J. C. O’Hair - Testemunho de Cornelius R. Stam
UM PRINCÍPIO SIMPLES NO ESTUDO DA
BÍBLIA
MENSAGENS BÍBLICAS PARA BEREANOS
Uma Página do Diário de John
Wesley
«Ora, Àquele que
é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus
Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve
oculto»
-
Romanos 16:25
A Bíblia apresenta a
pregação de Jesus Cristo segundo a profecia durante a maior parte das
Escrituras, mas, em Romanos 16.25, Paulo fala da pregação de Jesus Cristo «conforme
a revelação do mistério», como sendo a forma aprovada da pregação de Jesus
Cristo na presente dispensação da graça e o único meio de se alicerçar hoje os
crentes na verdade do evangelho.
Como é que o leitor tem pregado, ou ouvido pregar
o Senhor Jesus Cristo? Tem consciência que Ele não pode ser pregado de qualquer
modo?
Infelizmente são poucos
os que têm notado esta diferença. Na Cristandade vemos Cristo ser pregado de
toda e qualquer forma, porém Paulo é claro ao dizer que hoje, a única forma
aprovada de pregação de Jesus Cristo deve ser conforme a revelação do
mistério.
Para se saber o que
significa pregar Cristo conforme a revelação do mistério é preciso
saber-se em que consiste o mistério.
O mistério a que Paulo
se refere era um segredo (Rom. 16.25), que esteve escondido em Deus (Efé. 3.9),
desde todos os séculos e em todas as gerações (Col. 1.26), que não foi
manifestado aos filhos dos homens noutros séculos (Efé. 3.5). Por conseguinte
não pode ser encontrado nas Escrituras proféticas. A frase «as riquezas
incompreensíveis de Cristo» (Efé. 3.8) significa que estas riquezas não
podem ser traçadas nas Escrituras proféticas. Trata-se dum segredo de amor – a
melhor boa notícia jamais ouvida pelo ouvido humano. Quando na linha profética tudo
indicava que o juízo implacável de Deus cairia sobre Judeus e Gentios, Ele
resolveu revelar um segredo, a saber, que daria uma oportunidade única e
gloriosa ao mundo inteiro, salvando os que cressem e formando com eles um Corpo
do qual Cristo é a Cabeça. Esta verdade, esta notícia maravilhosíssima, foi
revelada a Paulo, e ele denomina-a de «o meu evangelho» (cf. Rom. 16.25)
A revelação do mistério
encontra-se nas epístolas de Paulo tendo-lhe este sido revelado em primeira mão
pelo Senhor (Efé.3.2,3; cf. Gál.1.11,12)..
É importante vermos nas
epístolas de Paulo como o Senhor Jesus Cristo é apresentado, e notarmos como é
bem diferente da forma que o era anteriormente, quando Ele esteve a ser
anunciado a Israel. É importante saber que «... ainda que também tenhamos
conhecido Cristo segundo a carne, contudo, AGORA, já O não conhecemos
desse modo» (2 Cor. 5.16).
Mas atentemos bem para
os seguintes exemplos práticos que diferenciam bem o que acabámos de afirmar, e
que nos ajudarão, decerto, a ver melhor o que afirmámos:
Pregar hoje Jesus
Cristo de acordo com o que os profetas anunciaram (Luc. 1.67-75; 24.47; Act.
3.19-24), é pregar Jesus Cristo, mas
não conforme a revelação do mistério. Pregar conforme a revelação do mistério é pregar, Jesus Cristo conforme Paulo foi
ensinado a pregar e ensinou, a saber, aquilo que nenhum profeta soube - e muito
menos revelou -, pois o ignorava em absoluto, uma vez que estava em segredo,
como Paulo diz em (Efé. 3.4,5, 8,9;
Col. 1.26; Rom. 16.25).
Pregar hoje que o reino
de Deus é chegado (Mat. 10.7) é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a
revelação do mistério. Pregar conforme a revelação do mistério é pregar como Paulo diz, a saber, que Cristo
morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou, segundo as Escrituras
(I Cor. 15.1-4; cf. 11.26). Pedro, por exemplo, durante os 3 anos de ministério
do Senhor Jesus na terra, pregou Jesus Cristo e não entendia, nem queria, que
Jesus morresse na cruz (Luc. 18.31-34; Mat. 16.21,22).
Pregar hoje que Deus
não nos perdoará se não perdoarmos, ou que alcançamos perdão quando o fazemos
(Mat. 6.14,15) é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a revelação do mistério.
Pregar conforme a revelação do mistério é
pregar como Paulo diz, a saber, que devemos perdoar aos outros porque já
estamos perdoados (Efé. 4.32).
Pregar hoje a morte do
Senhor Jesus Cristo como motivo de arrependimento e lágrimas (Actos 2.22-38), -
«Varões israelitas, escutai estas palavras: A Jesus ... tomando-O vós, o crucificastes e
matastes pelas mãos de injustos ... Saiba, pois, com certeza, toda a casa de
Israel que a Esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.
Ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração e perguntaram a Pedro e aos
demais apóstolos: Que faremos, varões irmãos? E disse-lhes Pedro:
Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado em nome de Jesus Cristo para
perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo» - é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a
revelação do mistério. Pregar conforme
a revelação do mistério é pregar a
morte do Senhor Jesus Cristo, como Paulo diz, a saber, como motivo de grande
gozo e alegria, «Mas longe esteja de mim gloriar-me (ou, regozijar-me
excelsamente), a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o
mundo está crucificado para mim e eu, para o mundo» (Gálatas 6:14 ). Pedro pregou a cruz como más notícias
de que os Judeus se deviam arrepender e chorar. Paulo pregou a cruz como boas
notícias de que nos devemos regozijar e agradecer.
Pregar hoje que se a
nossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus se modo nenhum entraremos
no Reino dos céus (Mat. 5.20), é pregar
Jesus Cristo, mas não conforme a revelação do mistério. Pregar conforme a
revelação do mistério é pregar como
Paulo diz, a saber, «estais perfeitos nEle» (Col. 2.10).
Pregar hoje que
receberemos tudo o que pedimos (Mat. 21.22) é pregar Jesus Cristo, mas não
conforme a revelação do mistério. Pregar conforme a revelação do mistério
é pregar como Paulo diz, a saber, que receberemos tudo, muito mais
abundantemente, além daquilo que pedimos ou pensamos (Efé. 3.20).
