My life - >1980 - 1-12 - <chave-1-sa-ce>< capa-4 >
O ESCRIBA
EM VÁRIOS ANDAMENTOS (*)
(*) Felizmente que ficaram inéditos (a maior parte). É um chorrilho de indisposições com incidência no charco português e algumas das suas figuras emproadas em destaque na época (1981? 1980?).
RESISTIR ATÉ DESISTIR
Quando se escrever um dia a história das lutas jurídicas em defesa do cidadão em geral e do consumidor em particular, ver-se-á um panorama triste que a bem pouco se reduz: os gigantes da poluição são os únicos a continuar de boa saúde, enquanto continuam envenenando, adoecendo e matando os consumidores.
Os interesses dos gigantes económicos (nacionais e multinacionais), os lucros das empresas, a hipocrisia dos organismos de Estado que dizem defender o cidadão mas só servem para o sugar, continuam sobrepondo-se aos direitos do cidadão .
Datas e figuras como Ralph Nader, indicadas como «faróis de esperança" nesta noite escura do consumidor, logo se verifica que nada significam.
Mesmo quando se assinalam algumas vitórias, elas são em breve abafadas ou apagadas pelo "retorno dos monstros", pois, como diz mestre Ambrósio, o dinheiro compra tudo, incluindo consciências, jornalistas e ministros. O dinheiro pode, em suma, comprar o silêncio dos que , como Ralph Nader, se mostrem porventura mais relutantes em calar-se.
O conhecido advogado norte-americano, que em 1967 empreendeu a luta contra a maior empresa da indústria automóvel, formulava em Paris, ao "L'Express", cinco anos depois, em Outubro de 1972, esta pergunta inquietante e reveladora:
" Que quer - perguntava Nader - que o Estado americano faça contra a General Motors. Ela pode dizer-lhe: "Se me aborrecem muito, instalo as minhas fábricas no Japão ou no Brasil." O Governo recuará perante a ameaça de desemprego."
Estas afirmações do mais conhecido lutador contra o imperialismo industrial do consumo, são reveladoras em vários sentidos:
c) Desse "Requiem" que são as declarações de Nader em França, conclui-se ainda que a lei nada pode contra o poder económico, que se situa não só para lá do bem e do mal, das pátrias e das fronteiras (instalando-se onde quer) mas também para lá das leis e dos tribunais
EM PORTUGAL AINDA REFINA
Esta "lei da selva" em Portugal ainda refina: aos factores apontados que são internacionais e comuns a todo o imperialismo industrial apátrida, junta-se a mesquinhez e o masoquismo típicos da nossa raça.
Aqui a ilegalidade e os fora-da-lei têm um infinito campo de manobra, gozam de absoluta impunidade e dos favores oficiais, como o recente surto de "lepra emocional" mais uma vez confirmou.
Como se viu, ouviu e cheirou, aqui não são apenas as multinacionais que arrotam grosso ou ameaçam os defensores do consumidor e do Ambiente.
Todos os bem-pensantes , obrem ou não artigos editoriais em diários e semanários, se coligaram para abominar as declarações do Ministro Sousa Tavares sobre salmonelas em Albufeira , Colibacilos no Estoril e poluição em geral.
Como diria um articulista, "a poluição não é grave, gravíssimo, sim, é que publicamente se fale dela".
Poucas vazes, entretanto, surgiram e se insurgiram contra a desvergonha, a safadeza e a hipocrisia de comissões de turismo, direcções gerais, editorialistas precoces e até colegas ministros do ministro alvejado.
Se o mais grave, portanto, não é a Salmonela mas a proclamação pública de que serviços e departamentos nos assassinam diariamente, poderá concluir-se a tese que há muito temos vindo a defender nestas crónicas: o mais grave, de facto, não é a Salmonela e a M. em geral, mas a diarreia mental e moral que prolifera e há muito avassalou o espírito dos portugueses, nomeadamente os que ocupam lugares de mando na Administração.
Grave não são as salmonelas, mas a lepra moral dos que as comem e querem obrigar-nos a comer também.
Existem, segundo sabemos, verbas em moeda europeia para obras de saneamento, solução radical para o problema.
Grave é ninguém saber para onde foram as verbas que o Estrangeiro emprestou para a gente se limpar. Graves são, de facto, as salmonelas morais que vivem de nos ir matando e, que, não contentes da irresponsabilidade, da incompetência e da corrupção. Não contentes em terem metido sabe-se lá onde, o dinheiro que ao saneamento básico se destinava, ainda vituperam o Ministro que falou, ainda fazem ameaças soezes, ainda nos culpam, a nós, vítimas da Porcaria delas, de estarmos a estragar o Negócio do Turismo.
AS AMEAÇAS COM QUE ELES NOS CHATEIAM
Sendo eles os principais autores do Apocalipse, eis que nos ameaçam com falsos apocalipses para nos obrigarem a esquecer os reais. Com as ameaças para amanhã, querem fazer-nos esquecer as mentiras de hoje.
Para dar aos nossos amigos uma ideia das interferências abrangidas por essa verdadeira guerra de nervos - na qual fundamentalmente se apoia a guerra ecológica - vamos citar títulos com que os jornais, veiculo de ideologias e propagandas, lavam diariamente o cérebro da humanidade.
Repete-se: Ecologia é um esforço para ver a verdade, no meio do nevoeiro das propagandas.
PORQUE SOU INTRATÁVEL
Porque sou intratável, inconveniente, malcriado, analfabeto, auto-didacta, sujo, nada gentil para senhoras,
Todos me diziam, com um ar compungido, que a linguagem das minhas crónicas era inconveniente e que eu me comportava sem gentileza nos gestos nem polimento nas palavras.
Acima de tudo, as palavras, era o que mais incomodava os diligentes críticos da minha prosa em geral e das minhas incursões ditas ecologistas em particular.
Afigurando-se-me que sempre fui gentil de maneiras (para senhoras e crianças) e de palavras brandas ainda quando entusiásticas, fui averiguar, em retrospectiva, o que mais terá magoado a fina sensibilidade dos meus carinhosos críticos.
E creio que encontrei a explicação do escândalo. Ao que parece, residia aí a minha fama de intratável, de radical, de extremista, de Sá Carneiro da ecologia (como me chamou Artur Tomé), de malcriado e mal-educado, etc.
Há coisas que não se pensam e eu, além de as pensar, disse-as. Além de as dizer, escrevi-as.
Por exemplo:
ESCOLA IMPOLUTA ALIA-SE À POLUIÇÃO
Quem iria pensar a impoluta instituição do Ensino tão estreitamente ligada aos tecnocratas?
"Universidade Nova de Lisboa coopera com a Companhia de Petroquímica e Gás» - segundo um protocolo assinado em princípios de Março de 1981.
Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa irá assinar dois contratos de pesquisa no âmbito deste protocolo.
ENSINAR ECOLOGIA NA UNIVERSIDADE NOVA
O curso de pós-graduação em Ecologia Humana, ministrado na Universidade de Évora, é reconhecido pela secção europeia da Organização Mundial de Saúde, mais conhecida por OMS.
O ESCAPE
«GOZANDO A VIDA» OU COMO OS VAMPIROS VÃO SUGANDO O POVO PORTUGUÊS
1981 (?) - O fundo sado-masoquista e a vocação suicida do português encontra confirmação em algumas máximas correntes, que as vítimas repetem convencidas da sua "razão" inalienável. Mas esses rifões e ditados apenas traduzem uma razão "alienada", uma alienação colectiva que desde a inquisição tem sido uma constante do nosso povo.
Por exemplo: " mais vale um gosto na boca, do que duas bruceloses (febre de malta) nos intestinos."
Este pseudo-hedonismo está na base dos maiores atentados que uma sociedade pode praticar contra si própria.
E repete-se em dezenas de circunstâncias da vida quotidiana.
Os políticos de vocação totalitária esfregam as mãos e exploram a fundo este fundo sado-masoquista da idiossincrasia colectiva portuguesa.
