1-4 <92-04-23-AC-JC> domingo, 26 de Janeiro de 2003 – novo word - <j-c-m-92> <manual> <adn> <cartas92>
23-4-1992
ONDE SE FALA
DA BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA
J.C.: A tua carta toca num dos meus pontos sensíveis, quando perguntas o que tenciono fazer com o espólio versístico. Paradoxalmente (ou talvez não), o vector daquilo a que chamei «economia energética» (outra forma de falar de ecologia) passa também por aí, pela obsessão, algo ridícula, de não saber o que fazer com esse investimento tão forte, numa certa fase da minha vida, que foram os versos. Daí que tivesse perdido o pudor e queira tomar em mãos, antes do meu passamento, aquilo que é costume deixar para herdeiros e para quem cá fica. «Quem vier atrás que feche a porta» - disse-me um dia o meu irmão Zé, falando de outro assunto mas podendo o anexim aplicar-se a este. Não concordei. Sou exactamente o antagonismo dessa posição: obceca-me deixar tudo em ordem, quando me for para a grande viagem. A tua ideia de deixar o espólio ao serviço nacional de inéditos, já me passou pela cabeça, desde pelo menos há dois anos, quando, em conversa com o escritor Serafim Ferreira -- curiosamente, foi com ele que organizei a antologia «Poesia Portuguesa do Pós Guerra» -- soube que existia esse serviço, sediado na Biblioteca Nacional.
Há cerca de um ano, entrevistei, a propósito de um seu novo livro, o poeta João Rui de Sousa, que por sinal trabalha com o José Carlos González no mesmo departamento. Até soube o nome do senhor que dirige, mas depois esqueci. Este contacto, ao contrário do que eu supunha, não me encorajou no sentido de concretizar melhor as condições em que se pode fazer uma «doação».
A questão central, melindrosa e difícil, sendo o próprio a tratar disso, é que parece estar ele a «tratar da sua glória póstuma». E naturalmente está. Mas para a moral dominante, que preza muito as falsas modéstias, isso não fica bem a ninguém. Devemos sempre fingir que não nos importamos nada com o produto do nosso Ego, que somos desinteresseiros, que não temos ilusões de fama pós-mortem. Depois, entregar o espólio num serviço de Estado tem outros quês esquisitos: «Quem julga este gajo que é?» - pode perguntar o funcionário encarregado de avaliar a papelada, à maneira de um alfarrabista que só sabe depreciar a mercadoria que compra mas que depois vai vender por bom preço.
«Que raio vem este tipo encher as nossas prateleiras de manuscritos, se nem sequer temos espaço para a rendosa arca do Pessoa?» - perguntará ainda o afanoso funcionário. Sondei em casa o nível de sintonia para estas coisas e também não saí muito encorajado. A filha Ana Cristina, felizmente, está mais na onda da sociedade de consumo do que propriamente em achar interessantes (ou mesmo futuramente rendosas) as artes poéticas do pai.
Não a censuro, antes pelo contrário. Que interesse pode ter para ela, 19 anos, o intérmino «diário de um esquizofrénico» que são as prosas e os versos do pai? Mas a questão é mais vasta: para lá da subjectiva ilusão de darmos grande valor ao que fizemos, como é que objectivamente - em termos da tal «economia energética de recursos humanos» - podemos saber se vale a pena queimar ou aguentar as toneladas de papel com inéditos e publicados?
O desgosto não seria com certeza tão grande como o da Biblioteca de Alexandria. Dou um exemplo entre mil: em Outubro de 1984, publiquei em «A Capital» um artiguinho, «Ir mais além do mundo vibratório» - projecto para um grupo de estudos e pesquisa - , mais um dos meus monomaníacos apelos a que se fizesse em grupo um trabalho exploratório de investigação holística que só em grupo pode ser feito.
Depois, esqueci, como esqueci tantos projectos em que empenhei, até ao ridículo, tempo, letras, vírgulas e papel A4. Por mil e um atalhos, no entanto, verifico agora, neste momento da minha viragem pessoal, que esse artigo tocava na muge. Não falava do Pêndulo, mas era do Pêndulo que já então falava: a ponta da meada principal por onde teremos que puxar, com cuidado, com carinho, com paixão, a Grande Meada, a Principal Meada. Mas, pelo meio, quantos acessos de pessimismo, quantos livros de radiestesia fechados com raiva, pelo que tresandavam de algum charlatanismo. Hoje, até esses livros me seriam preciosos, porque tenho - julgo ter - a perspectiva que me permitiria «seleccioná-los» e separar, neles, o trigo do joio.
Aliás, não conheço outro método que este método Zen, de ir sucessivamente testanto «apports», deitando fora o que a intuição disser «não» e conservando o que a intuição disser «sim». É preciso ir tecendo a teia, a trama tântrica, mas a teia só se tece com os fios de ouro de sete quilates. Não pode haver misturas, nem batota. Estou outra vez a repercorrer os atalhos mas com a obsessão de chegar à «estrada real», porque tanto posso estar a finalizar a minha representação neste palco do Mundo, como posso ter ainda outro tanto para andar por cá.
O Grande Mago disse-me que eu iria renascer. De facto, sinto-me há três semanas na segunda infância. É o que pretensiosamente não me atrevo a chamar de «transmutação». Tem muito de alquimia interior tudo isto. Se me perguntasses o que tem a Ecologia Humana e a Holística a ver com isto, diria que ela é, como é a Macrobiótica, um contributo lateral e convergente. Mas quem puxa - e com bastante veemência, diga-se - toda a carruagem, é o Pêndulo.
Vem a seguir a Teleradietesia, depois o contributo dos oligoelementos (somos Terra e em Terra nos tornaremos), depois os aromas, depois as cores, depois os chacras do darma hindu, depois o yin-yang taoísta, depois os meridianos da prodigiosa Acupunctura (antiguidade confirmada: + 10 mil anos), depois as pirâmides e seu Enigma, depois as «casas malditas» e o geotelurismo ( com todo o mistério maçónico do megalitismo), depois o Feng chui chinês (sempre os chinas!), depois as 300 clínicas de Qicong para onde diariamente se dirigem 250 milhões de chineses( tratando-se das mais graves doenças através de um método que provavelmente é mais antigo ainda do que a Acupunctura e que foi apenas redescoberto há vinte anos!!!), depois, depois...
O eterno cancro da nossa cultura, da nossa «civilização», a fartura nos afoga, a pletora nos asfixia. Nunca tivemos tantas tecnologias apropriadas de vida ao nosso alcance, mas é exactamente essa inflação de processos para ser feliz (livre, saudável, soft) que nos torna profundamente infelizes e abandonados. A esperança das medicinas alternativas, naturais ou ecológicas, cedo se transformou em desespero, não porque faltem hoje processos de enfrentar as doenças, mas porque esses processos são quase tantos como o número de doenças catalogadas pela medicina oficial. Entre o Vocabulário médico (que é o mais pletórico de todos os vocabulários científicos) e as dezenas de terapias alternativas de que hoje dispomos, eis que o método de «selecção natural» é mais uma vez o único refúgio do aprendiz de Holística, o universo do diverso. Por isso é que eu penso: todo o desperdício é criminoso, mas se for o desperdício de informação ordenada e orientada para um pólo criador, é duplo crime. As horas que eu ocupei a caminhar nestas andanças, podem poupar dezenas de horas a quem vier depois. E quem vier depois -- outra Perversão do nosso modelo cultural -- recomeça tudo de novo, parte da estaca Zero. Como pode haver progresso, quando o pouco que foi possível construir se destrói ab initio? Se eu estou hoje a tentar vida em Cabo Verde, não é propriamente porque me atacou a súbita vocação terceiromundista. É, evidentemente, por amor a um povo que não teve culpa nenhuma nem das secas nem do Salazar, mas na idade em que estou porque hei-de armar em militante desta causa? A determinante é outra: talvez do destino que me está reservado - e ao destino ninguém foge - mas principalmente porque tudo, neste país com o pé no acelerador, me convida a sair, a ir embora, a reformar-me ou a suicidar-me.
