Índice:

 Editorial

 

 J. C. O’Hair - Testemunho de Cornelius R. Stam

 

 A Era O’Hair

 

 UM PRINCÍPIO SIMPLES NO ESTUDO DA BÍBLIA

 

 MENSAGENS BÍBLICAS PARA BEREANOS

 

 Uma Página do Diário de John Wesley

 

 RELATOS DA II GRANDE GUERRA

 

 REAVIVAMENTO

 

 A LOUCURA DOS ATEUS

 


 

EDITORIAL

 

«Ora, Àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto» 

- Romanos 16:25

 

A Bíblia apresenta a pregação de Jesus Cristo segundo a profecia durante a maior parte das Escrituras, mas, em Romanos 16.25, Paulo fala da pregação de Jesus Cristo «conforme a revelação do mistério», como sendo a forma aprovada da pregação de Jesus Cristo na presente dispensação da graça e o único meio de se alicerçar hoje os crentes na verdade do evangelho.

 

Como é que o leitor tem pregado, ou ouvido pregar o Senhor Jesus Cristo? Tem consciência que Ele não pode ser pregado de qualquer modo?

 

Infelizmente são poucos os que têm notado esta diferença. Na Cristandade vemos Cristo ser pregado de toda e qualquer forma, porém Paulo é claro ao dizer que hoje, a única forma aprovada de pregação de Jesus Cristo deve ser conforme a revelação do mistério.

 

Para se saber o que significa pregar Cristo conforme a revelação do mistério é preciso saber-se em que consiste o mistério.

 

O mistério a que Paulo se refere era um segredo (Rom. 16.25), que esteve escondido em Deus (Efé. 3.9), desde todos os séculos e em todas as gerações (Col. 1.26), que não foi manifestado aos filhos dos homens noutros séculos (Efé. 3.5). Por conseguinte não pode ser encontrado nas Escrituras proféticas. A frase «as riquezas incompreensíveis de Cristo» (Efé. 3.8) significa que estas riquezas não podem ser traçadas nas Escrituras proféticas. Trata-se dum segredo de amor – a melhor boa notícia jamais ouvida pelo ouvido humano. Quando na linha profética tudo indicava que o juízo implacável de Deus cairia sobre Judeus e Gentios, Ele resolveu revelar um segredo, a saber, que daria uma oportunidade única e gloriosa ao mundo inteiro, salvando os que cressem e formando com eles um Corpo do qual Cristo é a Cabeça. Esta verdade, esta notícia maravilhosíssima, foi revelada a Paulo, e ele denomina-a de «o meu evangelho» (cf. Rom. 16.25)

 

A revelação do mistério encontra-se nas epístolas de Paulo tendo-lhe este sido revelado em primeira mão pelo Senhor (Efé.3.2,3; cf. Gál.1.11,12)..

 

É importante vermos nas epístolas de Paulo como o Senhor Jesus Cristo é apresentado, e notarmos como é bem diferente da forma que o era anteriormente, quando Ele esteve a ser anunciado a Israel. É importante saber que «... ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo, AGORA, já O não conhecemos desse modo» (2 Cor. 5.16).

 

Mas atentemos bem para os seguintes exemplos práticos que diferenciam bem o que acabámos de afirmar, e que nos ajudarão, decerto, a ver melhor o que afirmámos:

 

Pregar hoje Jesus Cristo de acordo com o que os profetas anunciaram (Luc. 1.67-75; 24.47; Act. 3.19-24),  é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a revelação do mistério. Pregar conforme a revelação do mistério é  pregar, Jesus Cristo conforme Paulo foi ensinado a pregar e ensinou, a saber, aquilo que nenhum profeta soube - e muito menos revelou -, pois o ignorava em absoluto, uma vez que estava em segredo, como Paulo diz em  (Efé. 3.4,5, 8,9; Col. 1.26; Rom. 16.25).

 

Pregar hoje que o reino de Deus é chegado (Mat. 10.7) é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a revelação do mistério. Pregar conforme a revelação do mistério é  pregar como Paulo diz, a saber, que Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou, segundo as Escrituras (I Cor. 15.1-4; cf. 11.26). Pedro, por exemplo, durante os 3 anos de ministério do Senhor Jesus na terra, pregou Jesus Cristo e não entendia, nem queria, que Jesus morresse na cruz (Luc. 18.31-34; Mat. 16.21,22).

 

Pregar hoje que Deus não nos perdoará se não perdoarmos, ou que alcançamos perdão quando o fazemos (Mat. 6.14,15) é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a revelação do mistério. Pregar conforme a revelação do mistério é  pregar como Paulo diz, a saber, que devemos perdoar aos outros porque já estamos perdoados (Efé. 4.32).

 

Pregar hoje a morte do Senhor Jesus Cristo como motivo de arrependimento e lágrimas (Actos 2.22-38), - «Varões israelitas, escutai estas palavras: A Jesus  ... tomando-O vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos ... Saiba, pois, com certeza, toda a casa de Israel que a Esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo. Ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, varões irmãos? E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo» -  é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a revelação do mistério. Pregar  conforme a revelação do mistério é  pregar a morte do Senhor Jesus Cristo, como Paulo diz, a saber, como motivo de grande gozo e alegria, «Mas longe esteja de mim gloriar-me (ou, regozijar-me excelsamente), a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu, para o mundo» (Gálatas 6:14  ). Pedro pregou a cruz como más notícias de que os Judeus se deviam arrepender e chorar. Paulo pregou a cruz como boas notícias de que nos devemos regozijar e agradecer.

 

Pregar hoje que se a nossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus se modo nenhum entraremos no Reino dos céus (Mat. 5.20),  é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a revelação do mistério. Pregar conforme a revelação do mistério é  pregar como Paulo diz, a saber, «estais perfeitos nEle» (Col. 2.10).

 

Pregar hoje que receberemos tudo o que pedimos (Mat. 21.22) é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a revelação do mistério. Pregar conforme a revelação do mistério é  pregar  como Paulo diz, a saber, que receberemos tudo, muito mais abundantemente, além daquilo que pedimos ou pensamos  (Efé. 3.20).

 

Pregar «ao que vencer» (Apoc. 2.7,17,26;3.21) é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a revelação do mistério. Pregar conforme a revelação do mistério é  pregar  como Paulo diz, a saber, «que somos mais do que vencedores por Aquele que nos amou» (Rom. 8.37).

 

Preguemos Cristo, segundo a revelação do mistério!                 

 

 - C.M.O.

