DEVERÃO OS CRISTÃOS GUARDAR A QUARESMA?
A Quaresma é um período de quarenta dias de
jejum, exame de consciência e penitência, observado por grande número de
pessoas religiosas antes da Páscoa e em preparação para a mesma. Factores
denominacionais e outros determinam que comidas e prazeres, os que guardam a
Quaresma, podem e não podem gozar durante esse período, mas, em geral, é um
tempo de abstinência de coisas que podem satisfazer e agradar.
Sob a lei, Deus tinha posto de parte um dia santo
anual em que, mais do que em todos os outros dias, os filhos de Israel deveriam
meditar nos pecados cometidos durante o ano anterior e “afligir as suas almas”,
em penitência, diante de Deus. Era o grande Dia da Expiação, observado
anualmente no dia 10 de Outubro.
Nesse dia, depois da oferta de certos
sacrifícios, toda a gente saía do tabernáculo com a excepção do sumo sacerdote. E ele, sozinho e despido das suas
vestes sacerdotais de “glória” e “beleza”, entrava – «não sem sangue» - no
Santo dos Santos diante de Deus para fazer expiação por si e pelo povo de
Israel (Lev. 16.14-17) enquanto tanto ele como eles afligiam as suas almas,
isto é, condenavam-se e reprovavam-se a si mesmos pelos pecados cometidos
durante o ano anterior. (Lev. 16.29,31; 23.27,29,32). A observância daquele dia
de reprovação pessoal e dor por causa do pecado não era opcional; era requerido
a todos os que não quisessem ser «extirpados do seu povo» (Lev. 23.29).
Ao referir-se especialmente a esse Dia da
Expiação anual, o Apóstolo Paulo declarou mais tarde por inspiração divina: «...
a lei, nunca, pelos mesmos sacrifícios, que continuamente se oferecem cada ano,
poderá aperfeiçoar os que a eles se chegam», pois tivessem eles
validade para apagar os pecados, argumenta ele, não teriam sido mais necessários
sacrifícios repetidos, uma vez que «purificados uma vez os ministrantes,
nunca mais teriam consciência do pecado» (Heb. 10.1,2). «Porém»,
acrescenta ele: «nesses sacrifícios» havia realmente «uma
comemoração dos pecados cada ano» (Heb. 10.3).
Assim, o apóstolo da graça demonstra a
insuficiência dos sacrifícios da lei quando comparados com toda a suficiência
da obra redentora de Cristo, pois o sangue de Cristo, declara ele, é eficaz
para purgar a consciência do crente (Heb. 9.14) de tal modo que apesar de na
verdade ainda estarmos conscientes dos nossos pecados, «nunca mais
temos consciência de pecados», isto é, não somos mais atormentados com
uma consciência culpada diante de Deus. Nós agora temos «ousadia para
entrar no santuário, pelo sangue de Jesus ... tendo os corações purificados da
má consciência» (Heb. 10.19-22).
É nesta base que os crentes agora não se devem
entregar a períodos de introspecção e de reprovação de si mesmos. Pelo
contrário, devem deixar o passado com Deus e prosseguir para diante com a Sua
ajuda. É assim que Paulo escreve aos crentes Filipenses:
«Não que já a tenha alcançado, ou que seja
perfeito ... Irmãos, quanto a mim, não julgo que o tenha alcançado; mas UMA
COISA FAÇO, E É QUE, ESQUECENDO-ME DAS COISAS QUE ATRÁS FICAM, E AVANÇANDO PARA
AS QUE ESTÃO DIANTE DE MIM,
«PROSSIGO
PARA O ALVO, PELO PRÉMIO DA SOBERANA VOCAÇÃO DE DEUS EM CRISTO JESUS»
(Fil. 3.12-14).
E
aos crentes Hebreus ele diz:
«... deixemos todo o embaraço, e o pecado, que
tão de perto nos rodeia, e corramos, com paciência, a carreira que nos está
proposta,
«OLHANDO
PARA JESUS, AUTOR E CONSUMADOR DA FÉ ...» (Heb. 12.1,2).
