A fábula do calhau

O diálogo que se segue resulta simplesmente da minha imaginação torcida. Desengane-se quem o tentar usar para estabelecer qualquer espécie de analogia com a vida quotidiana das pessoas.

O marido e a mulher, que como já tantas outras pessoas, substituíram a eucaristia dominical pelo passeio no centro comercial.

Estás a ver, Manel, que calhau tão lindo aquele ali na montra?...

Não me venhas outra vez com essa conversa. Já te disse mais de mil vezes que não precisamos dum calhau para nada!

Depois de uns momentos de silêncio, em que a Maria se esforçou por fazer um ar profundamente ofendido, a conversa restabeleceu-se, diante de uma outra montra.

Olha... aquele pode-se pagar a prestações, até nem ficava nada caro...

Mas é cor de rosa! É capaz de me explicar o que é que eu faço com um calhau cor de rosa?!

Com um ar ainda mais profundamente ofendido do que antes, a Maria desta vez não se calou.

Como é que és capaz de dizer uma coisa dessas? Não consigo acreditar que tenhas uma visão tão limitada! Então não percebes que nenhum dos nossos amigos tem um calhau cor de rosa?

Lá estás tu com a mania de ser diferente dos outros! Onde é que já se viu, querer um calhau cor de rosa, só para ser diferente dos outros. Só para ser diferente!

Mas tu não percebes mesmo! Temos que ser diferentes dos outros, ou então ninguém repara em nós. Já toda a gente tem um calhau e nós não podemos passar mais tempo sem ter um também. Mas tem que ser cor de rosa, para ser diferente dos outros.

Mas é feio!

Vais-te habituar mais depressa do que tu pensas!

E caro!

Lá vamos nós outra vez! Pode-se pagar a prestações, não estás a ver ali escrito?! De qualquer maneira, gastavas aquele dinheiro noutra coisa qualquer. Afinal de contas, nunca nos sobra nada no fim do mês, pois não?

Bom, lá isso é verdade...

 

 

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