♥♥♥♥♥

PARA INSERIR NO MEU SITE «O ESCRIBA», UM PACIENTE MERGE DOS 11 FILES EM QUE DIGITALIZEI O MEU LIVRO «DEPOIS DO PETRÓLEO, O DILÚVIO», QUE EDITEI NOS ESTÚDIOS COR , Nº 5 DA COLECÇÃO QUE DIRIGI «BIBLIOTECA DO ANO 2000»

♥♥♥♥♥

1-25<73-07-14-de> = diário de um ecologista – inédito AC de 1973 eco-ecos

 

ESCASSÊS DE ORIGEM:

PRIORIDADE À ECOLOGIA(*)

 

14/Julho/1973 - Notícias que os jornais já nem se dão ao trabalho de escamotear, vão anunciando a escassez em vários domínios: é de gasolina nos Estados Unidos, de trigo na URSS e em outros países, de papel para alguns jornais portugueses forçados a reduzir o número de páginas, de água um pouco por toda a parte.

Sempre, com a imperturbável calma de Panglosses, encaramos o facto economicamente e nada mais do que economicamente. Mais uns discursos sobre consumo per capita, mais uns protestos contra os fornecedores (e eles, contra quem protestam?), contra os serviços públicos que não servem o público (de facto não), mais um pouco de propaganda anti-comunista no caso da URSS e seu fracasso da política agrícola...

Enfim, a um lado e a outro não saímos dos argumentos político-tecnológicos, sócio-economicistas.

E, no entanto, o problema já começou a ser ecológico: quer dizer, a escassez é de raiz e não já, e não só como até aqui, de repartição mal feita, de administração ou gestão viciadas.

Como vamos sair deste impasse? E quando começaremos a compreender que a Prioridade, nos dez anos que nos restam para evitar a catástrofe, tem que ser indubitavelmente dada à Ecologia?

-----

(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no livro «Depois do Petróleo, o Dilúvio» (páginas 55-56) , edição Estúdios Cor, Lisboa, Março de 1774

+

1-1<dilúvio-02> -04-abr-1973

AS MITOLOGIAS DO CRESCIMENTO ECONÓMICO

4/Abril/1973

Do (mito) «crescimento» derivam imediatamente duas constantes do Sistema: a crise dos sectores, pois se o alvo é conseguir sempre mais, eis que, por definição lógica, se tem sempre de menos; o congestionamento, é a segunda dessas duas constantes, pois tudo o que cresce tende a entupir o espaço ocupado.

Assim é que se lamentam os funcionários das crises e do congestionamento (engarrafamento) ao mesmo tempo que clamam por mais crescimento e cada vez mais acelerado.

Está estatisticamente comprovado de que a expressão «combater a crise» é a mais frequente nos relatórios finais das empresas e, consequentemente, nos títulos dos jornais.

A famosa aceleração dos acontecimentos imprimida pela tecnológica industrial revela-se principalmente um frenesi de atingir metas, alvos, logo a seguir derivados, diferidos para outros alvos e outras metas mais distantes. Trata-se então de combater todos os obstáculos que se opõem ao corredor na luta ou competição para os atingir.

O aleatório, a frustração e a competição são outras constantes que caracterizam a mitologia do crescimento.

A competição estende-se a todos os ramos: da maratona espacial aos pródromos, da corrida atómica aos autódromos, da competição cirúrgica (quem faz mais a mais exóticas transplantações) às corridas de galgos, cada país, cada indivíduo, cada sector quer sempre bater alguém ou algum aos pontos.

Combater é um verbo inevitável nas mitologias do crescimento, assim como competências a dramático.

Repare-se que a Imprensa vê «dramas» em toda a pane. O drama da emigração, o dramático congelamento dos preços na Grã-Bretanha, tudo é dramático, quando não trágico nos apertos da convulsão tecnológica, entregue à sua inércia interna, condenada a devorar-se a si mesmo e devorando-se. Devorando o homem que é assim lobo de si mesmo.

+

1-2<dilúvio-03> 06-abr-1973

A FALÁCIA DOS INQUÉRITOS

6/Abril/1973

Estamos, como toda a gente não se cansa de nos repetir, no tempo do «marketing»; quer dizer, das análises de mercado, do inquérito estatístico ao consumidor, para saber o que ele quer e compra.

A priori parece este um sentido lícito. Pergunta-se ao leitor ou telespectador se quer assim ou assado e dá-se-lhe assado ou assim. Ou então, cru.

Vejamos, porém, algumas facetas desta falácia.

A primeira pergunta a fazer é: ainda que um estudo de mercado nos transmitisse (e não transmite) a imagem real da absoluta maioria, seus desejos, gostos, preferências, não estava a dar-nos o quadro das suas necessidades. O que é não se identifica, nem de longe, com o que devia ser.

O facto de um telespectador, quando lhe perguntam que música prefere, responder «Tourada», não significa que ele tenha necessidade da «Tourada», ou sequer que goste. É o nome que lhe está mais à mão, porque lho repetem maior número de vezes por todos os canais. Significa, sim, é que todo o processo lavatório ao cérebro o condicionou para, durante meses, responder «Tourada».

É óbvio que ele tem, deve ter necessidade de algo menos degradante. Ou, pelo menos, de esteticamente menos pobre. Não existe nenhum português capaz de descer tanto. Que poetas, compositores e intérpretes o tenham feito, é outra história completamente distinta.

Neste como em tantos outros casos, o pretenso rigor científico (estatístico) de um inquérito encobre uma falsidade de fundo.

Quando a estatística está assim ao serviço de uma fraude, é lícito preferir métodos bem mais empíricos mas verdadeiros.

A estatística é capaz de me provar a 100% que a massa de público quer «Tourada». Mas o analista de mercado, se tem algum bom senso, dirá que tourada já a massa tem. Importa agora é motivá-la para outros redondéis e dar-lhe mercadoria menos avariada, ou tão avariada como mas com outro nome.

Porque o problema reside aqui: se são os próprios mass media que motivam, preparam, educam as massas, estas quererão e exigirão aquilo para que seus órgãos «educativos» as condicionaram.

E daqui não saímos.

Alega-se, muitas vezes, que os jornais dedicam ao desporto, às cantigas, às misses, aos concursos,  às touradas um espaço de inflação, porque o público o exige.

O que se passa é um pouco diferente: de tudo isso o público foi, desde sempre, inundado, e condicionado para o exigir.

Ciclo vicioso que, pelo menos, prova a falsidade dos inquéritos ad hoc e sua nula representatividade.

O problema até nem está em que os editores façam um estudo de mercado para conhecer as preferências do leitor.

O problema está em o próprio editor querer ou não querer assumir a responsabilidade e a função cultural que lhe compete, demonstrando-se, ao fim a ao resto, que todo o leitor come palha, a questão é saber-lha dar.

O editor é um educador. Ou se não é, trai-se. A melhor garantia de mercado não está em explorar as modas, os tropismos, os reflexos condicionados do leitor sem consciência crítica. A garantia de mercado está em o editor despertar o melhor em cada leitor das suas potencialidades, em sintonizá-lo com o mais autêntico e profundo sentido do seu tempo e mundo, em propor-lhe preferências a que ele, se desperto, acudirá, como ser consciente e responsável, compensando comercialmente o editor inteligente e prospectivo. Isto é investir na potencialidade promocional de um povo. Isto é um plano de fomento espiritual. Isto é garantia futura para investimentos presentes.

Estupidificar não abre mercados futuros, fecha-os.

Fornecer touradas não abre perspectivas à exportação, nem à educação.

+

1-3 <dilúvio-04> 10-jul-1973»

ÁGUA: O FIM QUE MERECEMOS

A escassez de água que os jornais têm vindo a noticiar com insistência há mais de três semanas - embora não faltem, durante o resto do ano, queixas isoladas das mais diversas localidades que, no entanto, não chegam para formar um coro ou clamor audível para lá da simples notícia de uma coluna, perdida entre anúncios de meia página - oferece um micro-modelo curioso do que irá passar-se em escala possivelmente planetária, não só com a água (bem inestimável, que, como a saúde, só damos por ele quando não o temos) mas com os outros itens até agora gratuitos: ar, silêncio, segurança.