Contudo a religião organizada sempre se opôs às
preciosíssimas verdades de Deus. A religião organizada matou os profetas,
crucificou Cristo e enviou Paulo para a prisão e morte. A religião organizada,
desviando-se da graça de Deus e «aperfeiçoando» a Sua lei,
estabeleceu não um, mas quarenta dias, anualmente, durante os quais os seus
devotos devem afligir as suas almas e privarem-se de comidas e prazeres que,
doutro modo, poderiam desfrutar.
Não existe, nas Escrituras, nenhuma indicação de
que algum dos apóstolos ou discípulos tivesse observado, muito menos sido
instruído a observar, a Quaresma, ou qualquer período de jejum e penitência semelhante,
depois da dispensação da graça ter sido introduzida. Na verdade, o apóstolo
Paulo condena severamente essa falta de apreciação da obra redentora de Cristo
toda suficiente, quer pela observância de dias “santos”, quer por actos
religiosos de abnegação. Aos crentes Gálatas e Colossenses, ele escreveu,
respectivamente, como se segue:
«Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo
conhecidos de Deus, COMO TORNAIS NOVAMENTE A ESSES RUDIMENTOS FRACOS E POBRES,
AOS QUAIS DE NOVO QUEREIS SERVIR?
«GUARDAIS DIAS, E MESES, E TEMPOS, E ANOS.
«RECEIO DE VÓS, QUE NÃO HAJA TRABALHADO EM VÃO
PARA CONVOSCO.
«EU BEM QUISERA AGORA ESTAR PRESENTE CONVOSCO, E
MUDAR O MEU TOM DE VOZ, PORQUE ESTOU PERPLEXO A VOSSO RESPEITO» (Gál.
4.9-11,20).
«Se, pois, estais mortos com Cristo ... PORQUE
VOS CARREGAM DE ORDENANÇAS,
«(TAIS COMO: não toques, não proves, não
manuseies) ... segundo os preceitos e doutrinas dos homens? (Col.
2.20-22).
Estas coisas, diz ele no versículo seguinte, têm
na verdade «alguma aparência de sabedoria» em «devoção
voluntária», isto é, em adoração de acordo com a vontade do homem,
mas «não honram realmente a Deus senão satisfazer a carne (isto é, por
criar uma reputação de santidade superior)». (Scofield Reference Bible, anotação).
Nós, com isto, não queremos nem por um momento
sequer significar que os crentes não devam reconhecer os seus pecados e
procurar graça divina para os vencer, no entanto isso deve ser sempre feito à
luz do Calvário, pois é na cruz que encontramos libertação, não só da
condenação dos pecados, mas também do poder do pecado nas nossas vidas. Não é o
poder da vontade do crente, mas a cruz de Cristo que, em última análise, se
ergue entre ele e os seus pecados, o seu pecado, e o seu pecar.
A cruz ergue-se entre o crente e os seus PECADOS.
Onde o esforço humano e as obras religiosas têm sempre falhado, a cruz sempre
foi eficaz para remover a condenação dos nossos pecados. «Temos a
redenção pelo Seu sangue, a remissão (perdão) dos PECADOS, segundo as riquezas
da Sua graça (Efé. 1.7). «Cristo morreu pelos nossos PECADOS» (I Cor.
15.3) é o âmago da nossa mensagem para os perdidos, e nós mesmos regozijamo-nos
na declaração inspirada de Paulo:
«A vós também, que noutro tempo éreis estranhos e
inimigos no entendimento, pelas vossas OBRAS MÁS, agora, contudo, vos
reconciliou
«No corpo da Sua carne, pela morte, para perante
Ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis» (Col.
1.21,22).
A cruz ergue-se entre o crente e o seu PECADO.
Ela julgou e tratou a própria natureza pecaminosa.
As pessoas perdidas algumas vezes esquecem-se de
que não são apenas os seus pecados, mas o seu pecado que as conserva
fora do céu. Não é apenas o que elas têm feito, mas o que elas são e fariam
se fossem tentadas, que as torna inaceitáveis diante de Deus. Não são meramente
as suas meras obras más, mas a sua natureza decaída e depravada que as
condena diante de um Deus santo.
«... por um homem entrou o pecado no mundo, e
pelo pecado a morte, assim a morte também passou a todos os homens, por isso
que todos pecaram» (Rom. 5.12).