 


 

J. C. O’Hair

Testemunho de

Cornelius R. Stam

 

 John C. O’Hair deixou este mundo para estar com o Senhor em 1958, com 82 anos de idade. Ele serviu fielmente o Senhor, que tanto amava, durante mais de 65 anos.

 

J. C. O’Hair nasceu nos E.U.A., em Little Rock, no estado do Arkansas, no dia 31 de Dezembro de 1876 e viveu uma notável vida preenchida: treinador de futebol, comerciante de vestuário, empreiteiro, ministro Presbiteriano, secretário da embaixada dos E.U.A. no México e, durante o período mais longo da sua vida, ministro da Palavra na Igreja em North Shore, na cidade de Chicago. Conduzido ao Senhor por Miss Ethel Andersen, com quem mais tarde se casou, dedicou de imediato a sua vida ao serviço de Cristo. J. C. O’Hair e a esposa viveram juntos mais de cinquenta e seis anos – um casal verdadeiramente devoto.

 

         Conheci J. C. O’Hair nos primeiros anos da década de 1920. Tendo, eu, começado a compreender algo da revelação entregue a Paulo e do programa de Deus para a presente dispensação, mas apercebendo-me que me encontrava isolado no meu ponto de vista, um dia chegou-me às mãos um pequeno opúsculo de capa vermelha que continha dois sermões de J. C. O’Hair, intitulados, Jesus Cristo – Ministro da Circuncisão e  Os Doze Apóstolos e Paulo. Fiquei grandemente excitado quando vi ali, preto no branco, algumas das verdades que tinha chegado a ver, juntamente com outras verdades relacionadas que ainda não compreendia. Logo que pude pedi mais literatura de J. C. O’Hair a fim de distribuir, mas aquele pequeno opúsculo de capa vermelha continua guardado no meu escritório como uma preciosa lembrança.

 

         O efeito do ministério de J. C. O’Hair na igreja professa foi profundo. De facto, ainda vemos por toda a parte os resultados da sua proclamação fiel e destemida daquelas verdades distintas que se relacionam com a presente dispensação. Para além das suas responsabilidades como pastor na Igreja em North Shore (Chicago), ele conduziu um ministério de rádio eficaz e publicou mais de 150 livros e opúsculos de estudo bíblico, alcançando muitos milhares de pessoas com «a pregação de Jesus Cristo segundo a revelação do mistério».

 

         Conhecer J. C. O’Hair significava amá-lo, pois ele era totalmente despretensioso, modesto, e possuía um afectuoso sentido de humor que inspirava os amigos e desarmava os inimigos. Ele apresentava os jovens como seus amigos chegados e valiosos, e dizia a quem o chamava de “Reverendo”: “Não me chameis Reverendo; sou um homem de negócios”, conquistando ali outro amigo!

 

         Um domingo de manhã disse à sua congregação: “Tenho consciência de que estais aqui a olhar para mim há muito tempo, e imagino que alguns de vós estareis a ficar cansados disso, mas quero que saibais que o sentimento é mútuo! Só J. C. O’Hair podia dizer isto e ser amado.

 

         Era muito brincalhão com os jovens. Quando o caixa de um Restaurante lhe perguntou como se sentia, “lamentou-se”, “Sinto-me um pouco encarneirado”. Tínhamos acabado de comer carneiro! E comentando os pontos de vista contraditórios de um dos seus oponentes, disse, “Quando era miúdo, vi uma vez, no circo, um homem a montar dois cavalos ao mesmo tempo, mas não em direcções opostas!”

 

         Este humor afectuoso, cintilante, também lhe foi muito útil no seu  ministério. Aos clamores dos movimentos de curas ele respondia: “A morte ainda continua a ser per capita”. A uma pessoa que, ao telefone, lhe perguntava se ele não achava que o mundo estava a ficar cada vez pior, ele respondeu, “É óbvio que está; há cada vez mais pessoas nele”.

 

         Agradeci muitas vezes a Deus pelos conselhos sábios e ternos de J. C. O’Hair, quando era jovem e estava no princípio do meu ministério. “Não estudes apenas para os sermões”, dizia ele: “Estuda – estuda até transbordares, e terás os sermões”. E muitas vezes ele instava com os jovens pregadores: “Ensinai a Bíblia e não tereis problemas de rivalidade!” E mais do que uma vez, quando as coisas estavam a ficar difíceis ele suspirava e dizia, “Senhor, ajuda-nos, pois somos fracos”.

 

         Apesar de todo o seu natural humor Irlandês, J. C. O’Hair era extremamente cuidadoso e piedoso no que às coisas de Deus dizia respeito. Ele não podia tolerar piadas acerca do inferno ou das coisas sagradas. Para ele, o destino de uma alma tratava-se de uma questão demasiado séria. Ele amava profundamente o Senhor e as almas por quem Ele morreu. Para ele era perfeitamente natural tratar muito seriamente a respeito da salvação com uma empregada de restaurante, um funcionário de uma bomba de gasolina, ou quem quer que fosse. E eles pareciam gostar dele por isso.

 

         Ele era o mesmo no que dizia respeito ao estudo da Palavra de Deus. Uma vez, depois de ter lutado muito tempo na noite anterior com um problema teológico, disse-nos como tinha sido grandemente encorajado ao ler Tiago 1.5:

 

         «E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada».

 

         Ao ele analisar este versículo uma pessoa pensava que ele o tinha visto pela primeira vez, tão animado ficava com ele. Isto provou ser uma ajuda para ele. Ele era o homem a quem os seus opositores acusavam de ter falta de amor pelas almas, e que rejeitava tudo, menos as epístolas de Paulo!

 

         Como pregador do evangelho ele era inigualável, e sem dúvida que isso se devia, em grande parte, ao entendimento que ele tinha, com muita clareza, do “evangelho da graça de Deus” não adulterado. Só os que o ouviram pregar o evangelho sabem quão poderoso ele foi como evangelista.

 

         Numa geração que, já nessa altura, colocava tanta ênfase no “ter que se tomar decisões”, ele estava de longe acima dos seus iguais no ganhar almas para Cristo, e certamente que muito acima deles no conseguir “bebés” recém-nascidos estabelecidos na fé.

 

         Não admira Satanás opor-se-lhe por todos os meios imaginários! Disseram persistentemente mentiras a seu respeito inventando uma série de mitos em torno da sua pessoa. Todavia não poderia haver maior testemunho da sua bondade e compreensão como o facto de que aqueles que estavam mais perto dele o amarem muito.