De tal modo nos consideramos em abundância de tais bens, que é sempre sob o prisma da anedota que encaramos a sempre «remota» hipótese, a perspectiva da sua escassez. Dizer que a água, o ar, o silêncio e a segurança irão rarear nos próximos anos e faltar por completo?

Ele sempre há cada um...

Acima de tudo o nosso sistema de defesas morais está de tal maneira bem montado que, no caso da água, rechaçamos sistematicamente a hipótese real - a da sua efectiva e real escassez na origem - para nos entretermos com uma problemática toda tecida de dados fictícios.

Que a água falte por falta de estruturas, por deficiência de serviços, porque os municipalizados têm mais em que pensar do que nos interesses reais das populações munícipes, e que há dinheiro para tudo menos para as obras de interesse público, parece não haver dúvida. Os jornais bateram nessa tecla, como lhes competia, os serviços alegaram razões que atingiram o paroxismo cómico, ou pura e simplesmente bateram com a porta na cara do jornalista o que, diga-se de passagem, é muito bem feito...

O problema da água, assim, é, como qualquer outro serviço público, o espelho fiel do desprezo a que os técnicos e gente importante, mandona, vota a massa indefesa dos cidadãos que eles antecipadamente sabem passiva, áfona, completamente despolitizada, amorfa, sem coesão e sem qualquer poder de crítica ou de reacção às infâmias que sobre ela recaiam.

Enfim, os que decidem da água sabem que, por aí, pisam terreno seguro: sabem que a «maioria silenciosa» tem demonstrado, há anos e mesmo há séculos, um estupendo estoicismo para suportar essas e doutras escassezes, e que o facto de estar um mês sem água não mata ninguém embora possa pôr muitos doentes.

Ora se não mata, mas mói, isso é o que afinal os municipalizados e outros serviços «públicos» pretendem. Se a vítima adoece, tanto melhor para a comunidade e tanto pior para a vítima. Aguente-se, salve-se quem puder  é ainda o grande lema de tais serviços. O paciente vai ao médico, bebe laranjada, lava-se no mijo, enfim, desenrasca-se. O munícipe desenrasca-se sempre, como diária e secularmente se comprova. Folclore e cantigas obturam o resto da provável ruptura, entretanto vem o Inverno e com as primeiras chuvas o problema da água apaga-se da memória de todos. Inclusive da memória do munícipe que sofreu as agruras da escassez. Ridículo até se tornaria que os jornais, já outoniços, continuassem então com estas jeremiadas da «falta de água», boas para ocupar primeiras páginas precisamente nos meses de Verão, antes da Volta e depois do Campeonato. Logo que chegue a Volta, Verão que a água... se acabou como assunto. Os grandes títulos irão então para o Agostinho desta época. A água foi, felizmente, assunto neste interregno de facto dramático em que não havendo futebol, nem misses, nem concursos, nem Volta, os «mass media» se vêem e desejam para encontrar assunto alimentar.

Ao nível administrativo, o problema da água não me parece conter parâmetros muito diferentes destes nem mais dignos de atenção, de qualquer modo resolúveis sempre com uma boa laracha, uma boa anedota, uma boa piada.

O curioso da questão é que o problema, para lá de ser administrativo (secular e tradicionalmente. administrativo como o Aqueduto das Águas Livres está lá a atestar...) começa a ser de outra. ordem. Para lá de ser um problema local e politicamente de curto prazo, é já um problema universal a de médio prazo. Não de política mas de antropolítica. Não de política de campanário mas de política planetária.

Sem sofismas e sem medo às palavras, digamos pura a simplesmente que a escassez de água nos postos a, n, x, ou z, não é já só um problema de condutas e de «pipelines». Ainda que, por milagre, esses «pipelines» e essas canalizações surgissem de um mês para o outro, o que talvez não surgisse era a água.

UMA BREVE FÁBULA

A psicologia da escassez tem meandros giríssimos e qualquer pode fazer a experiência, chegando sempre à mesma e cínica conclusão: a espécie humana não tem concerto e vai merecer, totalmente, a morte que a espera: à sede.

Faça-se a experiência em casa. Suponhamos que, em determinado momento, a água começa a gorgolejar na torneira do cidadão A, que industriado pela psicose em que os jornais o vêm «mergulhando», fica logo nervoso ao primeiro sinal de «grugru» na torneira. Diz então com os seus botões: "Já cá me chegou também o petisco. E agora? Que vou fazer?» Isto acontece, por exemplo, no 2.° andar. Sabe ele, então, que no rés-do-chão o vizinho B é boa pessoa e que estará na disposição de lhe encher alguns tachos, se a água ainda correr nesse piso térreo.

Assim acontece. Os vizinhos não são tão maus como os pintam. Quando já têm todas as superfícies côncavas repletas para fazer face à crise, à escassez, a água começa a jorrar um pouco mais forte... Vizinho A e vizinho B entreolham-se, um pouco envergonhados daquele afã. Um e outro riem-se do «susto» que apanharam, compreendem que afinal a água regressa e que foi só um percalço de canalização. É de novo a fartura. Esvaziam-se de novo todos os recipientes e o futuro é outra vez cor-de-rosa para o cidadão A, que ainda há pouco julgava ter chegado o seu último e apocalíptico minuto.

Ao nível da humanidade e no que respeita, não só à água, mas ao ar, ao silêncio e à segurança (à saúde), não parece que a humanidade vá agir de maneira diferente da dos vizinhos da fábula. É que não vai mesmo. Ainda por cima se industriada por técnicos eminentes que cultivam exactamente o mesmo tipo de mentalidade antiprospectiva e anti-ecológica, embora se digam futuristas de grande futuro.

Logo: a humanidade mais os seus futurólogos de estimação terá pura e simplesmente o fim que merece.

+

1-1 <dilúvio-05> 14-jul-1973

UTOPIA OU MORTE :A ESCOLHA DEFINITIVA

Supondo que por um toque de varinha mágica as indústrias do Mundo deixavam todas de poluir, nem por isso o problema n.º 1 da Ecologia se alterava um ápice.

A despoluição nada resolve, quando o que verdadeiramente está em jogo, à escala mundial, é a industrialização desenfreada e sem controlo, anárquica e abusiva. Quando o que verdadeiramente está em causa é desindustrializar e não despoluir.

Se temos dez anos para evitar a catástrofe, é nesse espaço de tempo que deveremos optar, decidindo industrializar única e exclusivamente o que verdadeira e fundamentalmente for essencial, necessário a uma norma de vida e a uma «austeridade do costumes» que não é o esbanjamento e desperdício capitalista, nem o dolce farniente socialista, nem tão pouco a indiscriminada ambição ou abulia do Terceiro Mundo.

Claro que dizer isto é, para a maior parte das pessoas, a máxima heresia. Para os que julgam encontrar nos antipoluentes solução para todos os males, uma tal démarche será, na sua terminologia de economicistas, utópica.

Mas se temos 10 anos para evitar a catástrofe, temos 10 anos para escolher: ou utopia ou morte. E para desindustrializar. E para refazer desde a base toda uma mitologia que se provou catastrófica.

Utópicas têm que ser todas as démarches que se oponham hoje ao suicídio da espécie e que pretendem, contra o biocídio generalizado, fazer prevalecer o bom senso e a vida. A simples sobrevivência da espécie e das espécies.

Utópico a herético, sem dúvida, em relação aos costumes e sistemas vigentes, é preconizar a desindustrialização, mas é isso, nem mais nem menos, a condição sine que non da sobrevivência, a única maneira de obviar ou adiar à catástrofe irremediável.

É frequente ouvir-se estas palavras a chefes de empresas:

«Somos muito sensíveis ao problema da poluição.»

E são. Mas o problema não é de porcaria, lixo, poluição. O problema é de fazer alto às indústrias desnecessárias e hiper-poluentes.

No contexto consumista, 50% por cento é produção de supérfluos. Se entramos no ciclo vicioso dos poluentes e dos anti-poluentes (novas indústrias que se criam por causa das indústrias antigas) eis-nos irremediavelmente dentro da moral do extermínio, sem apelo, sem retrocesso.

A situação é clara. E quem quiser que escolha: utopia ou morte.

+

1-2<dilúvio-06> /21-jul-1973

O MUSEU DOS COMBUSTÍVEIS... FÓSSEIS

21.Julho.1973

Não se pergunte para que servem estes festivais aéreos, estas acrobacias de aviões e helicópteros, estas figuras de retórica aéreas e ruidosas.

