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DA TRAVESSA DO FALA SÓ

PARA ALGUNS DOS MEUS AMIGOS

NESTA PASSAGEM DO DESERTO

22/11/1996 - Quando me atrevi a procurar, no elenco dos amigos, um interlocutor válido, julguei falar a quem porventura estivesse mais próximo. E a resposta de todos eles foi nenhuma resposta. Talvez um sorriso complacente, aquele benevolente sorriso que me diz eu estar à beira da completa sandice e que me dá sempre uma grande vergonha de ser quem sou.

«Travessa do Fala-Só» podia eu chamar a esta série de cartas que, depois da radiestesia, senti necessidade de escrever aos intelectuais do Esoterismo português, da Holística e da Ecologia. Já que a radiestesia das duas mãos ensinada por Guillé tem interface directo com essas 3 áreas tão na moda agora.

Como não consegui encetar diálogo com os da radiestesia propriamente dita - nem com o Manuel Fernandes, nem com a Maria Correia Pinto, nem com o Afonso Lopes Vieira,  tentei dar notícia aos meus amigos espirituais, da descoberta que fiz da radiestesia das duas mãos e de como me parecia uma técnica interessante de chegar rapida e seguramente onde todos eles dizem querer chegar: à verdade.

Na fileira dos investigadores, tentei o José Manuel Anes, mas ele estava, qual Sherlock Holmes, enfronhadíssimo a descobrir quem tinha atentado contra o avião de Sá Carneiro e não tinha tempo para me aturar.

Tentei o Vítor Quelhas, mas o Vítor é o homem que já esteve aqui mas já se foi embora: e nunca tem poiso certo onde se lhe possa pregar uma grande seca.

Também escrevi e mandei notícias do Etienne Guillé ao engenheiro e terapeuta Armindo Caetano mas ele, embora me atenda sempre atenciosamente, diz-me sempre que tem uma vida superocupada e sem tempo para grandes conversas.

O Pedro Teixeira da Mota era, entre os investigadores que conheço, o amigo ideal para um diálogo mas ele acaba sempre de partir para a Índia ou da Índia ainda não chegou.

Quando escrevi a Manuel Mateus, logo que ele publicou um livro sob o pseudónimo de Madalenus, esperei que, na sequência de um livro tão interessante, ele quisesse estabelecer uma plataforma de convívio e diálogo sobre tão interessantes questões. Mas também não. Creio mesmo que ele amuou e se zangou comigo e que a minha carta lhe pareceu muito mal. Meandros do esoterismo e dos esoteristas portugueses!

Não cheguei a tentar Manuel Gandra que me parece num pedestal altíssimo de arrogância e que, na Rua Augusta, quando eu lhe disse que andava entusiasmado com uma técnica de sabedoria de um autor francês, me respondeu com todo o desprezo do mundo: mas é a Nova Acrópole, não?

Tentei o Luís Carlos Matos, a quem escrevi uma demasiado longa missiva sobre a equivalência Graal = Pedra filosofal, mas em vão, ele não me reconhece «pedigree» para abordar estas questões de cavalaria.

Ando agora a ver se chego à conversa com o Francisco Vieira, da Sociedade Teosófica de Portugal, mas ele, logo que lhe falei do meu projecto de refazer a Biblioteca de Alexandria, deu-me logo um empurrão e convidou-me tacitamente a calar-me. No entanto a Biblioteca de Alexandria, a Área Quântica das Energias e a radiestesia como técnica de acesso às 12 ciências sagradas são hoje os meus únicos projectos de vida nesta vida, considerando tudo o resto uma grande e insuportável chatice.

Ainda entre os investigadores que cultivam o estudo esotérico a sério, a medo escrevi uma única carta ao João da Cruz Alves, um curioso amigo que tem a virtude de me deixar sempre envergonhado comigo mesmo e com a minha pequenez. Logo me arrependi, porque olhar pra cima quando se está muito em baixo, faz cãibras no pescoço. Não consegui coragem de escrever mais vezes sobre Etienne ao João da Cruz Alves, pela simples razão de que foi ele que me pôs na mão, pela primeira vez, o livro do Etienne «L'Alchimie de la Vie». E sei que ele se diverte com o pêndulo de vez em quando.

Tentei o Manuel João Calado, arqueólogo ilustre do Alentejo, mas nem me disse água vai.

O mesmo aconteceu ao meu mais que ilustre amigo Boaventura de Sousa Santos, que julguei poder interessar-se pela investigação de Guillé, uma vez que ele explora as fronteiras da filosofia e se autocritica como filósofo.

Também investigadora da sociologia/antropologia, a Teresa Vergani rompeu a determinada altura um diálogo que parecia bem encaminhado: percebi que, sem querer, me tinha armado em professor sem curso e que para um professor com curso esse meu atrevido autodidactismo deve soar a obscenidade. Acho que lhe pareceu muito mal eu andar a dar lições de radiestesia sem ao menos ter tirado o diploma para isso. Acho que lhe pareceu muito bem ter-lhe parecido tão mal.

O professor e investigador Pedro Veiguinha continua a ser a minha esperança de diálogo, porque ele advoga o projecto UNO, mas também não obtive grande «feedback» com uma carta que lhe mandei a dizer que tinha a minha «seita» e que gostaria de dialogar sobre isso. Até agora não houve diálogo.