Pregar «ao que
vencer» (Apoc. 2.7,17,26;3.21) é pregar Jesus Cristo, mas não conforme a
revelação do mistério. Pregar conforme a revelação do mistério é pregar
como Paulo diz, a saber, «que somos mais do que vencedores por
Aquele que nos amou» (Rom. 8.37).
Preguemos Cristo,
segundo a revelação do mistério!
- C.M.O.
Testemunho de
Cornelius R. Stam
J. C. O’Hair nasceu nos
E.U.A., em Little Rock, no estado do Arkansas, no dia 31 de Dezembro de 1876 e
viveu uma notável vida preenchida: treinador de futebol, comerciante de
vestuário, empreiteiro, ministro Presbiteriano, secretário da embaixada dos
E.U.A. no México e, durante o período mais longo da sua vida, ministro da
Palavra na Igreja em North Shore, na cidade de Chicago. Conduzido ao
Senhor por Miss Ethel Andersen, com quem mais tarde se casou, dedicou de
imediato a sua vida ao serviço de Cristo. J. C. O’Hair e a esposa viveram
juntos mais de cinquenta e seis anos – um casal verdadeiramente devoto.
Conheci J. C. O’Hair nos primeiros anos da década de 1920.
Tendo, eu, começado a compreender algo da revelação entregue a Paulo e do
programa de Deus para a presente dispensação, mas apercebendo-me que me
encontrava isolado no meu ponto de vista, um dia chegou-me às mãos um pequeno
opúsculo de capa vermelha que continha dois sermões de J. C. O’Hair,
intitulados, Jesus Cristo – Ministro da Circuncisão e Os Doze Apóstolos e Paulo. Fiquei
grandemente excitado quando vi ali, preto no branco, algumas das verdades que
tinha chegado a ver, juntamente com outras verdades relacionadas que ainda não
compreendia. Logo que pude pedi mais literatura de J. C. O’Hair a fim de
distribuir, mas aquele pequeno opúsculo de capa vermelha continua guardado no
meu escritório como uma preciosa lembrança.
O efeito do ministério de J. C. O’Hair na igreja professa
foi profundo. De facto, ainda vemos por toda a parte os resultados da sua
proclamação fiel e destemida daquelas verdades distintas que se relacionam com
a presente dispensação. Para além das suas responsabilidades como pastor na
Igreja em North Shore (Chicago), ele conduziu um ministério de rádio eficaz e
publicou mais de 150 livros e opúsculos de estudo bíblico, alcançando muitos
milhares de pessoas com «a pregação de Jesus Cristo segundo a revelação do
mistério».
Conhecer J. C. O’Hair significava amá-lo, pois ele era
totalmente despretensioso, modesto, e possuía um afectuoso sentido de humor que
inspirava os amigos e desarmava os inimigos. Ele apresentava os jovens como
seus amigos chegados e valiosos, e dizia a quem o chamava de “Reverendo”: “Não
me chameis Reverendo; sou um homem de negócios”, conquistando ali outro amigo!
Um domingo de manhã disse à sua congregação: “Tenho
consciência de que estais aqui a olhar para mim há muito tempo, e imagino que
alguns de vós estareis a ficar cansados disso, mas quero que saibais que o
sentimento é mútuo! Só J. C. O’Hair podia dizer isto e ser amado.
Era muito brincalhão com os jovens. Quando o caixa de um
Restaurante lhe perguntou como se sentia, “lamentou-se”, “Sinto-me um pouco
encarneirado”. Tínhamos acabado de comer carneiro! E comentando os pontos de
vista contraditórios de um dos seus oponentes, disse, “Quando era miúdo, vi uma
vez, no circo, um homem a montar dois cavalos ao mesmo tempo, mas não em
direcções opostas!”
Este humor afectuoso, cintilante, também lhe foi muito útil
no seu ministério. Aos clamores dos
movimentos de curas ele respondia: “A morte ainda continua a ser per capita”.
A uma pessoa que, ao telefone, lhe perguntava se ele não achava que o mundo
estava a ficar cada vez pior, ele respondeu, “É óbvio que está; há cada vez
mais pessoas nele”.
Agradeci muitas vezes a Deus pelos conselhos sábios e ternos
de J. C. O’Hair, quando era jovem e estava no princípio do meu ministério. “Não
estudes apenas para os sermões”, dizia ele: “Estuda – estuda até
transbordares, e terás os sermões”. E muitas vezes ele instava com os
jovens pregadores: “Ensinai a Bíblia e não tereis problemas de rivalidade!” E
mais do que uma vez, quando as coisas estavam a ficar difíceis ele suspirava e
dizia, “Senhor, ajuda-nos, pois somos fracos”.
Apesar de todo o seu natural humor Irlandês, J. C. O’Hair
era extremamente cuidadoso e piedoso no que às coisas de Deus dizia respeito.
Ele não podia tolerar piadas acerca do inferno ou das coisas sagradas. Para
ele, o destino de uma alma tratava-se de uma questão demasiado séria. Ele amava
profundamente o Senhor e as almas por quem Ele morreu. Para ele era perfeitamente
natural tratar muito seriamente a respeito da salvação com uma empregada de
restaurante, um funcionário de uma bomba de gasolina, ou quem quer que fosse. E
eles pareciam gostar dele por isso.
Ele era o mesmo no que dizia respeito ao estudo da Palavra
de Deus. Uma vez, depois de ter lutado muito tempo na noite anterior com um
problema teológico, disse-nos como tinha sido grandemente encorajado ao ler
Tiago 1.5:
«E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a
Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada».
Ao ele analisar este versículo uma pessoa pensava que ele o
tinha visto pela primeira vez, tão animado ficava com ele. Isto provou ser uma
ajuda para ele. Ele era o homem a quem os seus opositores acusavam de
ter falta de amor pelas almas, e que rejeitava tudo, menos as epístolas de
Paulo!
Como pregador do evangelho ele era inigualável, e sem dúvida
que isso se devia, em grande parte, ao entendimento que ele tinha, com muita
clareza, do “evangelho da graça de Deus” não adulterado. Só os que o ouviram
pregar o evangelho sabem quão poderoso ele foi como evangelista.