Servem-se a si próprias e porque o consumo de gasolina deverá fazer-se, custe o que custar, haja ou não guerra.

Não se pergunte, portanto, na mesma sequência, para que servem os autódromos e os carros de corrida, as pistas de Indianápolis e as 24 horas de Le Mains. Não servem para nada, servem-se.

Aparentemente, o estético é razão suficiente. O espectacular. O ruidoso pelo ruidoso, a arte pela arte, o circo pelo circo.

Se os espectadores acorrem, se as entradas são pagas, se os acrobatas recebem taças e medalhas, que falta?

Oráculos, porém, começam agora a dizer que os combustíveis vão faltar. Manobra de cartéis ou efectiva escassez de base? Ou ambas as coisas?

Jacques Piccard, na sua estadia em Portugal, lembrou que o petróleo está a chegar ao fim. Teríamos assim, à vista, o fim da famosa era dos motores de combustão: helicópteros, monomotores, bimotores, veículos rodoviários, ia tudo para o Museu de Antiguidades, ali em Belém.

Estaria, portanto, ameaçado um dos mitos mais arreigados no espírito das massas, um dos símbolos que definem a nossa «civilização» e de que ela mais se orgulha.

O gigantismo do Tupolev e do Concorde, à compita, viria abreviar esse fim. O aumento exponencial dos respectivos artefactos não seguiria uma linha indefinida, essa linha ver-se-ia cortada abruptamente pela quase súbita escassez de combustíveis.

Resta saber o que vai morrer primeiro: se o mito - a força, o poder, a velocidade, o super ruído; se os veículos dessa mitologia; se a matéria-prima a respectivos sobrinhos.

Se temos dez anos para evitar a catástrofe como insiste em crer o M.I.T. - mudar de mitos, inflectir o sentido do crescimento económico, é bem possível que durante esse período de tempo agónico os factores se intercondicionem: o fim dos combustíveis, a queda do mito e o bolor dos veículos.

Isto se diga para os aficcionados em Museologia.

ADORADORES DO PROGRESSO

É caso para desconfiar. O «progresso» tornou-se um lugar-comum de todos os ideólogos e tolos. Leio discursos tradicionalistas, quiçá integralistas, e não falta a exaltação das grandes figuras da ciência: na aeronáutica, na medicina, na engenharia, há sempre um homem de proa, um Santos Dumont que se cultiva, admira em dias de festiva inauguração.

Leio órgãos falangistas (sou masoquista) e lá vem a apologia, o êxtase, o bate-cu pelo crescimento económico, pela industrialização acelerada, pelos benefícios que resultam de todos os malefícios catalogados como «poluentes» e do bem-estar que o trabalhador vai ter com a implantação de novas indústrias. O aumento do nível de vida, sublinham os ditos órgãos.

Leio amigos íntimos do proletariado (quero estar em dia) e é o mesmo enlevo pela técnica, pela ciência sacrossanta, pela indústria, pela venerada economia. Ouve-se a palavra progresso de dois em dois minutos e aponta-se de reaccionário o que critica toda a qualquer estupidez, venha ela em nome do Santo Progresso ou em nome da Sagrada Reacção, o que contesta o homicídio perpetrado por todas as mitologias hodiernas, por toda a Sofística do Século XX.

Leio certos semanários e tudo são enlevos «progressistas», páginas inteiras dedicadas a novas firmas, empresas, marcas de automóvel, o desporto, a bolsa, a banca, a finança, a indústria, o progresso, olarilas as infra-estruturas. E o consumo per capita crepita nas linhas das entrelinhas e nas entrelinhas das linhas, num rodopio que me põe tonto de progresso. Volto-me para outros e ei-los preocupados com a industrialização, as inflações, a flutuação do dólar, a natação do escudo, as refinarias, a celulose, o incremento farmacêutico, o progresso.

Depois leio um dos 4 ou 5 órgãos periódicos dedicados só à vida motorizada e vejo logo ali três articulistas preocupados com a «poluição», porque preocupados em propagandear anti poluentes dos escapes. Não sem uma certa ironia se fala então de poluição, como se esta fosse uma espécie de sífilis que o garanhão tem, ao mesmo tempo e conforme o salão, orgulho em exibir e um certo recato em manifestar, especialmente diante de senhoras.

(Diga-se, em parêntesis, que a poluição pelo ruído é a mais semelhante à infecção venérea. É «símbolo de força», e para um macho afirmar virilidade, força, domínio, deve ter sempre o seu escape bastante ruidoso. No que respeita ao monóxido de carbono, é um pouco diferente: as autoridades sanitárias, compostas de eminentes especialistas atentos ao progresso, já alertaram a população sobre os «perigos da poluição do ar» e a revista motorizada, de alma a coração com o progresso, tem todo o interesse em condicionar esses perigos, em combatê-los. A «luta contra a poluição» está, aliás, no espírito de todos estes adeptos do motor, da força, do poder, do combustível.

+

1-3<dilúvio-07> 02-ago-1973

A MITOLOGIA DA VELOCIDADE

NO CENTRO DA MORAL COMPETITIVA

E DA ESTRATÉGIA DO DESPERDÍCIO

2.8.1973

No artigo que escreveu em Le Monde, bastante à margem do tema-pretexto – Crise de Energia -  Ivan Illich punha, como sempre, o dedo na ferida. Relacionando velocidade e mitologias da velocidade com opressão traduzida no tempo «roubado» às existências individuais dos não favorecidos pelos... supersónicos, o chamado «progresso das comunicações» é apenas uma forma que assume a opressão ambiente.

O elogio do novo avião ou do novo comboio ou do novo auto que consegue superar tudo o que amigos escapes cantavam, inunda a Imprensa, diária ou da especialidade, porque o terrestre que leva hora a meia da casa ao emprego e quando. lá chega já vai mais morto do que vivo, mais cansado do que se tivesse trabalhado uma manhã – esse consumidor precisa de compensações. As grandes fitas sobre grandes corridas, não têm outra finalidade. Pensar num comboio (sonhar num comboio) que fez 250 quilómetros à hora, «compensa-o» daquele transporte colectivo que, não só fumega que nem uma fábrica, não só vai cheio a transbordar como demora hora a meia para o transportar da casa ao emprego, duas vezes por dia, 6 dias na semana, 52 semanas por ano.

Claro que a mitologia da velocidade – como todas as mitologias – custa à humanidade um preço que em breve se fará colapso mortal pare o planeta e respectivos recursos. Se há exemplos de gratuito, glorioso, infinito desperdício, o dos combustíveis em velocidades super gigantescas, é um dos mais espectaculares... até porque dos mais ruidosos. Dá nas vistas.

A pergunta é só: quando os combustíveis fósseis estiverem (felizmente) de resto, quem continuará a oprimir quem? As mitologias da velocidade ou as vítimas dessa mitologia?

É o que Ivan Illich nos convida a saber, desde já, enquanto os heróis da velocidade estão gastando alegremente os últimos galões, sob os auspícios de todos os partidos e blocos e ideologias políticas do Mundo.

O mesmo tipo de raciocínio crítico que se aplica aos velozes veículos, pode aplicar-se às telecomunicações telefónicas que, eufóricas, anunciam de Lannion (29/Maio/1972): «revolução no domínio do telefone». Explica a notícia da France Presse:

«Está a ser ensaiado nos laboratórios do Centro Nacional de Estudos de Telecomunicações, nesta cidade britânica, um elo de transmissão telefónica revolucionário. Com efeito, graças ao laser, será possível transmitir conversações telefónicas, não por um fio de cobre, mas por um fio de vidro com o diâmetro de um cabelo, fio que dará passagem a 100 000 ligações telefónicas.

Este processo teria, em particular, a vantagem de ser flexível a leve. Por exemplo, a bordo do «Concorde», os centos de quilos que pesam os circuitos electrónicos e de rádio poderiam ser substituídos por alguns quilos de fibras ópticas. As fibras ópticas poderiam ser comercializadas dentro de 10 a 15 anos.

«Ingleses a americanos procedem a investigações neste capítulo.»

Falta responder a esta pergunta:

O que fez correr tanto o capitalismo?