 

Para o fim da sua vida J. C. O’Hair era um guerreiro cicatrizado pelas batalhas que o tinham tornado quase imune às calúnias. Ele sabia que tinha a verdade no que dizia respeito à mensagem Paulina, e ele pregou-a com tal confiança que desarmava e algumas vezes enraivecia os que colocavam a conveniência à frente dos princípios. Quando lhe mencionei a injustiça e má fé de um dos seus opositores que com maldade o deturpava, ele respondeu, “Bem, Neill, parece que quando se tem sido muito ferido já nada dói!”.

 

         Nos seus últimos dias de vida na terra a fé dele parecia brilhar cada vez mais. Na véspera da sua morte ele recitou todo o capítulo cinco da carta aos Romanos e disse, “É o capítulo que todos deveriam ler em primeiro lugar”. Entre outras coisas ele assinalou “o poder do perfeito plano de Deus da redenção” e disse, “Que maravilhoso é estar salvo!”

 

         Tenho dito muitas vezes acerca de mim que houve três homens que especialmente me inspiraram e encorajaram na minha juventude. No início da minha juventude foi o meu próprio pai, Peter Stam, um homem de Deus verdadeiramente fiel e frutífero. Depois, como jovem ministro recém casado, Herman Braker, um antigo Presbiteriano valente que viria a conhecer a graça. Ele chamou muitas vezes a minha atenção – sempre que estávamos sós – para os defeitos da minha pregação, mas aos outros ele dizia, “Já ouvistes o Neil Stam pregar? Deveríeis ouvi-lo; sereis ricamente abençoados”. Depois, a seguir à morte de Herman Braker, surgiu J. C. O’Hair. Nunca poderei exprimir por palavras o que os ensinamentos, o encorajamento, o criticismo e a amizade de J. C. O’Hair significou para mim. Nunca esquecerei a sua fidelidade a Deus e à Sua Palavra, e o seu cuidado comigo, como jovem ministro – e nós sabemos que muitos milhares de crentes, pregadores ou não, têm dado com gratidão o mesmo testemunho.

 

Ao terminar: a melhor forma de nós agora podermos mostrar a nossa gratidão a Deus por este bom soldado de Jesus Cristo», é revestirmo-nos «de toda a armadura de Deus» e firmarmo-nos, como ele, na bendita mensagem que tem trazido tanta luz e alegria aos nossos corações.

- C. R. S.

 

 


 

A Era O’Hair

Por Cornelius R. Stam

 

Durante os anos decorridos entre 1923 e 1958 John C. O’Hair, pastor na Igreja em North Shore (Chicago), foi sem dúvida usado por Deus muito mais do que qualquer outro homem para ajudar os crentes sinceros a compreenderem o que Paulo chama «o meu evangelho, e a pregação de Jesus Cristo segundo a revelação do mistério» (Rom. 16.25).

 

«Manejando bem a Palavra da verdade», ele compreendia e proclamava vigorosamente as diferenças vitais entre:

 

1.    O ministério dos doze apóstolos e o de Paulo.

2.    O que «Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio» (Act. 3.21) e o que «desde tempos eternos esteve oculto» (Rom. 16.25), isto é, o programa profetizado proclamado pelos doze, e «o mistério», ou segredo, mais tarde revelado por intermédio de Paulo.

3.    «O evangelho do reino» (Mat. 4.23) e «o evangelho da graça de Deus» (Act. 20.24).

4.    A chamada e esperança terrena de Israel – o povo escolhido de Deus (Jer. 23.5,6; Zac. 8.13,23) e a chamada e esperança celestial da Igreja desta presente dispensação, o Corpo de Cristo (Efé. 1.13,18; Col. 1.5).

5.    O baptismo na água, que foi proclamado «para a remissão dos pecados» desde os dias de João Baptista até Pentecostes (Mar. 1.4; Act. 2.38), e o «um só baptismo» (Efé. 4.5), pelo qual o Espírito Santo agora baptiza os crentes no «um só corpo» (I Cor. 12.13).

 

Como ele combateu a confusão e divisão teológica que prevalecia – e ainda prevalece – entre os que procuram em vão levar a cabo a “grande comissão” dada aos doze! Como ele provou pelas Escrituras que a sua única esperança de unidade doutrinal residia apenas na mensagem de Deus apresentada por Paulo com o seu «um só Corpo» e «um só baptismo»!

 

A união através do compromisso era anátema, para este fiel ensinador da Palavra. Vencendo os seus opositores com argumentos oriundos das Escrituras, ele provou que o gozo da verdadeira unidade entre o povo de Deus deve ser baseado na apreciação do facto bíblico de que  somos um  em Cristo (Rom. 12.5; I Cor. 12.12,13,27; Efé. 4.4-6).

 

A FERIDA

 

Muito do que O’Hair ensinava era alegremente recebido, e a verdade da unidade do Corpo tornou-se preciosa para muitos, mas a grande maioria de pastores e líderes espirituais estacava na doutrina do “um só baptismo”.

 

Eles tinham labutado sob a chamada “grande comissão” durante muito tempo, tinham baptizado na água demasiadas pessoas, tinham escrito demasiados panfletos sobre o assunto. De facto, com muitos deles tratava-se grandemente de uma questão de pão, manteiga e pensões, pois as suas respectivas denominações tê-los-ia excomungado se ousassem ensinar que o baptismo na água não está incluído no programa de Deus para hoje. Em muitos casos o medo do homem abafava as convicções deles.

 

Como resultado eram intimidados a defenderem um rito religioso que é biblicamente indefensável, e muitos chamaram de perturbadores a O’Hair e àqueles de nós que nos erguemos com ele, sempre que falávamos no assunto. O tema do baptismo na água era de facto “a ferida”. Nesta relação é interessante notar que até agora os nossos opositores não conseguiram sequer produzir um livro de 100 páginas para responderem, pelas Escrituras, aos nossos ensinos sobre o assunto, apesar de sabermos de alguns terem tentado e desistido.

 

Um resultado adicional foi a maioria dos líderes fundamentalistas ter gradualmente perdido o terreno que tinha ganho no «manejar bem a Palavra da verdade». A maioria começou a defender com mais inflexibilidade do que nunca, o ponto de vista anti-bíblico de que a chamada “grande comissão” é a comissão do Senhor para os nossos dias. Isto apesar de nenhum deles obedecer ou poder obedecer a esta “grande comissão”.

 

Regrediram tanto que apenas uma minoria de fundamentalistas ficou no ponto de vista dispensacional de Darby e Scofield. A maioria fez recuar os seus ouvintes e leitores para os ensinos de Jesus (na terra), para «o evangelho do reino» e o sermão da montanha, como fizeram os modernistas uma geração antes.