O complexo de castração e auto-humilhação nacional radica no mesmo fenómeno de psicopatologia colectiva.
Dos intelectuais aos jornalistas, passando por políticos e economistas, todos são unânimes em considerar o país uma desgraça, uma tristeza, uma bancarrota, uma decadência, um caos, uma crise, um desespero, etc.
Bem batido, todos os dias, por esta auto-consagração da mediocridade, o português convence-se mesmo que só na auto-flagelação encontra caminho.
Daí que os governos e oposições não façam outra coisa do que accionar este nosso ancestral desgosto por nós próprios.
O que vai originar, por sua vez, o agravamento estrutural da nossa vida comunitária, auto-aviltada e que só no auto-aviltamento encontra gozo.
Se o sado-masoquismo é a expressão mais requintada do hedonismo, eis o que está ainda por resolver nas gavetas de Freud e Wilhelm Reich.
Mas que há povos, como o português, fadados para encontrar o espasmo paradisíaco na sua própria auto-destruição, eis o que me parece hoje uma evidência diária. Diariamente aproveitada pelos aparelhos partidários que encontram, nesse fundo sado-masoquista, bom terreno onde se sovar e onde cevar o ódio que já institucionalizaram .
Basta olhar, se é que ainda se pode olhar para este país em degradação acelerada e acelerada marcha para o abismo.
Quem vai ganhar - ou quem julga que vai ganhar com a derrota do povo portugués?
A PACOVIADA MÉDICO-PARMACÊUTICA
" Coma de tudo" diz o folião do Esculápio, aproveitando o gosto sado-masoquista do doente para se mandar desta para melhor, convencido de que morreu de gozo."
O triste desta folia, porém, não é que o médico convide o doente a suicidar-se - lentamente, porém, para que o negócio não lhe fuja, prestes, da mão. O triste desta anedota é que mais uma vez o doente, o paciente, a vítima, em suma, o português, não se apercebe de que lhe estão a comer as papas na cabeça.
Sardinhada e vinho tinto, e linguiça assada é, no fundo, a moralidade que assiste a este tipo de alegre suicídio nacional, em estilo de "grande farra".
" Vale mais baquear com uma indigestão aos trinta do que andar a fazer dieta sessenta anos."
"Gozar a vida" é o lema que traduz toda esta amálgama de complexos, frustrações, auto-compensações em que a mentalidade fadista do português se encontra condicionada.
Condicionamento que, como a teoria pavloviana. do reflexo condicionado ensina, abre campo a novas lavagens do cérebro - como diariamente se pode comprovar pelos críticos de TV e vice-versa.
O CANIBALISMO INFORMATIVO/INFORMÁTICO
Este tipo de engrenagem surge com um fácies canibalesco ou antropofágico : devora-se a si mesma e os indivíduos fazem exactamente (e com mais fúria) aquilo que os destroi, adoece, envilece e mata. Uma sociedade auto-destrutiva é o reflexo de uma engrenagem auto-contraditória.
A terapêutica nazi caracterizava-se exactamente pela virtude "depuradora" do sistema , que conseguiu milhões de adeptos dizendo que torturava os corpos para salvação das almas.
Daí que, num contexto canibalesco, o comportamento lógico e racional surja como aberração e logo o seu agente seja motivo de perseguição.
De todas as virtudes que a propaganda informática se auto-glorifica, nunca ninguém disse a maior virtude de todas : vai provocar o desemprego maciço.
Não só os futuros desempregados já veneram o grande progresso informático mas continuarão a adorá-lo quando já morderem lama e pó, quando estiveram lançados no desemprego. A técnica que hoje adoramos, será a que nos há-de triturar e torturar. Para salvação da nossa alma.
MICHEL BOSQUET: «ATENÇÃO AOS ECO-FASCISMOS»
Michel Bosquet, em artigo publicado na "Seara Nova", chamava a atenção para o que ele designa de "Eco-fascismos".
E entre os mais frequentes mas menos notados da opinião pública, citamos o dos anúncios que se servem da Natureza para impingir a anti-natureza de produtos cada vez mais cancerígenos. Citava os "clubes de férias" que exaltam os bons espaços livres, despoluídos e verdes, quando são as próprias empresas deles accionistas que concorrem em boa parte para poluir e destruir as belezas naturais que restam.
O próprio turismo como poluição urbanística de muitos litorais, entra na categoria de uma eco-propaganda .
Mas nada é de admirar num tempo em que a Paz é constantemente invocada pelos fautores da Guerra e a qualidade de vida serve de slogan a quantos ministérios da indústria concorrem para nos fazer a vida mais chata, mais dura, mais porca e mais desclassificada.
De cada vez que nos prometem saúde as respectivas instituições, a gente já sabe que é para ganharem dinheiro com o incremento da nossa doença que eles próprios ajudaram a provocar e a manter.
De cada vez que nos anunciam segurança, já se sabe que empresas estão interessadas em explorar a nossa insegurança e em manter um permanente estado de choque nas casas, nas ruas, nas consciências.
Não admira , pois, que a Natureza seja hoje parte integrante da propaganda dos que melhor e mais assiduamente a assassinam.
Mais alguns exemplos do quotidiano, a não perder de vistas
SILÊNCIOS
Indefinidamente adiada para as calendas qualquer pequena melhoria da vida e da qualidade de vida dos portugueses, a propaganda "salvadora", quer do Governo (de a a z) quer das oposições, soa cada vez mais a falso.
O trabalho pedagógico de emancipação cívica dos portugueses, que se esperava do 25 de Abril, veio sendo gradualmente destruído pelo crescente sectarismo das forças ditas da direita como as ditas de esquerda. Ditas e duras.
A pretexto das prioridades materiais, consolida-se , com a expedita conivência dos "mass media", o monstruoso aparelho de alienação herdado de um regime totalitário.
Nesse monstruoso aparelho de alienação colaboram hoje todos os propagandistas da banha da cobra - que vão conquistando, passo a passo, o terreno para os seus domínios feudais.
Na zona A do país domina o partido R, na zona H domina o partido P, na zona X o partido Y, etc. etc.
Serviços públicos e empresas estatizadas, fazem larga e intensiva publicidade nos jornais e nos órgãos de Comunicação Social em geral.
Estranho fenómeno este.
Mas claro que a gente percebe porquê.
O público, abafado nos seus protestos, aguentará mais uma vez como tem aguentado sempre.
A empresa nacionalizada, já intocável, mais intocável se torna com a publicidade que, clara e obviamente, compre o silêncio dos jornais.
É o circulo vicioso da mentira, como alerta o filme de Schlondorf .
BOLAS PRÓ ESCARAVELHO
Cada um diverte-se como entende e este jogo de escaravelho (mexer em excrementos) tem , pelos vistos., muitos apaixonados entre nós. Por outro lado, certas forças políticas e seus órgãos de informação, têm absoluta necessidade de manter vivo o fascismo, pois a sua estratégia reside unica e exclusivamente na luta anti-fulano ou anti-beltrano, sem qualquer alternativa revolucionária autêntica a propor.
Aos cadáveres. E remexer, remexer neles, para manter "viva" a chama. Como dizia Artaud, os mortos são necessários: aos vivos para que vivam...
Quer dizer, sem anti-isto, anti-aquilo, anti-fulano ou anti-beltrano, há partidos que desapareciam literal e absolutamente de cena. Naufragavam. Deixavam de existir politicamente
A ROTINA DA REDACÇÃO
O contacto com os serviços responsáveis não é fácil.
A começar nos telefones sistematicamente interrompidos, raramente respondem quando alguém necessita.
Fiz a experiência enquanto jornalista à procura de notícia.
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(*) Felizmente que ficaram inéditos (a maior parte). É um chorrilho de indisposições com incidência no charco português e algumas das suas figuras emproadas em destaque na época (1981? 1980?).
5/5/2001■