Porque é que o capitalismo quer andar tão depressa?

De tal modo é a mitologia da velocidade, que consegue contagiar, nesta corrida de competições, outros blocos a países.

Porquê?

Pela velocidade, o fosso entre as classes é mantido a acentuado.

Quando uma viagem de comboio custa x, a de avião custa 5 vezes x. Quando a viagem de avião custa y, a de super jacto custa 3 vezes y. E assim sucessivamente.

Para uma classe – a burguesia – que vive de símbolos emblemáticos, as viagens são símbolos de dinheiro possidente dos mais evidentes. Exibe-se dinheiro fazendo viagem  cada mais veloz, mais longa, mais luxuosa.

Por outro lado, a velocidade obriga a um hiper-consumo de combustíveis. É, portanto, um dos aceleradores do mecanismo da produção e, logo, do poder.

Os moto-crosses com que se ensurdecem vilas e aldeias de Portugal, promovidos por grupos desportivos locais, com o beneplácito da respectiva burguesia endinheirada, recebem dos filhos-família o dinheiro das inscrições mas dão às bombas de gasolina uma aceleração de vendas. Não precisam de trabalhar em comum, previamente combinados, o acordo é tácito e vigora a longo prazo.

A velocidade é ainda motor da classe possidente como se verifica pela dispute Boeing-Concorde. Aqui os potenciais consumidores já não são pobres mortais mas omnipotentes empresas. E vender a grandes empresas é sempre negócio por grosso. Maior e mais veloz foi, pois, a palavra de ordem para fabricar o dinossauro, que agora mal se aguenta nas asas.

O ponto crítico da ganância revela-se no fracasso do «Concorde». Não quer dizer que a ganância, o capitalismo e a classe que tem no «Concorde» o seu símbolo, tenham chegado ao fim e fracassado com e como ele. Mas é um lindo símbolo.

Acredita-se, entretanto, que para vender o «Concorde» haverá muitos altos funcionários e agentes de vendas enviados em missão de negócios aos países subdesenvolvidos. Conseguirão vender algum?

Mas a verdade é que o «Concorde» não se destinava a refugo pare subdesenvolvidos. Assim como um hotel de luxo que chama a si a nata da clientela, o «Concorde» foi construído para «hotel de luxo» da burguesia viajante. E, como os petroleiros, abusou do bojo a tais extremos (para levar de uma assentada o que outros levariam duas a três viagens a transportar) que se tramou. Foi, portanto, a ambição que o matou. Ter que se vender a subdesenvolvidos é o fim mais triste que o «Concorde» podia ter.

Por exemplo: quanto receberão as fábricas de motorizadas pela obra de arte que estão fabricando?

Merecem a medalha n.º 1 da Poluição pelo Ruído. E vão tê-la. Entram assim também na dourada galeria dos grandes senhores da velocidade, donos do Mundo, enquanto os árabes lhes não cortarem os pipe-lines. Os árabes ou os cartéis por eles.

+

1-2<dilúvio-08> 03-ago-1973

EXPLORANDO O MAR QUEM SE EXPLORA?

3/Agosto/1973

Digamos que a Exploração tem o maior interesse em promover os desportos-limite, que obrigam o homem a penetrar em meios ambientes que não são a sua normal e habitual atmosfera. Melhor dizendo, a sua Biosfera ou Ecosfera.

Não tanto porque a Exploração preveja a necessidade de a humanidade vir a mudar de ambiente - quando a Biosfera se tornar de todo inabitável - mas porque necessitará de mergulhadores oceânicos em quantidade como até agora necessitou de mineiros e empregados de escritório, precisará de montanhistas como até agora necessitou de astronautas interplanetários e escravos da gleba.

O petróleo dá o exemplo, e explica porque o mergulho se tomou uma ciência médica tão urgente e tão de repente...

Dantes era só a ganância das pérolas, ou das algas; agora trata-se de ir ao fundo buscar petróleo. E um novo escol profissional nasce, tem de nascer, nem que tenham de o... inventar. O mergulhador, como de certo modo já o era o aviador e o astronauta, passa a trabalhador de elite, com cuidados especiais. Com um ramo da Medicina que lhe é totalmente consagrado.

As cidades submarinas da ficção científica têm essa função dentro do contexto da Exploração (dos espaços extra-biosféricos): ajudam a mentalizar o público para a vida (e o trabalho) fora da Biosfera. Em última instância, trata-se sempre de depreciar esta breve crosta terrestre, glorificando as pesquisas «ao centro da Terra», «ao fundo dos mares», aos espaços galáxicos, às montanhas everésticas.

Júlio Verne é um santo patrono da Exploração aero-terrestre-espacial. E agora, marítima.

Atenção às profundidades oceânicas. As espécies piscícolas estão a desaparecer. A competição feroz entre países pesqueiros estabelece-se, ou estabelecera-se até agora a dois níveis evidentes: uma frota tecnologicamente aperfeiçoada, redes mais potentes, arrastões mais velozes e capazes de permanecer mais tempo no alto mar, câmaras frigoríficas para prolongadas permanências; isto por um lado. Por outro, um pessoal de elite, conquistado nos mercados do trabalho subdesenvolvidos, que até são tradicionalmente países de pescadores, mais experimentados e há mais tempo.

O mergulhador entra agora em cena, como 3.° factor, que irá dotar os países (candidatos a) vencedores na maratona do mar e na exploração dos seus recursos.

O menos que podemos dizer é que a exploração marítima tem o nome com ela.

Menos imperativo mas preponderante deste interesse pelo mergulhador, é estoutro factor: assim como a atmosfera inviável da cidade valoriza a venda da Natureza - sol, ar puro, água cristalina, praias paradisíacas -, assim uma Biosfera cada vez mais poluída e podre, cansada, queimada, agonizante, convida os agentes do viagens a investir em e a incitar manobras de propaganda a favor dos novos espaços - profundidades oceânicas, altitudes everésticas, - e respectiva exploração.

Temos assim a ciência sempre ao serviço da Exploração (oceano-espacial), tentando adaptar o homem aos fundos, criar nele uma segunda natureza, forçá-lo a ultrapassar os limites biológicos, – e isto quer ele queira ou não queira.

A mesma luta se travou nos voos interplanetários. Todos os astronautas de elite, hoje, são neuróticos, asténicos, autistas, envelhecidos e entediados, com reflexos estropiados, mas foram heróis.

E para criar heróis a ciência teima. Confessa fracassos na terapêutica, no diagnóstico, na patogenia, na prevenção; as teorias sobre toxemias de profundidade abundam e nenhuma é certa, mas a ciência teima, teima sempre.

Porque a ciência é teimosa, especialmente se sob o aguilhão da exploração de novos espaços que permitam (como os bancos da Suíça) aos exploradores safar-se a tempo da Biosfera apodrecida. Que eles ajudaram todos a apodrecer.

+

1-6<dilúvio-09> /nov-1973

O SUBDESENVOLVIMENTO DO DESENVOLVIMENTO

Novembro/1973

Quando os burocratas  entram na ideologia (que os encobre) e pretendem «justificar» a estratégia da violência que lhes é inerente, a industrialização maciça e homicida, as técnicas pesadas e as fontes de energia indiscriminadas, aludem aos malefícios do subdesenvolvimento, traçam um quadro «horroroso» da insalubridade que lhe é peculiar.

As sociedade «primitivas» - dizem então os ideólogos ao serviço da infra estrutura industrial - teriam uma inferior «qualidade de vida», que se traduziria por calamidades, epidemias, doenças de subnutrição, por cobras a lagartos, moscas tsé-tsé a fungos inquietantes, ratos e parasitas, dejectos e água estagnada, restos e lixos, água inquinada e promiscuidade.

Aludem então à alta taxa de mortalidade infantil e à curta esperança de vida, salientando um quadro ainda pior nos países quentes.

Alude-se normalmente aos países quentes e suas características insalubres, fazendo-se, portanto, contraste com os países temperados, onde floresceu e floresce a «civilização», a abundância, o crescimento, as benesses da indústria.

A «qualidade de vida», a salubridade, o horror a endemias e epidemias deixa, no entanto, de ser norma, de servir para tabela, quando o ideólogo da tecno-burrocracia pretende analisar um pouco mais fundo a vantagem das estatísticas que referem baixas taxas de natalidade e maior esperança de vida nos países desenvolvidos.