 

A CURA

 

Muitos acham que a falta de oração, o fracasso em se viver vidas santificadas, a indiferença para com os perdidos, etc., etc., são a razão real para o baixo estado espiritual da igreja. Contudo, isso é o efeito, não a causa. A causa, como temos declarado, é o desvio da igreja da mensagem e programa de Deus para os nossos dias, como se encontra revelado nos escritos do apóstolo Paulo. É ali que jaz a raiz do problema, apesar de, comparativamente, serem poucos os que o reconhecem.

 

Com Israel foi o desvio da Lei de Moisés que os conduziu constantemente a problemas; connosco tem sido o desvio da verdade Paulina pois, lembremo-nos, do mesmo modo que a dispensação da Lei foi dada a Moisés, a dispensação da graça foi entregue a Paulo (Efé. 3.1-4), e aqueles de nós que temos resvalado e recuado, desde os seus dias até aos nossos, temo-lo feito, não apenas pelo desvio da Palavra de Deus em geral, mas pelo desvio dos ensinos de Paulo em particular. Assim, a cura para a nossa doença presente é um retorno à mensagem das epístolas Paulinas.

 

Nas epístolas inspiradas de Paulo encontramos tanto a evidência da tendência, da parte dos crentes, para se desviarem da senda da bênção, como o diagnóstico que Deus faz ao motivo do problema. Em todo o caso o motivo é a rebelião contra a autoridade dada por Deus a Paulo e o desvio da mensagem e programa que Deus lhe deu.

Ah, como a Igreja se desviou bem cedo da grande revelação que o Senhor glorificado deu a Paulo! O declínio, que começou ainda durante o tempo da sua vida (Gál. 1.6, etc.) continuou velozmente, de tal modo que ainda no primeiro século, depois de Cristo e de Paulo, encontramos os pais da igreja a dizerem: “Quem é este Paulo? Ele nem sequer foi um dos apóstolos!”. Em vez de reconhecerem a autoridade da mensagem que Deus deu a Paulo, estes líderes da igreja confundiram tudo com a mensagem do reino proclamada por João Baptista, Cristo (na terra) e os doze, requerendo mesmo o baptismo na água para a remissão dos pecados.

 

E esta apostasia continuou a agravar-se até aos séculos das trevas, quando Roma dominava e uma mistura de Cristianismo, Judaísmo e idolatria pagã prevaleceram.

 

Posteriormente a Igreja começou a emergir das trevas e da superstição do Romanismo quando Lutero, Zwinglio, Calvino e outros foram usados por Deus para redescobrirem a verdade Paulina. E, graças a Deus, ainda maiores avanços foram depois conseguidos por homens como Darby, Scofield, Bullinger, Sir Robert Anderson, e especialmente J. C. O’Hair. Mas muito, muito mesmo, ainda continua por fazer. Aqueles que agora trabalham para levar a cabo a comissão do Senhor glorificado para nós (2 Cor. 5.14-21), que desejam recuperar e tornar conhecida a mensagem da graça e da glória, terão de orar e esforçar-se e sacrificar-se como nunca antes para causarem impressão nas multidões indiferentes – incluindo os Cristãos indiferentes. Os que conhecem a verdade mas mantêm um silêncio discreto por causa do “temor do homem”, ou porque “amam o louvor dos homens”, sim, e todos os que de alguma forma não proclamam toda a verdade por amor da diplomacia – todos eles terão de pôr de parte os seus interesses egoístas se quiserem que a graça de Deus brilhe amplamente de novo com algum grau de resplendor.

 

UMA RESPONSABILIDADE PESSOAL

 

É claro que sabemos que o reino prometido será trazido com  o retorno de Cristo, e não pelos esforços dos homens. Mas nós não temos estado a debater o reino. Temos estado a debater o programa revelado de Deus para «este presente século mau», o tempo da rejeição e ausência de Cristo, e Deus tem ordenado aos que vivem durante o período deste século, que tornem conhecida a mensagem da graça a todos os homens. O facto de «os homens maus e enganadores irem de mal para pior» não nos iliba desta responsabilidade. É nestas trevas densas que devemos resplandecer «como astros no mundo» (Fil. 2.15,16).

 

A graça de Deus manifestou-se para resplandecer sobre toda a humanidade a despeito da oposição mais acérrima e satânica (Tit. 2.11). Depois a tocha começou a tremular, tornando-se mortiça durante os séculos das trevas. Posteriormente a luz começou de novo a avivar e a tornar-se mais brilhante. Mas ainda tem que se fazer mais a fim de a tornar mais resplandecente.

 

Que Deus nos dê, então, fé e coragem para nos erguermos e firmarmos – como O’Hair – e proclamarmos com o poder do Espírito «a pregação de Jesus Cristo segundo a revelação do mistério». Na verdade, que cada vez maior número de homens de Deus consagrados e cheios do Espírito se ergam para tornarem conhecida esta bendita mensagem. O Senhor vem brevemente para nós, e nessa altura, enquanto por um lado será glória estar com Ele, será irremediavelmente tarde de mais para alcançar outros com «o evangelho da graça de Deus».

-C.R.S.

 

 


 

UM PRINCÍPIO SIMPLES

NO

ESTUDO DA BÍBLIA

Por J. C. O’Hair

 

I Pedro 1.10 diz-nos que os profetas de Israel predisseram os sofrimentos e a glória de Cristo. Em Efésios 3.9 somos informados que a «dispensação do mistério» e «as riquezas incompreensíveis de Cristo»  estavam escondidas em Deus e não foram dadas a conhecer aos profetas de Israel. Ao longo de todo o livro dos Actos e ao longo das epístolas de Pedro, Paulo, Tiago e João, devemos distinguir entre aquilo que os profetas de Israel disseram que iria acontecer e aquilo que nenhum deles sequer insinuou que sucederia: «oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações»; «noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens»; (Col. 1.25,26; Efé. 3.3-5).

 

         Se não houve nenhuma mudança no programa de Deus desde que foram escritas as epístolas aos Efésios e Colossenses, então esta ainda é a Dispensação do Mistério, que significa a Dispensação que tinha sido um mistério até ter sido revelada pelo Cristo glorificado ao Apóstolo Paulo e por seu intermédio. Para os estudiosos da Palavra de Deus, para os membros da Igreja que é o Corpo de Cristo, não há nada de misterioso, místico ou escondido no que respeita à dispensação da Graça e à herança mútua da Cabeça e dos membros do Corpo, vivificados juntamente e juntamente assentados nos mais elevados lugares celestiais, constituindo O Novo Homem que Deus está agora a formar, enquanto o Seu propósito e programa com Israel tem sido abandonado temporariamente (Efé. 1.9-22; 2.4-17). Exceptuando a actual preservação Divina de Israel no mundo, Deus suspendeu os Seus concertos e promessas com Israel e as outras nações, até ter cumprido aquilo que Ele propôs em Cristo Jesus séculos antes de ter feito quaisquer concertos com a Sua nação e a sua terra prometida (2 Tim. 1.9; Efé. 3.11).

