CARCAVELOS DE ANTIGAMENTE

Pessoas , casas, casos ...

 

Nota (que gostava que tivessem em conta) :

Devo dizer, antes do mais, que não sou, de forma alguma um saudosista. Antes pelo contrário, sou radicalmente pelo futuro.
Acho que o passado teve muito mais de mau que de bom para a maioria das pessoas e que o presente, nesse aspecto, continua exactamente igual. É um presente cinzento, sem graça nem cor para quase todos.
Mas será que a destruição sistemática de tudo o que há de belo e digno, em nome do dinheiro e de um progresso de fachada servirá alguma vez a humanidade?
A resposta é mais do que óbvia, meus caros Watsons...
A miséria, em todos os seus aspectos, é aquilo que nos espera se desistirmos de lutar pela nossa dignidade .
Saber guardar as marcas deixadas pelo passado, entendê-las e aprender com elas, é um testemunho que devemos ter a coragem de passar às novas gerações.
Mas, perdoem-me estes assomos “ philosoficos”, e entremos pois no assunto.


Uma das quintas de Carcavelos que não conseguiu sobreviver ao “tsunami” do betão, foi a de Paulo Jorge, assim conhecida por ter pertencido a um irlandês de nome Paulo ( ou Paul...) George, que mandou construir a respectiva casa , nos já há muito idos de 1750.

Era ele o filho mais velho de John George, que na sequência das perseguições religiosas no seu país, arribou a Portugal em 1703.

Em sua quinta , os George produziram durante algumas gerações um afamado “Carcavelos”. No início do Séc.XX, passa a mesma a pertencer a Manuel Rodrigues de Pinho , que na senda dos antigos proprietários, continuou a ser responsável por uma produção vinícola de qualidade.

Por essa altura era, Emídio Augusto Teixeira Pimentel de Figueiredo ( 1859-1920) , senhor e dono de variadas quintas e terras na região.

Vivia com a sua mulher Maria da Conceição de Pinho e seus filhos, na casa da Quinta das Palmeiras, hoje desaparecida, numa propriedade que se alongava para sul pela contígua Quinta das Forras. Também nestas terras o “Carcavelos” era bom , embora fosse apenas produzido para consumo próprio. Atestam-no as pouquíssimas garrafas que ainda existem, algumas com uns saudáveis cem anos de idade... Eram também de Emídio Pimentel de Figueiredo, a Quinta da Cartaxeira e as terras que se estendiam pelo Alto dos Lombos e pelas Corriolas. Interessado pelo que o rodeava, tinha projectos para o futuro, e quando veio a morrer em 1920, era há algum tempo vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais. Aí lutou, entre outras coisas, pela abertura de uma longa e arborizada avenida que ligasse Carcavelos às terras de Sintra... Entretanto, na sua Cartaxeira cria um “Clube” polivalente como hoje se diria, a que chamou “Recreios de Carcavelos”, que tinha um pequeno teatro, um cinema, salões de convívio, dois “courts” de ténis e campos de patinagem.

Nas terras da Corriola , o filho mais velho de Emídio Pimentel de Figueiredo, Joaquim José casado com Ida de Almeida Ramil, manda construir uma casa em 1919, quando a Rua Manuel de Arriaga, ainda não passava de uma ideia. A bela moradia ainda lá está e pertence a descendentes seus.

Um dos seus outros filhos, Serafim de Pinho Pimentel Teixeira de Figueiredo, também vem a ter uma moradia na Av. Maria da Conceição, onde reside com a família até ao seu falecimento em 1976.

Igualmente na Corriola , Luís Carlos de Leão Saldanha, marido de Maria José de Almeida Ramil, irmã de Ida, adquire terras em 1920 e aí edifica a ainda existente “Vivenda Saldanha” e cria uma nova quinta que se estende no sentido da Parede.

Alguns anos depois da morte do marido, Maria da Conceição de Pinho vende a Casa da Cartaxeira a Maria da Conceição de Sousa Botelho Guedes do Amaral, cuja filha viria a casar com o Engº Sebastião de Freitas Branco de Herédia.

Em 1934, vende também as quintas das Palmeiras e das Forras, nesse caso a Luís da Costa de Aguilar Barbosa Piçarra. Luís , o filho dos novos proprietários , que tinha então 17 anos , conhece assim Maria da Conceição a filha mais velha de Joaquim José , com quem virá a casar em 1941.

As propriedades mantêm-se na posse desta família até ao início dos anos 40, altura em que é vendida a Qt.ª das Palmeiras a um sócio da firma Manuel Vidas. Quanto à das Forras, que não tinha património construído, também acaba por se vendida em meados da década de 50.

Outras antigas quintas ainda se mantém nos tempos de hoje, como é o caso da Quinta da Bela Vista, da de Rana, que foi de Henrique José de Melo Breyner Cardoso de Menezes, a bela casa da Quinta do Lameiro ainda hoje propriedade da família Herédia, a casa da Quinta de São Miguel das Encostas. Quanto à magnifica Quinta da Alagoa, agora transformada num vasto parque aberto a todos, restam dela apenas vestígios da casa que foi de Vasco Maria de Figueiredo Cabral da Câmara, filho do 3º Conde de Belmonte, e cujas paredes se por acaso falassem muitas histórias teriam para contar. .

Falamos de Quintas , de gente rica , quando a maioria, não tinha dinheiro para comer. Mas falámos também de casas belas, do bom velho vinho de Carcavelos... No fundo, no fundo não deveríamos todos nós, se o desejarmos, poder comer ostras ou trufas, todos os dias?

E pronto.... Vou dar uma boa volta a pé por Carcavelos , e talvez passar pela Marginal, e dar uma olhadela ao mar e à praia, pois mesmo sem cavalos, nem sequer burros ajaezados à andaluza, a praia ainda lá está. A grande valente!!

Luís Piçarra
picarras23@clix.pt

 

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