De facto, deixa-se logo de formular a pergunta fundamental: é um facto que a mortalidade infantil diminui e a velhice aumenta. É um facto que a vida dura mais anos. Mas que espécie de vida, que «qualidade de vida»?

Todos os malefícios do subdesenvolvimento, - cobras venenosas e insectos vectores de epidemias - não chegam,,, no entanto, para perfazer um quadro tão perfeito e tão hediondo como o que se desprende do desenvolvimento, não chegam os ratos e os mosquitos para compensar os milhares de poluentes, de agressores, que constituem o dia a dia tóxico do «desenvolvido», do industrializado e urbanizado.

Os industrializados preocupam-se em manter vivo, em «condenar à vida» o indivíduo, porque dele necessitam como unidade de trabalho.

Mas como se arrasta esse indivíduo?

Que mal-estar e doenças o minam?

Que angústia, que stress, que fadiga e que fastio o caracterizam?

Que «preço» tem ele a pagar pelo desenvolvimento?

(Para toda a porcaria e insalubridade do desenvolvimento, os ideólogos só conhecem um slogan justificativo de todos os crimes e incómodos, dizendo então ser «o preço a pagar pelo progresso».)

Afinal o suicídio aumenta nestas outras sociedades da abundância. Não se morre a tempo e horas de subnutrição, morre-se de pasmo, de cansaço, de chatice e vazio, morre-se de doenças profissionais, de doenças sociais, de doenças da civilização, morre-se, até, de fartura, de indigestão, de hiper-vitaminose ou de hiper-qualquer-outra-coisa. Morre-se de HIPER!

De um ponto de vista biológico (e até demográfico, a longo prazo) a «selecção da espécie», automática, que o subdesenvolvimento pratica será ou não preferível a uma vida mantida à força de antibióticos, vacinas, transplantações, cirurgias, remendos?

CRIADA PARA TODO O SERVIÇO

Nada mais útil do que a Técnica. Serve a guerra, serve o crime, serve a escola, serve a Imprensa, serve a cirurgia, serve a pesca, serve o espaço (ela é o Espaço), serve a polícia, serve a arquitectura («vivermos em redomas de vidro» grita um arquitecto futurista em gorgulhante euforia).

Serve, inclusive, a Poluição mas serve, acima de tudo, a antipoluição.

Durante cinco décadas e tal, a indústria inundou o mundo de instrumentos mortíferos, de gadgets inúteis ou tóxicos, de brinquedos e armas, de modelos supérfluos, de modas e contra-modas; durante meio século a publicidade ficou rouca de tanto proclamar as excelências desta ofensiva de Estupidez.

De repente, foi dado o alarme da Poluição que servia, acima de tudo, para promover novos modelos de antipoluição.

Verificado que a indústria homicida atingia as raias do escândalo – pelo esgotamento de recursos, pela exaustão de bens naturais, pelo desperdício de matérias-primas -, a guarda avançada do sistema capitalista ressentiu-se. Críticos do Sistema do tipo Raymond Aron, Vance Packard, John Galbraith reconheceram que o próprio capitalismo devia auto-criticar-se para sair mais forte da experiência... E, evidentemente, para retirar da situação novo, imediato e redobrado proveito denunciando a poluição, o Sistema inventava a indústria das indústrias, o super-lucro, a publicidade do biológico e o capitalismo de qualidade.

Estrela desta nova estratégia da sobrevivência capitalista: Ralph Nader.

Os automóveis matam?

Inventam-se (e fabricam-se, claro...) almofadas de ar para municiar os automóveis.

Os fumos intoxicam as cidades?

Inventam-se (e fabricam-se...) filtros de alto preço e poder purificador.

Os alunos aprendem mal a matemática e outras chatices?

Inventam-se professores robots para dotar as escolas com audiovisuais que estupidificarão muito mais eficazmente os pacientes.

Os fritos a óleo do mercado e margarinas estragam as figadeiras do gastrónomo?

Inventam-se fritadeiras eléctricas com termostato, último grito para substituir as antigas e nojentas sertãs.

A carência de vitaminas e sais minerais é endémica por refinação dos cereais e outros apuros da indústria alimentar?

Inventam-se pães mais caros, «enriquecidos» de tudo o que lhes foi retirado pelas refinações.

O ambiente «fabrica» doenças as mais variadas?

Inventam-se vacinas que imunizam as populações contra a desnutrição, o pauperismo, a miséria, a exploração, a insegurança, o ruído, etc.: há sempre uma vacina para matar a fome de um birmanês e para todo o atentado previamente consentido e praticado contra a saúde pública.

Hereditariedades malsãs, produto de miséria e opressão, fabricam cegueiras e outras doenças congénitas?

A tecnologia já hoje consegue maravilhas no ensinar dos cegos e na melhoria do sistema Braille: o cego em breve ficará recuperado para ser útil à sociedade, numa qualquer cadeia de trabalho escravo.

Os acidentes são cada vez mais numerosos nas fábricas cada vez mais numerosas e sem condições de segurança?

Inventa-se a cirurgia do enxerto em que é ilustre mestre um médico de Xangai. Não se eliminam as fábricas e máquinas que amputam braços, as máquinas são as vacas sagradas da sociedade industrial, mas vai remendar-se a questão a posteriori, com uns maravilhosos enxertos, com uma cirurgia plástica do mais requintado cirurgião.

O soldado americano no Vietname está cada vez mais sujeito aos estilhaços de obus e às balas?

Inventam-se couraças de nylon, «48% mais eficazes do que as actualmente usadas e que são compostas por 135 placas de titânio sobrepostas».

As crianças de Samoa morrem de fome?

Inventa-se um biscoito neo-zelandês, que contém todos os elementos nutritivos de um quarto de litro de leite... Enorme vantagem do biscoito descoberto pelo senhor L.P. Chapman, do Instituto de Pesquisas Dietéticas da Nova Zelândia: ao contrário do leite ou do queijo, pode ser guardado sem ser necessário recorrer a refrigeração!

A regra, pois, está à vista: a maioria dos gadgets são inventados para combater malefícios inventados por outros gadgets, ou para encobrir situações, circunstâncias de opressão, de miséria, de carência, de escassez, de subdesenvolvimento e de exploração crónicos.

A técnica torna-se assim não só o álibi do que a política não fez nem quis fazer mas uma forma de aumentar e multiplicar lucros com as situações de miséria, doença, penúria que a mesma técnica criou ou ajudou a piorar.

Valeria a pena enumerar algumas notícias de gadgets que tipificam este ciclo vicioso e que são apenas casos particulares da política geral do Anti poluente. Mas ficará para outra livro mais vasto, onde se possa pormenorizar o que aqui fica apenas dado em lamiré, em hipótese de trabalho.

A COMERCIALIZAÇÃO DO BIOLÓGICO

Como se a inflação de objectos sobre a Terra e o congestionamento que provoca ainda fossem pequenos, a técnica não sossega e não cessa de inventar supérfluos.

A técnica serve para tudo. Não satisfeita com o que já descobriu, não satisfeita em ter mandado o homem para o Espaço onde o homem não pode viver nem tem quaisquer interesses próximos ou futuros, vai agora inventar o gadget que permite conhecer o sexo das crianças antes de nascer.

Decisiva descoberta essa, como se calcula, para o futuro da humanidade e a sobrevivência da espécie.

Justiça seja feita, porém, mas a tecnologia quando comercializa um novo gadget, um novo produto tão inútil como o anterior – tem sempre o cuidado de frisar que vem resolver problemas ou situações de prejuízo.

Para efeitos de estratégia publicitária, o gadget hoje deve ser anti poluente, tem que usar argumentos de utilidade, de higiene, de embelezamento, de dietética racional, de salubrização, de anti-fogo ou anti-traça ou anti-piolho, ou anti-qualquer-coisa-molesta para o consumidor.

É necessário que um novo modelo destrone o antigo. Fala-se então sempre de «novos métodos, inventados por eminentes cientistas». Fabricam-se acidentes e logo a seguir o gadget anti-acidente.

Visto globalmente, o sistema não funciona para satisfazer necessidades mas para iludir as que efectivamente o são e criar outras, artificiais.

