|
Tolerância Zé
Esta é a nossa singela homenagem ao maior herói lusitano da actualidade, aquele que mais tem feito para a perpetuação da dignidade e virilidade lusas, tão ameaçadas hoje em dia, como se sabe, pelas investidas das forças malignas e uniformizadoras dos nossos supostos parceiros mundiais, a começar pelos "nuestros hermanos" de Castela, até aos confins do império do "Tio Sam". Tolerância Zé é o seu nome e as estradas (as auto e as outras) são o seu domíno de actuação.
Tolerância Zé passa pela vidinha do dia-a-dia sem que ninguém dê por ele. Não é particularmente bom a fazer o que quer que seja, mas também não é tão mau que dê nas vistas. Vai-se desenrrascando. É aquilo a que os seus colegas de trabalho chamariam "um porreiraço". A sua proverbial tolerância é de tal ordem, que é praticamente impossível vê-lo zangado. Pelo menos para quem nunca o viu na estrada, ao volante do seu "bólide".
Porque é quando se instala ao volante que Tolerância Zé assume o seu papel de justiceiro do mundo. Não há tolerância possível para quem afinal só representa um perigo para o trânsito, para quem dá mostras da mais profunda inconsciência em relação à segurança colectiva e o nosso herói sabe-o. Por isso ele continua, incansável, a sua actuação vigorosa no sentido de banir das estradas (hoje, portuguesas, amanhã, do mundo inteiro) essa verdadeira ameaça que são os maus condutores.
Saiba como reconhecer a presença deste nosso herói e quais os seus métodos de actuação:
-
Andar a cento e vinte na auto-estrada é para bananas, ou então para quem tem um carro muito fraco. O que está certo é circular à velocidade máxima que o carro dá, para desocupar o mais rapidamente possível esse recurso escasso e precioso que é a estrada. Como forma de propagar este estilo de condução, Tolerância Zé tem por hábito colar-se à traseira de quem for mais lento a dar-lhe com os máximos e até mesmo a buzinar-lhe, para o incitar a fazer-se à vidinha e acelerar como deve ser. Esta acção é normalmente acompanhada pelos mais diversos insultos à "lesma", que nos excusamos de reproduzir aqui.
-
Buzinar a quem estiver à frente na fila do semáforo, em simultâneo com a sua passagem de vermelho para verde; trata-se obviamente de optimizar a utilização do tempo de verde, que é manifestamente pouco. Só um verdadeiro herói é capaz de semelhante proeza. Não confundir com as buzinadelas esporádicas de quem perdeu a paciência de esperar pelo verde e manifesta o seu estado de espírito desta forma. Tolerância Zé apurou a sua técnica ao longo de anos, não sendo incomum vê-lo praticá-la mesmo quando está à frente na fila, isto é, a buzinar a si próprio.
-
Nunca, mas nunca, deixa alguém meter-se-lhe à frente. Dar passagem a quem quer que seja, em quaisquer que sejam as condições, é uma atitude que não está contemplada na lista de coisas que Tolerância Zé é capaz de fazer. Só muito a contragosto, depois de muita insistência e a fazer má-cara é que o nosso herói deixa entrar na auto-estrada uma ambulância em marcha urgente de socorro, em vez de acelerar para se colar ao veículo da frente. Como já se disse, a estrada é um recurso precioso, e quanto menos pessoas a utilizarem, melhor será a sua qualidade de serviço. E é óbvio que quem já lá está tem mais direito a usufruir dela do que aqueles que só agora querem entrar.
Este comportamento é observável não só em entradas de auto-estrada, mas em qualquer situação onde seja possível alguém dar passagem a alguém, como por exemplo nos cruzamentos, nas passadeiras de peões ou nas rotundas.
-
Usar o pisca é uma forma demasiado óbvia de assinalar a manobra que se pretende fazer. Tolerância Zé sabe que o número dos seus seguidores é cada vez maior e como tal, ao sinalizar a sua entrada na estrada ou a sua mudança de fila só poderá obter como resultado o impedimento de o fazer. Prevenidos em relação às suas intenções, os adeptos das boas práticas de condução irão obviamente barrar-lhe a passagem.
A única utilidade conhecida para os piscas é poder estacionar-se em segunda fila sem se ser multado.
P.S. Uma pequena nota final acerca dessa pequena maravilha do engenho humano que é a tolerância zero: Estamos no bom caminho. A redução do número de sinistros passa necessariamente pelo controlo da velocidade. Quando a velocidade de circulação nas estradas portuguesas for zero, deixará de haver acidentes.
|