<claudio> - diário do gulag 97 - mein kampf 97
OS AFUNDAMENTOS
DA ARQUEOLOGIA
+ 3 PONTOS
I
8/Junho/1997 - O esquerdismo em Arqueologia tem destas situações patéticas. E se se acrescenta um background de Expo98, em vias de pôr o país do avesso (há quem diga de pantanas) , atinge as culminâncias totalitárias. O que, para cientistas, não é nada mau nem desadequado.
Na respectiva revista, dita modestamente boletim, modestamente intitulado «Informação» (Maio/1996), lá fomos encontrar, com um modesto P.B. a assinar, a notícia do século: o Guru Cláudio Torres, mais conhecido a remover pedregulhos na estação arqueológica de Mértola, dissera em Beja, capital da Reforma Agrária, a palavra definitiva sobre a lenda mítica e o mito lendário da Atlântida.
Todo o mundo da arqueologia - desde a ala pré-histórica à pós moderna - tremeu e estremeceu com as revelações, de teor divino, que o materialista dialéctico e Prémio Pessoa, lançava sobre tema da sua alta especialidade.
Facilmente se passa de uma igreja cristã construída sobre uma mesquita islâmica para a Era da Atlântida. Questão de minutos, para quem navega no oceano infinito da sabedoria. A aurora boreal nunca foi problema para um arqueólogo da craveira deste.
A Expo98 arruinará de vez o País, por isso os políticos lhe chamam «projecto nacional» («projecto nacional de destruição», dizem outros). Mas é graças ao boletim da Expo98 que nós, mortais e contribuintes de que tais farras, pudemos saber a notícia do século: ou seja, que, por revelação divina, o desenterrador Cláudio Torres, com o Prémio Pessoa no currículo, decretara a extinção da Atlântida, à qual, Atlântida, segundo Atienza, a bibliografia mundial dedicou, até hoje, milhares de volumes, sem contar o do Platão. Volumes que o Dr. Cláudio Torres, com certeza, já leu, de fio a pavio, passando, entretanto, pelas escavações islâmico-cristãs da sua predilecção.
Fica bem, aliás, a um arqueólogo ser literal e mentalmente pré-histórico, sem nunca ultrapassar a barreira do som, nestas coisas, mesmo que se profiram, para a imortalidade, algumas barbaridades bem maiores que a Atlântida e que irão concorrer para afundar a arqueologia oficial.
II
À medida que se recua no tempo, vamos encontrando sinais de que a Idade de Ouro, chamada também Paraíso, está mais perto.
Mas em nenhum território como a Mesopotâmia, a cadência da decadência se faz ouvir com tanta nitidez e clareza.
Desde o actual Iraque, modelo de tudo quanto o terror moderno e pós-moderno inventou de mais obsceno, até à obscena Babilónia, festim da carne até extremos de delírio, que fazia corar de vergonha os pobres hebreus idos da modesta Jerusalém, passando depois à Assíria e seus exércitos de violência assassina, vamos, finalmente, em tempos mais remotos, encontrar a Suméria, onde restam sinais e ecos da voz dos deuses.
Os arqueólogos dizem que foi o berço da civilização. Mas a Suméria foi antes a creche, tendo recebido o bebé que nasceu na Lemúria.
III
De permeio, os arqueólogos de barba rija preferem dizer que é preciso desmistificar a Atlântida. Mas porque não desmistificar antes os mistificadores profissionais que chulam a arqueologia oficial?
Os guardas do Gulag andam sempre a policiar alguma coisa e alguém.
E as civilizações desaparecidas é mais matéria para exercerem a sua irresistível vocação de gendarmes. Esquece o Dr. Cláudio, desenterrador de cadáveres, que até os soviéticos, na época áurea das suas missões arqueológicas submarinas, vinham, de batiscafo em punho, submergir no mar dos Açores à procura da Atlântida.
A não ser que os soviéticos, da simpatia arqueológica do Dr. Cláudio Torres, viessem pesquisar nos fundos açorianos, em tempos da ditadura, outros tesouros e a Atlântida, essa mistificação direitista, fosse apenas o cenário de pretexto para expiarem o mar dos Açores. Nunca fiando.
Desde que recebeu das mãos do eng. Balsemão o Prémio Pessoa, o arqueólogo de Mértola ficou avarento de coragem cívico-política, recusando explicar à TVI, como e porque é que a centena e meia de estações arqueológicas do Baixo e Alto Alentejo vão ficar submersas pela albufeira da barragem de Alqueva, ele que, em missão científica, andou pelas margens do Coa, a fazer coro com os meninos de coro que por lá andaram a gritar, com o Dr. Mário Soares, defensor do ambiente e do budismo, os slogans da época.
Tudo depende do local e das circunstâncias político-partidárias. Claro: ele não iria defender a arqueologia alentejana, se para isso tivesse que interferir no projecto de Alqueva, o crime nacional de Alqueva, apoiado pela maioria de esquerda e sancionado pelo cavaquismo.
Podia ao menos ter aproveitado uns trocos do chorudo prémio para comprar os livros de James Churchward sobre o continente perdido de Mu. Seria interessante que o ilustre arqueólogo de Mértola aprendesse como se afundam civilizações. Como se afundam arqueólogos e arqueologias. ₪