A tendência do sistema, assim, é e será sempre para gastar mais, desperdiçar mais, estragar mais, adoecer mais.

Clama-se por falta de médicos, de hospitais e de sangue: mas devia clamar-se contra o facto de haver doentes a mais. Não é o sangue que falta, o sistema é que fabrica cada vez mais acidentados que reclamam sangue, e nunca haverá, assim, sangue suficiente, venham os dadores que vierem, façam-se as campanhas que fizerem.

Daí também que as campanhas do tipo «doação» proliferem.

O sistema recupera a Poluição através dos (gadgets) anti poluentes.

A ESTRATÉGIA DA RECONVERSÃO

«POR UM CAPITALISMO DE QUALIDADE»

Os invulneráveis advogados da sociedade de consumo (a tal que Vance Packard cognominou de «Sociedade do desperdício») consideram imutável a publicidade e dizem que é inconcebível uma economia capitalista sem ela.

Têm razão, a sua razão. Nenhuma força parece hoje possível de se opor à inércia – embalagem – criada pela engrenagem publicitária e ninguém acredita que essa roda possa parar. (A não ser que...)

Há que aceitá-la como... «fatalidade».

Quando um ilustre industrial diz que «a publicidade é a poderosa fortaleza da nossa (sic) economia...» talvez tenha razão. A sua razão. Cada sistema tem a sua própria lógica interna e a publicidade é um subproduto inevitável da lógica do sistema capitalista.

Para o observador imparcial, porém, cada sistema não pode ser avaliado em si mesmo, independentemente dos outros sistemas aos quais não deixa de estar ligado e dos quais só uma artificiosa abstracção isolou.

O sistema capitalista terá a sua lógica mas essa lógica é profundamente aberrante em relação a outros sistemas: o sistema vivo natural; o sistema energético mundial; o sistema de recursos naturais e matérias-primas.

Em relação a estes, o sistema capitalista mostra-se hoje, aos olhos de todos, depredatório e homicida, desgastante e esgotante.

É cómodo e parece lícito – a título de «tolerância» ideológica – pensar em termos de lógica interna de um sistema; mas quando ele ameaça todos os outros sistemas dos quais basicamente todos dependemos, que sentido poderá ainda ter essa «tolerância» ideológica?...

Continuar a fazer o elogio da publicidade? Ou usar dos estratagemas possíveis para a superar sem a defrontar de frente?

Quando uma força desencadeada não dá mostras de abrandar a velocidade e o ímpeto da sua violência quase sempre homicida, a velha sabedoria extremo-oriental do yin-yang aconselha a dialéctica, aconselha superar a imensa expansão yin com uma equivalente resistência yang.

Se a publicidade é um cavalo enraivecido que tomou o freio nos dentes e nenhuma força se lhe «pode» opor – sob pena de ficar esmagada... - há que superar o obstáculo, há que usar a dialéctica.

Houve assim quem usasse a publicidade como arma contra a publicidade.

Quer dizer: se a publicidade mente sistematicamente, há que dizê-lo, há que reconhecê-lo e fazer uma publicidade que fale verdade...

Se a publicidade fomenta produtos perigosos ou nefastos, há que seleccionar os produtos que ofereçam segurança para a saúde do consumidor e só a esses dar o crédito da publicidade.

Se a publicidade não tem em conta a qualidade, há que opor-lhe uma outra baseada na preocupação da qualidade, o baixo preço e a durabilidade ou obsolescência retardada.

Mais ou menos nestes termos – «para um capitalismo de qualidade» – se poderá definir a estratégia reformista de que Ralph Nader é, nos Estados Unidos, o apóstolo mais conhecido, já com ramificações a discípulos entre nós...

+

<dilúvio-10> /1973»

NOTAS DE ACTUALIZAÇÃO

SOBRE AS SETE IRMÃS

1973

De Outubro de 1973 a Fevereiro de 1974 é evidente que muita água (poluída) correu debaixo das pontes e muito petróleo nos pipelines fez correr igualmente das canetas alguma tinta, acelerando a facúndia imaginativa dos cronistas que se dedicam a comentar a cena tragicómica internacional.

O que era em Novembro uma vaga hipótese, só aqui – neste ensaio sobre ecologia e dialéctica da «crise» – e ali anunciada, tornou-se assim evidência mesma, dois meses e tal após. Daí que o texto principal deste livro, escrito em Novembro, necessite em Março de algumas notas que, completando a interpretação então apresentada do fenómeno, a enriqueça de informações e pontos de vista que, não existindo então, foram aquisições de entretanto.

Permitimo-nos esta «actualização», embora saibamos tratar-se de um assunto que, ainda em curso, não deixará de mostrar novos aspectos, em cada dia que passa, e novos, paisagísticos atractivos.

Já ouvi considerar «culpados» da crise os partidários da luta ecológica, os militantes do ambiente, os contestatários da industrialização pesada.

E cita-se o caso do oleoduto do Alasca, à construção do qual se opuseram, durante meses, os movimentos de resistência ecológica que nos Estados Unidos abundam.

«Ai sim, ele é isso» – teriam dito os grandes patrões do petróleo, quando começaram a ficar enfadados com os ecomaníacos e as suas prédicas a favor da Natureza, da vida e da qualidade da vida...

«Ai sim, ele é isso» – e bumba: com o petróleo a subir de preço por aí acima, com o pescoço do consumidor mais apertado ainda pela corda da inflação, com vagas de desemprego, com um beliscão valente no quantitativo da vidinha e da subsistência - era óbvio que se desencorajariam, de raiz a desde a base, esses «amigos do luxo e do supérfluo» que são os defensores da vida a da qualidade da vida.

Fazendo-se da subsistência diária um inferno ainda maior, os ecologistas perderiam necessariamente força e razão (a força da razão), já que as suas campanhas de antipoluição ficavam praticamente sem fundamento e sem alvo. Ninguém clama contra a poluição de barriga vazia.

Ironicamente, os chacais até devem ter dito que iam «ao encontro das campanhas de anti-poluição», criando tais dificuldades às pequenas e médias indústrias que estas passariam a poluir muito menos e até mesma nada. Falidas as fábricas, deixariam obviamente de produzir e portanto de poluir...

Vendo as coisas por este ângulo, os ecomaníacos teriam tido a culpa desta «crise-bluff», porque teriam irritado com exigências desmedidas de protecção à Natureza os senhores da indústria que, tendo a faca e o queijo na mão, a energia e o lucro, era só quererem e a situação pioraria.

Outra «culpa», ainda, atribuída aos ecologistas, e muito bem, advém de relatórios como o do M.I.T. sobre a próxima e inevitável escassez de matérias-primas. Visto hoje, esse relatório até parece ter sido encomendado e inspirado pelas multinacionais do petróleo: «cientificamente», o relatório alarmava a humanidade, não só com a explosão demográfica irreprimível mas revelando ainda que as matérias-primas escasseariam cada vez mais.

Vai daí, de novo os potentados teriam agarrado na palavra do ecologista e dito:

«Aí sim, ele é isso? Então já vão ver...»

E viu-se: como para «poupar» matéria-prima não há «melhor solução» do que subir-lhe o preço, aí temos, de um ano para o outro, uma alta mundial do preço das matérias-primas.

Ai temos, pois, o capitalismo hegemónico respondendo à sua maneira ao repto dos ecologistas, recuperando a luta antipoluição (mas dificilmente recuperando o alarme ecológico, diga-se entre parêntesis).

Quem poderia imaginar tal maquiavelismo mesmo nos mestres de Maquiavel?...

Para alguns observadores, a «guerra do petróleo» não teria começado em Outubro de 1973 com a guerra do Kipur – como as aparências podiam levar a acreditar – mas teria começado muito antes.

Por exemplo: desde Janeiro de 1973 que as bombas de gasolina, nos Estados Unidos, vinham fazendo a comédia da escassez, tinham entrado em «racionamento» sem razão aparente, a não ser a de um açambarcamento iminente que fazia prever logo a seguir uma política de alta de preços.

Quer dizer: a «crise» não começou a ser forjada quando os árabes «decidiram» os embargos e aumentos de preços.

A crise vinha de trás, vinha afinal desde sempre, desde que existe capitalismo, e com ele, inflação exponencial.