Numa geração que, já nessa altura, colocava tanta ênfase no
“ter que se tomar decisões”, ele estava de longe acima dos seus iguais no
ganhar almas para Cristo, e certamente que muito acima deles no conseguir
“bebés” recém-nascidos estabelecidos na fé.
Não admira Satanás opor-se-lhe por todos os meios
imaginários! Disseram persistentemente mentiras a seu respeito inventando uma
série de mitos em torno da sua pessoa. Todavia não poderia haver maior
testemunho da sua bondade e compreensão como o facto de que aqueles que estavam
mais perto dele o amarem muito.
Para o fim da sua vida
J. C. O’Hair era um guerreiro cicatrizado pelas batalhas que o tinham tornado
quase imune às calúnias. Ele sabia que tinha a verdade no que dizia
respeito à mensagem Paulina, e ele pregou-a com tal confiança que desarmava e
algumas vezes enraivecia os que colocavam a conveniência à frente dos
princípios. Quando lhe mencionei a injustiça e má fé de um dos seus opositores
que com maldade o deturpava, ele respondeu, “Bem, Neill, parece que quando se
tem sido muito ferido já nada dói!”.
Nos
seus últimos dias de vida na terra a fé dele parecia brilhar cada vez mais. Na
véspera da sua morte ele recitou todo o capítulo cinco da carta aos Romanos e
disse, “É o capítulo que todos deveriam ler em primeiro lugar”. Entre outras
coisas ele assinalou “o poder do perfeito plano de Deus da redenção” e disse,
“Que maravilhoso é estar salvo!”
Tenho dito muitas vezes acerca de mim que houve três homens
que especialmente me inspiraram e encorajaram na minha juventude. No início da
minha juventude foi o meu próprio pai, Peter Stam, um homem de Deus
verdadeiramente fiel e frutífero. Depois, como jovem ministro recém casado,
Herman Braker, um antigo Presbiteriano valente que viria a conhecer a graça.
Ele chamou muitas vezes a minha atenção – sempre que estávamos sós – para os
defeitos da minha pregação, mas aos outros ele dizia, “Já ouvistes o
Neil Stam pregar? Deveríeis ouvi-lo; sereis ricamente abençoados”. Depois, a
seguir à morte de Herman Braker, surgiu J. C. O’Hair. Nunca poderei exprimir
por palavras o que os ensinamentos, o encorajamento, o criticismo e a amizade
de J. C. O’Hair significou para mim. Nunca esquecerei a sua fidelidade a Deus e
à Sua Palavra, e o seu cuidado comigo, como jovem ministro – e nós sabemos que
muitos milhares de crentes, pregadores ou não, têm dado com gratidão o mesmo
testemunho.
Ao terminar: a melhor
forma de nós agora podermos mostrar a nossa gratidão a Deus por este bom
soldado de Jesus Cristo», é revestirmo-nos «de toda a armadura de Deus»
e firmarmo-nos, como ele, na bendita mensagem que tem trazido tanta luz
e alegria aos nossos corações.
- C. R. S.
Por Cornelius R. Stam
Durante
os anos decorridos entre 1923 e 1958 John C. O’Hair, pastor na Igreja em North
Shore (Chicago), foi sem dúvida usado por Deus muito mais do que qualquer
outro homem para ajudar os crentes sinceros a compreenderem o que Paulo chama «o
meu evangelho, e a pregação de Jesus Cristo segundo a revelação do mistério»
(Rom. 16.25).
«Manejando
bem a Palavra da verdade», ele compreendia e proclamava
vigorosamente as diferenças vitais entre:
1. O
ministério dos doze apóstolos e o de Paulo.
2. O
que «Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o
princípio» (Act. 3.21) e o que «desde tempos eternos esteve oculto»
(Rom. 16.25), isto é, o programa profetizado proclamado pelos doze, e «o
mistério», ou segredo, mais tarde revelado por intermédio de Paulo.
3. «O
evangelho do reino» (Mat. 4.23) e «o evangelho da graça de
Deus» (Act. 20.24).
4. A
chamada e esperança terrena de Israel – o povo escolhido de Deus (Jer.
23.5,6; Zac. 8.13,23) e a chamada e esperança celestial da Igreja desta
presente dispensação, o Corpo de Cristo (Efé. 1.13,18; Col. 1.5).
5. O
baptismo na água, que foi proclamado «para a remissão dos pecados»
desde os dias de João Baptista até Pentecostes (Mar. 1.4; Act. 2.38), e o «um
só baptismo» (Efé. 4.5), pelo qual o Espírito Santo agora baptiza os
crentes no «um só corpo» (I Cor. 12.13).
Como ele combateu a
confusão e divisão teológica que prevalecia – e ainda prevalece – entre os que
procuram em vão levar a cabo a “grande comissão” dada aos doze! Como ele provou
pelas Escrituras que a sua única esperança de unidade doutrinal residia
apenas na mensagem de Deus apresentada por Paulo com o seu «um só Corpo»
e «um só baptismo»!
A união através do
compromisso era anátema, para este fiel ensinador da Palavra. Vencendo os seus
opositores com argumentos oriundos das Escrituras, ele provou que o gozo da
verdadeira unidade entre o povo de Deus deve ser baseado na apreciação do facto
bíblico de que somos um em Cristo (Rom. 12.5; I Cor. 12.12,13,27;
Efé. 4.4-6).
Muito do que O’Hair
ensinava era alegremente recebido, e a verdade da unidade do Corpo tornou-se
preciosa para muitos, mas a grande maioria de pastores e líderes espirituais
estacava na doutrina do “um só baptismo”.
Eles tinham labutado
sob a chamada “grande comissão” durante muito tempo, tinham baptizado na água
demasiadas pessoas, tinham escrito demasiados panfletos sobre o assunto. De
facto, com muitos deles tratava-se grandemente de uma
questão de pão, manteiga e pensões, pois as suas respectivas denominações
tê-los-ia excomungado se ousassem ensinar que o baptismo na água não está
incluído no programa de Deus para hoje. Em muitos casos o medo do homem abafava
as convicções deles.
