1-2 < 92-10-29-mc> memórias do cabo - 3955 caracteres <cabo-2> <diario92>
Cabo, 29/10/1992
TODOS ÀS URNAS –
VOTEMOS NA CHICOTADA PSICOLÓGICA
Eu por mim não tenho nada a opor ao Peneda. E acho bem que se moralize o comportamento pouco trabalhista dos trabalhadores quando adoecem. A cara do Peneda, aliás, é a própria Moralidade em pessoa. Só o Rangel não lhe fica atrás.
O que o trabalhador precisa é de um bom Zorrague, com dois rr, e que nunca as mãos te doam oh, Peneda da Silva, que medidas destas são sempre oportunas. E que nunca os teus consultores da CAP se arrependam de te pressionar.
Medida altamente popular, patriótica e moralizadora, e em defesa dos bons e sãos costumes da Grei, o Novo Zorrague vem apenas reforçar os outros que, na linha do IRS, têm dado uma nova fisionomia ao Portugal do Sucesso europeu.
E ainda agora a procissão vai na Praça. Quando as decisões vierem dos Peneda da Silva de Bruxelas, então é que os trabalhadores vão ver o que é dançar na Corda. Será então na plenitude a boa Ordem Nova que eu, luso da gema, há muito preconizo como solução para os problemas socio-culturais. Arranjar, com a Lei Peneda, quem verifique o verificador, e depois quem verifique o verificador do verificador, e depois quem verifique o verificador do verificador do verificador, e depois quem verifique o verificador do verificador do verificador do verificador, e depois o verificador do verificador do verificador do verificador do verificador, (...) é não só uma boa medida de gestão autárquica como assinala uma economia de meios humanos extraordinária.
Simplifique-se a burocracia, democratize-se o fascismo. Em qualquer caso, beneficie-se o Estado, que mete assim mais uns milhões ao bolso e vende mais uns papéis de impresso necessários à operação. Medida moralizadora, portanto, foi esta do Zorrague pelas costas abaixo do Trabalhador pouco trabalhista e dado ao desfrute. Zorrague tão oportuno, só o da Beleza que mandou os reformados apresentar prova de vida.
Aliás, eu já tinha sugerido ao Prof Cavaco e ao Dr. Soares que metessem os velhos todos num pelotão de fuzilamento, e que depois chamassem os rapazes da tropa para carregarem sobre os infelizes velhinhos da Terceira Idade. O Dr. Cavaco não me ouviu, o Dr. Soares andava por terras marroquinas, mas agora a solução é ainda melhor do que a do pelotão de fuzilamento por mim preconizada: o SVD é melhor que uma câmara de gás em pleno funcionamento, dando aos doentes o direito humano inalienável de meter uma faca no buxo do patrão e sem remorsos.
Pra frente, gente, se precisarem de ajuda para implementar a medida, chamem o Le Pen, que ele vem logo, ele é um especialista. Ou o Estaline, que ainda está de muito boa saúde por tudo quanto é Democracia. Ou o Dr. Cunhal, ou o Pulido Valente, ou o Torres Couto, que deu alma e corpo aos trabalhadores, ou o Cardoso e Silva da CGTP, ou quiçá o Paulo Bastos e o Mário Castrim, sempre justiceiros.
E àquela locutora do jornal da SIC que dizia « Se você está cansado, espere pelas férias». Força, gente, todos unidos jamais sereis vencidos.
Força, rapazes, mandem vir o Gulag da Sibéria. Siberizem de vez esta merda. Mas se acharem frio, mandem vir as câmaras de gás de Aushwitz, ou peçam emprestadas as da Petrogal, em Cabo Ruivo, que sempre ficam mais em conta e são mais quentinhas.
E zorraguem, gentes, forte e feio, dia e noite, a bem e a mal, ao pequeno almoço e à ceia, nas costas do trabalhador preguiçoso, espertalhão, finório.
Salazar caiu da cadeira porque não soube implementar a tempo uma medida tão necessária como esta e um chicote tão certeiro nas costas do trabalhador. Nem tinha lobbies a pressioná-lo para agir e gerir em conformidade. E vão ganhar.
Todos os trabalhadores devem votar saúde, votar peneda, votar Moralidade, votar Democracia. Nada melhor que uma boa chicotada psicológica para acordar da letargia os filhos da mãe dos trabalhadores deste inolvidável País.