 

         A esperança de Israel está identificada com os sofrimentos e a glória de Cristo preditos pelos  profetas de Israel. Essa esperança será realizada quando Cristo se apresentar como Filho do Homem no trono da Sua glória (Mat. 25.31). Ali assentar-se-ão com Ele os Seus doze apóstolos (Mat. 19.28). O Filho do Homem virá com poder e grande glória (Luc. 21.27-31). Ele restaurará tudo (Act. 3.21). Moisés, Samuel, e todos os profetas falaram de «estes dias» (Act. 3.24). «Estes dias» foram prometidos nos concertos (Act. 3.25). Nesse tempo Cristo governará a partir do trono de David (Isa. 9.6,7).

 

         «Estes dias» de graça, «estes dias» do Corpo de Cristo, não são os «estes dias» da esperança de Israel, predita por Moisés, Samuel e outros.

«Estes dias» foram predestinados antes da fundação do mundo, mas não foram preditos pelos profetas de Israel.

 

         Nenhum dos doze apóstolos, no seu ministério dos Actos, falou destes dias. Eles referiram-se a uma esperança e bênçãos prometidas pela pena de David, Joel, Amós, Moisés, Samuel, e outros. Tenhamos cuidado em não confundir as promessas proféticas com o mistério. Não confundamos a esperança do Corpo de Cristo com a esperança de Israel.

           

 


 

MENSAGENS BÍBLICAS

PARA BEREANOS

 

Por J. C. O’Hair

 

NOTA: O seguinte prefácio e artigo é o extracto de uma cópia original da primeira edição da revista “Estudo Bíblico Para Bereanos”, publicada por J.C.O’Hair em Agosto de 1935. Esperamos que desfrute deste excerto retirado do fundo nossos arquivos.

 

Publicamos esta primeira edição de Estudo Bíblico Para Bereanos com o propósito, desejo e esperança de podermos estimular, encorajar, ou provocar, entre os filhos de Deus, o estudo da Bíblia de uma forma real, honesta e diligente. A ignorância profunda da Bíblia entre os membros da igreja é espantosa.

 

         Rogamos sinceramente e desejamos a cooperação fervorosa de todo o filho de Deus espiritual que aprecie o Evangelho da Graça de Deus e que realmente deseje receber e pesquisar as Escrituras sem o receio ou o favor do homem ou de organizações religiosas. Será desnecessário e inútil apelar aos crentes para quem a lealdade e orgulho denominacional, ou ideias preconcebidas, interferem com o estudo da Palavra de Deus honesto, inteligente e imparcial. Por isso o nosso estudo bíblico é para Bereanos.

 

         Tem sido repetidamente afirmado que mais de noventa e cinco por cento dos membros de igreja permitem que os seus líderes pensem por eles, e que noventa e cinco por cento dos seus instrutores têm sido tão influenciados pelas tradições dos pais da igreja e pelos credos eclesiásticos denominacionais que menos de cinco por cento, quer dos líderes quer dos seguidores, querem, se puderem, estudar a Bíblia com mentes despreconcebidas e com corações abertos e honestos.

 

         Tenhamos sempre em mente que nenhum servo do Senhor tem qualquer verdade nova a apresentar. A revelação progressiva cessou com o fim da Revelação há mais de 1800 anos. Desde então, “tudo o que é verdadeiro não é novo” e “tudo o que é novo não é verdadeiro”, no que diz respeito à Palavra de Deus inspirada.

 

         Nenhum crente, ou grupo de crentes, recebe qualquer revelação especial da verdade Divina, ou interpretação da verdade, como os antigos santos homens que foram movidos pelo Espírito Santo para nos trazerem as Sagradas Escrituras. O membro do Corpo de Cristo mais humilde, mais ignorante, o bebé em Cristo recém nascido, possui o Espírito Santo tanto, como  o ensinador da Bíblia mais dotado. Os homens não são guiados à verdade pelo Espírito Santo independentemente da Palavra escrita de Deus. E, com toda a certeza, os milhões de membros de igreja, que se encontram doutrinalmente no erro, não foram guiados pelo Espírito Santo na má interpretação que fizeram das Escrituras.

 

Os sistemas humanos de interpretação deixam-nos entregues a inconsistências e aparentes contradições na Bíblia, com misturas impuras que desagradam ao Senhor. “Toda a Escritura ... é proveitosa para ensinar, redarguir, corrigir, e instruir em justiça”. Mas toda a Escritura deve ser bem manejada para se obter a verdadeira interpretação, apropriação e aplicação.

 

 


 

  Uma Página do Diário de John Wesley

 

Domingo AM, 5 de Maio, preguei em St. Ann, pediram-me para não voltar mais.

 

Domingo PM, 5 de Maio, preguei em St. John, os diáconos disseram, “Vá-se embora e não volte”.

 

Domingo AM, 12 de Maio, preguei em St. Jude, também não posso voltar lá.

 

Domingo PM, 12 de Maio, preguei em St. George, expulso de novo.

 

Domingo AM, 19 de Maio, preguei em St. qualquer coisa, os diáconos fizeram uma reunião especial e disseram-me que não podia voltar.

 

Domingo PM, 19 de Maio, preguei na rua, expulso da rua.

 

Domingo AM, 26 de Maio, preguei na campina e fui expulso como se de um touro se tratasse.

 

Domingo AM, 2 de Junho, preguei numa ponta da cidade, e fui expulso.

 

Domingo PM, 2 de Junho, culto da tarde, preguei num prado, vieram ouvir 10.000 pessoas.

 

 


 

 

RELATOS DE ACONTECIMENTOS ANTES, DURANTE E DEPOIS DA

II GRANDE GUERRA

 

4. Experiências do fim da guerra

 

No fim da guerra, eu tinha 13 anos de idade e morava, devido à evacuação das cidades, com a minha irmã em casa da nossa tia em Waren, junto ao lago de Müritz. A casa dos nossos pais era em Berlim, onde eles também estavam.

