Nesse tempo, o interesse pela viticultura
era bastante acentuado, tendo existido uns vinte viticultores, que
chegaram a produzir 12000 pipas de mosto.
Actualmente, a produção de vinhos nesta zona veio a diminuir gradualmente,
até à última década dos anos de setenta, em que foi de pouco mais de 50
pipas.
A região produtora do vinho de Carcavelos
situa-se na zona dos Estoris, a 15 km de Lisboa, junto à foz do
Tejo. Esta demarcação abrange as freguesias de S. Domingos de Rana e
Carcavelos, do concelho de Cascais, e parte da freguesia de Oeiras. Os
terrenos são constituídos de calcário e de argila arenosa. O clima é
marítimo, influenciado pelo oceano Atlântico. As castas de maior
importância para a composição destes vinhos generosos ou especiais são as
seguintes: brancas - Galego Dourado, Arinto e Boal; tintas Trincadeira,
Espadeiro ou Torneiro e Negro Mole. A casta de videira que maior
importância tem para obtenção deste tipo de vinho é a Galego Dourado,
sendo a videira que se cultiva em maior número, e, também, aquela que
menos quantidade produz, por «pé», e que oferece melhor qualidade de
fruto.
Em 1930 criaram-se os grémios de
vitivinicultores e de exportadores, reunidos, por lei, na União Vinícola
Regional de Carcavelos, tendo a seu cargo a orientação da produção
e do seu comércio. A fiscalização da qualidade deste vinho generoso
compete à referida União, que concede selos de garantia aos vinhos
produzidos nesta região e certificados de origem para os destinados a
exportação.
Numa das lombas do coração de Carcavelos
encontra-se um largo público com doze palmeiras adultas, e com as suas
palmas a indicar a posição dos ventos; ao mesmo tempo, nos dias de sol
brilhante, também sombreiam os portões de uma das quintas aí existente,
que por sorte ainda hoje conserva a viticultura desta região dos Estoris.
"A freguesia de Carcavelos é aquela que
oferece o seu nome à Região Demarcada .
As suas vinhas também não escaparam às
doenças do oídio, e mais tarde à filoxera, os quais foram suficiente para
destruir a cultura das castas tradicionais ou nobres, e só mais tarde, a
poder de muito trabalho, foi possível recuperar a finíssima qualidade
desses néctares, o que se ficou a dever, em parte, às espécies bravas ou
cavalos, que são a Aromon, Ripária e a Chasselas, espécies que foram
enxertadas com as castas tradicionais referidas.
As vindimas processam-se em condições
normais, sem merecer referência especial. Durante a maturação, as uvas
chegam a atingir um grau de açúcar bastante elevado, o qual se deve ao sol
que cobre as praias e as lombas desta zona, durante os meses quentes da
Primavera, Verão e Outono. No momento da vindima, não se exclui os
cuidados a ter com os, cachos maduros, antes de os levar para o
lagar, os quais são escolhidos, retirando-se-lhes alguns bagos verdes ou
podres. A fermentação processa-se de acordo com as técnicas tradicionais e
admitidas por lei. Este vinho generoso é envelhecido em vasilhas de
madeiras apropriadas (de carvalho ou de castanho), durante um período de
tempo mínimo de quatro anos. Depois de ter atingido uma coloração e
um determinado grau de doçura, assim como um perfume característico, este
vinho será envasilhado em garrafas de tipo dos Vintages ou dos de Gerez
de Ia Frontera. São apresentados para consumo com dois graus de doçura
diferentes: o nº 1, que corresponde ao grau mais seco, e o nº 2, que cor
responde ao grau mais doce. Gastronomicamente, o seco é delicioso para
acompanhar caldos de substâncias, cremes ou aveludados, e, alguns tipos de
acepipes, podendo ser bebidos antes das refeições, como aperitivo. O mais
doce é também muito agradável para acompanhar frutas flamejadas, crepes de
sobremesa e diversos tipos de pastelaria. Há quem os prefira, tanto o seco
como o doce, para acompanhar o café, em vez de licores. O grau alcoólico
de ambos anda à volta de 18_20 G.L., e são servidos em cálices do tipo do
Porto ou em túlipas do tipo dos de Gerez. O mais seco é aconselhável
servi-lo em copos (ou cálices) previamente frios ou esfriados no momento
de se servir, para o que se colocam uns pedacinhos de gelo dentro do
referido copo, segurando-o pela base ou pé, fazendo que o gelo que está
dentro ande à volta do copo, e assim, o vidro vá esfriando, ficando
bastante embaciado, em seguida deita-se fora o gelo e a água e sacode-se o
copo, sem ser necessário limpá-lo, servindo-o em seguida. O mais doce
serve-se no mesmo tipo de copo que o primeiro, à temperatura ambiente, à
volta de 18° a 20° centigrados. Bebem-se do mesmo modo que os Portos ou os
licores, ingerindo-se pouca quantidade de cada vez, deixando-os
espalhar-se pela boca, durante alguns segundos, o que nos permite
saboreá-los melhor.
E conveniente que nas garrafas, depois de
abertas, se coloque uma rolha que vede bem, colocando-as em local seco e
não muito exposta à luz; assim poderão conservar-se várias semanas sem
correr o risco de o vinho se adulterar. Estes vinhos, que apresentam uma
cor dourado-carregado, possuem um aroma inconfundível, notando-se a
influência da casta Galego Dourado, da qual não se conhece exactamente a
origem, havendo quem afirme que é originária dos Celtas, sendo trazida
para a foz do Tejo pelos Fenícios. Na realidade, apenas se sabe que esta
videira não se adapta a qualquer terreno ou clima, sendo a zona dos
Estoris aquela que melhores condições oferece para o cultivo desta espécie
vitis vinifera. Segundo Homero, depois da tomada de Tróia, e durante os
dez anos que Ulisses andou a navegar pelos mares, quando regressou a Itaca,
levava consigo passas de uva, que ofereceu a sua esposa Penélope, como
prova de doçura e de muito trabalho. Segundo a lenda, Ulisses, partiu de
Lisboa directamente para a sua terra, ilha onde era rei. Falando de uvas e
de navegadores, em Lisboa também pudemos ver, logo a seguir a Alcântara,
junto à Tapadinha, umas manchas de vinhas, mas, por ser época de parras
caducas, não nos foi possível identificar as espécies de videiras
que nesses locais se cultivam -se naturalmente que os técnicos de
viticultura as conhecem pelas parras, quando estão vivas, ou pela cor dos
bacelos. Seguindo pela borda do Tejo até Carcavelos, também se encontram
algumas parreiras, a adornar os portões dos chalets, assim como
lindos jardins particulares e vasos com plantas, nas varandas, oferecendo
variadíssimas cores, e só Plínio (o sobrinho) poderia descrever estas
belezas da Natureza. É talvez por todas estas influências de odores que os
vinhos generosos de Carcavelos nos oferecem um certo gosto a tâmaras -
odores e paladares que dependem de um certo período de tempo de
envelhecimento.
Também os tintos comuns, obtidos a partir
das mesmas uvas que os generosos, são excelentes para acompanhar com
perdizes à moda de Alcântara; espécie cinegética rara em Portugal, que
também sempre foi protegida por lei.
J. M. González Gil