2003.10.27

Lombas

Quem anda de automóvel em Portugal, seja na qualidade de condutor ou de conduzido, já reparou de certeza no fenómeno. De norte a sul do país, a acompanhar a proliferação das lombas atravessadas pelo caminho, pululam "travadores" (de "travadela" + "condutor"). O "travador" é um automobilista que, completamente ignorante das mais elementares leis da física, trava energicamente nas lombas (por vezes, quase até à imobilização total), porque está convencido que dessa forma preserva a sua viatura.

Como é fácil de prever, este comportamente ignaro, tem dramáticas implicações na circulação automóvel em horas de tráfego mais intenso, com os consequentes aumentos de stress e pressão sanguínea nos "não-travadores". É mesmo frequente ver esta prática na origem de acidentes perfeitamente evitáveis em circunstâncias normais. Mas o "travador" não olha a meios e, por mais buzinadelas que oiça, não desiste da "travadela" para poupar a saúde do seu bólide.

Pois desenganem-se os "travadores". Travar nas lombas não preserva a saúde do vosso estimado carro. Aliás, as opiniões divergem quanto àquilo que se pensa estar a salvaguardar, o que prova que se trata de um "mito". A maioria dos "travadores" afirma que são os amortecedores, enquanto outros estão convencidos que se trata das rodas. Alguns, mais sensatos, dizem não saber ao certo, mas "lá que aquilo estraga alguma coisa, isso é de certeza". Muitos, mais pragmáticos, respondem simplesmente "quero lá saber do carro, aquele salto põe-me a cabeça às voltas". Há ainda um número reduzido de "travadores" que mencionam a caixa de velocidades, o diferencial, a embraiagem, ou, mais enigmaticamente, "o motor".

Pois bem, os amortecedores servem precisamente para salvaguardar o carro e os passageiros das irregularidades do piso. As rodas também não se comovem grandemente com o "salto", nem qualquer outra parte do carro. Essa é que é a verdade. Uma boa lomba, comparada com o andamento normal em cidade, não é mais do que uma pequena "massagem". E nem é preciso perceber muito de física para intuir que o carro em travagem "mergulha" com muito mais força contra a lomba do que se o deixar rolar sem fazer nada.

O que é totalmente inesperado é que travar nas lombas, ao contrário de não travar, traz um prejuízo para o carro: faz fundir mais depressa as luzes de stop. Ao travar, essas lâmpadas, indicadoras da travagem, acendem. Ao acenderem, as lâmpadas têm o seu filamento em incandescência, portanto muito mais sensível às vibrações do que quando estão apagadas.

É preciso dizer mais?

 

 

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