CARCAVELOS DA MINHA MENINICE

 

Carcavelos nos anos cinquenta, era uma pacata aldeia,   rodeada de quintas e quintinhas, cortada a meio pela linha do Caminho de Ferro.

No lado de lá da linha e em frente à estação, num percurso que ia até à praia, podiam ver-se do lado esquerdo, a quinta dos Ingleses, com o seu campo de golfe, os courts de ténis, o colégio S. Julião e as instalações do Cabo Submarino e um pouco mais para além, o campo de futebol do Carcavelos. 

Olhando para o lado direito,  ladeando toda a Av. Jorge V, vislumbrava-se a quinta do Junqueiro com os seus chalés e vivendas  que se estendiam até à ribeira das Marianas . Mais para o interior só se avistava o sanatório José de Almeida  recortado pelo verde dos pinheiros .

No Verão, nas ruas paralelas que acompanham toda a avenida, marcavam presença os vendedores de rua.

Vendia-se  água fresca, que era trazida em bilhas de barro, cobertas  com um trapo  encharcado em água . Junto a estas  um pequeno alguidar  onde um copo sempre mergulhado , esperava pelo próximo freguês. O preço era de três tostões , e o pregão "Água fresquinha, quem quer água fresquinha".

Vendiam-se ainda  chapéus para o sol, baldes  e pás de plástico e outras brinquedos coloridos para a miudagem. 
Os vendedores de gelados também eram uma constante. Tocavam freneticamente a campainha do triciclo anunciando o gelado de vários paladares com um "há fruta ou chocolate".  O cone mais pequeno custava $50 e o maior um escudo.

A praia de Carcavelos, era sem dúvida na época, a  mais popular da Linha. A sua grande extensão, entre o Forte de São Julião e o Sanatório José de Almeida  é feita de areias finas e  brancas,  salpicadas por pequenas rochas. As barracas e toldos de listas brancas e azuis,  ou vermelhas, que se estendiam por todo o areal davam colorido à paisagem.  Vendedores da barquilhos, bolas de Berlim, gelados e bata frita percorriam a praia de lés a lés oferecendo os seus produtos.

O restaurante mais conhecido era o do Narciso. O proprietário que, segundo se dizia, tinha ganho bom dinheiro, vendendo água e outras bebidas aos trabalhadores, que nos anos quarenta tinham construído a marginal Lisboa - Cascais,  havia desta forma poupado o suficiente para abrir aquele estabelecimento balnear.

Na praia as senhoras vestiam fato de banho com uma pequena perna e de um corte discreto. 
Os homens  usavam fato de banho de alças ou um calção e camiseta,  para cobrir o corpo. Os biquinis só eram permitidos na praia do Estoril, frequentada  por turistas estrangeiros.

Aos fins de semana chegavam de Lisboa, comboios especiais apenas com banhistas. Vinham bem cedo.  Desciam a avenida em grandes grupos, constituídos por amigos ou  famílias inteiras. Traziam que comer e beber. Havia que aproveitar bem o dia. A ida à praia era uma festa.

Quase ao por do sol faziam o caminho inverso. A roupa encostada ao corpo queimado pelo sol, arranhava a pele. Mas havia que aguentar. No fim de semana seguinte, cá estariam outra vez, se o tempo ajudasse..

A estrada marginal animava-se, porque os mais abastados chegavam de carro. Nos parques de estacionamento  não havia lugares vagos.

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O núcleo histórico do casario que se situa  na parte de cima da linha,  estava rodeado   pela Quinta da Pescadinha, que ficava situada nas costas do antigo edifício dos bombeiros, seguia-se a a Quinta do Carvalho, onde se encontra agora a Mercado Municipal depois a  Quinta do Paizinho (Paulo Jorge), do Barão, das Rosas e da  Alagoa.
Carcavelos tinha por isso dificuldade em se expandir e desenvolver. Mas não era só por isso, mas também por esse facto, que Carcavelos era uma terra agradável para se viver.

 As suas ruas estavam bordejadas   por plátanos e o  largo principal apresentava  imponentes palmeiras que davam sombra.  aos bancos de jardim ali existentes. Um pequeno urinol e a fonte de aspecto rectangular, onde os habitantes se iam abastecer de água e os machos matar a sede  completavam o quadro, quase provinciano. Sensivelmente a meio e junto à estrada, havia uma cabine telefónica, pintada a vermelho e amarelo. cujas paredes eram formadas por pequenos quadrados de vidro, do tamanho de azulejos.

 O jardim Júlio Moreira era o local onde se tiravam as fotografias de casamento ou de aniversário e servia também de átrio para inúmeras brincadeiras.

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O "petrolino" chegava com a sua carroça às quartas feiras (na altura os fogões de cozinha trabalhavam a petróleo).
A  carroça dos cães, da Câmara Municipal fazia aparições periódicas para recolher alguns caninos que andavam à solta.
O amolador, aparecia quando aparecia,  e com o seu carro característico ia apregoando " amola tesouras e navalhas".
Ouvia-se no Rádio Clube, os Parodiantes de Lisboa, e Marques Vidal apresentava o programa Quando o Telefone Toca.
Os jogos de hóquei em patins e de futebol era também ouvidos na taberna ou no café e  largamente comentados,   No intervalo anunciava-se a Rádio Vitoria, a tal que tinha os "candeeiros bem bonitos modernos e originais".