Dos ilustres naturoterapeutas que conheço e que fazem medicina energética, procurei mais uma vez estabelecer diálogo sobre a radiestesia com o Vítor Cunha, o melhor acupuncturista português. Mais uma vez ele se desculpou com a falta de tempo. Ainda apareceu num seminário de «Radiestesia e ADN», no Hotel da Lapa, mas não falámos mais do Etienne Guillé e sua obra. Tenho, ao menos, que agradecer ao Vítor, pois foi ele que me «empurrou» para a radiestesia, mostrando-me o trabalho do Manuel Fernandes (também acupunctor) e aconselhando-me a que o consultasse. São os dois responsáveis por ter feito esta descoberta do Etienne e seu método fabuloso. Só que, depois, também se fecharam ao diálogo, pois mais altos interesses se interpõem sempre em que tais conjunturas.

Estamos de facto encerrados numa sepultura - como diz Etienne - e dela não saímos nem um momento. Nem os que fazem o diagnóstico de toda a nossa tragédia e de todas as nossas doenças exactamente a partir daí, dessa causa única e real: o autismo de que padecemos, cosmicamente, há 41 mil anos.

Que os estudiosos esoteristas não aceitem este pressuposto básico depois de dizerem que o aceitaram, é que me faz escancarar a boca de espantação.

Dentro dos terapeutas ilustres que conheço, continuo a tentar encetar com o Dr. Carlos Carvalho o diálogo quântico - a partir da radiestesia segundo Etienne Guillé - e as negociações, apesar de demoradas e sucessivamente adiadas, seguem em bom ritmo. Antes do Ano 2.000, creio que vou ensinar radiestesia ao Carlos Carvalho, para que em troca ele me ensine Floralterapia em que é um barra. E Medicina Ortomolecular/Macrobiótica, em que somos os dois uns barras.

Dos ecologistas, o José Carlos Marques e o Carlos Filipe Marreiros da Luz: o José Carlos comprou um livro do Etienne em Bruxelas e escreveu-me a dizer que nada lhe dizia aquela prosa. O Carlos Filipe continua a pensar que eu estou a falar de um objecto voador não identificado sempre que lhe digo que no pêndulo de radiestesia está o centro do infinito e da eternidade.

Ao Fernando Sacramento que muito estimo, quis dizer-lhe que ele tem que tomar os destinos nas próprias mãos para se poder tratar e melhorar dos sérios problemas de saúde que enfrenta: mas o difícil, mesmo, é que ele ouça. Abrir-se à informação que o pêndulo de radiestesia segundo Etienne Guillé faculta, ajudá-lo-ia a melhorar uns 50%, de certeza: só que o Sacra não se ouve a si mesmo.

Com o Sérgio Barata, colega de aventuras na Cooperativa Unimave, houve várias tentativas de diálogo sobre o pêndulo mas, mais uma vez, não consegui provar-lhe porque é que a radiestesia era para mim prioridade absoluta.

Dos colegas jornalistas, atrevi-me a falar do pêndulo à Almerinda, mas respondeu-me que isto de tomar em mão o nosso próprio destino era muita fruta para a camioneta dela.

Vagamente tentei a Marta Leandro, minha colega de «A Capital», por ela ter tido a supina paciência e delicadeza de me dar alguma atenção, de me considerar digno de por ela ser entrevistado para a revista «Forum Ambiente»: mas ela pensou que eu estava só a falar de naturologia e pronto, não incomodei mais.

Tentei a estudante de Sociologia Eugénia Valente, mas também não me ouviu por causa da defesa do consumidor que a Luísa Schmidt faz no «Expresso».

Dos colegas jornalistas, tentei falar ao Miguel Serrano, porque o neto dele lê Tolkien e ele, via neto, estaria minimamente sensível - acreditava eu - à mensagem do Etienne, da Radiestesia e das 12 ciências sagradas. Qual quê, perdoou-me apenas ver-me assim tão transtornado da cabeça.

O António Valdemar achou a ideia gira e prometeu ir interessar-se pela decifração de signos através da radiestesia.

Quando todos esses meus amigos chegarem aos 63 anos e virem o tempo perdido, nesse dia não me venham dizer «que pena, já devia ter pegado no pêndulo, já devia ter acordado mais cedo.»

Eu agradeço à minha colite ter-me empurrado para a radiestesia e para as 1551 páginas das 4 obras do Etienne. E para os seminários da Patrice, o encontro da minha vida que, definitivamente, valeu a pena neste imenso deserto que calcurriei, quase sempre com dores no cólon e no hemorroidal. Agradeço, assim, à minha congénita mediocridade em todos os campos e por, felizmente, nunca neste país me terem deixado estar num lugar: aparecia logo alguém, com diploma da Universidade ou cartão do Partido, a dizer «tira-te daí que o lugar é meu».

De maneira que devo à colite, ao hemorroidal e aos guardas do Gulag ter encontrado o pêndulo de radiestesia, o Etienne e as 12 ciências sagradas que são sua natural sequência.

Grato estou pois à colite e à Patrice que, definitivamente, em 5 minutos, tratou do meu intestino. Graças à Patrice posso hoje dizer que valeu a pena o pequeno calvário de encontrões e desencontros que foi a minha vidinha medíocre de medíocre português.

Não se pode dizer que a minha perseguição epistolar tivesse sido um sucesso. Mas, enfim, como dialogar é preciso, continuarei, na minha travessinha do fala só, mandando cartas que jamais tiveram ou terão «feed back».