Como resultado
eram intimidados a defenderem um rito religioso que é biblicamente
indefensável, e muitos chamaram de perturbadores a O’Hair e àqueles de nós que
nos erguemos com ele, sempre que falávamos no assunto. O tema do baptismo na
água era de facto “a ferida”. Nesta relação é interessante notar que até agora
os nossos opositores não conseguiram sequer produzir um livro de 100 páginas
para responderem, pelas Escrituras, aos nossos ensinos sobre o assunto, apesar
de sabermos de alguns terem tentado e desistido.
Um resultado
adicional foi a maioria dos líderes fundamentalistas ter gradualmente perdido o
terreno que tinha ganho no «manejar bem a Palavra da verdade». A maioria
começou a defender com mais inflexibilidade do que nunca, o ponto de vista
anti-bíblico de que a chamada “grande comissão” é a comissão do Senhor para os
nossos dias. Isto apesar de nenhum deles obedecer ou poder obedecer
a esta “grande comissão”.
Regrediram tanto
que apenas uma minoria de fundamentalistas ficou no ponto de vista
dispensacional de Darby e Scofield. A maioria fez recuar os seus
ouvintes e leitores para os ensinos de Jesus (na terra), para «o evangelho
do reino» e o sermão da montanha, como fizeram os modernistas uma geração
antes.
É claro que sabemos que
o reino prometido será trazido com o
retorno de Cristo, e não pelos esforços dos homens. Mas nós não temos
estado a debater o reino. Temos estado a debater o programa revelado de Deus
para «este presente século mau», o tempo da rejeição e ausência
de Cristo, e Deus tem ordenado aos que vivem durante o período deste
século, que tornem conhecida a mensagem da graça a todos os homens. O facto de «os
homens maus e enganadores irem de mal para pior» não nos iliba desta
responsabilidade. É nestas trevas densas que devemos resplandecer «como
astros no mundo» (Fil. 2.15,16).
A graça de Deus
manifestou-se para resplandecer sobre toda a humanidade a despeito da oposição
mais acérrima e satânica (Tit. 2.11). Depois a tocha começou a tremular,
tornando-se mortiça durante os séculos das trevas. Posteriormente a luz começou
de novo a avivar e a tornar-se mais brilhante. Mas ainda tem que se fazer mais
a fim de a tornar mais resplandecente.
Que Deus nos dê, então,
fé e coragem para nos erguermos e firmarmos – como O’Hair – e proclamarmos com
o poder do Espírito «a pregação de Jesus Cristo segundo a revelação do
mistério». Na verdade, que cada vez maior número de homens de Deus
consagrados e cheios do Espírito se ergam para tornarem conhecida esta bendita
mensagem. O Senhor vem brevemente para nós, e nessa altura, enquanto por um
lado será glória estar com Ele, será irremediavelmente tarde de mais para
alcançar outros com «o evangelho da graça de Deus».
-C.R.S.
NO
ESTUDO DA BÍBLIA
Por
J. C. O’Hair
I Pedro 1.10 diz-nos
que os profetas de Israel predisseram os sofrimentos e a glória de Cristo. Em
Efésios 3.9 somos informados que a «dispensação do mistério» e «as
riquezas incompreensíveis de Cristo» estavam escondidas em Deus e não foram dadas a conhecer aos
profetas de Israel. Ao longo de todo o livro dos Actos e ao longo das epístolas
de Pedro, Paulo, Tiago e João, devemos distinguir entre aquilo que os profetas
de Israel disseram que iria acontecer e aquilo que nenhum deles sequer insinuou
que sucederia: «oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações»; «noutros
séculos não foi manifestado aos filhos dos homens»; (Col. 1.25,26; Efé.
3.3-5).
Se não houve nenhuma mudança no programa de Deus desde que
foram escritas as epístolas aos Efésios e Colossenses, então esta ainda é a
Dispensação do Mistério, que significa a Dispensação que tinha sido um mistério
até ter sido revelada pelo Cristo glorificado ao Apóstolo Paulo e por seu
intermédio. Para os estudiosos da Palavra de Deus, para os membros da Igreja
que é o Corpo de Cristo, não há nada de misterioso, místico ou escondido no que
respeita à dispensação da Graça e à herança mútua da Cabeça e dos membros do
Corpo, vivificados juntamente e juntamente assentados nos mais elevados lugares
celestiais, constituindo O Novo Homem que Deus está agora a formar, enquanto o
Seu propósito e programa com Israel tem sido abandonado temporariamente (Efé. 1.9-22;
2.4-17). Exceptuando a actual preservação Divina de Israel no mundo, Deus
suspendeu os Seus concertos e promessas com Israel e as outras nações, até ter
cumprido aquilo que Ele propôs em Cristo Jesus séculos antes de ter feito
quaisquer concertos com a Sua nação e a sua terra prometida (2 Tim. 1.9; Efé.
3.11).
A esperança de Israel está identificada com os sofrimentos e
a glória de Cristo preditos pelos
profetas de Israel. Essa esperança será realizada quando Cristo se
apresentar como Filho do Homem no trono da Sua glória (Mat. 25.31). Ali
assentar-se-ão com Ele os Seus doze apóstolos (Mat. 19.28). O Filho do Homem
virá com poder e grande glória (Luc. 21.27-31). Ele restaurará tudo (Act.
3.21). Moisés, Samuel, e todos os profetas falaram de «estes dias» (Act.
3.24). «Estes dias» foram prometidos nos concertos (Act. 3.25). Nesse
tempo Cristo governará a partir do trono de David (Isa. 9.6,7).
«Estes
dias» de graça, «estes dias» do Corpo de Cristo, não são os «estes
dias» da esperança de Israel, predita por Moisés, Samuel e outros.
«Estes dias»
foram predestinados antes da fundação do mundo, mas não foram preditos pelos
profetas de Israel.
Nenhum dos doze apóstolos, no seu ministério dos Actos,
falou destes dias. Eles referiram-se a uma esperança e bênçãos prometidas pela
pena de David, Joel, Amós, Moisés, Samuel, e outros. Tenhamos cuidado em não
confundir as promessas proféticas com o mistério. Não confundamos a esperança
do Corpo de Cristo com a esperança de Israel.
