A PROFECIA E O MISTÉRIO

 A DIVISÃO MAIS IMPORTANTE DA BÍBLIA

A suposição de que a divisão mais importante da Bíblia é a existente entre o Velho e o Novo Testamentos tem sido muitas vezes expressa na declaração: “O Velho Testamento é para os Judeus;  o Novo Testamento é para nós”.

Contudo isso é bastante incorrecto.  Primeiro de tudo, os títulos Velho Testamento e Novo Testamento não são designações correctas das duas secções da Bíblia que são supostos representar.

O concerto da Lei (chamado mais tarde o velho concerto, ou testamento) não foi feito antes de 2500 anos da história humana terem decorrido.  A lei foi dada por Moisés” (João 1:17), cerca de 1500 anos A.C., como se encontra registado em Êxodo 19 e 20.  É-nos dito a respeito deste período de tempo, “de Adão a Moisés”, que “não havia lei” (Rom. 5:13-14), isto é, a lei ainda não tinha sida dada.

Isto significa que em Génesis não há uma única palavra do velho testamento.  Na verdade, Israel nem sequer emergiu como nação antes da sua libertação do Egipto descrito em Êxodo.  Se , por conseguinte, o Velho Testamento é para os Judeus e o Novo Testamento para nós, para quem é a livro de Génesis?

Quanto ao novo concerto; este não foi feito antes da morte de Cristo.

“... (Ele) é Mediador dum novo testamento (concerto), para que, intervindo a morte ... os chamados recebam a promessa da herança eterna” (Heb. 9:15).

Foi à sombra da cruz, quando o Senhor comungava com os Seus discípulos, que Ele disse:

“Este cálice é o novo testamento no Meu sangue, que é derramado por vós” (Lucas 22:20).

Isto significa que a maior parte dos registos dos quatro evangelhos cobre antes a história do velho testamento e não a do novo, e que o Senhor e os Seus discípulos viveram todos naquele tempo sob o velho testamento. 1

Também deve ser notado que tanto o velho como o novo testamentos, ainda que nos afectem, foram feitos com a nação de Israel, e que o novo testamento promete simplesmente que um dia Israel renderá espontaneamente a obediência que lhe foi requerida sob o velho testamento ou concerto.  (Deut. 5:1-3;  Jer. 31:31).

Assim, a divisão mais importante da Bíblia é a existente entre a profecia e o grande mistério proclamado pelo Apóstolo Paulo.

Constitui um facto notável as palavras iniciais da Bíblia serem as seguintes: “No princípio criou Deus os céus e a terra”.  A passagem não diz que Ele criou o universo, mas os céus e a terra.  A razão disto é porque Ele tinha um propósito a respeito da terra bastante distinto do Seu propósito respeitante aos céus.  O Seu propósito a respeito da terra e do reino de Cristo sobre ela constitui o tema da profecia (II Pedro 1: 16-19).  O Seu propósito respeitante aos céus e à nossa exaltação lá com Cristo constitui o tema do “mistério” (Ef. 2:4-10; 3:1-4).  A Bíblia encontra-se basicamente dividida nestes dois grandes temas. 2 

A respeito do reino na terra Zacarias disse:

“Bendito o Senhor Deus de Israel, porque visitou e remiu o Seu povo, E nos levantou uma salvação poderosa na casa de David seu servo.  COMO FALOU PELA BOCA DOS SEUS SANTOS PROFETAS, DESDE O PRINCÍPIO DO MUNDO”  (Lucas 1:68-70).

De novo em Pentecostes, Pedro, falando da ausência de Cristo e dos sinais do Seu retorno, disse:

“O Qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, DOS QUAIS DEUS FALOU PELA BOCA DOS SEUS SANTOS PROFETAS, DESDE O PRINCÍPIO.  E TODOS OS PROFETAS, DESDE SAMUEL, TODOS QUANTOS DEPOIS FALARAM, TAMBÉM ANUNCIARAM ESTES DIAS” (Actos 3:21-24).

Mas respeitante ao Corpo de Cristo, com a sua chamada e posição celestiais, não é encontrada uma única palavra nas páginas da profecia.  Na realidade, Deus guardou este grande propósito em segredo até que Ele se determinasse a trazer o corpo à existência, e então o revelasse primeiramente ao Apóstolo Paulo.  O apóstolo diz que este grande propósito foi:

“OCULTO DESDE OS TEMPOS ETERNOS” (Rom. 16:25).

“UM MISTÉRIO ... ORDENADO ANTES DOS SÉCULOS PARA NOSSA GLÓRIA” (I Cor, 2:7).