Chega a ser frenético o convite implícito na actual vida quotidiana portuguesa: «sai daqui, vai daqui pra fora, vê se desapareces». E posso garantir que ainda não estou ouvindo «vozes», como a Joana d'Arc, nem sofro assim tanto de «mania da perseguição». Há mesmo, a pairar, um sussurro: «vai-te embora, estás a mais, dá o lugar aos jovens, a pedalada da Europa já não é pra ti, etc.».
No jornal, então, é cotovelada que ferve: desde a transplantação da redacção para um edifício novo, construído de raiz junto à «chama olímpica da Petrogal» (a câmara de gás de Lisboa), até aos processos de opressão interna que hoje refinam na imprensa portuguesa em crise, apertada com o cordão umbilical do Canal da televisão, tudo convida a juventude a tomar de assalto os poucos lugares que ainda há, nomeadamente os de velhos já a cair da tripeça, como eu.
Acontece que conseguiram pôr-me «knock out» e o médico deu-me baixa. De Outubro a Março, estive em casa, em banho maria, arrumando caixas e caixotes, papeis e papelinhos, pondo em dia as rotinas atrasadas, revendo pela última vez cartas de minha mãe, quem sabe se cartas tuas, talvez cartas do Miguel Serrano, do Zeca Afonso, do João da Cruz, do Júlio António, da Maria Rosa, da Maria Aldonsa (dos que eu - peixe e aquário de signo - chamo «animais do meu Aquário») enfim, numa de nostalgia quase vergonhosa, onde por exemplo os livros de escola reencontrados no alfarrabista quase me levam à furtiva lagriminha romântica, lírica e evocativa (extensível a tudo quanto é gravura naif, kitsch, preto e branco, etc).
É neste quadro de exaltado amor ao Ego, que surge a tua pergunta: «que vais fazer aos versos?» Pois bem, José Carlos: dei-te notícia de algumas diligências, mas coragem de concretizar alguma acção é que não tem havido. Provavelmente, deixo o espólio rotulado com endereços dos destinatários e... «quem vier atrás que feche a porta». Outro exemplo da minha inércia: queria deixar ordens concretas e claras para que o meu corpo seja cremado, mas é difícil saber, inclusive, que voltas dar (notário?), para que isso fique claramente exarado. Faz parte daquela informação fundamental que o cidadão devia ter como tem a lista telefónica, mas vai-se a ver e parece segredo de Estado. Burocracias parece que também não faltam em actos que deviam ser simples. E que vão inclusive ao encontro dos desejos mais imperativos do Estado, como este Laranja, que não tendo a coragem de pôr os velhos à frente de um pelotão de fuzilamento, também não lhes facilita nada a vida no hiato que antecede a morte.
Para quando o direito fundamental do homem a ter uma pastilha de cianeto consigo, como quem traz um crucifixo? Aliás, é o único sentido esotérico que consigo vislumbrar para esse hábito exotérico do fiozinho de ouro ao pescoço. Queres redigir comigo um Manual Prático do Candidato a Moribundo? Grande falta faz, podes crer.
É também neste quadro, macabro-patético, que o destino decidiu dar-me a ilusão de uma mutação em grande escala, depois de dois meses e meio no meio da maior crise a que jamais desci. Agora que eu estou mais para fechar a porta, o Grande Mago fala-me de que iniciei minha segunda infância. Sinto-me leve como um passarinho, é um facto. Mas também já ouvi falar das euforias que precedem a agonia final.
Ainda ontem encontrei o livro de Etienne Guillé,[ de que já te falei], autor onde o Grande Mago diz apoiar o seu método de ressuscitar pessoas. Já vou na página 97 a até agora o discurso parece-me igual ao de todos os cientistas, só análise, sem (por enquanto) atingir o nó holístico que torna os conhecimentos mortos, isolados, analíticos, em uma coisa viva. Mais uma vez, impõe-se o método Zen.
Nesta pesquisa do pêndulo, os próprios que se dizem seus servidores têm que ser triados. Fatalidade da nossa triste cultura, ou fatalismo meu, pessoal e intransmissível? O mais forte pressentimento, neste momento, é que temos ao alcance da mão o fio condutor de uma «revolução humana» total, mas tudo se afadiga a rodear de supérfluos e ruídos parasitas o som principal da melodia.