 

Como todos os rapazes, eu pertencia ao "Jungvolk" [departamento para rapazes dos 10 aos 14 anos] da Juventude Hitleriana. Isto era obrigatório. Como, todavia, não possuía um uniforme daquela organização, eu, e por consequência a minha família, não éramos considerados empenhados em relação ao partido.

 

Quando, em finais de Janeiro de 1945, as aulas foram suspendidas, devido ao aproximar da frente leste, passámos a ter de comparecer diariamente à chamada e ao serviço da Juventude Hitleriana. Eram-nos dadas tarefas, como serrar madeira na floresta, pequenos trabalhos de transporte e coisas do género, e tínhamos ainda de participar em "jogos de campo". Estes consistiam em jogos de guerra, com manobras de defesa e de ataque. Muitas vezes, degeneravam em grandes pancadarias. Os "jogos de campo" horrorizavam-me, porque o seu objectivo tornava-se por demais evidente, nomeadamente através dos dispositivos de defesa (barreiras anti-tanque), recentemente instalados junto à cidade. Eu também não era propriamente um herói...

 

Desde o início, os meus pais tinham, como crentes, uma atitude crítica em relação ao governo nacional-socialista, sobretudo por causa do seu anti-semitismo brutal. Eles também haviam secretamente – eu tinha assistido a isso – tentado ajudar judeus. Eu identificava-me com o seu pensamento e com a sua fé, e, deste modo, também possuía uma atitude interior de rejeição relativamente ao regime nacional-socialista e à Juventude Hitleriana. Todavia, estava dentro do sistema: era obrigado a isso... "Não tugir nem mugir" e dar tão pouco nas vistas quanto possível eram, para mim, a única possibilidade de sobrevivência.

 

Depois de Março de 45, as regras disciplinares tornaram-se mais rigorosas: quem faltasse três vezes [no mesmo dia], sem justificação, ao serviço da Juventude Hitleriana, apanhava uma semana de prisão em Malchow (no Mecklenburg). Isto não se tratava apenas de uma ameaça, pois era efectivamente posto em prática e, na chamada, os nomes dos que eram presos eram nomeados publicamente, como medida de intimidação.

 

Ao domingo, eu ia sempre à Escola Dominical. Não deixava que alguém me privasse dela. Sendo chamado, repetidas vezes, a prestar contas por faltar ao serviço da Juventude Hitleriana todos os domingos de manhã, alegava que tinha ido ao culto (para crianças). Ninguém ousava, então, dizer abertamente alguma coisa contra isto.

 

Por esta razão, faltei também em 1 de Abril, um domingo, ao serviço da Juventude Hitleriana. Aconteceu que, nesse dia, a minha mãe chegou, de surpresa e para nossa grande alegria, de Berlim, pelo que simplesmente fiz gazeta a um segundo serviço no mesmo dia. Como, durante este, foi anunciado um serviço suplementar, acerca do qual eu, por consequência, nada sabia, também não estive presente no terceiro.

 

A minha mãe estava cheia de medo e de inquietação: Onde e como devíamos esperar o fim da guerra? Esta questão agitava os meus pais, causando-lhes grandes preocupações. Devido à guerra, o meu pai não podia deixar Berlim. Todavia, aquele parecia-lhes um lugar demasiado perigoso para nós, crianças, estarmos, uma vez que a cidade ameaçava tornar-se num "barril de pólvora". Ficarmos separados era, porém, igualmente mau. Que devíamos fazer?

 

Alguns dias mais tarde, chegou, sem que estivéssemos minimamente à espera disso, também o meu pai de Berlim, decidido a que viajássemos os quatro para aquela cidade, para que, no fim da guerra – era de temer uma catástrofe –, pelo menos estivéssemos juntos.

 

Dias depois, apareceu, de repente, o chefe do meu grupo da Juventude Hitleriana (um rapaz da vizinhança) e murmurou-me ao ouvido: "Faltaste três vezes – sabes bem o que isso quer dizer..." Um terror horrível apoderou-se de mim, um medo enorme. Nem mesmo aos meus pais me atrevia a falar nisto, porque, agora, estava uma semana de prisão em Malchow à minha espera... E se les me viessem buscar nesta altura?...

 

Porém, mais uma vez, as coisas correram sem sobressaltos: partimos na manhã seguinte – no último comboio que conseguiu ainda chegar a Berlim. Sem saberem de nada, os meus pais tinham sido um pouco mais rápidos que a polícia.

 

Cinquenta anos mais tarde, soube mais acerca do que se passou (através de uma reportagem da A.R.D. [canal de televisão estatal alemão]): um campo, junto a Malchow, com jovens prisioneiros que tinham contrariado o regime nacional-socialista, caiu nas mãos das tropas soviéticas, que avançavam no terreno. Como o campo era dirigido por membros da Juventude Hitleriana, ou por forças políticas nacionais-socialistas correspondentes, e de uma forma para-militar, os russos pensaram que os jovens eram "Werwölfe" (jovens que combatiam como guerrilheiros) em formação. Assim, eles passaram de uma situação difícil para outra ainda pior: foram interrogados e, com pancada e maus tratos, foi-lhes arrancada a "confissão" de que seriam "Werwölfe".

 

Foram feitos prisioneiros e internados em campos de trabalho. Muito poucos deles sobreviveram. E, desta maneira, pouco se soube sobre o que aconteceu. Assim rezava a reportagem de 2 de Maio de 1995 da A.R.D. "Depois de 50 anos de silêncio".

 

Então isto teria sido a prisão em Malchow!...

"...em quanto perigo

não estendeu o Deus gracioso

sobre ti as suas asas!"

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Em 12 de Abril de 1945, passámos a poder ouvir, em Tempelhof [bairro de Berlim], o trovejar dos canhões da frente leste, que se aproximava da cidade. Uma "ordem do Führer", copiada à mão e pregada também numa vedação de madeira perto de onde morávamos, dizia que, " na expectativa da muito iminente vitória final", todos os cidadãos, também os jovens e as donas-de-casa, se deviam munir, entre outras coisas, "de facas de cozinha" (literalmente!). Lemos aquilo com um misto de horror e de secreto divertimento.

