<stc-1> Revisão:quarta-feira, 17 de Maio de 2006

SOMOS TODOS CRETINOS

(GRAÇAS A DEUS E AO PROF. JACOB)

CADA MACACO NO SEU GALHO

COMUNICADO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE CRETINOS

17/5/1997 - Um exclusivo da «Science et Vie» deve ficar ao «DN» por um balúrdio. Mas vale bem a pena o esforço e o cheque, não só porque os consumidores de Homeopatia ficam eterna e cientificamente avisados de que se estão a cretinizar em grupo, tipo igreja universal, como os próprios grandes empórios que, nomeadamente em França, produzem diluições homeopáticas irão, com certeza, cair na mais abjecta e completa ruína depois de saberem, via François Jacob, prémio Nobel do Pepino, que a homeopatia é uma burla, uma fraude, uma gigantesca operação de lavagem ao cérebro ou de cretinização pública (magister dixit).

Todas estas laboriosas informações, recolhidas de várias amostras que vários laboratórios analisam e confirmam (claro, para isso lhes pagam) devem ter custado à «Science et Vie» um balúrdio, mas o que não faz a «Science et Vie», nossa bíblia, nosso guia, nosso sustento espiritual, para manter devidamente informado o consumidor de terapias alternativas, vítima, como todos sabemos, de uma gigantesca fraude que se estende dos Himalaias, capital da Lemúria, até aos confins do continente da Atlântida.

Nada disto tem a ver, como é óbvio, com a protecção dos interesses das multinacionais de farmácia, sempre pronta a salvar milhares de vidas humanas: como diz o profeta Pierre Rossion, autor do artigo, «as vacinas, os antibióticos, os tonicardíacos, os anti-depressivos e toda uma vasta gama de medicamentos já salvou milhares de vidas humanas» (Pimba, Pimba, Pimba!)

Viram ou não viram.

A Santa Isabel viu. E aproveitou logo.

De facto, toda essa panóplia de medicamentos salvadores (só faltou na lista do Rossion os corticóides, único medicamento yang) salvam milhões de vidas e não provocam, como toda a gente sabe, efeitos iatrogénicos, secundários ou adversos (como eles dizem) nem novas e gravíssimas doenças.

Medicamento químico é para o Rossion, e todos quantos lhe mandaram escrever o artigo, «impoluto».

Mais talidomida menos talidomida, tudo volta à normalidade, no dia seguinte, com um comunicado oficial emanado do Gabinete de Crise, reunido de emergência pelo sr. Presidente da República. Até à próxima talidomida, em que a cena, o gabinete e a crise se repetem.

Sempre com a Santa Isabel atenta à jogada, já que ela não perde pitada e é a mais atenta das santinhas que nós cá temos (depois de as Graças Rosendo terem desertado da arena) nos dias que correm, onde as santinhas vão rareando, graças à concorrência desenfreada da Nossa Senhora de Fátima, que chega para elas todas.

De caminho, o «DN», aos domingos, para não renegar o seu racionalismo ateu, republicano e pró-laico, renega a publicação dos fascículos intitulados «Enciclopédia de Astrologia», que remete exclusivamene para o «Jornal de Notícias» do Porto.

Quer dizer: os leitores do Porto são os únicos a ter direito de ser cretinizados pelas artes místicas e ciências do maravilhoso, são os únicos a ter acesso, no mesmo domingo, às fichas de Astrologia, onde eventualmente até se podem receitar diluições de 5 CH pró reumático e prá bexiga mas, na mesa ao lado, onde pontifica Santa Isabel, lê a mais negra das diatribes contra a ciência do maravilhoso, o prodígio das energias terapêuticas, a Nova Idade de Ouro que se esboça através da Noologia terapêutica .

Como a Homeopatia é a vanguarda comercial das medicinas energéticas, tá-se mesmo a ver que ainda agora a procissão vai na praça: e que é toda a medicina energética ou noologia terapêutica que, não tendo sequelas iatrogénicas, se prepara para ser a grande medicina do próximo futuro (como é alias já no presente e de acordo com as estatísticas).

Aquilo que, in extremis, o sr. Rossion, o senhor Jacob das Farras, a Santa Isabel dos milagres, o «DN» e tutti quanti querem pôr definitivamente de rastos é a medicina que cura. Porque se torna cada vez mais difícil fazer a defesa da medicina que mata e adoece, a medicina que, além de não curar nem sequer tratar, ainda produz doenças (Ver Ivan Illich, in «Némésis Médicale») .

Há sempre um bom homeopata, há sempre um bom acupunctor, há sempre um bom naturoterapeuta, há sempre um bom remédio floral do Dr. Bach para tirar de apertos os ingratos que estão sempre a cortar (a roer, a roer, suas ratazanas!) o galho que os sustenta.

Depois desta acção de guerrilha urbana contra o império da Homeopatia, esperemos que a equipa de malfeitores estude o dossiê (trinta vezes mais explosivo) dos remédios florais, logo que ele atinja uma expressão significativa do ponto de vista industrial/ comercial.

Estamos ansiosos por que chegue esse dia e esse domingo, propincuado pela sempre nossa santinha de estimação, a Santa Isabel do milagre das Rosas.

II

Quanto à segunda e última parte desta história de macacos, há a referir o nome do sr. dr. Jacques Benveniste, contratado à última hora para entrar em cena, desempenhando o papel daquilo a que os franceses e anexos chamam «buc émissaire». Papel de que se tem desempenhado a contento, de acordo com o que lhe pagam e o programa previamente traçado.

Desenterrar o óbvio - a memória da água - foi o máximo que ele conseguiu, para assolar a matilha que teve, no sr. Benveniste, o homem ideal que lhe permitia aguçar a dentuça desenfreada. E ainda lá andam, Benveniste prà esquerda, Jacob prà direita, prova não prova, este-tem-razão-e-o-outro-não-tem, enfim, a costumeira garraiada entre «cientistas» para alimentar a clientela e revistas anexas.

O que está verdadeiramente em causa - e que trataremos em número futuro da nossa revista - são problemas de fundo e não o caso desgarrado de sermos todos ou não cretinos. Porque isso é mais que óbvio, está na cara como dizem os brasileiros.

O que está verdadeiramente em causa, neste episódio da telenovela da sofística dita ciência, são questões de fundo filosófico e transfilosófico, que têm a ver com coisas tão miudinhas tais como:

- Onde acaba a ciência ordinária ( ou Sofística moderna) e começa a verdadeira ciência de origem sagrada

- Quando é que a «vaca sagrada» da chamada Ciência deixa de nos chatear com a sua mania de policiar o pensamento humano e nos larga a barguilha

- Quem julga quem, quem tem o direito e o dever de julgar quem, se a ciência ordinária e seus padrões de merda, se a ciência sagrada ou ciência das origens

- Quem é cretino e quem não é cretino, o que obviamente nem discussão tem, pois está bem à vista quem descende da linha filogenética do macaco e quem descende directamente e em linha recta dos deuses

- O episódio desenvolvido como um tumor à volta de Benveniste/Memória da água tem um valor exemplar não para que fique demonstrada alguma coisa de relevante ou de essencial mas para que todos vejam (quem quiser ver, evidentemente) até que ponto é que a Sofística moderna estrebucha nas vascas da agonia, dando este triste e obsceno espectáculo de ratazanas a fugir não se sabe de onde nem para onde

- De facto, a Sofística moderna - a que chamam abusivamente ciência - foi, desta vez, longe demais, ficando com a careca toda à mostra: e nesse sentido temos que agradecer à heróica equipa - ou trupe - que arquitectou mais este episódio da telenovela da Decadência, tal como já tinha arquitectado o episódio da chamada e alegada sida.

- Temos agora, graças a Deus, ao Jacob da Couve-Repolho, ao padre cura do Benveniste, às grandes luminárias da ciência moderna - «Nature», onde regularmente se abebera a do «Público», dita Gershfeld, «Science» e «Science et Vie» -, à Santa Isabel, que todas as semanas se desunha a produzir milagres das rosas socialistas, e a todos quantos colaboram nesta gigantesca operação de cretinização do público, temos agora à nossa disposição o modelo daquilo que o ser humano, a Nova Era do Aquário, o novo Cosmos MEAI GAO GOC e a Nova Idade de Ouro, vai aceitar e vai rejeitar.

Tudo se apronta para a batalha final e o Mobuto da Ciência Ordinária ou Sofística moderna, se não sair a bem irá sair a mal. Quer o jardim zoológico queira quer não queira.

Assim os nossos anjos da guarda nos dêem lucidez para perceber o que está em causa quando se montam operações de cretinização pública desta envergadura e desta natureza.