1-7 < 89-05-16-cm> contra a medicina quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2003-novo word – 5 estrelas - <cdm-1> critica do discurso médico

 

O DESVIO DA QUIMIOTERAPIA

E A CONTRA-INFORMAÇÃO EM BIOLOGIA

[29-5-1999]

16/5/1989 - A história da medicina europeia desde Hipócrates, pode considerar-se dividida em duas grandes épocas : antes e depois da quimioterapia, fazendo lembrar uma outra data que dividiu em duas a cronologia mundial: antes e depois de Cristo...

De facto, o uso de medicamentos químicos de síntese alterou de tal modo a lógica e os hábitos terapêuticos, que se deve atribuir ao advento da química em medicina uma nova lei e uma nova moral.

Nesta viragem, que abalou até aos alicerces todos os métodos e processos adoptados até então pela medicina, radicam afinal os equívocos que desde então se estabeleceram na prática e na metodologia mas principalmente na nomenclatura utilizada.

Antes da quimioterapia e sua intervenção radical no processo curativo, a medicina era de facto só uma, pelo menos na Europa, herdeira de Hipócrates e suas leis fundamentais de respeito pela vida e pelos valores humanos.

Se guerra há, hoje, ela foi declarada por um método - a quimioterapia e seu radicalismo - que não só se tornou exclusivista e absoluto, não só renegou todos os outros métodos para o esquecimento ou para o campo do charlatanismo, como deu origem a toda uma nova patologia - a das doenças iatrogénicas - produzida pelos afeitos adversos dos medicamentos, caminho que conduziu a medicina à fatalidade da super-especialização e, portanto, da desumanização.

A guerra, se guerra há, foi a química que a provocou e que ainda a mantém.

Não se trata hoje, como equivocamente se teima em proclamar, de rejeitar os chamados «progressos» da medicina : trata-se, sim, de não pactuar com o bloqueio químico, apurando, entretanto, ao máximo, o rigor e os avanços científicos modernos das técnicas eternas da medicina de sempre.

Quem abriu uma solução de continuidade na evolução lógica e ecológica da medicina foi a química como contra-informação em biologia.

Em boa verdade, são os adeptos desta medicina eterna - sem intervenção da violência química - que devem, com toda a legitimidade , reclamar-se da herança e intitular-se médicos na acepção hipocrática, distinguindo-se então e por isso dos quimioterapeutas, que são um fenómeno espúrio, uma classe à parte e que tudo continua a fazer para se colocar, como um tumor, à parte do organismo social.

A ordem natural das coisas foi, com a quimioterapia, de tal maneira subvertida, invertida e pervertida, que são hoje os neo-hipocráticos, defensores da medicina perene, os que têm de abdicar dessa designação e dessa qualidade, vendo-se em palpos de aranha para encontrar o vocabulário justo, que defina exactamente actividades e funções, sem suscitar os furores da quimioterapia no poder.

É assim que se recorre a termos de «alternativa», tais como «medicinas doces», «paralelas», «naturais» ou a designações como Homeopatia, Naturopatia, Alopatia, palavras, todas elas, infelizes ou insuficientes, que raramente chegam para expressar o que pretendem.

Não é por acaso que a nomenclatura foi o campo escolhido , em França, para tentar destruir no cerne a medicina da vida que é a medicina de sempre.

No número «hors-série» trimestral que a revista «Science et Vie» decidiu dedicar, em Março de 1985, às medicinas não-violentas, é com efeito a linguagem ou nomenclatura por estas utilizada que o professor Jean-Charles Sournia escolheu como alvo dos seus ataques, no artigo inicial da revista, artigo que de certo modo dá o tom e o mote de todos os outros.

O facto de ter sido escolhida para capa a designação «medicinas paralelas», atesta que ela agrada particularmente ao sistema estabelecido, pois deixa no ar de que são «marginais» à outra e por mais que se prolonguem nunca se encontram...

Uma coisa fica como certa: é nas palavras, na linguagem, na nomenclatura - na informação, portanto - que o sistema ataca quando quer marginalizar as medicinas de raiz hipocrática e humanista.

O artigo do professor Sournia, na revista «Science et Vie», não esconde que a designação «medicinas doces» ou «não violentas» é de todas a que mais lhe desagrada.

Entre outras obras que devemos à violência química, temos que lhe agradecer mais essa: nem sequer somos senhores de falar com a linguagem que Deus nos deu.

Para definir o vasto campo terapêutico que a quimioterapia «excluiu» da prática médica, as palavras «bioterapia» e «naturoterapia» procuram reunificar a nomenclatura.

Também as designações de «medicina biológica», «medicina metabólica» , «medicina natural» e «medicina holística» procuram abranger todos os métodos terapêuticos que utilizam única e exclusivamente produtos naturais, digamos vegetais, excluindo o uso de fármacos químicos de síntese.

É neste quadro global abrangendo todos os métodos não violentos ou suaves - tendo como referência o homem total e o indivíduo-pessoa, e não apenas um ou outro órgão do corpo - que as várias designações, antigas e modernas, ganham verdadeiro significado e sentido, apresentando-se como partes coerentes de um todo, que por sua vez se opõe, em bloco, à quimioterapia.

Não se trata de fazer reviver técnicas passadas ou ultrapassadas: trata-se de progredir, na base de um axioma indiscutível - o respeito pela biologia do corpo humano - os conhecimentos científicos a que as mais recentes investigações fazem apelo.

Um bioterapeuta ou neo-hipocrático não é assim, como se tem pretendido, um anacronismo, uma fase ultrapassada da ciência mas, antes pelo contrário, o investigador que não desdenhando o moderno e o ultramoderno, sabe aproveitar tudo o que de um longo património científico e cultural ainda pode e deve ser aproveitado com proveito para o doente.

A mentalidade de embalagem descartável que impera na sociedade de consumo e que invadiu a própria ciência e particularmente a ciência médica, é execrável e abominável.

Todos os dias deitar fora a «informação» que se diz ter obrado no dia anterior, é com certeza a maior das perversidades da ciência moderna em geral e da ciência médica em particular.

Se a medicina decidiu identificar-se com o pequeno, restrito, reduzido fenómeno chamado quimioterapia, quem se reduziu á expressão mais simples e se minorizou foi ela.

O problema é dela e não dos que, achando essa identificação abusiva, procuram apenas que a medicina volte a ter respeito por si própria, fugindo ao controle totalitário da química,

O problema é dos que aceitaram o abuso da anexação e esse monopólio, e não nosso.

Pela análise da linguagem e pelo estudo atento das palavras, vemos como a discussão em torno das chamadas «medicinas alternativas está hoje viciada e que não é com dados técnicos viciados que se defende a verdade mas com um pensamento claro que, de acordo com o método científico e experimental, constantemente estabelece o vínculo dialéctico entre causa e efeito.

Só a quimioterapia teima em crer que as doenças caem do céu.

Mas a quimioterapia não tem sequelas directas, não cria só novas doenças - ditas iatrogénicas - ela, além disso, altera a personalidade e mesmo o mais profundo subconsciente do homem .

Ela manipula o consumidor sem que este tenha disso consciência .

O «antes e depois da quimioterapia» não divide apenas a história da medicina , mas a história da própria espécie humana deve considerar-se dividida entre «homo biologicus» e «homo quimicus».

Feliz ou infelizmente, parece não haver nada de comum entre eles, nem possibilidade de coexistência .

Como nos ensina a ciência dos oligoelementos, as alterações de química no organismo e no ambiente afectam a própria convicção do homem em si próprio e nas suas possibilidades de auto-controle.

Um drogado , em sentido estrito e em sentido lato, é um alienado.

É da alienação química, hoje, que se deve falar , e melhor do que ninguém o sabem os seus promotores...

Dando a convicção de facilidade ao doente, este aliena a sua liberdade e responsabilidade de auto-cura, entregando-se nas mãos do quimioterapeuta.

Esta abdicação de resolver por si os seus próprios problemas é a alienação , no sentido em que a definiu Marx.

Não se trata, pois, de manter uma insensata e infudamentada aversão à quimioterapia. Trata-se, antes, de preconizar e defender um modus vivendi e um modo de pensar - uma filosofia da vida - que se incompatibiliza com os modernos sistemas de manipulação e alienação sistemática, entre os quais a química se inclui.

Quando se defende o biológico, está a defender-se uma concepção da natureza humana que se crê, de raiz, livre, enquanto os defensores da química estão, consciente ou inconscientemente, a defender que o homem é, de natureza, escravo e tem de ser tratado a chicote, medicado por autoridades indiscutíveis a que deverá obedecer sem consciência.

O que está em jogo são duas concepções da humanidade: uma, de homens livres e responsáveis, com um potencial energético pronto a ser desenvolvido; outra,de escravos.

UMA QUESTÃO DE PODER

16/5/1989 - O rigor «científico» da medicina estabelecida é o argumento supremo usado pelas autoridades que têm por missão defender a ordem médica vigente, a poderosa instituição que, como todas as instituições, aspira sempre a ter mais (poder) do que tem.

É normal, é natural, é humano: mas o que é que isso tudo tem a ver com «rigor científico»?

Mas vamos, por momentos, conceder o benefício da dúvida e admitir que toda a medicina, tal como hoje é praticada, seja só ciência.

Metafísica , porém, não será a questão que alguns não médicos colocam: julgando a instituição pelos seus frutos, e sendo os frutos a medicina, hoje, enquanto instituição, uma lista infindável de crimes, equívocos, erros de diagnóstico (acidentais ou voluntários), efeitos adversos de medicamentos, escalada iatrogénica, sintomatologia que reproduz indefinidamente a doença, pergunta-se: será porque tem ciência a mais ou a menos?

Daí a dúvida, mais que lícita: a ciência como os ideólogos da instituição médica a entendem e aplicam, não é, pelos vistos, atributo suficiente para julgar da sua indiscutível validade e até utilidade.

Aliás, os exemplos proliferam no campo das chamadas «ciências biológicas» em que a medicina pretende incluir-se: os alegados «progressos» da ciência em biologia têm conduzido à manipulação genética e à biotecnologia, sucessos e progressos de duvidosa ética, sucessos e progressos que, só por si, não abonam eticamente a ciência só porque da ciência se reclama.

Ser ou não ser científico, pelos vistos, não é critério suficiente para julgar de uma instituição.

Em nome do maior rigor científico, aliás, em nome da economia científica, se reduziram sete milhões de judeus a carvão ou - outro exemplo recente - em nome do socialismo científico se montou o Gulag mais perfeito da história humana.

Em nome da ciência , a polícia (científica...) prende e tortura e em nome da ciência levou a tecnologia o Planeta Terra ao colapso em que se encontra.

Os que invocam a ciência como argumento supremo em defesa da instituição médica, fazem-no como se a dita (e dura) ciência em que falam contivesse uma ética indissociável e inatacável. Mas qualquer pessoa, mesmo que não seja cientista e que de tal se vanglorie, mas que tenha pelo menos cabeça para pensar, sabe que isso não é nada disso, até porque a ciência se põe, à partida, a leste de preocupações éticas, invocando sempre a sua divina neutralidade.

Então em que fica a instituição médica? É divinamente neutral ou tem lastro ético?

A I.M. (instituição médica) tem que se defender apenas como tal. Um poder justifica-se como poder, a política como política, a cultura como cultura, um circo como um circo, um pirolito como um pirolito.

Atendendo à clássica «divisão de tarefas» e ao princípio tecnocrático da «hiperespecialização de funções, que a I.M. tanto respeita, a cada qual o seu papel. Ao urso o papel de urso, a césar o de césar e a deus o de deus.

Que necessidade tem o poder médico de argumentar em nome da ciência, da ética, da cultura ou seja do que for, se enquanto poder se exerce discricionária, arbitraria e ditatorialmente?

A instituição literária não tem que procurar argumentos de estética cinematográfica, a estética teatral não constitui fundamento para explicar ou justificar as obras de pintura, etc.

O poder médico (discricionário, arbitrário, plenipotenciário) só tem que se exercer como tal, sem se justificar perante nada e perante ninguém. Existe per si.

As vítimas desse poder é que procuram, por todos os meios (como é natural), uma fuga ao Gulag: a isso chamam os jornalistas, manipuladores de cérebros, «cair nas mãos das bruxas » e dos charlatães.

É bem possível. Mas então o raciocínio não deve ser chamar estúpidas às pessoas que, em fuga à sevícias médicas, caem nas mãos de bruxas, mas compreender porque correm elas e porque recorrem, em massa, a bruxas.

Nem um só momento passa pelas cabecinhas da insigne I.M., que as bruxas são, afinal, o efeito ou sintoma de uma causa chamada falência da medicina.

Aliás e como já foi dito, será que a I.M. nem sequer reconhece esta evidência óbvia: que a cirurgia é, intencionalmente ou não, a melhor prova do fracasso de uma terapêutica?

Depois, há as perguntas perenes de infelizes consumidores que se interrogam : há qunto tempo, em nome da ciência, a I.M. vem prometendo para depois de amanhã as curas prodigiosas das doenças que apenas vai ajudando a multiplicar?

Há quanto tempo esperamos esses prodígios?

Será científico fazer de nós burros sempre no encalço da cenoura que nos colocam à frente do focinho?

Entretanto e enquanto a I.M. não descobre, nos seus milhares de laboratórios, o medicamento ideal e miraculoso prometido, o que tem havido, em crescida vertical, são doenças iatrogénicas criadas pela própria medicina.

Será isto (tal) ciência?

Mas se tudo for, de facto, ciência, deveremos ficar ajoelhados em adoração a uma ciência que esfola, adoece, aliena e mata?

Mas que fita vem a ser esta?

Num aspecto, a I.M. se tem mostrado pouco científica, isto para não dizer inculta, bárbara, ignorante e estúpida, isto para não dizer, no mínimo, pouco respeitadora da sua própria evolução através da história.

Sabe-se hoje - sabem os que não ficaram agarrados às saias de Augusto Comte - que as ciências humanas não evoluem linearmente e que o progresso de uma ciência humana, a haver algum, não é propriamente o mesmo conceito de moda, de última moda que funciona em relação ao modelo de automóvel ou de avião, sempre na peugada do último grito da técnica.

Isto, que é patego, queria o Dr. Castanhinha na sua já célebre intervenção na RTP.

Em cada momento, a ciência humana retoma e valoriza etapas cronologicamente anteriores, em síntese dialéctica constante. Isto é que é científico, e não o inverso, um positivismo tosco que já ninguém usa.

Científico, em ciências humanas, é uma abertura inteligente a outros padrões culturais: se a Acupunctura é, mesmo na perspectiva da ciência positiva, experimental e laboratorial, o mais perfeito sistema científico - que atinge o rigor infinitesimal - é possível que isso crie engulhos e inveja na tosca ciência médica ocidental, com margens de erro quilométricas...

Mas paciência, que aguente. Científico é que não é, de certeza, começar aos pulos e aos urros, só porque a acupunctura é mesmo, enquanto ciência, perfeita, apesar de ou exactamente porque não tem nada, rigorosamente nada a ver com esta triste cultura de que a I.M. tanto se orgulha.

A acupunctura não precisa de apelar à «religião científica» para se impor. E dá de barato essas pretensões científicas que afinal só obcecam pobres de espírito pouco científico.

Pouco ou nada científico, como já escrevi tantas vezes, é a atitude lógica da prática médica face aos sintomas, que é uma atitude ilógica, porque lógico e científico seria ecologicamente ler as causas através do sintomas e não, como se faz, objectivar os sintomas e isolá-los na sua sequência causal, fingindo ignorar as razões necessariamente ambientais (exógenas e endógenas) que estão na raiz dos efeitos chamados sintomas.

A sintomatologia é o paradigma - anti-lógico, anti-ecológico e anti-científico - em que se baseia a actual I.M.. Contra isto, não há demagogia pró-científica que valha.

Além de pouco científico, é pouco decente querer meter pelos olhos do público consumidor de medicinas esta tamanha vigarice mental.

Pouco científico, ainda, é continuar praticando a técnica da amálgama, metendo tudo no mesmo saco e como se não houvesse, na realidade das técnicas terapêuticas, nuances que vão desde o puro charlatanismo até ao empirismo prático absolutamente legítimo e à pesquisa ou investigação científica no sentido clássico do termo «pesquisa».

Pouco científico, além de desumano e estúpido, é negar, em tarapêutica e em profilaxia, o mérito e o valor do empirismo e da prática, que nunca e em tempo algum se opuseram à ciência, a não ser em cérebros bem pouco científicos.

Aliás, o que são, afinal, 99% dos nossos actos e gestos quotidianos - desde comer a fornicar - do que práticas empíricas?

Será que a medicina nos nega o direito de respirar sem primeiro recorrer a prévia consulta médica? Será que tudo, na vida, é «acto médico» e que nada, no pobre mortal, escapa a esta ditadura medicalizadora? E será que, para viver, para trabalhar, para andar, para cuspir, temos que andar sempre com um manual científico debaixo do braço sem o qual não podemos fazer nada disso?

Além de pouco científico, portanto, tudo isto é ridículo.

E o que são os chamados «cuidados primários de saúde» senão procedimentos empíricos, pragmáticos, úteis para acorrer às situações mais frequentes?

Se se quiser falar em termos de «novidades científicas», há que reconhecer, hoje, a existência de uma «medicina familiar» ou de técnicas de autoterapia que, inclusive, são a resposta ao slogan da OMS «Saúde para todos no ano 2000».

Para não ser apenas uma afirmação balofa, essa frase só pode significar «democratização das terapias», quer dizer, a designação das técnicas elementares (primárias) de autocura - ao lado das técnicas elementares de ler, escrever e contar, reconhecidas como a alfabetização mínima, primária, a que qualquer aborígene tem direito.

Além de ser esta a única forma de «democratizar a medicina», além de ser esta a única forma de saúde significar saúde e não doença, além de ser esta a única forma de baixar a taxa de doenças crónicas e com ela baixar os custos astronómicos da escalada para a doença crónica, eis que as tecnologias apropriadas de saúde (o campo a que hoje se chama «medicinas alternativas») são, serão um direito fundamental do homem a «saber viver».

Toda a retórica da I.M. e toda a fanfarronice da sua inevitabilidade reside neste analfabetismo crónico em que as pessoas vivem das «artes de viver», artes que são práticas, artes que são técnicas e que não têm que berrar ciência a toda a hora.

Saber comer, saber beber, saber respirar, saber dormir, saber amar, saber conviver, saber trabalhar, saber sonhar, saber falar, saber defender-se (dos glutões...) - enfim, saber viver, à alternativa global e radical à medicina.

Mais do que científica, esta é a atitude inteligente, virtude esta - a inteligência - talvez muito mais urgente e necessária nos tempos que correm, no actual processo reaccionário em curso.

Pouco científica é a beatice da I.M. perante as altas tecnologias de ponta - cirurgia, transplantes, equipamentos sofisticados - pois na sua base está uma atitude apenas bacoca.

A «complicação» atingida por essas tecnologias não é um sinal de complexidade e portanto de progresso científico, é precisamente o seu inverso, o caos do desnorte e da atrapalhação.

A sofisticação é a prova de que nada do que fica para trás dessas tecnologias de ponta tinha, afinal, carácter científico, pois se o tivesse já se teria visto alguma coisa.

Se tivesse, para quê complicar tudo cada vez mais, sinal evidente de que o sistema está podre e só sabe escalar-se a si próprio, no infinito da asneira?

O critério para avaliar uma prática humana como a medicina não tem que ser o científico: mas se tivesse que o ser , o facto é que numa página da história das «medicinas leves» há mais amor à ciência, à liberdade intelectual, ao prazer da livre pesquisa, à inteligência criadora e ao pluralismo ideológico do que em todo o bloco monolítico da hiperespecialização em que se transformou o dinossauro da medicina moderna.

Científico é resolver uma gripe em 24 horas com oligoterapia elementar, em vez de ter enchido milhares de tratados com vírus e não saber resolver um primário resfriado, deixando que ele se arraste e agrave até à pneumonia.

Se científico, para a medicina, é todo o aparato dito informático com que hoje se pretende arregalar o olho provinciano do tecnocrata, temos conversado.

Se científico é acumular toneladas de tratados sobre dooenças gravíssimas que continuam a proliferar, sem saber resolver uma vulgar enxaqueca, vou ali já volto.

Mas sejamos justos: uma coisa a I.M. é científica à brava e pode mesmo reclamar-se a criadora do modelo histórico da investigação científica, seguida depois por todas as ciências humanas, incluindo a ecologia.

É no aspecto laboratorial. Em matéria de ratinhos, ninguém lhe leva a palma.

Nenhuma outra instituição, nem mesmo a ecologia humana, foi tão longe a fazer de nós, utentes consumidores, ratos de laboratório, a fazer diariamente tantos progressos no campo laboratorial como a instituição médica.

Todos os dias, milhares de novos medicamentos , de novas cirurgias, de novos transplantes, de novas próteses são experimentados em outros tantos milhares de pacientes, elevados à categoria de cobaias perenes, transformando a instituição médica, de facto, no grande laboratório de pesquisas à escala planetária.

Quem pode contestar tal mérito? Quem pode contestar que estão aí contidos os principais conceitos que definem a ciência: o novo, a experimentação in vitro, a cobaia, o ratinho, o teste, a manipulação?

E quem pode fugir a esta avassaladora ditadura científica?

Quem pode negar a Hitler e seus capatazes, o mérito de ter criado com os famosos «campos de trabalho» um laboratório de pesquisa experimental em ciências humanas à escala europeia?

E o que nós aprendemos (ainda continuamos a aprender) com Hiroxima, com Chernobil, com Bophal, com Three Mile Island, com Seveso!

Mas todos esses laboratórios locais são bem modesta coisa ao lado do laboratório mundial que é hoje a medicina química, cirúrgica, de transplante e próteses, onde a ciência experimental atinge de facto as maiores culminâncias.

Tendo a nós, doentes, como Cobaia de estimação.