 

Um vizinho que vivia na casa encostada à nossa, o qual era boa pessoa mas, ao mesmo tempo, um nazi extremamente fanático, tinha arranjado uma "Panzerfaust" [dispositivo que disparava uma granada anti-tanque]. A sua mulher tinha-me contado isto, num ardente espírito heróico, e acrescentara que ele a usaria para alvejar o primeiro tanque russo que passasse pela nossa rua. Sem dúvida, isto significaria o fim para todos nós, já que as represálias dos russos em relação a qualquer tipo de resistência, sobretudo da parte dos civis, era terrível. O meu pai interrogava-se acerca do que devia fazer. Falar com o vizinho, para o demover do seu louco intento, implicava directamente colocar em risco a própria vida, devido a "desmoralização da força defensiva", uma vez que a punição para casos como este era o "fuzilamento marcial" (ou seja, imediato). Todavia, não falar com o vizinho, não era – evidentemente – menos perigoso e, na verdade, para todos nós. Esta questão ocupou, por dois dias, a mente do meu pai. Até ao momento em que, entrando de repente pela porta da casa, anunciou: "Já falei com ele. Deixou-se convencer! Não o vai fazer."

 

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Em 15 de Abril de 1945 – era um domingo –, o meu pai (então com 58 anos) visitou a família do seu irmão que vivia na Schönhauser Allee, n.º 40. Esta visita tinha uma segunda razão de bastante importância: em duas malas de couro ele iria transportar 20 quilos de batatas que lhe tinham sido entregues pelo meu tio, o qual as vendia por grosso na antiga Estação do Norte [de Berlim].

 

Por volta das 9 horas da noite, o meu pai saiu do apartamento do meu tio, caminhando em direcção à estação do metro de superfície, carregado com o peso dos 20 quilos de batatas. Ele tinha acabado de chegar à estação e esperava pela composição seguinte, quando, de repente, as sirenes de aviso contra ataques aéreos se fizeram ouvir. Ainda antes de o ruído daquelas sirenes ter cessado, já se tinha aproximado um avião russo, e havia atingido, com uma bomba, a fachada da referida estação do metro. O meu pai não ficou ferido: mais uma vez escapou apenas com o susto. A composição seguinte ainda entrou na estação mas, logo em seguida, a circulação foi suspendida. "O que é que eu vou fazer agora?" – pensou o meu pai para consigo. Era de esperar que, devido à aproximação da frente leste (os russos tinham atravessado o rio Oder [que fica a cerca de 60 quilómetros de Berlim] no dia 12 de Abril), a circulação do metro neste troço, que agora estava danificado, não fosse retomada em breve – o que mais tarde se veio a confirmar. Voltar, nesta altura, para o apartamento do meu tio, implicava para o meu pai a incerteza de, por causa da aproximação da linha da frente, saber até que ponto seria mais tarde ainda possível conseguir chegar a Tempelhof, onde estavam a mulher e os filhos. Além disto, o meu pai tinha sido recrutado para a defesa civil, e a sua ausência do lar podia implicar que ele fosse acusado de tentativa de deserção (que era punida com a pena de morte!). Deste modo, ele partiu, a pé, atravessando Berlim (uma cidade então destruída pelos bombardeamentos e escura como breu) ao som das sirenes, sem abandonar a sua preciosa carga de 20 quilos de batatas.

 

A minha mãe, a minha irmã e eu estávamos à espera do meu pai no abrigo anti-aéreo, com temor e em oração. O ataque durou cinco horas e meia, e o meu pai estava a caminho, a pé, com duas malas de couro transportando 20 quilos de batatas. Atravessou o centro da cidade. Partindo da Schönhauser Allee, passou pela Schönhauser Strasse, pela Hamburger Strasse, pela Bolsa. Atravessou o Schlossplatz, saltando ali apressadamente de cratera de bomba em cratera de bomba, procurando provisoriamente nelas protecção das bombas dos aviões, que assobiavam ao cair, aproveitando-se da experiência adquirida – como veterano da Primeira Guerra Mundial – que lhe dizia que, segundo a lei das probabilidades, um projéctil praticamente nunca atinge um local atingido por um outro. E isto sempre carregando os 20 quilos de batatas!... Passou depois pela Gertraudenbrücke, pelo Spittelmarkt, pela Lindenstrasse, pelo Hallesches Tor, pela Belle-Alliance-Strasse, chegando a Tempelhof: cinco horas e meia através da escuridão, de ruas em ruínas, do assobiar e do explodir das bombas.

 

Era uma e meia, portanto bastante depois da meia-noite, e o nosso pai tinha voltado: alívio e alegria indescritíveis. "Graças a Deus!" exclamámos com sinceridade e do fundo do coração. E, além disso, 20 quilos de batatas!

Depois, vieram as semanas terríveis a seguir ao fim da guerra. Já não havia nada para comer na capital. À fome e à fraqueza, seguiram-se as epidemias e a morte de muitos milhares de pessoas. Mas nós tínhamos batatas – e o nosso pai de volta...

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Numa noite depois de 15 de Abril, caíram, de repente e com grande estrondo, granadas bastante perto da nossa casa. Esta era uma casa geminada de um bairro económico, construída no tempo das grandes inflações [década de vinte] com materiais pouco resistentes (p. ex., os tectos e as escadas eram de madeira) para ser mais barata, oferecendo pouca protecção contra tiros certeiros. Refugiámo-nos nas escadas da cave, situadas no centro da casa, e sentámo-nos ali, bem juntos uns dos outros, segundo o princípio: "Se acertar num acerta em todos..." Que aconteceria a seguir? Aquela situação era inteiramente nova para nós, lá no fundo das escadas da cave. Tínhamos medo, esperávamos que nada nos acontecesse e aguardávamos.

 

Então, o meu pai pegou na Bíblia e leu o Salmo 46:

"Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Pelo que não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares. Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza."

 

Novamente se fazia ouvir uma salva, seguida de vários impactos, bastante perto de onde estávamos. O meu pai continuou a ler:

 

"Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo."

 

Eu tinha notado que doze segundos antes de cada impacto de granada se ouvia um ruído surdo partindo das profundezas da terra. Tratava-se do disparo da salva seguinte. Exactamente doze segundos depois, ouvia-se as explosões. Em seguida, tudo se repetia. O meu pai continuava a ler:

 

"Deus está no meio dela; não será abalada; Deus a ajudará no romper da manhã. As nações se embraveceram; os reinos se moveram; ele levantou a sua voz e a terra se derreteu."

 

Sim, o Terceiro Reich se movia! E, ao ruído surdo das profundezas, repetidamente se seguiam as enormes explosões.

"O Senhor dos Exércitos está connosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. Vinde, contemplai as obras do Senhor; que desolações tem feito na terra! Ele faz cessar as guerras até ao fim da terra; quebra o arco e corta a lança; queima os carros no fogo."