Mas como os previsionistas anunciavam para 74, 75 a anos seguintes «graves» recessões nas economistas capitalistas, como se previam já «exércitos de desempregados», como a crise se tornasse de crónica em aguda galopante, o grande golpe seria, portanto, encontrar um elemento sólido que a materializasse. Esse elemento sólido foi um líquido: o petróleo.

Entrando a fundo na crise que se vinha acentuando, o capitalismo internacional inventou o «bluff» do petróleo para, aos olhos do cidadão comum, não aparecer como único culpado.

Vendo avizinhar-se a crise – traduzida em desemprego, inflação galopante, alta de matérias-primas – o capitalismo reagiu a tempo a meteu o "bluff" do petróleo pelo meio. De uma cajadada matava dois coelhos: respondia aparentemente às reivindicações do Terceiro Mundo que, fornecedor de matérias-primas, estava impaciente por ver subir os preços; e atirava com a «responsabilidade» da crise para os governos árabes, que pela primeira vez na história «aparecem» como donos daquilo que, estando embora nos seus territórios, nunca fora verdadeiramente seu mas controlado à distância: os poços.

Como já hoje está suficientemente demonstrado, porém, outras coisas são certas: se os governos árabes e alguns outros governos do Terceiro Mundo vão ganhar alguns lucros (ou percentagens nos lucros), os povos, as classes produtoras desses países deverão vir a ser atingidos pela inflação tanto como as classes trabalhadoras dos países europeus e do Japão.

Uma coisa são os governos árabes que enriquecem, outra coisa são os povos que eles têm mais ou menos submetidos e explorados sob regimes que obedecem, económica e politicamente, aos interesses do imperialismo norte-americano, traduzido nos seus trusts a cartéis.

Outro aspecto é: as «sete irmãs» tomariam esta decisão suficientemente senhoras de si a de irem ganhar? Deliberaram-na? Ou de certo modo foram impelidas ao «bluff», porque lhes convinha, é certo, mas porque não podiam manter por mais tempo em respeito os governos árabes com as suas exigências?

Ou porque, ao fim a ao cabo, a crise vinha de trás e o «bluff» do petróleo seria então para ela (crise) a melhor cobertura, a melhor manobra distractiva?

Uma pergunta ainda é inevitável: porque é que só agora se verificou o «bluff», a crise, porque é que só agora os árabes fecharam as torneiras, decidiram embargos e aumentaram preços?

E a resposta inevitável é também: porque só agora isso interessava às «sete irmãs» e estava de acordo com a estratégia dos seus interesses.

Se o «bluff» petrolífero veio agudizar a luta contra o capitalismo monopolista das "sete irmãs» (companhias multinacionais do petróleo) e o capitalismo europeu (representado pelos dois principais agrupamentos económicos, Mercado Comum e E.F.T.A.) é de perguntar agora se o que é bom para um desses blocos será ou não bom para o outro bloco.

Ultimamente, aconselha-se o consumidor a reeducar os seus hábitos de gastador incorrigível. A Direcção Geral dos Combustíveis publica anúncios, com base em sugestivos desenhos, sugerindo que se tome banho de chuveiro porque poupa gás, ou que se modere a velocidade do bólide quase ao nível do carrinho do bebé...

Não se veja nisto qualquer incitamento a uma fase de infantilismo generalizado, mas apenas um propósito de sobriedade.

Resta saber se o sistema de consumo pode viver em regime de sobriedade.

Até agora, a estratégia do desperdício incitava-nos a gastar até ao tutano, de tudo e quanto mais melhor. Que se passa, então, para a ordem ter passado ao inverso?

Dar-se-á o caso de estar o comércio norte-americano, directamente inspirado pelas «sete irmãs» que engendraram a crise, a gostar deste incitamento à poupança?

Não será verdade que, aproveitando a alta de preços verificada nos bens e objectos de consumo, a indústria americana se prepara para invadir os mercados europeus e japonês de «gadgets», de objectos manufacturados, a preços sem concorrência?...

Não iremos assistir a slogans do tipo «compre made in USA, porque compra mais barato?»

Observadores argutos como Michel Bosquet, no mensário Le Sauvage, defendem que isso irá acontecer.

A inflação irá, de tal forma, aumentar os preços, que o consumidor se retrairá até onde puder, indo comprar (logo que os descubra) aqueles produtos que lhe ofereçam melhores probabilidades.

Resta saber se os mercados europeus, depois deste «golpe baixo» das multinacionais, ainda vão abrir-se aos produtos da rival.

Espartilhados entre o consumidor que procura defender-se e a pressão dos grandes monopólios que usarão todos os processos – dos diplomáticos à chantagem – para penetrar nas inflações nacionais, os países terão aí mais um problema de «sanduíche» a resolver.

RESUMINDO E CONCLUINDO:

Os jornais falam da «crise», mas aqui entende-se que a palavra, no singular, terá que levar aspas para se distinguir das 3 crises sem elas.

Porque, de facto, existem três crises distintas e uma só verdadeira.

1 – Que os recursos da Terra em matérias-primas e energia irão rareando até ao esgotamento já o bom senso há muito o sabia, já Frei Pantaleão escrevera um sumarento ensaio sobre o assunto e, muito antes dos computadores do M.I.T. o terem descoberto, com a inteligência que os caracteriza, o aviso viera dos ambientalistas ocupados em prever o dia de amanhã.

Logo, esta é a crise n.º 1 e dela nem S. Pedro nos livrará e muito menos os salvadores do Mundo que até agora se têm limitado em conduzi-lo aos bordos do abismo, à beira do colapso.

2 – Existe depois uma outra crise, mas essa é crónica, clássica, cíclica, é do sistema, é estrutural, é intrínseca à própria sociedade do desperdício que não querendo viver sem lucros também não pode viver sem estragos.

Já em 1960, Vance Packard, no seu livro The Waste Makers se entreteve a desventrar a «crise de mercado» inerente ao capitalismo, quando relatou os estratagemas então em vigor para fazer com que um mercado saturado de gadgets e supérfluos continuasse a gastar deles.

Esta é a crise n.º 2, conhecida de Longa data e que de vez em quando se agudiza como os críticos do capitalismo largamente têm referido. O sistema estrebucha a quem gaga é o cidadão, o consumidor. Tem sido. Está sendo. Até quando irá ser? Quando deixará de ser?

3 – A crise n.º 3 foi a que se disse ter início quando os árabes inventaram uma guerra do Kipur e logo a seguir negociações porque tinham o trunfo do petróleo na manga. Não foi, como se disse, a guerra do petróleo, foi o «bluff» no jogo do petróleo.

Mas trunfos sempre os tiveram e foi isso o que logo fez desconfiar os observadores mais atentos da fartura. Más-línguas chegaram a afirmar que os Estados Unidos nunca teriam sofrido qualquer embargo e que foi, por esse lado e por outros, tudo «bluff», manobra de cartel, para subir preços.

Eis, aí, pois, a crise n.º 3, que sendo fictícia não deixa de ter consequências reais.

A coloração política que se quis dar ao embargo agiu também com função propagandística, fazendo crer as massas ingénuas de Europa, Japão, Estados Unidos e Terceiro Mundo que os governos árabes se tinham transformado, de uma hora para a outra, em paladinos dos «condenados da terra» dos continentes subdesenvolvidos.

Essa é que a parte propriamente e absolutamente fictícia da crise: o «bluff» político.■

+

1-3 - <petróleo-7-ie-na> = ideia ecológica do afonso – notícias do apocalipse - os dossiês do silêncio - Sexta-feira, 25 de Julho de 2003

ALIMENTAR A FOME (*)

(*) Este texto de Afonso Cautela, de 1974/75, deverá ter sido publicado numa de duas: «Os Agrónomos da Fome» (Colecção Mini Ecologia, Ed. Frente Ecológica) ou e talvez no livro, «Depois do Petróleo, o Dilúvio.

1975? - Proteínas obtidas a partir do petróleo – agora que o petróleo escasseia - seria uma das soluções tecnológicas que a Economia de exploração inventou para "satisfazer" a fome dos subdesenvolvidos, sem proceder a uma redistribuição equitativa das riquezas alimentares mundiais e sem o mundo da abundância se privar em nada de farturas e supérfluos, a que se encontra habituado.