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Todas as pessoas se conheciam  pelos nomes.

O presidente da Junta de Freguesia, sedeada no edifício contíguo à Igreja, era o Sr. Alfredo Conde.

O carteiro, o Sr. Marques;

Os médicos, o Dr. Marques da Mata  e Dr. Gil do Céu.

O permanente de serviço nos Bombeiros o Sr. Padala

O Sr. João, era o Policia de giro

O Henrique da Rebelva, figura típica e "excêntrica" de então, vagueava pelas ruas  e era não raras vezes molestado  pelos miúdos que lhe gritavam "Ó Henrique não tocas e não vais ao baile".O que o deixava completamente transtornado, ao ponto de se a agredir a ele próprio.

O Zé "Graxa" que além de engraxar sapatos tinha a função  de indicar no verão quais as casas que estavam disponíveis para alugar, tinha assento junto ao café Central , no largo de Carcavelos.

O posto dos Correios, ficava no primeiro andar do edifício que se situa entre a 5 de Outubro e a Cândido dos Reis. Ao fundo desta rua, um edifício com uma grande placa preta com letras brancas assinalava a presença do Colégio Português.
Contornando  este  chegávamos ao Victória Cine, o cinema da terra que  hoje virou ginásio. Um bilhete custava para a geral ( as três primeiras filas), três mil e quinhentos, para a plateia 4$50 e para o balcão, situado no andar superior 6$00.
Na altura assistia-se ao Sanção e Dalila, e aos 10 Mandamentos. À porta do cinema vendiam-se esticas a 5 tostões, alfarrobas e  tremoços, e amendoins enrolados em papel de jornal.

A rua principal era sem dúvida a 5 de Outubro que era passagem obrigatória para quem vinha do lado da estação e se dirigia ao Largo de Carcavelos. Nela estavam situados, no lado direito  a Pensão S. Jorge que tinha uma esplanada, onde no Verão se dançava, e a alfaiataria  do Sr. Amadeu que confinava com  o campo da bola, onde os "artistas" da terra realizavam os principais encontros de futebol  com os seus rivais da Rebelva. 

Do lado contrário havia  o Café Paraíso, a mercearia do Sr. André, a Pastelaria Primavera, uma casa de gelados, que também tinha esplanada no quintal, . O gelado com o respectivo cone de bolacha de baunilha custava 2$50, uma exorbitância para os miúdos da época.
A Farmácia Central, ainda se encontra no mesmo local, embora totalmente remodelada.
 

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Mas para mim a rua mais importante era a  Júlio Moreira, pois  era a rua onde morava,  e o meu pequeno mundo.

A rua tem o seu início na da Fonte da Aldeia e  termina rua na 5 de Outubro. A minha casa ficava,  num espaço, que agora serve de pequeno jardim  mesmo em frente à actual junta da freguesia. Ladeavam-na  à esquerda, um pequeno armazém da loja do Sr. André, e também as cavalariças do Lourenço, e à direita a casa de Francisco Emiliano, que estava encostada ao antigo mercado, e que tinha uma  oficina de serralharia lá para os lados da Moagem, 

O mercado de Carcavelos, tinha um formato rectangular composto de uma só nave. O chão era feito de calçada e o tecto  em forma de V invertido, era de lusalite.  Entrava-se por um largo portão e poderiam ver-se três correntezas de vendedores.

A primeira, era constituída por pequenas barracas que vendiam ovos, frangos e miudezas, patos  e outras aves de capoeira. A excepção era a barraca da Sra. Balbina que vendia fruta fresca de todas as qualidades.
No final da correnteza, estava  o depósito de pão, do Sr. Borges. Abria pelas sete da manhã, encerrava pela hora do almoço e voltava a abrir pelas 5 da tarde com pão fresco. Uma carcaça custava um cruzado. Uma vianinha 5 tostões. Vendiam-se também o pão de 17, e o fino a 22 tostões.

Na correnteza do meio, comercializavam-se  essencialmente legumes e fruta sendo a banca do "Zé Bananeiro" uma das mais populares.

O peixe era vendido na última correnteza e tinha como vendedores, além de outros, o Ti Justino e as filhas, a Sra. Maria e a Sra. Guiomar . No inicio das bancas havia um pequeno pilar de forma arredondada que sustentava uma torneira de serviço.

No topo sul tinham lugar dois pequenos talhos e depois a taberna do Sr. António dos Secos, onde os copos  de dois e três, de vinho tinto ou branco eram servidos  em copos de vidro grosso. Vendia também rebuçados e outras guloseimas, línguas de gato e "beijinhos" uma pequena bolacha do tamanho de uma moeda de cinco tostões, que tinha em cima um creme rijo em forma de cone, de cores rosa e branco.