Está quase, quase a ouvir-se: mas quando não é o buldozer da televisão, é o canhão da imprensa, ou de qualquer «media» que atrasa, com a desculpa da pletora informativa, a chegada da informação fundamental. Contradição que é a perversão das perversões. Foram editados em uma jovem e pequena editora do Porto dois livros que mais fortemente enraizaram em mim essa convicção de que «temos a vida à mão de semear» mas que, mais do que nunca, forças perversas como a Unideologia se empenham em nos distrair desse «tesouro» ao nosso alcance.
Já agora digo-te quem são, esses que poderei considerar os livros mais «optimistas» -- no sentido do realismo ecológico - que li: «O Livro dos Illuminati», Robert Anton Wilson e «Manual de Instruções para a Nave Espacial Terra», desse grande patriarca da ecologia que é o ressuscitado R. Buckminster Fuller. Curiosamente, a editora chama-se «Via Óptima» (e de facto tem a ver com Optimismo, conceito a que sou, como budista não encartado, profundamente relutante). Outro assunto da tua carta que me afitou a orelhinha: quando falas em comprar um «computador de texto». Penso que queres significar «processador de texto».
Sobre isso, gostaria de saber qual é neste momento o teu grau de familiaridade com esse mundo, entre apavorante e fascinante, dos senhores computadores. A minha primeira conclusão, dois anos após a lidar com o bicho, é que ele é dócil e um «compincha» admirável, mas o entourage de técnicos, marcas, truques de marketing, novos modelos, novas versões de programas, impressoras assim, impressoras assado, é que o torna um instrumento de trabalho infernal. Mas quando, depois de sofrer horrivelmente com este mundo do marketing informático, consegui perceber o que era possível fazer com um processador de texto, com um programa de paginação como o «page maker», com um banco de dados, etc, e como, para quem tenha a mania de editar livros, é relativamente fácil ficar quase independente da tipografia (recorrendo a ela só para imprimir o produto final, tudo o mais podendo ser feito em cima desta minha secretária), exultei de alegria: «Viva a Autosuficiência e o sonho de fazer em casa uma editorazinha artesanal».
Mas só que aí outra lição aprendi: para dominar qualquer programa -- e o tal «page maker» não é excepção -- há um consumo de tempo inevitável, um investimento que acaba por nos levar a fazer contas sobre o tempo e como utilizá-lo. Chega a ser importante, nesse contexto, o tempo de «resolução» que o computador oferece para cada operação. É o que posso considerar o único «handicap» deste modelo que possuo -- Amstrad 1640 -- , e talvez também o facto de só ter drive para disquete de 5/2 polegadas. À medida que vamos exigindo mais, apercebemo-nos da importância que tem a escolha inicial para uma compra. Todas as inovações e melhorias tecnológicas aumentam o preço, é claro, mas a questão reside em saber quais são as inovações e melhorias que de facto são importantes e as que são simples fofocas do produtor para vender aparelhos.
Mas naturalmente tudo isto é para ti já matéria conhecida. Como digo, não sei se já estás dentro do mundo do soft/hardware, ou se o estás ainda a ver de fora. Um dos meus muitos handicaps, por exemplo, é não saber nada do MS-DOS e como se trabalha nesse inóspito ecrã negro. Mas a verdade é que me habituei no jornal ao Windows (com o processador de texto wright) e lá fiquei com mais esse buraco na minha instrução. Mas tenho o computador carregado com o paginador «Page Maker» e algumas horas a ler as instruções permitir-me-ão publicar, em livro, a nossa colecção de poesia.
Aturar a tipografia, só para a impressão final. Até lá, tudo aqui. Em cima desta secretária. Se for para Cabo Verde, terei que deixar o computador aqui na Europa. No entanto, esse é um legado que a filha Cristina não desdenha e por isso não tenho grandes preocupações. Dá notícias. Afonso.
Lisboa, 23/4/1992₪