E ainda questionam a existência de Deus
DR. AUGUSTO JORGE CURY
Psiquiatra,
psicoterapeuta, cientista e escritor
Tentarei abordar um assunto muito complexo
que perturbou e ainda perturba a mente de muitos teólogos, filósofos,
pensadores e homens de todas as culturas e raças. Um assunto que também me
tirou, durante anos, a tranquilidade. Um tema sobre qual muitas vezes temos
dificuldade ou não temos coragem de falar, que fica represado na nossa alma,
que raramente verbalizamos, mas que mima as nossas convicções. Questionarei a
existência de Deus sob a perspectiva da Sua intervenção nos eventos da
humanidade. Ao olhar para tudo o que Jesus passou, temos de questionar por que Ele
fez tão grande sacrifício. Quem se animaria a fazer o que Ele fez? O que
motivou a alguém que discursou incansavelmente sobre a vida eterna ter
preferido a morte mais vexatória? Não podemos ter medo de usar a nossa
inteligência e indagar: Se Deus é tão criativo porque é que Ele arquitectou uma
solução tão angustiante para resgatar a humanidade?
Ao olharmos para as lágrimas, desespero,
aflição e injustiças que macularam os principais capítulos da história que
ocupam uma parte central do palco de nossas vidas, temos de questionar: Quem é
Deus? Onde está Deus? Quais as características básicas da Sua personalidade? O
que move os Seus sentimentos? Ele existiu ou é fruto da nossa imaginação? Ao
fazer esse questionamento, podemos chegar a três hipóteses: 1ª- Deus não
existe, é uma criação do cérebro; 2ª- Deus existe, mas abandonou a humanidade,
pois considerou-a um projecto falido; 3ª- Deus existe e produziu o mais
ambicioso plano da história para a resgatar.
Não sei se o leitor já questionou a
existência de Deus. Já indaguei intensamente. Ao olhar para as misérias
humanas, para as injustiças sociais e para a história da humanidade podemos saber
se há um Deus no universo ou se ele apenas é um fruto espectacular da mente
humana.
Apesar de haver alimentos em abundância
para alimentar todos os habitantes da terra, a fome destrói inúmeras vidas. Se
Deus existe, porque não intervém nas desculpas políticas que financiam o nosso
egoísmo e extingue a fome?
Mães tiram o pão da sua boca para dar aos
seus filhos famintos e, ainda assim, muitos deles permanecem caquécticos e
morrem. Tais mães, abatidas pela fome, não têm nem lágrimas para chorar a morte
dos seus pequenos filhos. Onde está Deus?
Questionar a existência de Deus é oportuno, pois sabemos que a ciência está
cada vez mais a voltar-se para a espiritualidade. O ateísmo, tão em moda na
primeira metade do século XX, começou a implodir nas
últimas décadas.
Em dois períodos da minha vida, rejeitei a ideia
da existência de Deus. Procurá-lo era perder tempo no imaginário. Entretanto,
ao debruçar-me na pesquisa sobre os fenómenos que constroem cadeias de
pensamentos, fiquei pasmado. Encontrei diversas evidências claras de que no
processo de construção da inteligência há diversos fenómenos que ultrapassam os
limites da lógica, tais como a governabilidade do
pensamento, o fenómeno da psico-adaptação e o fenómeno do auto fluxo. Tais fenómenos
só podem ter sido concebidos por um criador.
Nesta hipótese, Deus existe, mas alguns
crêem que a humanidade é uma criação que não deu certo. Todas as injustiças e
dores humanas perpetuam-se porque o Criador considerou a humanidade um
laboratório falido. Os que crêem nesta hipótese acham que Deus abandonou-nos à própria sorte neste planeta azul, que mais
destruímos do que conservamos. Mergulhados no universo, construímos religiões
como tentativa de achar o elo perdido entre a criatura e o Criador. Todavia,
Ele esqueceu-se desta bela e frágil espécie. O Autor da vida não nos destruiu,
mas encerrou os nossos dias em poucos anos de existências. Depois da morte, o
fim do espectáculo da vida. Neste caso, o sonho da imortalidade da alma seria
apenas um delírio religioso, pois a morte far-nos-ia deparar com o drama do
“nada”, do “silêncio eterno”, do “casos da inexistência”, da perda irreparável
da consciência. Com a morte do cérebro, as biliões de experiências de vida que
tecem a colcha de retalhos da identidade da personalidade tornar-se-iam
irrecuperáveis.
Deus existe, mas criou o homem à Sua imagem
e semelhança e colocou-o na bolha do tempo e deu-lhe plena liberdade para agir
segundo a sua consciência. Nesta hipótese, Deus criou o homem de maneira tão
elevada que respeita as decisões humanas. Deu livre arbítrio para o homem
escrever a sua própria história. Não criou um robot, mas um ser que pensa, que
decide e que pode não apenas agir segundo a sua consciência, mas amar e
rejeitar o próprio Deus. Esta tese revela que o Autor da vida é grande em poder
e maior ainda em dignidade, pois somente alguém tão grande pode ter a coragem
de deixar que os outros O rejeitem. Deus sabe de todas as injustiças, de todos
os sofrimentos, de todas as mortes das pequenas crianças, sofrimentos dos pais,
dos escravos, dos injuriados, dos miseráveis da nossa espécie. Restaurará a
vida, devolverá a identidade dos mortais, reorganizará a personalidade das
crianças ceifadas pelo fim da vida, aliviará toda dor, enxugará toda lágrima e
a morte não mais existirá.