1-2 < 91-06-06-ac> ac-ac terça-feira, 4 de Fevereiro de 2003-novo word - 2665 caracteres <alter-1> <diario> <junho6> <diario91> <diario>

 

CARTA AO AC

DO SEU QUERIDO ALTER EGO

QUE SÓ QUER O SEU (DELE) BEM

O RÓTULO QUE TE PUSERAM É PARA USAR SEMPRE

Lisboa, 6/Junho/1991

Que esperas tu, aos 57 anos, meu sabichão das dúzias, para ser especialista, entendido, europeu em alguma coisa?

Um dia estás nos filmes, outro estás nos livros, outro estás no «fait divers», outro em tudo, outro em nada, outro em coisa nenhuma, outro ainda em conferências de imprensa onde só se fala inglês, outro ainda na poesia (o teu amor mais antigo mas o menos frequentado): só não vejo que te dediques, de alma e coração, a coisa nenhuma que faça curriculum e te dê futuro, que te fixes em nenhum desses amores ou passageiros «flirts».

Reflexo deste tempo de frivolidades? Mas irás tu sobreviver à ditadura da frivolidade? Criaste, porventura, resistências orgânicas à invasão europeia? Poderás mudar aos 57 anos? Têm as tuas artérias elasticidade para mudar o que o mercado único exige de ti e de todos os cinquentenários?

Resultado deste borboleteio à volta de tudo e de coisa nenhuma: hás-de ser sempre um tipo que não aprofunda nada -- como tantas vezes tens sido advertido e admoestado -- , que foi sempre medíocre em tudo, ultrapassado em tudo, pousando ora num ramo ora em outro, sem, que em nenhum ramo, conseguisses nada de evidentemente notório.

*

Se estás longe destas paredes, a que chamam redacção, a que chamam jornal, a que chamam trabalho e que tu vês cada vez mais como prisão, se estás longe -- dizia -- nem anseias suicidar-te: mas se voltas, vem de novo às golfadas, como tuberculose mal curada, essa náusea de existir, esse desinteresse por tudo, esse desapego à vida, esse ódio aos outros, esse fastio, esse cansaço, esse vómito, essa doença, essa iminência de morte e de fim.

És neurótico -- disse o psiquiatra, colocando o rótulo que é de sua obrigação pôr. Mas um rótulo funciona como anúncio fixo de uma situação irremediável, crónica, permanente. Tu, de facto, és neurótico e suicidário aqui, debaixo destas (des)ordens, com estes rostos de volta, humanos demasiado humanos, com este frenesim peripatético da(s) notícia(s), tudo a fingir que é urgente e que vamos, muito depressa, muito nervosos, salvar o mundo.

Cessa a causa -- o ambiente -- e logo o efeito -- a náusea de existir -- cessa também.

Não pensas em matar-te quando lês os teus poetas ou escreves os teus poemas. Mas o rótulo que te puseram -- neurose progressiva agravada -- é para usar a todas as horas e todos os dias, em permanência.

*

O existencialismo, como escola, alguma vez existiu?

Ou o que existiu foram apenas estados de alma, do suportável ao insuportável?