Quer dizer: a tecnologia vem sempre em auxílio dos grandes, primeiro porque instiga novas indústrias e novo consumo, depois porque evita fundamentalmente que se faça justiça económica e que se combata politicamente a miséria.

HISTÓRIA DE FADAS

Vale a pena meditar nessa "história de fadas" boas que é a proteína a partir do petróleo ou as soluções que Norman Borlaug preconizou e pôs em prática, com tal fortuna para o bem estar e a segurança dos países ricos, que lhe deram logo o Prémio Nobel da Paz em 1970.

As"novas" variedades de trigo e arroz, inventadas por este benemérito, que se radicou no México e que recebe largos subsídios da Fundação Rockfeller para continuar investigando, é outro tipo de "solução" que propõe a tecnologia, para evitar e substituir uma política de alimentos à escala mundial.

Borlaug é também (et pour cause), aguerrido defensor dos pesticidas na agricultura e a mitologia da produção agrícola acelerada - custe o que custar - tem nele um dos seus pontífices.

Quer dizer: todas estas estratégias para "alimentar a fome no mundo" partem de uma base errada porque anti-ecológica; não se procura a justa distribuição do que há e do que a terra -. sem ser violentada - pode dar, pouco ou muito, mas - para que os da abundância continuem a nadar nela e delapidando recursos - procuram-se sempre novos excedentes, com base em modificações estruturais da qualidade dos produtos e com base no esgotamento das terras cultiváveis pela violência da monda química.

Quer se trate de trigo, quer se trate de leite, quer se trate de grão de bico, soja ou feijão, quer se trate de proteína a partir do petróleo, as alterações genéticas introduzidas nas sementes deviam relacionar-se com as alterações cromossómicas sofridas pelas populações que se alimentam desses produtos geneticamente alterados, porque acelerado artificial e anormalmente o seu tempo natural de crescimento.

TUDO SE PAGA, TUDO SE LIGA A TUDO

O Ocidente é cada vez mais rico em "doenças misteriosas", na proporção da sua cupidez. Como cada especialista barafusta para o seu lado e os seminários multidisciplinares não chegam para unificar num corpo teórico coerente toda essa anarquia, nunca ninguém se lembra de fazer um certo número de correlações óbvias.

Demagogicamente, a pretexto de alimentar a fome mundial – e em vez de se estabelecer um regime de equitativa distribuição de bens - de terras -, tem-se artificial, antinaturalmente, praticado verdadeiras aberrações ecológicas. Surgem depois estranhas epidemias: e ninguém quer perceber que são epidemias e que foram fabricadas a partir de uma economia com base na exploração dos mais pobres e fracos.

Tudo se paga a o super-desenvolvimento também.

Michel Céspède, presidente do Conselho da FAO, utiliza a mesma terminologia bélica nesta estratégia da tecnologia que se procura substituir à política: "armas contra a fome, as novas fontes de proteína".

Porquê "armas"? Solícito Cépède explica:

«Certamente não basta, nem é suficientemente rápida (sic) mas a "revolução verde" proporciona um meio de acabar com a fome calórica e esta vitória será possível se, como dizia J.F. Kennedy no Congresso Mundial da Alimentação (Washington, 1963), pusermos nisso apenas a vontade.

E mais adiante:

«Qual pode ser o papel das novas fontes de proteínas, aquelas que na gíria da O.N.U. se chamam as proteínas "não convencionais", neste combate, no decorrer dos próximos anos?

E para já, quais são elas? Convém distinguir quatro grupos:

1. Utilização , na alimentação humana, de fontes de proteínas actualmente reservadas a certos animais ou que se desperdiçam: leguminosas e grãos oleaginosos em especial, mas também certos recursos de origem piscatória – falso peixe, por exemplo - igualmente utilizados em farinhas para a alimentação dos animais.

2. Melhoramento (sic) da composição proteica de certas fontes clássicas de alimentos humanos e dos animais: certas variedades de cereais (em particular o milho e o arroz), por exemplo.

3. Produção em massa de proteínas unicelulares obtidas a partir de resíduos (sic) industriais (melaço, soro de leite, sumo sulfatado de papel (sic) ) ou de alcalinos (petróleo) (sic).

4. Na alimentação dos ruminantes adultos, substituir os produtos azotados, tais como a ureia, pelos alimentos dos animais que o ser humano seria susceptível de utilizar».

Estranhamente, o técnico da F.A.O. - que não hesita, como se vê, em preconizar petróleo, resíduos industrias, "melhoramentos" nos cereais e "sumo sulfatado de papel" (que é isso?) para alimentação dos pobres desnutridos - podendo até transferir-se para eles o que tem sido para as vacas gordas dos países ricos - chega às proteínas vegetais, em especial a rainha das proteínas que é a soja, e resmunga com os inconvenientes higiénicos (sic) delas.

« Certos grãos oleaginosos contêm naturalmente produtos tóxicos ou nocivos para o homem (soja e algodão principalmente), enquanto outros como certos bolores (aspergillus flavus, por exemplo) produzem toxinas, que tornam o uso alimentar destes grãos ou da sua farinha perigoso para a saúde."

E o petróleo, não é perigoso para a saúde?

Ou será que tais oleaginosas são perigosas porque os países africanos e equatoriais de uma maneira geral são ricos delas e podiam encontrar aí (se soubessem) fontes de auto-abastecimento e de auto-suficiência que de modo nenhum importam aos senhores Cépède e Borlaug deste mundo?

Os «perigos para a saúde" da soja , descobertos agora pelo senhor Cépède, não serão antes que a soja começa a ser produto cobiçadíssimo pelos grandes e convém portanto demover do seu consumo os pequenos?

Para os técnicos da F.A.O. que alimentam a fome mundial, todas as hipóteses absurdas são lógicas e tudo o que for ilícito é licito. Amen.

MUDANÇA DE TOM

O mais curioso de constatar nestes ideólogos da tecnologia alimentar é que eles próprios - perante o escândalo do fracasso - já começaram a fazer auto-crítica, dando evidentemente razão ao ecologista pelo menos em dois aspectos:

1 - Já não é a primeira nem a segunda vez que textos da FAO ou por ela encomendados e pagos, põem de relevo o disparate ecológico dos pesticidas: " Ao mesmo tempo que se esforça por produzir mais, para os 60 milhões de bocas a alimentar cada ano, o homem cria nas suas culturas condições que favorecem a multiplicação galopante de cerca de 10 mil espécies de insectos."

2 - Em Julho de, 1970, era o próprio II Congresso Mundial da Alimentação, organizado pela F.A.O. em Haia, que denunciava o estratagema da tecnologia encobrindo a política: "pela primeira vez o aspecto político" - diziam as notícias - " da luta contra a fome ultrapassou as considerações técnicas."

E acrescentavam:

« Esta mudança de tom, em relação ao Congresso de 1963, é sensível na declaração final do Congresso: « São muitos os que pensam que só um transformação radical das estruturas actuais nas relações económicas, poderá pôr termo ao escândalo da injustiça, da exploração e da discriminação entre os povos."

« A presença de cerca de duzentos jovens delegados, entre os mil e quinhentos participantes, convidados pela primeira vez pelo Congresso, está sem dúvida dentro do âmbito desta nova linguagem.

«As soluções técnicas para vencer a fome existem, mas não poderão ser postas em prática sem reformas sociais radicais nos países do Terceiro Mundo. Os países ricos, por sua vez, deverão dar melhor acolhimento aos produtos dos países do Terceiro Mundo e aumentar o seu auxílio monetário.

« A acção da F.A.O. , nos próximos anos, basear-se-á nas 150 recomendações adoptadas neste Congresso. Mas a sua acção é limitada. A F.A.O. é uma organização inter-governamental e apolítica, recordou o seu director, o dr. Boerma. Não pode depender de pressões políticas e apontar a dedo os governos que não respeitem as suas recomendações. Pode apenas – acrescentou o director – valer-se da pressão da opinião pública dos diferentes países, tal como se exprimiu durante este Congresso»

- - - - -

(*) Este texto de Afonso Cautela, de 1974/75, deverá ter sido publicado numa de duas: «Os Agrónomos da Fome» (Colecção Mini Ecologia, Ed. Frente Ecológica) ou e talvez no livro, «Depois do Petróleo, o Dilúvio.

♥♥♥♥♥