Notemos bem que a morte passou a todos os homens,
não porque um tivesse pecado, mas porque todos pecaram – isto é, em
Adão, o “um” de quem todos descenderam. Nós não nos podemos desassociar
mais de Adão, do mesmo modo que o ramo não pode repudiar a árvore. Todos nós
viemos de Adão e estávamos “em Adão” quando ele pecou. Assim, somos culpados,
não apenas por prática, mas por natureza. Contudo agradeçamos a Deus por
a redenção operada por Cristo no Calvário ter tratado não apenas dos nossos
pecados individuais (o fruto) mas do nosso pecado, da nossa natureza
pecaminosa (a raiz).
«Àquele que não conheceu pecado, (Deus) o fez
pecado por nós, para que n’Ele (Cristo) fossemos feitos justiça de Deus»
(2 Cor. 5.21).
A cruz ergue-se entre o crente e o seu PECAR.
O leitor, aqui, faria bem em ler o capítulo
inteiro de Romanos 6, do qual citamos algumas passagens:
«Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado,
para que a graça seja mais abundante?
«De modo nenhum! Nós que estamos mortos para o
pecado, como viveremos ainda nele?
«Ou não sabeis que todos quantos fomos baptizados[1]
em Jesus Cristo fomos baptizados na Sua morte?
«Sabendo isto: que o nosso velho homem foi com
Ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de que não
sirvamos mais ao pecado.
«Assim também vós considerai-vos como mortos para
o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor.
«Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo
mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências;
«Nem tampouco apresenteis os
vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a
Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos
de justiça.
«PORQUE O PECADO NÃO TERÁ DOMÍNIO SOBRE VÓS, POIS
NÃO ESTAIS DEBAIXO DA LEI, MAS DEBAIXO DA GRAÇA»
(Rom. 6.1-3,6,11-14).
Que gozo e bênção vem ao coração do crente que
realiza que já morreu para o pecado,
em Cristo! Que poder pode ter a lei sobre tal crente? Como é que ela o pode
condenar? E que maior gozo e bênção vem àquele que realiza que uma vez que
morreu em Cristo, encontra-se também agora ressuscitado de entre os
mortos e já assentado nos lugares celestiais, em Cristo, à mão direita de Deus
- o lugar de honra, privilégio e bênção (Efé. 2.4-6). Não é perfeitamente claro
que uma tal pessoa procurará servir a Deus aceitavelmente, não com um espírito
de temor ou inquieto quanto ao seu futuro, mas extravasado de pura gratidão
– extravasado dum sentimento de profunda obrigação para com Aquele que tanto
fez por ela? Eu disse, “servir a Deus aceitavelmente”? É verdade. Uma
tal pessoa dar-se-á – tudo o que é e tem – a Deus; uma tal pessoa gastará a sua
curta vida como uma ardente tocha de amor por Aquele que pagou tão grande preço
para a salvar, e justificar, e glorificar.
Qual
o cristão instruído e apreciativo que desejaria regressar aos «rudimentos
fracos e pobres» da Quaresma com as suas restrições religiosas? Qual o
cristão instruído e apreciativo que desejaria manchar daquela maneira a obra de
Cristo? Qual o cristão instruído e apreciativo que suporia que Cristo se
agradaria mais com a observância dum período de abnegação regulada, do que com
um serviço cheio de amor e gratidão para Ele?
O “escape para as paixões desenfreadas e
desregradas” da Terça-Feira de Carnaval, precisamente antes da Quaresma,
é a demonstração extrema da inconsistência de milhões que observam a Quaresma.
E certamente que para o Cristão aquilo que é errado, indecente, impróprio e
indecoroso durante o período quaresmal, também o é em qualquer período do ano.
Aqueles que confiam verdadeiramente em Cristo
como seu Salvador, não fazem a observância de ritos religiosos que só desonram
a Deus e mancham a gloriosa obra redentora de nosso Senhor e
Salvador Jesus Cristo.
«Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo
beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados,
«Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo
é de Cristo» (Col. 2.16,17).
[1] Isto não se refere ao baptismo na água, é claro, pois apenas o Espírito pode baptizar-nos em Cristo ou fazer-nos um com Ele, e Ele faz isso ao fazer-nos um com Ele na Sua morte. (Ver Col. 2.8-12, e notar as palavras: «a operação de Deus».
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