 

Sim, como aguardávamos isto! Tínhamos medo, esperávamos que nada nos acontecesse e aguardávamos: a guerra já não podia durar muito. O meu pai continuou a ler, até ao fim:

 

"Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre as nações; serei exaltado sobre a terra. O Senhor dos Exércitos está connosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio."

 

Apesar do nosso medo, vimo-nos dominados por uma profunda confiança. Então, o meu pai orou. Compreendemos claramente: no perigo e na angústia, ele procurou a protecção de Deus, falando com Ele, o Pai de todos os pais, e encontrou-a. Por seu lado, nós fomos contagiados por este facto.

 

"Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; [...]" (Estas palavras diziam, agora, respeito a nós!)

 

"O Senhor dos Exércitos está connosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio."

 

Esta experiência nas escadas da cave – no meio do trovejar dos canhões, das explosões e dos abalos – determinou de uma forma decisiva a imagem que formei do meu pai:

 

No meio do terror, ele lançou mão da Palavra de Deus,

leu uma passagem apropriada à situação em que nos encontrávamos,

no meio do perigo, ele dirigiu o seu e o nosso olhar para Aquele que é maior que

toda a ameaça e que todo o terror,

e falou com Deus.

A forte confiança do meu pai no Senhor

contagiou-nos e permitiu que fossemos confrontados com a protecção que ele experimentava em Deus, experimentando-a também nós em seguida.

As granadas tinham explodido bem perto, porém, não haviam atingido a nossa casa.

 

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Com o passar do tempo, os bombardeamentos passaram a ser feitos também durante o dia. Começavam sempre cerca das seis horas da manhã. Mas tínhamos um outro problema de peso: o da satisfação das nossas necessidades futuras, em termos de alimentação. Na verdade, os meus pais tinham-se precavido, na medida do possível, em relação ao futuro, através da economia e do armazenamento de provisões. Porém, aquelas provisões estavam em perigo, devido aos bombardeamentos e aos previsíveis saques, na sequência do avanço das tropas russas. Por isso, numa madrugada, ao alvorecer, o meu pai cavou, nos escombros da cave de uma casa vizinha em ruínas, um buraco suficientemente grande para que nele coubessem quatro caixas com víveres. Antes do início dos bombardeamentos, ele conseguiu, mesmo à justa, arrastar as caixas para o buraco que, no entanto, teve de deixar por tapar, porque foi obrigado a abrigar-se em segurança, a toda a pressa.

 

Seguiu-se um dia de fortes bombardeamentos. Tivemos todos de abandonar a nossa casa, indo para um abrigo anti-aéreo seguro, no nosso bairro, onde também teríamos de passar a noite. Ao fim da tarde, a linha da frente tinha-se aproximado até à penúltima travessa, em relação ao local onde nos encontrávamos. "O que vai acontecer às caixas?" Esta questão atormentava o meu pai. De facto, elas seriam de importância vital nas semanas seguintes.

 

Os russos chegaram. Não podíamos deixar o abrigo. "O que vai acontecer às caixas?" A pergunta continuava a fazer-se ouvir nas nossas mentes. Dois dias mais tarde, pudemos voltar para a nossa casa. Os russos saqueavam tudo. Todavia, eles não tinham encontrado as caixas: no último dia de bombardeamentos, uma granada havia atingido a parte superior de uma das paredes da casa em ruínas e, com os seus escombros, coberto todas as caixas. Agora, o lugar onde elas se encontravam não parecia tapado por mãos humanas (as hordas de saqueadores tinham olhos bem treinados para detectarem os sítios onde as pessoas tinham enterrado os seus bens), antes apresentava um aspecto "bastante natural". Quando, alguns dias mais tarde, recolhemos as caixas, pudemos dizer com o salmista: "Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos."

 

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Então eles chegaram, os "nossos inimigos". Por todo o lado, as casas eram revistadas, havia roubos, também assassínios, saques, violações, etc. Sentíamos medo até aos ossos.

 

Tínhamos acabado de voltar do abrigo e entrado em casa, expectantes em relação ao que se iria passar em seguida, quando uns soldados entraram pela porta das traseiras, que dava para o jardim. Através da janela que ficava virada para o lado da rua, gritaram alguma coisa para outros soldados, a porta da frente foi aberta e, num momento, o rés-do-chão estava cheio de russos barulhentos, que falavam entre si em grande confusão. Um caos! Contávamos com tudo. Depois, eles dirigiram-se a nós. Não havia qualquer possibilidade de nos entendermos... Através de gestos, compreendemos finalmente o que eles pretendiam: queriam instalar-se na nossa casa, mas podíamos ficar com a cozinha e com um quarto. Tudo bem! Eram militares com funções distintas: um oficial com o respectivo impedido, um relator da frente, um funcionário administrativo superior, um posto de correio de campo com o pessoal correspondente.

No dia seguinte, eles encontraram um Novo Testamento em russo na nossa estante. Perguntaram, através de gestos, se orávamos e éramos piedosos. Ao nosso "sim", reagiram com um respeito visível. A confiança mútua cresceu. Dávamos-lhes da nossa água potável de reserva (a minha mãe tinha enchido umas centenas de frascos com ela). Eles davam-nos da sua comida. Procuravam contacto e conversavam connosco. E nós, à noite, podíamos dormir descansados.

 

A situação na nossa zona era, todavia, terrível. Todas as casas eram revolvidas por soldados que as saqueavam, mulheres eram violadas e ninguém podia ter a certeza de que iria continuar a viver. Neste caos, revelava-se agora o que a ocupação da nossa casa significava para nós: Sempre que um russo com um aspecto ameaçador entrava lá dentro, conduzíamo-lo, com um sorriso radiante, a um dos nossos hóspedes. Estes tinham-nos deixado ficar em nossa casa para tratarmos dela, para a limparmos, para irmos buscar água, etc. De saqueadores e de pessoas violentas já eles estavam à espera. Por isso, expulsavam imediatamente tais hóspedes indesejáveis, não poupando em ameaças e pontapés. A informação acerca disto espalhou-se rapidamente, de modo que a nossa casa se tornou logo na primeira – e pior – semana, tabu.

 

Então estes eram os "nossos inimigos": Deus tinha-os enviado para nossa casa como anjos protectores! Experimentámos de uma forma bastante palpável as palavras do Salmo 91:

 

"Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Omnipotente descansará.

Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei. [...] Não temerás espanto nocturno, nem seta que voe de dia [...]. Mil cairão ao teu lado, e dez mil, à tua direita, mas tu não serás atingido. [...] Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio! O Altíssimo é a tua habitação. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda. Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem [...]."

Friedrich Hilliges

 

 


 

 

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