“NOUTROS SÉCULOS NÃO FOI MANIFESTADO” (Ef. 3:5).

“OCULTO DESDE TODOS OS SÉCULOS, E EM TODAS AS GERAÇÕES ” (Col. 1:26).

Existe manifestamente uma grande diferença entre aquilo que foi falado “pela boca dos santos profetas (de Deus), desde o princípio do mundo” e aquilo que foi “oculto desde os tempos eternos”.

 

A PROFECIA E O REINO MESSIÂNICO

Como já vimos, o plano de Deus para o estabelecimento do reino Messiânico não constituía nenhum segredo para os Judeus dos dias de Cristo.  O reino é precisamente o tema da profecia do Velho Testamento e é ali descrito em grande detalhe.  Alguns dos principais factos a serem notados respeitantemente a ele são os seguintes:

1.  Será estabelecido na terra:  Eu Te darei ... os fins da TERRA por Tua possessão” (Salmo 2:8).

A TERRA se encherá do conhecimento do Senhor” (Isa. 11:9).  Um Rei reinará e prosperará, e executará o juízo e a justiça na TERRA” (Jer. 23:5).  Não faltará, nem será quebrantado, até que ponha na TERRA o juízo “ (Isa. 42:4).

Os anjos confirmaram isto quando, no Seu nascimento, louvaram a Deus, dizendo: “Glória a Deus nas alturas, paz na TERRA, boa vontade para com os homens” (Lucas 2:14).

O Senhor também confirmou isto quando disse:  Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão A TERRA” (Mat. 5:5), e ensinou os Seus discípulos a orar: “VENHA a nós o Teu reino.  Seja feita a Tua vontade, assim na TERRA como no céu” (Mat. 6:10).

O reino que João Baptista, o Senhor e os doze proclamaram como “tendo chegado” ou “estando próximo” era na verdade “o reino dos céus” (Mat. 3:1-2; 4:17; 10:5-7), mas seria estabelecido na terra.  Agora, enquanto o seu estabelecimento se encontra suspenso, está investido no próprio Cristo no céu (Col. 1:13), mas o alvo da profecia é o estabelecimento do reino na terra (Rom. 11:25-29).

2.   Será uma teocracia. O próprio Deus reinará na pessoa de Cristo: “Eles chamarão o Seu nome Emanuel, que interpretado é, Deus connosco” (Isa. 7:14; Mat. 1:23).  E o Seu nome será ... Deus forte” (Isa. 9:6).  O Senhor será Rei sobre toda a terra” (Zac. 14:9). “O Rei, o Senhor dos Exércitos” (Zac. 14:16).

3.   Centralizar-se-á  em Jerusalém, a capital de Israel:  De Sião sairá a lei , e a Palavra do Senhor de Jerusalém” (Isa. 2:3). “O Senhor dos exércitos reinará no monte de Sião, e em Jerusalém” (Isa. 24:23).  Nesse tempo chamarão a Jerusalém o trono do Senhor” (Jer. 3:17).  Assim, Ele reinará primariamente sobre Israel (Miq. 5:2).

Isto foi confirmado pelo anjo Gabriel (Lucas 1:32-33), pelos Magos (Mat. 2:1-2) e pelo próprio Senhor (Mat. 19:28).

4.   Estender-se-á a toda a terra: “E todos os reis se prostrarão perante Ele, todas as nações O servirão”(Salmo 72:11).  E foi-Lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas O servissem” (Dan. 7:14).  “Assim virão muitos povos, e poderosas nações, buscar em Jerusalém o Senhor dos exércitos, e suplicar a benção do Senhor” (Zac. 8:22).

5.   Todo o Israel será então salvo:  Todos Me conhecerão, desde o mais pequeno deles até ao maior” (Jer. 31:34).  E os livrarei ... e os purificarei; assim eles serão o Meu povo, e Eu serei o seu Deus” (Eze. 37:23).

Isto foi confirmado por Paulo em Romanos 11:26, etc.

6.   Então o sofrimento e dor de Israel desaparecerão: “Falai benignamente a Jerusalém ... que já a sua malícia é acabada, que a sua iniquidade está expiada” (Isa. 40:2).  Dê-se-lhes ornamento por cinza, óleo de gozo por tristeza, vestido de louvor por espírito angustiado” (Isa. 61:3).  Gozo e alegria alcançarão, e deles fugirá a tristeza e o gemido” (Isa. 35:10).

7.     Então Israel tornar-se-á uma bênção para todas as nações:

E as nações caminharão à tua luz, e os reis, ao resplendor que te nasceu” (Isa. 60:3).  E há-de acontecer, ó casa de Israel e ó casa de Judá, que, assim como fostes uma maldição entre as nações, assim vos salvarei, e sereis uma bênção” (Zac. 8:13).  Naquele dia sucederá que pegarão dez homens, de todas as línguas das nações, pegarão, sim, na orla do vestido dum Judeu, dizendo:  Iremos convosco, porque temos ouvido que Deus está convosco  (Zac. 8:23).

Estas promessas baseiam-se na promessa que Deus fez com Abraão:  Eu multiplicarei a tua semente ... e na tua semente serão benditas todas as nações da terra”  (Gén. 22:17-18).

8.   O governo será purificado:  Julgará com justiça os pobres, e repreenderá com equidade os mansos da terra” (Isa. 11:4).  Porque, como a terra produz os seus renovos, e como o horto faz brotar o que nele se semeia, assim o Senhor Jeová fará brotar a justiça e o louvor para todas as nações” (Isa. 61:11).  Um Rei reinará e prosperará, e executará o juízo e a justiça na terra  (Jer. 23:5).

9.   A guerra e o derramamento de sangue serão abolidos. 3  O Seu nome será ... Príncipe da Paz  (Isa. 9:6).  E Ele exercerá o juízo sobre as Gentes, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em enxadões, e as suas lanças em foices: não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerrear”  (Isa. 2:4).

10.   A saúde e a longevidade de vida serão restauradas na humanidade:  Então os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão.  Então os coxos saltarão como cervos, e a língua do mudo cantará  (Isa. 35:5-6).  Não haverá mais nela criança de poucos dias, nem velho que não cumpra os seus dias; porque o mancebo morrerá de cem anos;  mas o pecador de cem anos será amaldiçoado  (Isa. 65:20). 4

11.   A criação animal será subjugada e amansada:  E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e a nédia ovelha viverão juntos, e um menino pequeno os guiará.  A vaca e a ursa pastarão juntas, e seus filhos juntos se deitarão; e o leão comerá palha como o boi.  E brincará a criança de peito sobre a toca do áspide, e o já desmamado meterá a sua mão na cova do basilisco.  Não se fará dano nem mal algum em todo o monte da Minha santidade, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar”.  (Isa. 11:6-9).

12.  A maldição será removida da criação vegetal:  O deserto e os lugares secos se alegrarão disto; e o ermo exultará e florescerá como a rosa.  Abundantemente florescerá ... porque águas arrebentarão no deserto e ribeiros no ermo.  E a terra seca se transformará em tanques, e a terra sedenta em mananciais de águas”  (Isa. 35:1, 2, 6, 7).

 

A PALAVRA PROFÉTICA E O CRENTE HOJE

Certamente que toda a Escritura é igualmente importante, como Palavra de Deus, e toda ela proveitosa para o homem de Deus.  Apesar disso o estudante inteligente das Escrituras cedo descobre que certas passagens têm uma aplicação mais directa sobre outros que sobre si mesmo e que nesse sentido são mais importantes para esses directamente envolvidos.

Por exemplo, o mandamento para a guarda da Páscoa, envolvia directamente os Israelitas debaixo da lei e, nesse sentido, revestia-se de importância maior para eles que para nós.

Da mesma forma a profecia (excepto a de Paulo) trata directamente com Israel e as nações, e não com o Corpo de Cristo.

Apesar dum profundo interesse na palavra profética ser recomendável, não nos devemos esquecer, contudo, que existe um outro grande corpo de verdade que nos diz respeito mais directamente.

Quando Deus pôs finalmente de parte a nação de Israel, disse, por meio do Apóstolo Paulo:

Seja-vos, pois, notório que ESTA SALVAÇÃO DE DEUS É ENVIADA AOS GENTIOS,  e eles a ouvirão  (Actos 28:28).

Por essa razão Paulo diz, por inspiração:

“...CONVOSCO FALO, GENTIOS, QUE, ENQUANTO FOR APÓSTOLO DOS GENTIOS, GLORIFICAREI O MEU MINISTÉRIO” (Rom. 11:13).

Assim, enquanto Israel e o programa profético são postos de parte temporariamente, a igreja é constituída predominantemente de Gentios na carne, tendo Paulo como seu apóstolo.

É por isso que Paulo fala de “este mistério entre os Gentios” (Col. 1:27) e explica aos crentes Gentios daqueles dias:

Porque não quero, irmãos, que ignoreis ESTE SEGREDO (MISTÉRIO) (para que não presumais de vós mesmos): QUE O ENDURECIMENTO VEIO EM PARTE SOBRE ISRAEL , ATÉ QUE A PLENITUDE DOS GENTIOS HAJA ENTRADO” (Rom. 11:25).

Quando o período aqui referido tiver corrido o seu curso, Deus retomará de novo os Seus tratos com Israel e trará a um termo o programa profético, como declaram os versículos seguintes:

“E, assim, TODO O ISRAEL SERÁ SALVO, COMO ESTÁ ESCRITO: De Sião virá o Libertador, e desviará de Jacob as impiedades.  E ESTE SERÁ O MEU CONCERTO COM ELES ...” (Rom. 11:26.27).

Esta interrupção do programa profético deve sempre ser tida em mente em qualquer consideração da importância da palavra profética.  Como Palavra de Deus, a profecia é tão importante como qualquer outra parte das Escrituras, mas, não nos esqueçamos nunca, trata directamente com Israel e as nações, e não com o Corpo de Cristo.

Assim, é Pedro, e não Paulo, que diz: 5

“E temos, mui firme, a palavra dos profetas, 6  à qual bem fazeis em estar atentos, (como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a estrela da alva apareça) nos vossos corações”  (II Pedro 1:19).

É de novo João, e não Paulo, que escreve na introdução que faz ao Apocalipse:

“Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas, porque o tempo está próximo” (Apo. 1:3).

Certamente que qualquer pessoa que estude reverentemente qualquer parte da Bíblia bendita, é abençoada, mas esta benção especial será a porção dos que estudarem o Livro do Apocalipse e guardarem os seus preceitos nos dias quando a revelação de Cristo em glória estiver novamente próxima.

Assim, é importante lembrar que apesar de toda a Bíblia ser na verdade para nós, as epístolas de Paulo constituem a nossa correspondência privada.  Foi Paulo que foi especialmente escolhido de Deus como apóstolo dos Gentios e aquele por meio de quem o mistério foi revelado.

Que pena é que, nesta dispensação da graça, a igreja abunde em “peritos na profecia”, quando os “peritos” neste “mistério entre os Gentios” são tão raros!

 

A REVELAÇÃO DO MISTÉRIO

Nas Escrituras encontram-se muitos “mistérios”, mas há um que se ergue preeminentemente como “O Mistério”: o grande corpo de verdade outorgado por revelação ao Apóstolo Paulo.

Quando o Messias apareceu pela primeira vez na terra, Deus não estabeleceu imediatamente o Seu reino pela força.  O reino foi primeiramente proclamado como “tendo chegado” ou “estando próximo” e oferecido para que fosse aceite.  Certamente que esta proclamação e oferta foram feitas a Israel, porque os Gentios tinham sido postos de parte desde há muito, quando “eles não se importaram de ter conhecimento de Deus”  (Rom.1:28).  Porém Israel provou não ser melhor que os Gentios, quando pegou no Rei enviado do céu, crucificou-O num madeiro e depois, quando Deus O ressuscitou de entre os mortos, ainda se ergueu em notável façanha, a desafiar o Cristo ressuscitado e glorificado e a desenvolver implacável guerra contra os que ousavam reconhecê-l’O como Messias.

“Estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele  e o mundo não O conheceu.   Veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam  (João 1:10-11).

E assim, antes do estabelecimento do reino glorioso de Cristo, foi concedido ao homem demonstrar a sua própria falha moral e ver por si mesmo que o estabelecimento do reino há muito prometido não seria resultado dos seus próprios esforços ou carácter mas da graça e do poder de Deus, pois o homem fizera tudo no seu poder para impedir o estabelecimento do reino.

Mas “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rom. 5:20).  Quando Israel rejeitou o seu Messias, Deus pôs de parte (temporariamente) a nação juntamente com as outras nações, para que pudesse oferecer a todos os seus inimigos em toda a parte, reconciliação somente por graça, por meio da fé no Cristo rejeitado.  Assim “a dispensação da graça de Deus” foi introduzida (Ef.  3:2) para que os que quisessem aceitar a graça de Deus pudessem ser reconciliados com Ele num só corpo, pela cruz (Ef. 2:16).

“PORQUE DEUS ENCERROU A TODOS DEBAIXO DA DESOBEDIÊNCIA, PARA COM TODOS USAR DE MISERICÓRDIA” (Rom. 11:32).

“E PELA CRUZ RECONCILIAR AMBOS (JUDEUS E GENTIOS) COM DEUS EM UM CORPO , MATANDO COM ELA AS INIMIZADES. E, vindo, Ele evangelizou a paz, a vós (Gentios) que estáveis longe, e aos (Judeus) que ESTAVAM perto” (Ef. 2:16-17).

Nada disto é encontrado em parte alguma da profecia.  Foi, por assim dizer, uma surpresa de graça “oculta dos séculos e gerações”; “guardada em segredo antes dos tempos eternos”.

As principais características deste programa até aqui oculto são as que se seguem:

    1.  A nação de Israel, temporariamente, posta de parte juntamente com os Gentios: “O que Israel buscava não o alcançou” (Rom. 11:7).  A queda deles” (Rom. 11:12).  “A rejeição deles” (Rom.11:15).  Pela sua incredulidade foram quebrados” (Rom. 11:20).  Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência” (Rom. 11:32).

   2.  Misericórdia revelada igualmente a todos: “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência.  PARA COM TODOS USAR DE MISERICÓRDIA  (Rom. 11:32).  Porquanto NÃO HÁ DIFERENÇA entre Judeu e Grego: porque UM MESMO É O SENHOR DE TODOS, RICO PARA COM TODOS OS QUE O INVOCAM.  Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo  (Rom. 10:12-13).  Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem” (I Tim. 2:5).

   3.  O evangelho da graça de Deus proclamado, por meio da obra consumada de Cristo: Daí os clamores de Paulo com respeito ao “ministério que recebi do Senhor Jesus, para testificar do EVANGELHO DA GRAÇA DE DEUS” e da “DISPENSAÇÃO DA GRAÇA DE DEUS que para convosco me foi dada”  (Actos 20:24; Ef. #:2).

  4.  Os crentes reconciliados com Deus pela cruz: “Deus estava em Cristo, RECONCILIANDO consigo o mundo  (II Cor. 5:19).  E PELA CRUZ RECONCILIAR ambos (Judeus e Gentios) com Deus” (Ef. 2:16).  Porque se nós, sendo inimigos, fomos RECONCILIADOS com Deus PELA MORTE DE SEU FILHO” (Rom. 5:10).  A vós também, que noutros tempos éreis estranhos, e inimigos ... agora contudo vos RECONCILIOU, no corpo da Sua carne, PELA MORTE  (Col. 1:21-22).

   5.  Crentes Judeus e Gentios baptizados assim num só corpo: “E pela cruz reconciliar ambos com Deus em UM CORPO (Ef. 2:16).  Que os Gentios são co-herdeiros e de UM MESMO CORPO, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho” (Ef. 3:6).  “HÁ UM SÓ CORPO” (Ef. 4:4).  Todos nós fomos baptizados pelo Espírito formando UM CORPO, quer Judeus quer Gregos” (I Cor. 12:13).  Ora vós sois O CORPO DE CRISTO,  e seus membros em particular” (I Cor. 12:27).  Assim nós, que somos muitos, somos UM SÓ CORPO  em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros”. (Rom 12:5).  “Porque todos quantos fostes baptizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.  Nisto não há Judeu nem Grego ... porque todos vós sois um em Cristo Jesus   Gál. 3:27-28).

   6.  Este corpo de crentes com uma posição em Cristo nos celestiais:  E (Deus) nos ressuscitou juntamente com Ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus  (Ef. 2:6)  Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef. 1:3).  “Mas a nossa cidade está nos céus  (Fil. 3:20).  Portanto, se já ressuscitastes com  Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à direita de Deus.  Pensai nas coisas que são de cima ... porque ... a vossa vida está escondida com Deus  (Col. 3:1-3).

Quão vastamente diferente isto é do reino de Cristo na terra em Jerusalém sobre Israel e as nações!  Quão diferente da paz na terra com toda a nação de Israel salva, a guerra e a doença abolidas, a criação animal domesticada e a maldição removida da criação vegetal!

Que pena estas grandes distinções entre a profecia e o mistério não serem observadas mais geralmente!

   

TOMANDO DEUS À LETRA

Por não reconhecerem o mistério, alguns têm suposto ser necessário alterar a profecia para se explicar a presente condição de Israel e a presença da Igreja deste século predominantemente Gentílica.

Ao verem que o cumprimento da profecia cessou aparentemente pouco depois da crucificação de Cristo, e ao verificarem que muito ainda ficou por cumprir, supõem que Deus não podia querer exactamente dizer o que disse quando prometeu que Cristo se assentaria no trono de David em Jerusalém como Rei de Israel.  Supõem que estas coisas devem ter sido ditas num sentido “espiritual” e concluem assim que Cristo agora encontra-se assentado no “trono de David” à dextra de Deus, confundindo assim a Jerusalém terrena com “a Jerusalém que é de cima”.  Também concluem que a Igreja de hoje é o Israel “espiritual”, que o céu é Canaã, etc.  Porém, de facto, não há nada de espiritual nesta interpretação das Escrituras.  Não tomar Deus à letra e procurar explicar dificuldades alterando arbitrariamente o que foi escrito com clareza, decerto que não é espiritual mas carnal.

Nós objectamos vigorosamente todo este sistema de interpretação porque:

   1.  Deixe-nos à mercê dos teólogos.  Se as Escrituras não querem dizer o que óbvia e naturalmente parecem querer dizer, quem é que tem a autoridade para decidir o que é que elas querem dizer com exactidão?  Se os teólogos têm essa autoridade, então teremos que concordar com Roma, quando diz que a Igreja, não a Bíblia, é a autoridade suprema e final.  De nada nos valerá voltarmo-nos para as Escrituras em busca de luz, pois a Palavra de Deus não quer dizer o que diz e só teólogos adestrados nos podem dizer o que ela quer dizer.

   2.  Afecta a veracidade de Deus.  É um atentado à Sua própria honra.  Se o significado natural e óbvio das promessas do Velho Testamento não é para nós confiarmos, como poderemos confiar em alguma promessa de Deus?  Então, quando Ele diz: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”, Ele também pode querer dizer outra coisa.  Isso seria impensável da parte de Deus, pois é perfeitamente justo que aquele a quem se faz a promessa tenha uma compreensão clara da mesma, uma vez que prometida, tem o direito de reclamar exactamente o que lhe foi prometido.  Diz-se que uma criança afirmou: “Se Deus não quis dizer o que disse, porque é que não disse o que queria dizer?”

  3.   Conduz à apostasia.  Na verdade, é a mãe da apostasia.  Quando se “espiritualiza” Lucas 1:32-33 o Modernista concorda de todo o coração.  Ele concorda que o trono de David e a casa de Israel, nesta passagem, devem ser vistos num “sentido espiritual” - como também os versículos seguintes!  Assim Cristo não nasceu realmente duma virgem.  Esse quadro é meramente esboçado para nos impressionar com a pureza da Sua pessoa, etc.!

E o Modernista nega a ressurreição da mesma forma.  A respeito de Actos 2:30-32 é argumentado que uma vez que Cristo não ocupará realmente o trono de David, Ele também não ressuscitou realmente dos mortos!  As Escrituras que dizem tanto são assim interpretadas “espiritualmente”!

E vem-nos aqui à mente o clamor das “Testemunhas de Jeová” pertencerem aos 144 000.  Perguntai a uma delas a que tribo é que pertence e ela explicará que a profecia dos 144 000 se refere a Israelitas “espirituais” e não físicos!  No entanto somos claramente informados de que haverão 12 000 de cada tribo, e as tribos são nomeadas!

Roma utiliza o mesmo raciocínio.  Ela procura estabelecer o reino de Cristo na terra!  Porque a Igreja de Roma é na realidade um sistema político, com um estado e um estadista na terra, a princípio, pode parecer que, pelo contrário, ela se incline para uma interpretação literal da profecia, porém isso não corresponde à verdade, pois a Igreja de Roma não é Israel literal,  Roma não é Jerusalém, e Cristo não está a reinar.

Aqueles que têm lançado mão da “espiritualização” das Escrituras proféticas, porque não podem explicar a aparente frustração do seu cumprimento, encontrarão a solução para o seu problema no reconhecimento do mistério.  Reconheçam o mistério e não haverá necessidade de se alterar a profecia.

 A IMPORTÂNCIA DO MISTÉRIO PARA NÓS

Antes de consideramos mais este grande corpo de verdade notemos a sua importância suprema para nós.  Dizemos para nós porque Paulo foi particularmente enviado com esta revelação aos Gentios (Ef, 3:1-3).

   1.  Deus tornou-o conhecido:

DESCOBRINDO-NOS O MISTÉRIO DA SUA VONTADE  (Ef. 1:9).

   2.  É da Sua vontade que todos o compreendam:

“E DEMONSTRAR A TODOS QUAL SEJA A DISPENSAÇÃO DO MISTÉRIO  (Ef. 3:9).

  3.  Paulo pediu orações a favor de portas abertas para o tornar conhecido:

“ORANDO... PARA QUE DEUS NOS ABRA A PORTA DA PALAVRA, A FIM DE FALARMOS DO MISTÉRIO DE CRISTO”  (Col. 4:3).

  4.  Ele pediu orações a favor duma boca aberta e de ousadia para o proclamar:

“PARA QUE ME SEJA DADO, NO ABRIR DA MINHA BOCA, A PALAVRA COM CONFIANÇA, PARA FAZER NOTÓRIO O MISTÉRIO DO EVANGELHO” Ef.6:19).   

   5.  O seu conhecimento comunica encorajamento e iluminação espirituais:

PARA QUE OS SEUS CORAÇÕES SEJAM CONSOLADOS (ENCORAJADOS)  ... E ENRIQUECIDOS DA PLENITUDE DA INTELIGÊNCIA ... PARA CONHECIMENTO (gr. Epignosis, CONHECIMENTO PLENO) DO MISTÉRIO” (Col. 2:2).

   6.  Os crentes são confirmados por ele:

ORA, ÀQUELE QUE É PODEROSO PARA VOS CONFIRMAR SEGUNDO O MEU EVANGELHO E A PREGAÇÃO DE JESUS CRISTO, CONFORME A REVELAÇÃO DO MISTÉRIO QUE DESDE OS TEMPOS ETERNOS ESTEVE OCULTO  (Rom. 16:25).

   7.  Proclamado para a obediência da fé:

SE MANIFESTOU AGORA ... PELAS ESCRITURAS PROFÉTICAS  7  ... A TODAS AS NAÇÕES PARA A OBEDIÊNCIA DA FÉ” (Rom. 16:26).

 

DISTINÇÕES BÁSICAS ENTRE A PROFECIA E O MISTÉRIO

 

A PROFECIA

O MISTÉRIO 

Diz respeito a um reino; a uma organização política (Dan.2:44; Mat. 6:10). Diz respeito a um corpo; um organismo vivo (I Cor. 12:12, 27: Ef, 4:12-16).
Um reino a ser estabelecido na terra (Jer. 23:5; Mat. 6:10). Um corpo com uma posição no céu (Ef. 1:3; 2:5-6; Col. 3:1-3).
Cristo será o seu Rei (Jer.23:5; Is. 9:6-7). Cristo é a sua Cabeça viva  (Ef. 1:19-23; Col. 1:18).
O reino foi profetizado “desde o princípio do mundo” (Lucas 1:68-70; Actos 3:21). O corpo foi escolhido em Cristo antes da fundação do mundo, mas “desde os tempos eternos esteve oculto” (Rom. 16:25; Ef. 1:4-11; 3:5-9).
Israel terá supremacia sobre as nações (Is. 60:10-12; 61:6). Judeus e Gentios são colocados ao mesmo nível perante Deus  (Rom.10:12; 11:32; Ef. 2:16-17).
Os Gentios serão abençoados por meio da instrumentalidade de Israel (Gen. 22:17-18; Zac. 8:13). Os Gentios são abençoados por meio da obstinação de Israel (Actos 13:44-46; Rom. 11:28-32).
Os Gentios serão abençoados por meio do levantamento de Israel  (Is. 60:1-3; Zac. 8:22-23). Os Gentios são abençoados por meio da queda da Israel (Actos 28:27-28; Rom. 11:11, 12, 15).
A profecia diz respeito principalmente às nações como tal (Is. 2:4; Ez. 37:21-22). O mistério diz respeito a indivíduos (Rom. 10:12-13; II Cor. 5:14-17).
A profecia diz respeito a bênçãos tanto materiais como espirituais, na terra (Is. 2:3-4; 11:1-9, etc.). O mistério diz respeito a “todas as bênçãos espirituais nos celestiais” (Ef. 1:3; Col. 3:1-3).
A profecia diz respeito à vinda de Cristo à terra (Is. 59:20; Zac. 14:4). O mistério explica a presente ausência de Cristo da terra (Ef. 1:20-23; Col. 3:1-3).
Na profecia a salvação não é contemplada apenas pela graça por meio da fé. A salvação apenas pela graça por meio da fé jaz no próprio coração do mistério (Rom. 3:21-26; 4:5; Ef. 2:8-9).
A proclamação do programa profética foi confiada particularmente aos doze (Mat. 10:5-7; Actos 1:6-8; 3:19-26). A proclamação do mistério foi confiada particularmente a Paulo (Ef. 3:1-3, 8-9; Col. 1:24-27).
O programa profético foi revelado por intermédio de muitos servos de Deus (Lucas 1:70; II Pedro 1:21). O mistério foi revelado por intermédio de um único homem: Paulo (Gál. 1:1, 11, 12; 2:2, 7, 9; Ef. 3:2-3). 9
Os escritores do Velho Testamento não compreendiam frequentemente as profecias que por seu intermédio eram tornadas conhecidas (Dan. 12:8-10; I Pedro 1:10-12). Paulo não somente compreendia como anelava que os outros compreendessem o mistério que por seu intermédio foi revelado.  (Ef. 1:15-23; 3:14-21; Col. 1:9-10; 2:1-3).

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1  No entanto nós, na sequência dos nossos escritos, usamos os termos Velho Testamento e Novo Testamento no sentido aceite por uma questão de acomodação.

2  Ver o livro do autor intitulado, O Duplo Propósito de Deus.

3 Quando, no fim do milénio, Satanás for “solto por um pouco de tempo”, ele enganará a muitos e reunirá um exército contra Jerusalém, mas antes que os seus soldados comecem a lutar, cairá fogo do céu que os devorará e o próprio Satanás será lançado no lago de fogo (Apoc. 20:7-10).

4  Isto é, aquele que morrer aos cem anos de idade será considerado uma criança e terá sido amaldiçoado pelo pecado, que nesse tempo não será tolerado.

5 Nós cremos que os apóstolos da circuncisão foram inspirados a escreverem particularmente a respeito dum dia ainda futuro.  Quando o Corpo de Cristo for arrebatado e a grande tribulação começar, Israel será “dispersa” (I Pedro 1:1; Tiago 1:1) e “o fim de todas as coisas” estará de novo “próximo” (I Pedro 4:7; I João 2:18).

6   Isto é, pela visão pessoal que Pedro teve do Cristo transfigurado.  Como é que alguma outra coisa poderia firmar melhor a Palavra de Deus?

7  Isto é, os próprios escritos de Paulo; não as Escrituras do Velho Testamento, claro.  Ver o “agora” em Ef. 3:5.

8   Os que põem em questão a associação dos pontos registados deste cabeçalho com o mistério não têm senão que investigar e ver se os podem encontrar na profecia.

9   Algumas vezes aparece quem argumente, baseando-se em Ef.3:5, que Paulo foi apenas um dos muitos “apóstolos e profetas” a quem o mistério foi revelado.  As palavras “pelo Espírito” são significantes nesta relação.  Paulo recebeu primeiro a verdade do mistério “pela revelação de Jesus Cristo” (Gál. 1:12; Ef. 3:3; etc.).  Depois “subiu por uma revelação” e comunicou-o aos líderes em Jerusalém (Gál. 2:2 e eles “viram” e “conheceram” e deram a Paulo e a Barnabé, seu companheiro, as dextras da comunhão” (Gál. 2:7, 9).  Certamente que foi “pelo Espírito” que eles “viram” e “conheceram “estas verdades, mas não antes de Paulo lhas ter comunicado.

   

QUESTIONÁRIO

1.  Qual é a divisão mais importante da Bíblia?   2.  Quando e por meio de quem foi feito o velho concerto (testamento)?   3.  Quando e por meio de quem foi feito o novo concerto?   4.  Qual é o tema principal da profecia?   5.  Qual a forma de governo que prevalecerá no reino Messiânico?   6.  Onde é que o reino será estabelecido?    7.  Que grande mudança ocorrerá em Israel com o estabelecimento deste reino?   8.  Qual será a relação dos Gentios com Israel no reino Messiânico?    9.  Qual é o tema principal do mistério?   10.  Em que ponto, na história de Israel, é que Deus principiou a revelar o mistério?   11.  Qual é a posição relativa dos Gentios em relação aos Judeus, perante Deus, hoje em dia?   12.  Qual é a relação existente entre os crentes Judeus e Gentios hoje em dia?   13.  Onde se encontra hoje a posição do crente e a sua cidadania?   14.  Qual o método de interpretação erróneo têm alguns teólogos aplicado às profecias do reino?   15.  O que é que os levou a adoptar este método?   16.  Como é que este método de interpretação afecta o resto da Bíblia?   17.  Qual é a relação deste método com as prevalecentes heresias dos nossos dias?   18.  Qual é a solução para o problema que tem levado alguns teólogos a adoptar este método?   19.  Nomeie cinco diferenças básicas entre a profecia e o mistério.   20.  Apresente cinco passagens Bíblicas que revelem a importância do mistério.

- C.R.S.