Os vendedores chegavam manhã cedo em duas camionetas vindas da praça da Ribeira em Lisboa. Uma trazia os vendedores de frutas e legumes e outra, os do peixe.

O largo do mercado , era não raras vezes atravessado por rebanhos de ovelhas ou cabras que se iam alimentar numa das muitas quintas existentes. Desciam a rua fonte da Aldeia e dirigiam-se para o lados do campo da bola e dos tanques de lavar roupa, que ficavam do outro lado da linha. . Também o  vendedor de perus, que os conduzia com duas varas compridas, passava por aqui, por alturas do Natal.

A vizinhança da Júlio Moreira era do melhor que se podia encontrar. Tínhamos no inicio da rua, a casa e as cavalariças do Sr. Farelo, que fazia os fretes da terra com a sua carroça puxada a machos, . A seguir ficava a casa do Sr. Chico Pinto, que trabalhava nos TLP seguia-se uma vivenda onde a ilustre pianista  Maria João Pires em miúda passava as férias de verão e logo de imediato uma casa de dois andares, que na altura se comentava que era a casa onde tinha vivido em criança  o Luís Piçarra, conhecido cançonetista. Seria???
Encostada a esta moravam os Dourado. Ela tinha um pequeno espaço no Mercado da Carcavelos,   e ele uma barbearia no largo.

Quem seguisse em frente passava  pelo antigo Quartel dos Bombeiros, que tinha no  primeiro andar a Sociedade Musical de Carcavelos, que ocupa agora todo o espaço. Esta centenária instituição era  um dos locais onde se realizavam os bailes da terra, sendo o mais célebre o da Pinhata. Também aqui o maestro Carlos Lopes ensaiava a banda filarmónica.

Seguia-se a  oficina de sapateiro do Sr. Edmundo. Em frente a esta, havia na estrada um par de sarjetas, uma quase em frente à outra, onde os putos , geralmente dois contra dois, jogavam futebol com uma bola de ténis. As sarjetas serviam de balizas.

O edifício da escola primária ficava depois, e, seguia-se uma pequena mercearia,  hoje um restaurante, onde se compravam os rebuçados dos bonecos da bola, a tostão cada.. No topo da rua e frente a frente ficavam as casas do Dr. Marques da Mata e dos Sales, que também confinavam com a 5 de Outubro.

As noites de verão eram animadas pela verbena, situada nos terrenos contíguos ao quartel dos Bombeiros e organizada por esta corporação.  Além do recinto de baile, tinha barracas de rifas, de tiro, de bola às latas e o respectivo bar onde os homens iam molhar a boca. Levavam-se em altura própria, as damas ao bufete, para tomar um pirolito ou uma laranjada. Os Pombalinos de Oeiras, conjunto que tocava bandolins, era um dos que animavam as noites, com maior sucesso.

Pelo Santos populares, fazia-se a respectiva fogueira e os enamorados queimavam uma alcachofra, desejando que no dia seguinte ela florisse, pois era sinal que eram correspondidos no seu amor.

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O Largo de Carcavelos era onde se desenvolvia toda a actividade da terra.  Quem se colocasse junto à antiga cabine telefónica,  e se virasse para a passagem de Nível, poderia ver do seu lado esquerdo, na Rua Dr. José Joaquim d'Almeida, a Sapataria Didi a Taberna do Sr. Abílio, a oficina de funileiro, do Sr. Galharós, a mercearia do Sr. Vieira, a Pastelaria Central, a loja de Roupas do Sr. Abreu e a Mercearia do Sr. Augusto. Em frente à taberna do Sr. Abílio havia a barbearia do Sr. João.
Se olhássemos para a 5 de Outubro também do lado esquerdo, ficava a Drogaria Nova, a mercearia Marítima, a Taberna  do Sr.  Charola, a Drogaria Duarte e a oficina de Sapateiro do Avô do Dabia. Em frente estavam dois talhos, e entre estes a Papelaria Mateus e o Café Central.

Nas suas costas teria a Barbearia do Sr. Dourado, junto à igreja, a sapataria do Sr. Pereira e a taberna e Casa de Pasto do Sr. Carlos Silva. seguia-se uma padaria e depois o Café S. Jorge, este já construído durante os anos 50. Do lado esquerdo tinha a mercearia Gonçalves.

Na continuação da Rua José Joaquim de Almeida avistava-se uma marcenaria e mais além a casa do Pasto Flor de Carcavelos, depois de termos passado pela sede do Grupo Sportivo de Carcavelos.
Esta colectividade  inicialmente ligada ao ciclismo e depois ao futebol, sempre desempenhou um papel muito importante na actividade social da terra.

Ali se realizavam os espectáculos de teatro e também os bailes, que animavam em épocas próprias, como o Carnaval, as noites Carcavelenses. Jogava-se bilhar, às cartas e ao dominó e também ping-pong, e à noite e nas tardes de Domingo assistia-se à televisão, pois raros eram aqueles que tinham o privilégio de ter uma TV em casa.
 

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A prosa já vai longa.

Estes foram alguns dos sítios que percorri de calções e sandálias e que recordo com saudade e de que aqui deixo registo.

Álvaro Dias

 

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