ferreira quando a 16.2.1512 recebeu 1.218
reais do seu foro de moço da câmara da Casa Real, com moradia de 406
reais por mês e três quartos de cevada por dia. Deste Pantalião foi
filho sucessor outro João Martins Ferreira Juiz da alfândega de Goa e
depois capitão-mor de Lafões, onde viveu no seu prazo da quinta de
Calvos. Este segundo João Martins Ferreira era certamente o homónimo que
teve a capitania de S. Tomé (Chancelaria de D. Sebastião, D. Henrique e
D. António, 36, 141v), foi capitão-mor da armada da Índia (ib, 36, 141v
e 46, 16v) e teve uma tença de 16.000 reais (ib, 2, 165). É referido
como João Martins Ferreira, cavaleiro fidalgo da minha Casa, numa mercê
de D. João III de 12.2.1548, na qual este rei, «em respeito aos
serviços que me tem feito» e por o servir bem no ofício de juiz da
alfândega de Goa, lhe renova o cargo por mais três anos. Segundo Faria
de Andrade, este segundo João Martins Ferreira foi pajem do imperador
Carlos V. Com geração.
6.1.2.2.
Ana
Martins Ferreira, referida por seu irmão na instituição do morgadio
de Jerusalém em 1491, como ficou dito.
6.1.3.
(N)
Gonçalo Ferreira, que Alão diz que casou e foi pai de um Aires
Ferreira. Deve ser o Gonçalo Ferreira, criado do duque de Bragança, que
a 12.3.1454 D. Afonso V nomeou para o cargo de escrivão das sisas do
pescado de Vila do Conde. E o Gonçalo (de) Ferreira que, a pedido de
João de Mello, fidalgo da Casa Real de Castela, teve a 19.11.1435
privilégio real para andar de besta muar de sela e ferro por todo o
reino. E ainda, talvez, o Gonçalo Ferreira cuja criada Catarina
Gonçalves, medideira do trigo da cidade de Lisboa, acusou Constança Gil,
medideira que foi do trigo da dita cidade, de ser amante de Afonso
Gonçalves, morador em Ponte de Lima, amo de Aires Gomes da Silva, que a
15.5.1444 teve perdão real do degredo da cidade de Lisboa a que fora
condenada.
6.1.3.1.
Diogo Ferreira,
segundo Gaio. Deve ser o Diogo Álvares Ferreira (nome do proposto tio,
acima) que a 4.11.1463 D. Afonso V nomeia para o cargo de tabelião do
cível e crime da vila de Abrantes e seu termo, em substituição de Afonso
Coelho, que renunciara por instrumento público de 22.2.1463.
6.1.3.1.1.
Aires Ferreira,
que Alão dá como filho do Gonçalo seu avô e Gaio diz filho de Diogo e
neto de Gonçalo, o que pela cronologia deve estar certo. Com efeito,
ambos dizem que este Aires casou com Isabel Velez (de
Castello-Branco), sendo pai de várias filhas e de um filho Diogo
Ferreira, que foi vedor ou escrivão da fazenda do cardeal D.Henrique.
Mas o cardeal D. Henrique nasceu em 1512, pelo que este Diogo Ferreira
não podia ser neto de Gonçalo, mas sim seu bisneto, como diz Gaio, que
informa que este Diogo jaz, com letreiro, no convento de S. Francisco de
Évora. Possivelmente, este é Diogo Ferreira que a 2.12.1529 teve
provisão do vedor da Casa da Rainha para receber 812 reais da sua
moradia de moço da câmara.
6.1.3.2.
?Fernão
Ferreira, que pela ligação a Abrantes podia ser irmão de Diogo
Álvares Ferreira. Foi escudeiro da Casa Real, parece ter vido em
Abrantes e casou com Maria de Queiroz. Com efeito, a 10.10.1449
D. Afonso V doa a Fernão Ferreira, escudeiro da sua Casa, todos os bens
de Pedro de Abrantes, escudeiro do conde de Abrantes, e Diogo Nunes,
pasteleiro do infante D. Pedro, os quais os perderam por terem
participado na batalha de Alfarrobeira contra o rei. A 5.10.1453 D.
