C U R S O S - Doutoramento/Mestrado
three lions

                  

 


 
UNL/FCSH/DCC

Os Espelhos na Arte Contemporânea (2003/2004)
2. semestre
 

1. Programa
2. Planeamento das Sessões
 

 

 

Programa

 «los espejos y la cópula son abominables, porque multiplican el número de los hombres».
Jorge Luís Borges

 

Na sua simplicidade puramente material os espelhos foram, desde sempre, fonte de inquietação, sofrendo uma intensa elaboração metafórica que atravessa a história da cultura. Pequena máquina extraída da «natureza» que os produz profusamente (superfícies espelhadas dos rios, pedras lisas, etc.) o espelho está na base de uma divisão originária das coisas contra elas próprias, que assim se desdobram numa infinidade de reflexos, de duplos, de reproduções etc. Boa parte da cultura mais não foi do que a elaboração mítica, metafísica e teológica dessa divisão originária através da qual emerge o dispositivo especular. Fixar o fugidio, «aprisionar o eco» como dizia Villiers, eis o que lança a vontade de domínio e a técnica como potência. A elaboração técnica dos espelhos desdobra-se numa série de dispositivos e máquinas ópticas que funcionam segundo uma mimesis paradoxal. Ao mesmo tempo pretendem fixar os «reflexos» e por outro disseminam-nos em catadupa. Fotografia, cinema (e mesmo o gramofone) são momentos culminantes deste processo, mas insuficientes. Todas as máquinas ópticas falhavam na reprodução da vida, enquanto que o espelho, mal ou bem, a repetia e reflectia. Reproduzir a «vida», mimar os seus movimentos errantes, eis o fundamento do cinematismo ocidental que tem as suas origens, não no cinema, mas nas longínquas origens do próprio dispositivo especular. É com Hegel que o «momento especular» alcança a sua máxima nitidez e que inicia o caminho de volta para a vida, ele que se afastara dela numa infinidade de imagens. O «espelho» que reflectia a vida torna-se ele próprio activo e faz da vida um mero efeito do especulativo. Tudo indica que a tecnologia contemporânea desempenha um papel essencial na constituição da economia generalizada actual, que tudo encerra na circularidade especular.

Forçoso é constatar que o espelho continua a ter uma peculiar persistência, no preciso instante em que as tecnologias  digitais tendem para um envolvimento multissensorial completo, parecendo abolir o primado do olhar na cultura ocidental. Está em causa uma destituição dos espelhismos tecnológicos, mas também a desocultação do especulativo que se confunde com o «real». De nada serve criticá-lo como Jean Baudrillard cuja noção de simulacro ou de «hiperreal» mais não faz do que reforçar o momento especulativo.  Mesmo as teses de Guy Debord sobre a «sociedade do espectáculo» falham em dar conta das novas formas que está tem vindo a assumir. Na realidade é dos usos dos espelhos nas artes contemporâneas que vem a crítica mais radical ao especular, desvelando-o minuciosamente e inventando outras formas de acesso ao «real».[JBM]

Programa

 

1. Apresentação do Curso

Introdução:
2.  A divisão originária da Physis
3.  A estrutura óptica da Mitologia
4.  Das máquinas catóptricas à realidade virtual

Parte 1: O círculo da especulação
5.  O especular como abertura do espaço (Platão)
6,  O culminar do Especulativo (Hegel)
7.  O pós-especulativo: da plasticidade à hibridez

Parte II: A desconstrução do especulativo por Marcel Duchamp
8.  O infra-mince como base da «metafísica» de Duchamp
9.   Estratégias duchampianas

Parte III: Rompendo o círculo do especulativo
10.  Robert Smithson: Mirror Displacement (1969)
11.  Dan Graham:  Opposing Mirrors and Video Monitors on Time Delay (1974)
12.  Gerhard Richter : Eight Gray (2002)

 

Planeamento das Sessões
e Bibliografia de apoio

1. Apresentação do Curso


Introdução
:

2.  A divisão originária da Physis

Texto de Apoio: José A. Bragança de Miranda: «As imagens no início» in Manuel Valente Alves (2001), As Imagens Médicas, Porto, Porto Editora; «After the absolutism of reality» in Hans Blumenberg (1985), Work on Myth, Mass., M.I.T. Press, 1985.

3.  A estrutura óptica da Mitologia

Texto de Apoio: «Le miroir de Méduse» in Jean-Pierre Vernant (1987), L’Individu, la Mort, L’Amour, Paris, Folio;  Françoise Frontisi-Ducroux, «Narcise, à travers le miroir» in AA VV (2000), Miroir: Jeux et reflets depuis l’Antiquité, Paris, Somogy.

4.  Das máquinas catóptricas à Realidade Virtual

Texto de Apoio: Jurgis Baltrusaitis (1978), Le Miroir, Paris, Seuil (selecção); «Reinventing Synthesis» in Jonathan Crary (1999), Suspension of Attention, Mass. M.I.T..


Parte 1:
O círculo da especulação

5.  O especular como abertura do espaço (Platão)

Texto de Apoio:  Platão «A Alegoria da caverna» in Republica, Lisboa, F.C. Gulbenkian; «El espejo de Platon» in Massimo Cacciar1 (2000), El Diós que Baila, Paidós, barcelona, 2001; «O gesto iconoclaste como inauguração da metafísica» in Jacqueline Lichenstein (1989), A Cor Eloquente, S. Paulo, Siciliano.

6.  O culminar do Especulativo (Hegel)

Texto de Apoio: Hegel, «O Saber Absoluto» in Fenomenologia do Espírito, (Internet); Arkady Plotnitsky, «Re-: Re-flecting, Re-membering, Re-collecting,    Re-selecting, Re-warding, Re-wording, Re-iterating, Re-et-cetra-ing,...(in) Hegel» in Postmodern Culture, v5, 2 (Internet). 

7.  O pós-especulativo: da plasticidade à hibridez

Texto de Apoio: Introdução de Catherine Malabou (1996), L’Avenir de Hegel, Paris, Vrin; Catherine Malabou, «Le voeu de Plasticitité» in C. Malabou (org), Plasticité, Paris, Léo Scheer, 2000.

 
Parte II:
A desconstrução do especulativo por Marcel Duchamp

8.  O infra-mince como base da «metafísica» de Duchamp
9.   Estratégias duchampianas

Texto de Apoio: Marcel Duchamp, Notes, Paris, Flammarion; Marcel Duchamp, Duchamp du Signe, Paris, Flammarion.


Parte III:
Rompendo o círculo do especulativo

10.  Robert Smithson: Mirror Displacement (1969)

Texto de Apoio: Robert Smithson: The Collected Writings, Berkeley, University of California Press, 1996. (selecção)

11.  Dan Graham:  Opposing Mirrors and Video Monitors on Time Delay (1974)

Texto de Apoio: Dan Graham, Catálogo da exposiçao no CCB. (selecção)

12.  Gerhard Richter : Eight Gray (2002): 

Texto de Apoio: Eight Gray, Catálogo da xposição do Deutsch Gugenheim Berlin, 2003.

 

 


 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt