1-2 - <74-03-08-di> sábado, 4 de Janeiro de 2003-scan
É URGENTE DINAMIZAR OS NÚCLEOS RURAIS
CONTRA A MACROCEFALIA ABÚLICA DA CIDADE (*)
[ NOTICIAS DE AMARANTE, 8/3/ 1974]
É urgente, de facto, dinamizar a vida rural, fazer participar as autarquias, valorizar os empreendimentos locais, criar uma «mística» dos pequenos núcleos de população.
É urgente, acima de tudo, autonomizar a província, descentralizzr serviços, descongestionar esta congestionada e macrocéfala Lisboa de gente atarefada, de funcionários superocupados (?), de telefones hipersaturados, de transportes superlotados, de guichés superchateados.
Várias vezes o tínhamos constatado, diariamente o comprovamos nas mais variadas circunstâncias em que, profissionalmente, somos obrigados a obter uma notícia, a sacar uma informação, a desenrascar uma urgência.
Mas - por ironia do destino, acaso ou mera coincidência - nunca tão impertinente, arrogante e frustrante nos aparecera o congestionamento urbano como quando empreendemos diligências para reportagem sobre dinamização da vida rural e «desenvolvimento comunitário» concomitante...
O contacto com algumas destas experiências «comunitárias»» na freguesia de Benedita, concelho de Alcobaça, levantara-nos questões de vária ordem que havia o maior interesse em esclarecer, uma vez chegados a Lisboa junto dos serviços centrais.
Mas enquanto a primeira fase do trabalho - visita a Benedita - decorrera fluente, cordial, mesmo calorosa por parte das pessoas e personalidades que tivemos de contactar para reportagem, tudo se toldou e modificou para pior – indo do pior ao péssimo - quando, chegados a Lisboa, começou a via sacra dos contactos sistematicamente falidos, adiados, aleatoriamente transferidos sine dia.
(Há duas formas de mandar o jornalista pela porta fora: a forma bruta e a delicada. A forma delicada é adiar-lhe aquilo que ele tem de resolver, no próprio instante, ou então não resolve; a forma delicada é mandá-lo telefonar, depois, pois já se sabe que os telefones não se fizeram para ligar mas para desligar.
Sobre as formas brutais que certos serviços e funcionários têm, de mandar embora a jornalista, não falemos agora e por hoje...)
Íamos nós dizendo. Na Benedita, pudemos colher uma imagem do que pretendíamos, imagem que, se não foi minuciosa e circunstanciada, também não foi opaca nem frustrada. Chegados a Lisboa e aos engarrafamentos de Lisboa, porém, os canais entopem-se, os telefones não ligam, os que podiam dar informações não querem, os que querem não podem e os que querem e podem, não sabem.
Quando, em Lisboa, procurámos os vários fios da meada e do tema em questão (desenvolvimento comunitário), na grande cidade onde tudo se encontra e de onde tudo irradia, de pouco nos valeram as diligências mais diversas para retomar o fio ao discurso : ou porque os telefones se mantêm interrompidos horas seguidas, ou porque os serviços ignoram, Ou porque o responsável volta logo, ou porque só no topo da hierarquia há informações (e quanto mais no topo mais ocupado se está) a verdade é que sobre desenvolvimento comunitário, nicles, e quanto mais avançava mais o nevoeiro se cerrava, mais os horizontes escureciam .
Mas - curioso paradoxo - mais firme ficava eu na convicção de que o tema é importante e vai bulir com tantos e tantos ramerrões e tantas e tantas burocracias! Daí que tudo estivesse explicado...
Não quero analisar hoje o episódio de outro ângulo que não seja o do jornalista e o dos obstáculos que religiosa, sistemática e acintosamente se opõem, nesta país, à missão de informar com verdade e rigor. Mas aspectos de rigorosa infelicidade iríamos encontrar, entrementes, a outro nível e vendo o episódio de outros ângulos.
Vejamos: com o nome de «bem estar rural», «extensão rural» ou «desenvolvimento comunitário» (este relativamente caído em desuso - e essa seria uma das muitas e interessantes questões a abordar) é um facto que se assiste, neste momento, a uma determinacão política que, vinda do topo, é favorável a um «nuclearismo regional», a uma mentalização descentralizante e desburocratizante que, directa ou indirectamente, pode vir a favorecer o movimento cooperativista autónomo.
Ora a tal macrocéfala e congestionada Lisboa parece que ainda não acusou o toque, ainda não ouviu o aviso. Digamos mesmo que nos departamentos afectos ( eventualmente afectos) ao assunto «desenvolvimento comunitário» manifestou, confusa e enferrujada (dir-se-ia sonolenta), um confrangedor desconhecimento daquela determinação e uma desactualização em relação às estratégias ou directrizes vindas de cima.
O mais curioso da questão é que, quanto mais pistas se bloqueavam, na nossa peregrinação pelo assunto «desenvolvimento comunitário», mais se nos arreigava a convicção de que o tema tem virtualidades e, de todo em todo, era um bom serviço prestado ao país animar da novo esses esforços de equipas consagradas à animação económico-social da grei.
Não me admiro, porém, que depois disto, deste teste, haja por aqui, pelos departamentos, telefones e transportes superlotados de gente superocupada, quem venha olimpicamente condenar o torpor da província, a letargia das autarquias, etc.
Se para mais nada serve o trabalho que sistematicamente frustraram ao jornalista, que sirva ele, ao menos, de testemunho que tal torpor é mentira.
Mais do que torpor, porém, acefalia e empatocracia, é a desta macrocefalia em que Lisboa se esvai e a país com ela.
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(*) Este texto de Afonso Cautela, um bocado fora do prazo (refiro-me ao tempo d«A Planície» e dos nuclearismos...) foi publicado no jornal «Notícias de Amarante», 8-3-1974♥