<eugenia-0-mf> quarta-feira, 16 de Outubro de 2002
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<eugenia1><chave>2/maio/1994
SÚMULA ECOLÓGICA
NO MUNDO DOS FANTASMAS
Lisboa, 2 de Maio de 1994 - Eugénia,: 1 - «Essa ecologia de que somos Cobaia» - diz o título de um panfleto da «Frente Ecológica», em óbvia desmistificação e desmitificação da ecologia enquanto ciência. Mas podíamos parafrasear e dizer «Essa Sociologia de que somos Cobaia». Não impede, num caso e noutro, de continuar a ter a maior ternura por ecólogos e sociólogos. Mas sempre com cada um no seu lugar: eu, portanto, no lugar de Cobaia que me compete, relativamente a ecólogos e sociólogos. Com todo o amor que uma espécie em vias de extinção pode votar a quem ainda a ache digna de observação, análise e laboratório.
2 - Ora aí está: é como uma rã estendida na mesa do laboratório que eu me sinto quando sou alvo das atenções de um sociólogo. Não fico ofendido e não quero com isto ofender. Apenas reconhecer o facto. Mas nos factos e nas ideias reside um pouco a questão do relacionamento possível entre o sociólogo e a sua matéria de observação, a sua Cobaia. É que, para o bem e para o mal, o meu percurso foi muito menos fazer do que pensar, muito mais ser do que do ter. E o que interessa a um sociólogo são factos, não são as ideias que se aninham num qualquer crânio, não são as variáveis mas as constantes, não são os casos particulares e individuais mas os colectivos e os gerais. Receio, pois, decepcioná-la, quando tiver de constatar que há muito pouca matéria sociológica na «Frente Ecológica» e suas vicissitudes. Foi tudo o romance numa cabeça, eventualmente a minha, outras vezes a de Ivan Illich e Michel Bosquet, com todos os equívocos daí decorrentes, relativamente ao meio ambiente, com o qual, natural e ecologicamente, andei em polémica desde os já recuados anos 60.
3 - Na melhor das hipóteses e como interface entre os factos e as ideias, o sociólogo poderá estar interessado em historiar as polémicas com o Meio Ambiente. É nesse sentido que talvez eu lhe possa ser útil e ao vosso trabalho. É nesse sentido que estou mobilizando a papelada, triando, rasgando, anotando, rearrumando. E pela derradeira vez, espero, porque é já muito tempo de uma curta-longa vida gasto com estas tricas da ecologia e da sobrevivência planetária. Se temos o que merecemos, o que fabricamos, o que produzimos, o que desenvolvemos, porque raio hão-de andar aqui uns sujeitos a fazer de bombeiros a apagar os fogos que os outros vão ateando? Desde logo, é esta a polémica: porquê resistir, se a lógica da destruição é imparável e não vai desistir um milímetro?
4 - Amor com amor se paga, informação com informação se paga. Posso deixar-lhe alguns documentos de que necessite para o seu trabalho mas, em troca, permito-me deixar-lhe também aquela parte do icebergue que ninguém quer, que ninguém tem querido, mesmo a Sociologia: os inéditos da «Frente Ecológica», em linguagem ainda mais surrealista e megalómana do que os publicados: estes, ao menos, tiveram sempre a tesoura das censuras a limitar-me (limitar-lhes) os ímpetos militantes. Terão assim esses inéditos um lugar de acolhimento mais humano do que o contentor do lixo ou o fogo purificador de S. João. Evitar-se-á, possivelmente, mais um desperdício. Este meu contributo - as ideias em textos inéditos - poderá ser frustrante para o seu trabalho, por um motivo muito óbvio: o sociólogo procura o social e a «Frente Ecológica» tem muito de individual (ista). Mais pessoal do que colectivo, mais ideias do que factos, mais intenções do que realizações, eis o que talvez seja para o sociólogo pouco útil e gratificante.
6 - Amor com amor se paga, podíamos pois entrar num acordo: desde que me arranjem maneira de resolver este problema de «know-how», sem mais desperdícios e entropias além dos inerentes à matéria física sempre fungível, além dos que já se verificaram com o fenómeno da dispersão. A parte de Ecologia Humana, por exemplo, ligada à Holística, à medicina Natural, à Bioenergética, à Ecologia Alimentar, etc, tenho-a neste momento num impasse, pois está para ser tomada uma decisão desde Agosto do ano passado e eu, com o espólio pendurado, à espera que os do poder (os que decidem) decidam de um sim ou de um não ao que resta de ecologia Humana (recortes, livros, textos publicados e inéditos).
7 - Voltar ao passado é reavivar ódios e ressentimentos e ressaibiamentos. Odeio odiar, odeio ressaibiamentos: mas mexer nessa papelada (espero que pela última vez) é reavivar isso tudo. Sempre me interessou mais o futuro do que o passado recente. Sempre me interessou mais o passado remoto (antes da chamada civilização) do que o futuro próximo, que é um futuro sem futuro nenhum. Nunca tive memória intelectual e a memória foi no papel, foram os papéis: grande parte desse papel já foi para o contentor do lixo e com ele a minha memória. Ajuda a desapegar, ajuda a uma certa libertação. mas não chega e tenho de continuar insistindo. Ao remexer, a seu pedido, nessas memórias, permito-me também aproveitar a oportunidade para me desembaraçar de mais um lastro: os tais textos inéditos com teses surrealistas sobre ecologia, teses de tal modo bestas que as cognominei de «realismo ecológico», já que não se pareciam com nenhuma outra ideologia à venda no mercado das ideologias.
8 - Concordo que sem memória é impossível viver nesta terra: e esta geração foi espoliada, principalmente, da memória que interessava, e também aí lhe deram gato por lebre. O discurso democrático do 25 de Abril é bem exemplo dessa fraude.
9 - Nunca escrevi nem falei aquilo que as pessoas queriam ouvir: acontece que todos os discursos ditos ecologistas, mesmo os mais inconformistas, afirmam aquilo que as pessoas querem ouvir. A isso chama-se demagogia e eu fui tudo menos um demagogo. Por isso cheguei a esta penúria: de ideias, de memória, de papéis. Se os (documentos) publicados já eram um pesadelo de papel (ada) e uma prova incurável da Megalomania do senhor A.C:, as caixas de inéditos ultrapassam a mais delirante das imaginações. O que ficou na gaveta, excede, em número e número de páginas, o que foi trucidado pela letra impressa. Mas o Centro de Estudos Sociais de Coimbra vai ter, com certeza, a caridade de receber esses tais inéditos que, para a história das ideias, poderão ter (até) relevância maior do que os publicados. Mas além de um pequeno problema, tenho uma grande dúvida: terão mesmo relevância?
10 - Se a Eugénia me permite uma opinião, as ideias, neste processo das frentes ecológicas, são, regra geral, mais relevantes do que os factos; tenho a noção vaga de que a militância ecológica, pela parte que me toca, foi sempre, além de um pesadelo dentro do pesadelo, foi sempre mais virtual do que real. Um mundo de fantasmas, em suma.
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3448 caracteres <eugenia2><chave><cartas>
Eugénia: desta listagem poderá pedir fotocópias dos documentos que porventura lhe interessarem
«FRENTE ECOLÓGICA»: PROJECTOS E MAIS PROJECTOS
Algumas datas relevantes em que foram redigidos alguns dos projectos idealizados (e quase nunca realizados) pela «Frente Ecológica»:
Planos de Acção apresentados pela «Frente Ecológica» (selecção de textos manuscritos inéditos por ordem de datas em que foram dactilografados):
1976
1978
1979
1980
1981
1982
1983
6/5/83-> Para uma Campanha Nacional Contra o Desperdício de Valores e Recursos
7/6/83-> Os Travestis da Ecologia - Comunicação da «FE», dia 7 de Junho de 1983, na Escola Secundária de Olivais (Chelas)
Julho/83 -> Somos Contra o Nuclear porque somos pela Vida (projecto de manifesto)
30/12/83 -> Carta da «FE» à classe dirigente : Quem salva do Bolor meio milhão de dados?
1985
1987
Documentos publicados: