<karma- 0> = <karma-10>+<karma-11>+<karma-12> <cartas> - nigredos 1992

ANTES E DEPOIS

DE ETIENNE GUILLÉ

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<karma-10><cartas92><diario92>

O KARMA YOGA

Em trânsito , 18.7.1992 - Vamos lá então falar de Adversidade. Alguma vez a gente havia de falar de coisas sérias e do que verdadeiramente importa. Ao lado deste assunto - o nosso carma - tudo o mais é lixo inconvertível, não degradável. Mesmo a exploração do homem pelo homem - essa afronta -, da mulher pela mulher, a que estamos sujeitos, por exemplo e nem só, no Crematório do Cabo de Aushwitz, passa a segundo plano. Porque pensas tu que eu resisti, durante 34 anos, 10 dos quais no Poço-Cabo?

Porque pensas tu que ainda consigo estar vivo? Afinal, a adversidade parece que me fortalece. A questão está só em... Bom, a questão está só no sistema imunitário, e refiro-me tanto ao da alma como ao do corpo (aliás e embora não pareça, é o mesmo). Bom: aí é que reside a nossa conversa, a ter em ambiente não poluído e com todas as forças do Céu - e algumas da Terra - a nosso favor, a ajudar-nos.

Onde pensas tu que eu vou recarregar as pilhas para poder regressar todos os dias ao campo de morte do Cabo? Para poder ter esta «recaída», como diz pitorescamente o J.S.F? É lá, naquele lugar de deuses, em conversa com os pássaros da madrugada - enviados dos deuses - com a ajuda de pequenos e grandes duendes, com a ajuda do Arroz, do Gengibre, do Tofu, de todos esses entes maravilhosos que não têm conta no Banco. É com a ajuda deles que eu recobro energias não só para enfrentar a «adversidade» permanente do CCM (Cabo-Campo-de-Morte), mas para que todas as energias negativas descarregadas sobre mim, façam «boomerang» e voltem para quem as emitiu. Este é o papel dos chefes, levarem para o outro mundo todos os desmandos que jogaram em cima dos seus subordinados adversários. Eu tenho uma tese para explicar aquilo a que chamas a tua «adversidade». Repara, e só como exemplo: eu estive a fazer um cancro no intestino recto (ou cólon?), entre Janeiro e Abril deste ano - resultado dos meses de Cabo somados aos meses de Travessa do Poço. Acho que me livrei - pelo menos por agora - por uma unha negra. É possível que tenha uma recaída, tenho que estar atento e tomei algumas precauções, como aliás tomo sempre. Por isso me dizem, com ar de mofa, que sou muito cauteloso. Aliás, tudo quanto seja preparar as nossas defesas contra o bando dos que nos atacam todos os dias pelas costas, é alvo de troças: há uma generalizada campanha de anátemas e rótulos, para que as pessoas não tomem conta de si próprias. Assim que o sistema médico desconfia que alguém se está a defender dele - imunosuficiência - lança logo anátemas, troças, mofas, risinhos, rótulos, acusações, etc. Tenho, pois, que estar atento. Mas viver é estar atento. E quando te maço com algumas histórias antigas da Travessa do Poço ou de «O Século», faço-o intencional e deliberadamente, sabendo que te chateiam. Todos os avisos (te) chateiam, isso sei eu, porque o sistema assim o quer e já nos condicionou a todos para assim ser. Um dia vais compreender que - ao evocar nomes e factos - não é só fofocas, e nem sequer só fofocas políticas. O carma que o estalinismo deixou, mesmo e também em Portugal, onde continua de boa saúde, vai levar anos - talvez décadas - a limpar.

Respondeste, por enquanto, e como era de prever, de forma negativa para ti ao teste que te fiz outro dia, ao falar-te dos «cuidados com a alimentação». Simples pretexto para falar do que importa. À primeira, as pessoas reagem como tu: fugindo. As pessoas fogem de si próprias, fogem a tudo o que seja confrontá-las consigo mesmas, responsabilizando-as pelo tesouro mais precioso que possuem: o seu próprio corpo, quer dizer, a sua alma. E o que o sistema envolvente já conseguiu - à parte as fofocas da Cosmética, superficiais e epidérmicas como o próprio nome indica... - foi que as pessoas desprezassem o seu corpo, embora a publicidade pareça fazer crer o contrário.

É preciso ser persistente, quando se ama. E no Cabo, no concentracionário do Cabo, na Câmara de Gás do Cabo, no Aushwitz do Cabo, o mais difícil é amar. Por isso, o L. sucumbiu tão depressa. E por isso muitos outros sucumbem. Quanto mais carregarem o carma, mais dificilmente se poderão livrar dele. Tu estás, neste momento, no momento da escolha. O teu coração inclina-se para Deus, mas o Diabo faz grandes esforços de aliciamento para te arrastar para o lado dele... Aí não quero interferir - porque ninguém pode ou deve interferir no carma de ninguém. Mas posso ajudar-te a discernir. Mas para isso tens que querer. Mas querer a sério. E acreditar nas pessoas que te amam com muita ternura e amizade. Eu, por exemplo, podia ser teu avô. Pelas pessoas que amo é que ainda cá ando, com a ajuda e consentimento do senhor Buda, meu amigo e ajudante. E vivo.

A outro teste que te fiz, a tua reacção também foi (ainda) negativa, quando te falei do guindaste que me tirou do fundo do Buraco. Só respondeste afirmativamente a um terceiro teste: a história que te contei, daquele domingo em Sintra e das pessoas me aparecerem iluminadas. O cheiro químico do Cabo, já dissolveu esse estado de graça. Mas agora sei como voltar a ele, e isso dá-me forças para aguentar (até quando) as sevícias deste lugar sem deus. O cheiro químico do Cabo, não é o pior. O pior é aquilo que o Cheiro veicula e, pior ainda, o que o Cheiro não deixa veicular.

Espiritualmente falando, neste Cabo do desespero não temos defesas do Céu, as forças da terra tripudiam à vontade. Foi o que abreviou o fim do nosso irmão Luís. Que a gente aprenda com a morte dele, e talvez ele se sinta lá mais alegre. Aprender com ele é aprender como transmutar os golpes da adversidade. E quem comanda no Cabo as ordens da Adversidade é quem manda. Manda quem comanda e comanda quem manda. Enche a conta bancária mas esvazia a conta do Céu. Entra em grave défice cármico...

Que Deus perdoe a todos os poderosos da Terra... A cada serviço armadilhado, a cada golpe de autoritarismo, a cada acto de exploração do homem pelo homem, a cada desenfreada medida de exploração desenfreada dos trabalhadores, a única diferença, para mim, antes da baixa e agora, é que agora treinei o xuto, jogo à defesa e devolvo, como bom guarda redes, a bola que me atiram à cara. Esta é a bruxaria que um dia te contarei, quando estiveres preparada para ouvir e não houver aquele risinho trocista que interiormente tu (e todos) costumam colocar quando se fala do que mais importa falar.

Escrever-te, minha linda menina, advém não só da minha monomania epistolar mas de uma necessidade muito concreta: prosseguir o diálogo que, em certos momentos, abruptamente desligas. Eu sei disto há muito tempo e não estranho; com a menina minha filha acontece o mesmo. Estamos na maior enquanto a conversa diz respeito aos outros: mas de repente ela desliga, se sintonizo a conversa para ela, a defesa dela, a saúde dela, a pele dela, a alma dela, etc.

Ela desliga quando eu começo com os meus - para ela - chatérrimos conselhos sobre saúde. E isto - meu Deus - ainda é mistério para mim, sabendo eu que não é mistério nenhum. Que a medicina tenha lavado os cérebros do Mundo, já sei de cor. Mas que tivesse tido artes de ir tão longe na lavagem da própria alma de cada um, ainda me custa e enfiar. Que obrigue os cérebros a fazer curto-circuito, sempre que uma informação, sempre que uma mensagem pode de perto ou de longe sabotar a ditadura médica, acho demais, embora saiba perfeitamente o poder da ditadura médica no corromper das almas e dos corpos. E por isso escrevo, até à última gota de sangue... Aliás, a culpa maior deste meu legado papelífero - papel A4 - ser tão pesado, é essa: tentar eu dizer por carta o que não pude dizer, o que não me deixaram dizer, o que fui proibido de dizer falando.

Teu avôzinho Abel

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<karma-11><diario92>

Arcos, 1.8.1992 - Estar vivo não chega. É preciso estar vivo e dar graças a Deus por isso. Dar graças a deus por todas as desgraças que (nos) me acontecem. A isso se chama, por isso, «estado de graça». O contrário - o «estado de desgraça» - é sinónimo de Pecado. E Pecado Mortal.

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<karma-9><eu-eu> <diario92> <ADN> <manual>

ANTES E DEPOIS DE ETIENNE GUILLÉ

Lisboa, 5.8.1992 - A diferença entre o antes e o depois de Guillé, é que, com ele, a última instância de justiça ficou, para mim, firmemente comprovada. Era a pedra angular que faltava à minha fé, para ser a Fé. Tudo se resolve à volta do carma e tudo o que escrevi foi e continua a ser - cada vez mais - à volta do carma, único problema, única questão, único mistério. Perante o assédio do Horror Moderno - este tempo-e-mundo que não me canso de odiar em todas as suas histerias olímpicas e expos internacionais - os olhos suplicantes do terreno e mortal sofredor voltam-se para o Céu e perguntam: onde está a justiça última e derradeira, porque estou aqui e qual é o meu papel? Quem pode servir de instância arbitral suprema? Porque sofro eu tanto e aquele Nababo é só farturas? Porque há doença, tortura, crianças assassinadas, gangs, gangsters, chefes, patrões, violência, doenças, interminável sofrimento, crianças-esqueletos, horrores de toda a espécie, humilhações sem fim, opressões internacionais, chantagens e chantagistas, asfixias, Celuloses & Celuloses triunfantes, Petrogais & Petrogais fumegantes?

(...) Será que nunca irá ser reposto o processo interminável das intermináveis injustiças e desigualdades? Esta pergunta - que se fez toda a vida e que toda a vida fica no ar - foi para mim respondida com (alguma) firmeza pelo encontro com Guillé. Vejo, sinto, pressinto (pós Guillé) que a Adversidade faz boomerang contra quem a manda para cima de nós. É o que se chama magia, é o que se chama a aceleração do Karma Yoga. Se quiserem saber o leit motiv de todos os meus ecritos, manuscritos, diários, esboços, ficções, heterónimos - o lugar comum, o ponto central, o meu busílis -, pois é esse. Sempre, em tudo, o meu pressentimento central foi o do Karma Yoga. O Pós Guillé explica porque estou menos nervoso, menos ansioso, menos deprimido, menos inquieto, menos angustiado.

Vejo a justiça concretizar-se à minha frente com muito mais rapidez (assim como os meus velhos sintomas físicos também continuam mas muito mais atenuados e com mais breve duração). Mas confesso que o Manuel Fernandes me pregou um susto quando me disse: o editor de «L'Alchimie de la Vie», um jovem, ficou sem pernas, num desastre estúpido, quando publicou o livro...Não me quis assustar mas, claro, assustou. Eu propunha-me começar a traduzir «Les Energies des Pyramides» e o que me irá acontecer por isso? Começo a interpretar, não sei se correctamente, aquela mensagem. Com Guillé, o que acontece é uma incrível aceleração do carma. E o editor de «L'Alchimie de la Vie» tinha, provavelmente, inscrito no seu carma aquele desastre. O que poderia suceder daí a 3, 30 ou 300 anos (em outro renascimento) aconteceu-lhe logo. O tempo acelera vertiginosamente - é o que, neste momento, julgo ser uma consequência de Guillé e o ficar sob a sua órbita, a órbita das suas vibrações de Iluminado. É uma explicação para o que possa haver de mágico nos que se envolvem com o pêndulo de Guillé. O Manuel Fernandes tem dado «dicas» nesse sentido: mesmo que não se possa fazer nada perante um caso desesperado e terminal - o que o pêndulo pode fazer é «ajudar» a preparar o postmortem. De qualquer maneira, esta aceleração do carma assusta... O que de bom e de mau tiver que me acontecer, concentra-se em pouco tempo. É como se o processo de sentença, no tribunal de Deus, se acelerasse. Deus torna-se quase uma presença corpórea. E isso assusta. Não há magia negra em Guillé, claro! mas assusta.