PARA BEREANOS
Por
J. C. O’Hair
NOTA: O seguinte prefácio e artigo é o extracto
de uma cópia original da primeira edição da revista “Estudo Bíblico Para
Bereanos”, publicada por J.C.O’Hair em Agosto de 1935. Esperamos que
desfrute deste excerto retirado do fundo nossos arquivos.
Publicamos esta
primeira edição de Estudo Bíblico Para Bereanos com o propósito, desejo
e esperança de podermos estimular, encorajar, ou provocar, entre os filhos de
Deus, o estudo da Bíblia de uma forma real, honesta e diligente. A ignorância
profunda da Bíblia entre os membros da igreja é espantosa.
Rogamos sinceramente e desejamos a cooperação fervorosa de
todo o filho de Deus espiritual que aprecie o Evangelho da Graça de Deus e que
realmente deseje receber e pesquisar as Escrituras sem o receio ou o favor do
homem ou de organizações religiosas. Será desnecessário e inútil apelar aos
crentes para quem a lealdade e orgulho denominacional, ou ideias preconcebidas,
interferem com o estudo da Palavra de Deus honesto, inteligente e imparcial.
Por isso o nosso estudo bíblico é para Bereanos.
Tem sido repetidamente afirmado que mais de noventa e cinco
por cento dos membros de igreja permitem que os seus líderes pensem por eles, e
que noventa e cinco por cento dos seus instrutores têm sido tão influenciados
pelas tradições dos pais da igreja e pelos credos eclesiásticos denominacionais
que menos de cinco por cento, quer dos líderes quer dos seguidores, querem, se
puderem, estudar a Bíblia com mentes despreconcebidas e com corações abertos e
honestos.
Tenhamos sempre em mente que nenhum servo do Senhor tem
qualquer verdade nova a apresentar. A revelação progressiva cessou com o fim da
Revelação há mais de 1800 anos. Desde então, “tudo o que é verdadeiro não é
novo” e “tudo o que é novo não é verdadeiro”, no que diz respeito à Palavra de
Deus inspirada.
Nenhum crente, ou grupo de crentes, recebe qualquer
revelação especial da verdade Divina, ou interpretação da verdade, como os
antigos santos homens que foram movidos pelo Espírito Santo para nos trazerem
as Sagradas Escrituras. O membro do Corpo de Cristo mais humilde, mais
ignorante, o bebé em Cristo recém nascido, possui o Espírito Santo tanto,
como o ensinador da Bíblia mais dotado.
Os homens não são guiados à verdade pelo Espírito Santo independentemente da
Palavra escrita de Deus. E, com toda a certeza, os milhões de membros de
igreja, que se encontram doutrinalmente no erro, não foram guiados pelo
Espírito Santo na má interpretação que fizeram das Escrituras.
Os sistemas humanos de
interpretação deixam-nos entregues a inconsistências e aparentes contradições
na Bíblia, com misturas impuras que desagradam ao Senhor. “Toda a Escritura ...
é proveitosa para ensinar, redarguir, corrigir, e instruir em justiça”. Mas
toda a Escritura deve ser bem manejada para se obter a verdadeira
interpretação, apropriação e aplicação.
Uma Página do Diário de John Wesley
Domingo AM, 5 de Maio,
preguei em St. Ann, pediram-me para não voltar mais.
Domingo PM, 5 de Maio,
preguei em St. John, os diáconos disseram, “Vá-se embora e não volte”.
Domingo AM, 12 de Maio,
preguei em St. Jude, também não posso voltar lá.
Domingo PM, 12 de Maio,
preguei em St. George, expulso de novo.
Domingo AM, 19 de Maio,
preguei em St. qualquer coisa, os diáconos fizeram uma reunião especial e
disseram-me que não podia voltar.
Domingo PM, 19 de Maio,
preguei na rua, expulso da rua.
Domingo AM, 26 de Maio,
preguei na campina e fui expulso como se de um touro se tratasse.
Domingo AM, 2 de Junho,
preguei numa ponta da cidade, e fui expulso.
Domingo PM, 2 de Junho, culto da tarde, preguei
num prado, vieram ouvir 10.000 pessoas.
RELATOS DE ACONTECIMENTOS ANTES, DURANTE E DEPOIS
DA
II GRANDE GUERRA
4.
Experiências do fim da guerra
No fim da guerra, eu
tinha 13 anos de idade e morava, devido à evacuação das cidades, com a minha
irmã em casa da nossa tia em Waren, junto ao lago de Müritz. A casa dos nossos
pais era em Berlim, onde eles também estavam.
Como todos os rapazes,
eu pertencia ao "Jungvolk" [departamento para rapazes dos 10 aos 14
anos] da Juventude Hitleriana. Isto era obrigatório. Como, todavia, não possuía
um uniforme daquela organização, eu, e por consequência a minha família, não
éramos considerados empenhados em relação ao partido.
Quando, em finais de
Janeiro de 1945, as aulas foram suspendidas, devido ao aproximar da frente
leste, passámos a ter de comparecer diariamente à chamada e ao serviço da Juventude
Hitleriana. Eram-nos dadas tarefas, como serrar madeira na floresta, pequenos
trabalhos de transporte e coisas do género, e tínhamos ainda de participar em
"jogos de campo". Estes consistiam em jogos de guerra, com manobras
de defesa e de ataque. Muitas vezes, degeneravam em grandes pancadarias. Os
"jogos de campo" horrorizavam-me, porque o seu objectivo tornava-se
por demais evidente, nomeadamente através dos dispositivos de defesa (barreiras
anti-tanque), recentemente instalados junto à cidade. Eu também não era
propriamente um herói...
Desde o início, os meus
pais tinham, como crentes, uma atitude crítica em relação ao governo
nacional-socialista, sobretudo por causa do seu anti-semitismo brutal. Eles
também haviam secretamente – eu tinha assistido a isso – tentado ajudar judeus.
Eu identificava-me com o seu pensamento e com a sua fé, e, deste modo, também
possuía uma atitude interior de rejeição relativamente ao regime
nacional-socialista e à Juventude Hitleriana. Todavia, estava dentro do sistema:
era obrigado a isso... "Não tugir nem mugir" e dar tão pouco nas
vistas quanto possível eram, para mim, a única possibilidade de sobrevivência.