Afonso V nomeia Fernão Ferreira, escudeiro da sua Casa, para o cargo de
recebedor dos resíduos da cidade de Lisboa e seu termo, em substituição
de Mestre Estela da Sé, que morrera. A 25.10.1463 o mesmo rei confirma
um aforamento a Fernão Ferreira, escudeiro da sua Casa, de uma azenha na
vila de Abrantes, no rio Tejo, arca do canal grande, pelo foro anual de
30 alqueires de trigo e duas boas galinhas pelo dia de Santa Maria de
Agosto. E a 28.11.1463 doa a Fernão Ferreira, escudeiro da sua Casa, e a
sua mulher Maria de Queiroz, enquanto sua mercê for, 30 alqueires de
trigo e um par de galinhas, valor do foro anual de uma azenha no Tejo,
junto com os canais da vila de Abrantes.
6.2.
D. Frei Gonçalo
Ferreira, que esteve
com seus irmãos na tomada de Ceuta (1415), ainda não estaria ordenado.
Foi Dom abade de Alcobaça. A 23.3.1446 D. Afonso V autoriza a eleição de
Frei Gonçalo Ferreira, monge professo da Ordem de Cister e clérigo do
mosteiro de Alcobaça, para abade daquele mosteiro, em substituição de D.
Frei Estêvão de Aguiar, que morrera.
6.3.
João Ferreira,
que esteve com seus irmãos na tomada de Ceuta (1415). Segundo a Crónica
de Dom João I, ficou por capitão de uma nau que deixaram para guardar o
Estreito. Deve ser o João (de) Ferreira, comendador de Ródão, morador em
Castelo Branco, cuja filha Maria é legitimada por carta real de 1450.
Tanto mais que Gaio dá a este João Ferreira um filho, Álvaro Anes
Ferreira, e uma filha, justamente Maria. De resto, parece mais velho do
que seus irmãos Gomes e Aires, pelo que não pode ter casado, tanto mais
que seria comendador professo no tempo em que estes não podiam casar, e
por isso não sucedeu nos morgadios.
6.3.1.
(N)
Álvaro Anes Ferreira, que Gaio diz ter passado ao Norte de África em
1446, ao serviço do infante D. Henrique e ter sido pai de um João
Ferreira, que viveu em Lamego. Trata-se, portanto, do Álvaro Ferreira,
escudeiro da casa do infante D. Henrique, que a 20.12.1455 foi nomeado
pelo rei, a pedido do infante, para o cargo de almoxarife da cidade de
Ceuta, em substituição do seu sogro Bartolomeu Anes, ficando com o
mantimento do cargo como tinha o seu sogro. E certamente também do
Álvaro Ferreira que, com sua mulher, foi ferido por Rui Casco,
escudeiro, a quem o rei a 24.1.1453 perdoa a justiça régia e os últimos
7 meses de degredo na cidade de Évora. Casou, portanto, com uma filha de
Bartolomeu Anes, almoxarife de Ceuta.
6.3.2.
(N)
Maria Ferreira, legitimada por carta real de 30.7.1450, havida em
Beatriz Gonçalves, mulher solteira. Segundo as genealogias casou com
Diogo Gonçalves de Azevedo, filho de Gonçalo Velho e sua mulher
Joana de Azevedo.
6.3.3.
?(N)
João Anes Ferreira, cuja cronologia e onomástica indiciam como filho
de João Ferreira. A 8.8.1441 D. Afonso V confirma nomeação de João Anes
Ferreira para o cargo de procurador do número na vila de Santarém, para
que tinha sido nomeado por D. Duarte a 3.8.1434
6.3.4.
?(N)
Gonçalo Anes Ferreira, cuja cronologia e onomástica indiciam como
filho de João Ferreira. A 5.12.1446 D. Afonso V perdoa a sentença dada a
Gonçalo Gonçalves, morador em Estremoz no julgado de Lafões, culpado na
morte da filha de Gonçalo Anes Ferreira, preso na cidade de Lisboa.
6.4.
?Leonor
Gonçalves Ferreira, nascida cerca de 1392, que Alão dá
sucessivamente como filha de Martim Ferreira e de seu filho Aires
Ferreira, no que é rigorosamente seguido por Gaio… Alão, de resto,
quando dá Leonor Gonçalves como filha de Martim Ferreira expressa as
suas dúvidas, dizendo que «outros fazem sua sobrinha». De Aires é
certo que não podia cronologicamente ser filha. De qualquer forma, o
patronímico Gonçalves não tem justificação em qualquer destas filiações,
e o mesmo acontece com os irmãos e a irmã conhecidos de Martim Ferreira.
De forma que fica aqui com dúvida. Leonor Gonçalves casou com Lopo
Afonso de Teive, senhor de Santiago (Melres) e juiz do crime e cível
do regimento da vereação e guarda de Braga, Évora e Monção, nascido
cerca de 1385 e falecido depois de 1445. A 23.11.1436 D. Duarte confirma
a Lopo de Teive, seu criado, «primeiro filho lidimo e herdeiro»
de Álvaro Dias de Teive, o senhorio dos casais de Santiago de Cima e de
Baixo, no julgado de Melres. Este senhorio tinha sido doado por D. João
I, por carta 2.5.1385, a Pedro Rodrigues Bocado, alcaide do Porto, com o
privilégio de o poder deixar a quem quisesse, tendo ele, por testamento
feito no Porto em 1387, deixado os ditos casais ao dito Álvaro Dias de
Teive. A 15.2.1445 D. Afonso V nomeia por um ano Lopo Afonso de Teive,
escudeiro do infante D.Henrique, para o cargo de juiz do crime e cível
do regimento da vereação e guarda da vila de Monção e seu termo. A
20.2.1445 D. Afonso V nomeia Afonso Gomes, cavaleiro do regente, para o
cargo de juiz do cível e crime e da vereação e guarda de Évora, em
substituição de Lopo Afonso de Teive, escudeiro do infante D. Henrique,
que fora servir como juiz para Monção. E a 23.2.1445 o mesmo rei nomeia
João Afonso do Boiro, escudeiro do regente D. Pedro, para o cargo de
juiz do cível e crime de Braga, em substituição de Lopo Afonso do Teive,
escudeiro do infante D. Henrique, que estava registado no livro. Este
Álvaro Dias de Teive é o mais antigo desta linhagem que documento. Alão
diz que se chamou Álvaro Afonso de Santiago «por nascer em Santiago
da Galiza», o que é falso, como se documenta, no que toca ao
patronímico, que era Dias e não Afonso. Mas podia de facto ser conhecido
por «de Santiago», mas por ser senhor deste lugar, como ficou
dito. Alão deve ter confundido o patronímico por ter encontrado a
legitimação real em 1425 de dois filhos de nome Teive de um Álvaro
Afonso de Santiago. O que me leva a concluir que Álvaro Dias teve também
um filho Álvaro Afonso (com o patronímico que se documenta no outro
filho dele), e deste é que são filhos o Gonçalo de Teive e o Diogo de
Teive legitimados em 1425. Se bem que, a 8.9.1439 D. Afonso V confirme
privilégio a Gonçalo Eanes, almocreve, criado de Álvaro Dias de Teive,
morador na cidade do Porto, isentando-o de ser posto por besteiro do
conto, sendo neste documento referida uma carta de D. Duarte de
15.12.1433 (que não encontro na respectiva chancelaria). Nesta data já
Álvaro Dias tinha falecido há três anos, o que poderia querer dizer que
teria tido um filho homónimo que, portanto, não era Álvaro Afonso. Mas
julgo tratar-se do Álvaro Dias em epígrafe, cujo criado ainda assim se
dizia depois da sua morte, sendo até possível que o requerimento inicial
tivesse sido feito ainda ele vivia. Porque razão o filho de Álvaro Dias
usou o patronímico Afonso, o que é um facto, não se entende muito bem,
mas deve estar relacionado com a sua desconhecida mulher, sendo certo
que se documenta que foi casado. Mais estranho ainda é o patronímico
Dias deste Álvaro, tendo em conta a ascendência que as genealogias
propõem. Não fosse o quinhentista Damião de Góis a dizê-lo e eu teria
muitas dúvidas nessa ascendência. Ainda assim, este patronímico Dias,
que indicia um pai ou pelo menos um avô Diogo, é suficiente para colocar
reservas à ascendência que Góis dá a Álvaro Dias de Teive.
6.4.1.
Joana de Teive,
que nasceu cerca 1408 e casou cerca de 1424 com Álvaro Gonçalves da
Maia, senhor da Ponte de Almeara (Trofa) por carta de 19.5.1421,
provedor e vedor da fazenda real no Porto (pelo menos de |