Depois de Março de 45,
as regras disciplinares tornaram-se mais rigorosas: quem faltasse três vezes
[no mesmo dia], sem justificação, ao serviço da Juventude Hitleriana, apanhava
uma semana de prisão em Malchow (no Mecklenburg). Isto não se tratava apenas de
uma ameaça, pois era efectivamente posto em prática e, na chamada, os nomes dos
que eram presos eram nomeados publicamente, como medida de intimidação.
Ao domingo, eu ia
sempre à Escola Dominical. Não deixava que alguém me privasse dela. Sendo
chamado, repetidas vezes, a prestar contas por faltar ao serviço da Juventude
Hitleriana todos os domingos de manhã, alegava que tinha ido ao culto (para
crianças). Ninguém ousava, então, dizer abertamente alguma coisa contra isto.
Por esta razão, faltei
também em 1 de Abril, um domingo, ao serviço da Juventude Hitleriana. Aconteceu
que, nesse dia, a minha mãe chegou, de surpresa e para nossa grande alegria, de
Berlim, pelo que simplesmente fiz gazeta a um segundo serviço no mesmo dia.
Como, durante este, foi anunciado um serviço suplementar, acerca do qual eu,
por consequência, nada sabia, também não estive presente no terceiro.
A minha mãe estava
cheia de medo e de inquietação: Onde e como devíamos esperar o fim da guerra?
Esta questão agitava os meus pais, causando-lhes grandes preocupações. Devido à
guerra, o meu pai não podia deixar Berlim. Todavia, aquele parecia-lhes um
lugar demasiado perigoso para nós, crianças, estarmos, uma vez que a cidade
ameaçava tornar-se num "barril de pólvora". Ficarmos separados era,
porém, igualmente mau. Que devíamos fazer?
Alguns dias mais tarde,
chegou, sem que estivéssemos minimamente à espera disso, também o meu pai de
Berlim, decidido a que viajássemos os quatro para aquela cidade, para que, no
fim da guerra – era de temer uma catástrofe –, pelo menos estivéssemos
juntos.
Dias depois, apareceu,
de repente, o chefe do meu grupo da Juventude Hitleriana (um rapaz da
vizinhança) e murmurou-me ao ouvido: "Faltaste três vezes – sabes
bem o que isso quer dizer..." Um terror horrível apoderou-se de mim, um
medo enorme. Nem mesmo aos meus pais me atrevia a falar nisto, porque, agora,
estava uma semana de prisão em Malchow à minha espera... E se les me viessem
buscar nesta altura?...
Porém, mais uma vez, as
coisas correram sem sobressaltos: partimos na manhã seguinte – no último
comboio que conseguiu ainda chegar a Berlim. Sem saberem de nada, os meus pais
tinham sido um pouco mais rápidos que a polícia.
Cinquenta anos mais
tarde, soube mais acerca do que se passou (através de uma reportagem da
A.R.D. [canal de televisão estatal alemão]): um campo, junto a Malchow, com
jovens prisioneiros que tinham contrariado o regime nacional-socialista, caiu
nas mãos das tropas soviéticas, que avançavam no terreno. Como o campo era
dirigido por membros da Juventude Hitleriana, ou por forças políticas
nacionais-socialistas correspondentes, e de uma forma para-militar, os russos
pensaram que os jovens eram "Werwölfe" (jovens que combatiam como
guerrilheiros) em formação. Assim, eles passaram de uma situação difícil para
outra ainda pior: foram interrogados e, com pancada e maus tratos, foi-lhes
arrancada a "confissão" de que seriam "Werwölfe".
Foram feitos
prisioneiros e internados em campos de trabalho. Muito poucos deles
sobreviveram. E, desta maneira, pouco se soube sobre o que aconteceu. Assim
rezava a reportagem de 2 de Maio de 1995 da A.R.D. "Depois de 50 anos de
silêncio".
Então isto teria sido a
prisão em Malchow!...
"...em quanto
perigo
não estendeu o Deus
gracioso
sobre ti as suas
asas!"
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Em 12 de Abril de 1945,
passámos a poder ouvir, em Tempelhof [bairro de Berlim], o trovejar dos canhões
da frente leste, que se aproximava da cidade. Uma "ordem do Führer",
copiada à mão e pregada também numa vedação de madeira perto de onde morávamos,
dizia que, " na expectativa da muito iminente vitória final", todos
os cidadãos, também os jovens e as donas-de-casa, se deviam munir, entre outras
coisas, "de facas de cozinha" (literalmente!). Lemos aquilo com um
misto de horror e de secreto divertimento.
Um vizinho que vivia na
casa encostada à nossa, o qual era boa pessoa mas, ao mesmo tempo, um nazi extremamente
fanático, tinha arranjado uma "Panzerfaust" [dispositivo que
disparava uma granada anti-tanque]. A sua mulher tinha-me contado isto, num
ardente espírito heróico, e acrescentara que ele a usaria para alvejar o
primeiro tanque russo que passasse pela nossa rua. Sem dúvida, isto
significaria o fim para todos nós, já que as represálias dos russos em relação
a qualquer tipo de resistência, sobretudo da parte dos civis, era terrível. O
meu pai interrogava-se acerca do que devia fazer. Falar com o vizinho, para o
demover do seu louco intento, implicava directamente colocar em risco a própria
vida, devido a "desmoralização da força defensiva", uma vez que a
punição para casos como este era o "fuzilamento marcial" (ou seja,
imediato). Todavia, não falar com o vizinho, não era – evidentemente –
menos perigoso e, na verdade, para todos nós. Esta questão ocupou, por dois
dias, a mente do meu pai. Até ao momento em que, entrando de repente pela porta
da casa, anunciou: "Já falei com ele. Deixou-se convencer! Não o vai
fazer."
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Em 15 de Abril de 1945
– era um domingo –, o meu pai (então com 58 anos) visitou a família do seu
irmão que vivia na Schönhauser Allee, n.º 40. Esta visita tinha uma segunda razão
de bastante importância: em duas malas de couro ele iria transportar 20 quilos
de batatas que lhe tinham sido entregues pelo meu tio, o qual as vendia por
grosso na antiga Estação do Norte [de Berlim].
Por volta das 9 horas
da noite, o meu pai saiu do apartamento do meu tio, caminhando em direcção à
estação do metro de superfície, carregado com o peso dos 20 quilos de batatas.
Ele tinha acabado de chegar à estação e esperava pela composição seguinte,
quando, de repente, as sirenes de aviso contra ataques aéreos se fizeram ouvir.
Ainda antes de o ruído daquelas sirenes ter cessado, já se tinha aproximado um
avião russo, e havia atingido, com uma bomba, a fachada da referida estação do
metro. O meu pai não ficou ferido: mais uma vez escapou apenas com o susto. A
composição seguinte ainda entrou na estação mas, logo em seguida, a circulação
foi suspendida. "O que é que eu vou fazer agora?" – pensou o meu pai
para consigo. Era de esperar que, devido à aproximação da frente leste (os
russos tinham atravessado o rio Oder [que fica a cerca de 60 quilómetros de
Berlim] no dia 12 de Abril), a circulação do metro neste troço, que agora
estava danificado, não fosse retomada em breve – o que mais tarde se veio a
confirmar. Voltar, nesta altura, para o apartamento do meu tio, implicava para
o meu pai a incerteza de, por causa da aproximação da linha da frente, saber
até que ponto seria mais tarde ainda possível conseguir chegar a Tempelhof,
onde estavam a mulher e os filhos. Além disto, o meu pai tinha sido recrutado para
a defesa civil, e a sua ausência do lar podia implicar que ele fosse acusado de
tentativa de deserção (que era punida com a pena de morte!). Deste modo, ele
partiu, a pé, atravessando Berlim (uma cidade então destruída pelos
bombardeamentos e escura como breu) ao som das sirenes, sem abandonar a sua
preciosa carga de 20 quilos de batatas.
A minha mãe, a minha
irmã e eu estávamos à espera do meu pai no abrigo anti-aéreo, com temor e em
oração. O ataque durou cinco horas e meia, e o meu pai estava a caminho, a pé,
com duas malas de couro transportando 20 quilos de batatas. Atravessou o centro
da cidade. Partindo da Schönhauser Allee, passou pela Schönhauser Strasse, pela
Hamburger Strasse, pela Bolsa. Atravessou o Schlossplatz, saltando ali
apressadamente de cratera de bomba em cratera de bomba, procurando
provisoriamente nelas protecção das bombas dos aviões, que assobiavam ao cair,
aproveitando-se da experiência adquirida – como veterano da Primeira Guerra
Mundial – que lhe dizia que, segundo a lei das probabilidades, um projéctil
praticamente nunca atinge um local atingido por um outro. E isto sempre
carregando os 20 quilos de batatas!... Passou depois pela Gertraudenbrücke,
pelo Spittelmarkt, pela Lindenstrasse, pelo Hallesches Tor, pela Belle-Alliance-Strasse,
chegando a Tempelhof: cinco horas e meia através da escuridão, de ruas em
ruínas, do assobiar e do explodir das bombas.
Era uma e meia,
portanto bastante depois da meia-noite, e o nosso pai tinha voltado: alívio e
alegria indescritíveis. "Graças a Deus!" exclamámos com sinceridade e
do fundo do coração. E, além disso, 20 quilos de batatas!
Depois, vieram as
semanas terríveis a seguir ao fim da guerra. Já não havia nada para comer na
capital. À fome e à fraqueza, seguiram-se as epidemias e a morte de muitos
milhares de pessoas. Mas nós tínhamos batatas – e o nosso pai de volta...
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Numa noite depois de 15
de Abril, caíram, de repente e com grande estrondo, granadas bastante perto da
nossa casa. Esta era uma casa geminada de um bairro económico, construída no
tempo das grandes inflações [década de vinte] com materiais pouco resistentes
(p. ex., os tectos e as escadas eram de madeira) para ser mais barata,
oferecendo pouca protecção contra tiros certeiros. Refugiámo-nos nas escadas da
cave, situadas no centro da casa, e sentámo-nos ali, bem juntos uns dos outros,
segundo o princípio: "Se acertar num acerta em todos..."
Que aconteceria a seguir? Aquela situação era inteiramente nova para nós, lá no
fundo das escadas da cave. Tínhamos medo, esperávamos que nada nos acontecesse
e aguardávamos.
Então, o meu pai pegou
na Bíblia e leu o Salmo 46:
"Deus é o nosso
refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Pelo que não temeremos,
ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos
mares. Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem
pela sua braveza."
Novamente se fazia
ouvir uma salva, seguida de vários impactos, bastante perto de onde estávamos.
O meu pai continuou a ler:
"Há um rio cujas
correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo."
Eu tinha notado que
doze segundos antes de cada impacto de granada se ouvia um ruído surdo partindo
das profundezas da terra. Tratava-se do disparo da salva seguinte. Exactamente
doze segundos depois, ouvia-se as explosões. Em seguida, tudo se repetia. O meu
pai continuava a ler:
"Deus está no meio
dela; não será abalada; Deus a ajudará no romper da manhã. As nações se
embraveceram; os reinos se moveram; ele levantou a sua voz e a terra se
derreteu."
Sim, o Terceiro Reich
se movia! E, ao ruído surdo das profundezas, repetidamente se seguiam as
enormes explosões.
"O Senhor dos
Exércitos está connosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. Vinde, contemplai as
obras do Senhor; que desolações tem feito na terra! Ele faz cessar as guerras
até ao fim da terra; quebra o arco e corta a lança; queima os carros no
fogo."
Sim, como aguardávamos isto!
Tínhamos medo, esperávamos que nada nos acontecesse e aguardávamos: a guerra já
não podia durar muito. O meu pai continuou a ler, até ao fim:
"Aquietai-vos e
sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre as nações; serei exaltado sobre a
terra. O Senhor dos Exércitos está connosco; o Deus de Jacó é o nosso
refúgio."
Apesar do nosso medo,
vimo-nos dominados por uma profunda confiança. Então, o meu pai orou.
Compreendemos claramente: no perigo e na angústia, ele procurou a protecção de
Deus, falando com Ele, o Pai de todos os pais, e encontrou-a. Por seu lado, nós
fomos contagiados por este facto.
"Aquietai-vos e
sabei que eu sou Deus; [...]" (Estas palavras
diziam, agora, respeito a nós!)
"O Senhor dos
Exércitos está connosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio."
Esta experiência nas
escadas da cave – no meio do trovejar dos canhões, das explosões e dos abalos –
determinou de uma forma decisiva a imagem que formei do meu pai:
No meio do terror, ele
lançou mão da Palavra de Deus,
leu uma passagem
apropriada à situação em que nos encontrávamos,
no meio do perigo, ele
dirigiu o seu e o nosso olhar para Aquele que é maior que
toda a ameaça e que
todo o terror,
e falou com Deus.
A forte confiança do meu pai no Senhor
contagiou-nos e
permitiu que fossemos confrontados com a protecção que ele experimentava em
Deus, experimentando-a também nós em seguida.
As granadas tinham
explodido bem perto, porém, não haviam atingido a nossa casa.
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Com o passar do tempo,
os bombardeamentos passaram a ser feitos também durante o dia. Começavam sempre
cerca das seis horas da manhã. Mas tínhamos um outro problema de peso: o da
satisfação das nossas necessidades futuras, em termos de alimentação. Na
verdade, os meus pais tinham-se precavido, na medida do possível, em relação ao
futuro, através da economia e do armazenamento de provisões. Porém, aquelas
provisões estavam em perigo, devido aos bombardeamentos e aos previsíveis
saques, na sequência do avanço das tropas russas. Por isso, numa madrugada, ao
alvorecer, o meu pai cavou, nos escombros da cave de uma casa vizinha em
ruínas, um buraco suficientemente grande para que nele coubessem quatro caixas
com víveres. Antes do início dos bombardeamentos, ele conseguiu, mesmo à justa,
arrastar as caixas para o buraco que, no entanto, teve de deixar por tapar,
porque foi obrigado a abrigar-se em segurança, a toda a pressa.
Seguiu-se um dia de
fortes bombardeamentos. Tivemos todos de abandonar a nossa casa, indo para um
abrigo anti-aéreo seguro, no nosso bairro, onde também teríamos de passar a
noite. Ao fim da tarde, a linha da frente tinha-se aproximado até à penúltima
travessa, em relação ao local onde nos encontrávamos. "O que vai acontecer
às caixas?" Esta questão atormentava o meu pai. De facto, elas seriam de
importância vital nas semanas seguintes.
Os russos chegaram. Não
podíamos deixar o abrigo. "O que vai acontecer às caixas?" A pergunta
continuava a fazer-se ouvir nas nossas mentes. Dois dias mais tarde, pudemos
voltar para a nossa casa. Os russos saqueavam tudo. Todavia, eles não tinham
encontrado as caixas: no último dia de bombardeamentos, uma granada havia
atingido a parte superior de uma das paredes da casa em ruínas e, com os seus
escombros, coberto todas as caixas. Agora, o lugar onde elas se encontravam não
parecia tapado por mãos humanas (as hordas de saqueadores tinham olhos bem
treinados para detectarem os sítios onde as pessoas tinham enterrado os seus
bens), antes apresentava um aspecto "bastante natural". Quando,
alguns dias mais tarde, recolhemos as caixas, pudemos dizer com o salmista: "Preparas
uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos."
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Então eles chegaram, os
"nossos inimigos". Por todo o lado, as casas eram revistadas, havia
roubos, também assassínios, saques, violações, etc. Sentíamos medo até aos
ossos.
Tínhamos acabado de
voltar do abrigo e entrado em casa, expectantes em relação ao que se iria
passar em seguida, quando uns soldados entraram pela porta das traseiras, que
dava para o jardim. Através da janela que ficava virada para o lado da rua,
gritaram alguma coisa para outros soldados, a porta da frente foi aberta e, num
momento, o rés-do-chão estava cheio de russos barulhentos, que falavam entre si
em grande confusão. Um caos! Contávamos com tudo. Depois, eles dirigiram-se a
nós. Não havia qualquer possibilidade de nos entendermos... Através de gestos,
compreendemos finalmente o que eles pretendiam: queriam instalar-se na nossa
casa, mas podíamos ficar com a cozinha e com um quarto. Tudo bem! Eram
militares com funções distintas: um oficial com o respectivo impedido, um
relator da frente, um funcionário administrativo superior, um posto de correio
de campo com o pessoal correspondente.
No dia seguinte, eles
encontraram um Novo Testamento em russo na nossa estante. Perguntaram, através
de gestos, se orávamos e éramos piedosos. Ao nosso "sim", reagiram
com um respeito visível. A confiança mútua cresceu. Dávamos-lhes da nossa água
potável de reserva (a minha mãe tinha enchido umas centenas de frascos com
ela). Eles davam-nos da sua comida. Procuravam contacto e conversavam connosco.
E nós, à noite, podíamos dormir descansados.
A situação na nossa
zona era, todavia, terrível. Todas as casas eram revolvidas por soldados que as
saqueavam, mulheres eram violadas e ninguém podia ter a certeza de que iria
continuar a viver. Neste caos, revelava-se agora o que a ocupação da nossa casa
significava para nós: Sempre que um russo com um aspecto ameaçador entrava lá
dentro, conduzíamo-lo, com um sorriso radiante, a um dos nossos hóspedes. Estes
tinham-nos deixado ficar em nossa casa para tratarmos dela, para a limparmos,
para irmos buscar água, etc. De saqueadores e de pessoas violentas já eles
estavam à espera. Por isso, expulsavam imediatamente tais hóspedes
indesejáveis, não poupando em ameaças e pontapés. A informação acerca disto
espalhou-se rapidamente, de modo que a nossa casa se tornou logo na primeira –
e pior – semana, tabu.
Então estes eram os
"nossos inimigos": Deus tinha-os enviado para nossa casa como anjos
protectores! Experimentámos de uma forma bastante palpável as palavras do
Salmo 91:
"Aquele que habita
no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Omnipotente descansará.
Direi do Senhor: Ele é
o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei. [...] Não
temerás espanto nocturno, nem seta que voe de dia [...]. Mil cairão ao teu
lado, e dez mil, à tua direita, mas tu não serás atingido. [...] Porque tu, ó
Senhor, és o meu refúgio! O Altíssimo é a tua habitação. Nenhum mal te
sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda. Porque aos seus anjos dará
ordem a teu respeito, para te guardarem [...]."
Friedrich
Hilliges
em 3 etapas: