1-6 <lefèbvre-md-1-6> quarta-feira, 5 de Novembro de 2003
1-1 - <lefèbvre-1-ls>= leituras selectas = notas de leitura – inédito de 1968 – ou publicado na «vida mundial»?
UM ENSAÍSTA POLÉMICO(*)
1968 - Henri Lefèbvre,
estudioso e exegeta do materialismo dialéctico, expositor- intérprete da teoria, sustentou em França a vanguarda da crítica mais
contundente às implicações político-sociais do estruturalismo que, fundado em
nome da Antropologia, pretendeu emancipá-la da Política e da Sociologia.
Em face de uma praxis humanista, à qual se terá de referir a verdade e o erro, mesmo científicos, mesmo positivos e experimentais, Lefèbvre empenha-se em definir a consciência histórica e em avaliar o seu peso, com ela argumentando contra as tentativas tecnocráticas de reduzir a cultura a um choque mecânico de comportamentos individuais ou colectivos.
O grande lastro da história, que o teórico estruturalista parece querer ignorar, tem neste ensaísta francês um polémico e ardente prosélito; contra a evidência aritmética, o complexo movimento humano de fluxo e refluxo, de lutas e contradições pode aparecer menos susceptível de rigor analítico, menos científico, menos definitivo, mas, inegavelmente, é mais verdadeiro.
Entre rigor e verdade, o abismo já cavado pelo positivismo lógico, e pelos idealismos de cunho racionalista, parece agora mais grave e profundo. Sinal de uma crise também mais grave que arrasta, através da linguagem, o poder de corromper, maciçamente, populações inteiras e conduzi-las assim para a mentira, em nome da verdade...científica.
No livro fascinante e fecundo que agora se apresenta em tradução portuguesa, Henri Lefèbvre, discutível como todo o ensaísta polémico, tenta mostrar até que ponto se podem mistificar a verdade e a ciência, em seu próprio nome, quando se perde de vista a finalidade de que são meros meios, o ideal humano de toda a investigação e de toda a acção.
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(1) A Linguagem e a Sociedade, de Henri Lefèbvre, Ed. Ulisseia, Lisboa, 1968
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MANIFESTO DIFERENCIALISTA:
REALIZAR A UTOPIA
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7-11-1970 , in «O Século Ilustrado»] - Dez anos após a publicação, em
França, de «Le Matin des Magiciens», manifesto de um realismo fantástico que era
apenas um neo-utopismo que nascia contra o realismo de via reduzida, imobilista
e dogmático, incapaz de acompanhar o movimento de aceleração histórica, «Le
Manifeste Differencialiste», (1) recentemente aparecido na Gallimard (col. Idées),
parece retomar caminhos idênticos.
Como diz Claude Jannoud, apreciando esse novo ensaio de Henri Lefèbvre, «o fundamento desta diligência é a investigarão do impossível-possível». Uma vez que o pretendido e pretenso realismo fracassou, em toda a linha, é preciso ir procurar noutra parte, lá onde as coisas ainda não existem, é preciso ir, como diz Lefèbvre, até à diferença, já que o sistema actual visa reduzir a diferença ao indiferente.
Depois de Saussure, a diferença fez carreira nas ciências humanas, o que lhes restitui actualidade em filosofia. Para Lefèbvre, o diferencialismo é precisamente um método capaz de ligar o próximo e o longínquo, caminhar para o famoso impossível-possível, reencontrar uma criatividade esmagada pelo imperativo da produtividade.
Há várias lógicas da sociedade, é preciso revelá-las, elaborar uma estratégia da diferença. Isto pressupõe que as revoluções devem aspirar à diferença e que devem ser diferentes umas das outras. Como Berque em «L'Orient Second», Lefèbvre sustenta o princípio da diversidade, face às forças opressivas da universalidade e da homogeneidade.
Enquanto a reflexão de Berque se apoia essencialmente na experiência do Terceiro Mundo, Lefèbvre centraliza a sua meditação sobre a revolução urbana. Assistimos a um processo de urbanização completo da sociedade, processo cujos sinais catastróficos são inúmeros. A «ilusão urbana» é o domínio do absurdo, da impotência, sob todas as latitudes, sob todos os regimes sociais. Constitui-se um espaço e também um tempo opressivos, a favor dos aglomerados gigantes.
A realidade urbana, diz em substância Henri Lefèbvre, não é já uma superestrutura, ela condiciona o futuro das sociedades, o seu desenvolvimento e mesmo o nascimento da produção. Trata-se, portanto, de um factor determinante que os homens do poder, quer os da política, quer os da ciência, quer os da indústria, ignoram.
Da sociedade urbana, porém, deverá vir o grande movimento de diferenciação, de criatividade, de liberdade que mudará o mundo.
Utopia? A palavra não mete medo ao autor, que vê na utopia o específico da crítica progressiva, a necessária distanciação em face do real. A maior parte da sua argumentação repousa sobre uma aposta: o poder de criatividade dos homens, a sua imaginação. Uma tal argumentação pertence talvez ao imaginário e terá pouco de razoável, de prudente. Mas a utopia, o desrazoável acabaram sempre por ganhar, no decorrer da História. De impossíveis tornados possíveis é que se foi fazendo, afinal, a evolução progressiva da Humanidade.
(1) Também na Gallimard e na colecção Idées apareceu, quase simultaneamente, um outro ensaio de Henri Lefèbvre: «La Revolucion Urbaine».
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado, com este título, na coluna «O Futuro em Questão», semanário «O Século Ilustrado», Lisboa, 7-11-1970 e no jornal «Notícias da Beira», Moçambique, coluna «Notícias do Futuro», em 7-10-70
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O CANSAÇO
TECNOCRÁTICO (*)
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5-3-1971 - Um certo pensamento de esquerda - um "socialismo de rosto humano"
- insurge-se contra a tecnocracia, mas não alinha com os contestatários
radicalistas dessa Tecno-burocracia em globo considerada, desde que,
aparentemente, os postulados da ciência e da técnica, como únicos vectores
culturais possíveis para desembrulhar a História e fazer avançar o
desenvolvimento, sejam também contestados.
Henri Lefèbvre, entre outros, apresenta a saída dialéctica que é sempre uma saída para o que saída talvez não tenha.
Quando António José Saraiva contesta a "civilização burguesa" e parece fazer o elogio de um neo-tribalismo rural, pré-industrial, os seus críticos apenas o entendem como um "reaccionário", porque eles apenas conhecem a alternativa "ou tecnocracia" ou «reacção», esquecendo-se que, como ninguém pode garantir a fisionomia do futuro, o progresso daqui a dez anos pode revestir exactamente esses aspectos que hoje nos parecem reaccionários, porque nós apenas temos padrões do passado para os imaginar.
Quero dizer: o futuro pode inventar formas sociais e culturais pós-industriais que, porque o são, parecem hoje aos curtos de vista pré-industriais.
Recusar a "ordem industrial" ou Tecno-burocracia, porque não há-de ser uma etapa pós-industrial e porque não há-de ser progresso o que profetas como Saraiva, Allan Watts, Cohn Bendit, Marcuse, Allen Ginsberg, preconizam, recusando a Indústria e a era pós-industrial?
Porque havemos de imaginar sempre uma sociedade Unitária, Monolítica sem diálogo - em vez de uma sociedade onde coexistam Indústria e Tribalismo, Cidade e Campo, os funcionários da Tecno-Burocracia e os que apenas querem ser, amar, viver, existir?
Aliás, se a própria sociedade margina, pela exploração do homem pelo homem, os seus párias (em ghettos adrede preparados, em bairros da lata) porque é que hipocritamente não consente aqueles que se auto-segregam e rejeitam o paraíso da abundância que até (como se prova) nem é para todos e só para os funcionários arregimentados e obedientes da Ordem Estabelecida?
O cansaço do labirinto tecnológico e tecnocrático, só terá para os cretinos seus funcionários o sentido de um regresso (à natureza, ao Rousseau, ao subdesenvolvimento, ao tribalismo, etc.)? Porque não há-de ter como tem o sentido de um progresso? Porque se julgam monopolistas únicos do progresso, esses que seguem a vida e via da industrialização a todo o preço?
Neo-utopismo, neo-romantismo, neo-misticismo - eis três casos onde o prefixo neo os identifica com o conceito manifestado por Theodore Roszak, que à Nova Cultura e à Revolução Cultural, prefere a expressão "contra-cultura", ao estudar o fenómeno que normalmente se designa por contestação jovem e que o autor prefere designar por "dissidência" juvenil.
Essa contra-cultura passa pela política mar não se fica por ela, porque visa a crítica de um círculo mais vasto e uma saída ou ruptura mais radical com o mais vasto círculo a traçar na cultura vigente e em causa.
Encontra-se essa contra-cultura com a antropolítica preconizada por Edgar Morin e, por certo, com a revolução não-violenta de Danilo Dolci.
Para um observador superficial, pode parecer que a contracultura ignora e omite problemas que, no entanto, estão no centro das suas preocupações; simplesmente se insere a sua crítica mais vasta a um mais vasto conjunto de problemas que geralmente não são lembrados (e mesmo omitidos, a pretexto de reaccionários ou decadentes) pelas chamadas esquerdas clássicas.
Daí uma nova esquerda profética norte-americana, afim da contra-cultura preconizada por Theodore Roszak mas que dela se distingue também por não abandonar a sociedade onde se insere.
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(*) Este texto de Afonso Cautela deverá ter permanecido inédito, a menos que ainda venha a reconhecer que foi publicado
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FUNÇÃO SOCIAL
DA LIBERDADE ARTÍSTICA(*)
[ 16-
12-1970, in «Notícias da Beira»] - Nos seus vinte cinco anos de
experiência, que se completam em 1971, tem sido a UNESCO um dos organismos mais
empenhadas em traçar a fisionomia dos novos tempos no que respeita às linhas
gerais de uma estratégia planetária para o desenvolvimento cultural: o sentido e
a consciência de unidade que devem existir em todos os homens, povos e culturas,
ao mesmo tempo que o respeito pela diversidade e polivalência de todos eles.
O contributo de cada parcela para o conjunto tem sido, pela multiforme actividade da UNESCO, posto em relevo, tanto como a importância do conjunto para o encontro e reconhecimento de cada parcela. A Leste e a Oeste, a Norte e a Sul do Globo, o regional tanto como o universal têm sido os dois pólos de atracção com que a UNESCO enfileira na chamada revolução cultural.
Foi dela que, na última conferência geral da UNESCO (12 de Outubro e 14 de Novembro), William Eteki-Mhoumoua, que ocupava a presidência, falou:
«Necessitamos - disse - de chegar a uma revolução cultural capaz de criar laços mais harmoniosos, livres e confiantes com a juventude, cuja integração na procura de um futuro melhor deve ser o nosso constante cuidado».
Não dizia o sr. Mboumoua nada que não estivesse desde há 25 anos no programa da organização e que não tivesse sido já anunciado em diversas anteriores circunstâncias.
Na primeira conferência intergovernamental sobre políticas culturais que teve lugar em Veneza, no passado mês de Outubro, 400 delegados de 85 países estudaram o programa a seguir nos próximos anos, assentando em que o desenvolvimento cultural não depende apenas do domínio privado mas diz respeito também às autoridades públicas.
O relatório final sublinhava que, se a liberdade do artista é um direito inalienável e fundamental, ela é igualmente de natureza a contribuir para o bem comum, na medida em que serve de antídoto à burocracia estéril e em que suscita críticas criado-as, iniciativas e inovações.
Mas acentuou-se - não se conseguirá a liberdade efectiva do artista sem que se reunam as condições materiais que lhe são necessárias para trabalhar.
A conferência foi unânime em reconhecer a igualdade e a dignidade de todas as culturas e em que, no mundo contemporâneo, não há lugar para o imperialismo, manifestando entretanto bastantes apreensões quanto às perspectivas de desenvolvimento autónomo dos pequenos países em regiões economicamente débeis e das pequenas etnias, pois a cultura-de-massas comercializada dos países ricos e poderosos ameaça corroer, a curto prazo, as culturas tradicionais. Se nada for feito para inflectir esta tendência, dela resultará um empobrecimento cultural generalizado e uma grande monotonia.
(Foi o que Henri Lefèbvre ainda há pouco tempo denunciou com o seu manifesto diferencialista, já referido nestas crónicas, e o que o Sr. Eteki-Mboumoua quis dizer quando falou da revolução cultural: a luta contra a uniformização, a monotonia e o indiferencialismo, a rasoira burocratizante e a massificação pela propaganda dos audio-visuais, é o que se conhece hoje por «revolução cultural»).
A conferência intergovernamental sobre políticas culturais, testemunhou ainda o facto de que, cada vez mais, o público sente a necessidade de proteger os valores culturais e de insuflar vigor novo nas actividades através das quais se exprimem. Para fazer face às necessidades prementes neste domínio, preconizou-se que os governos tomem a responsabilidade de uma. planificação a longo prazo, mormente no campo da Educação e da Ciência.
De acordo com a opinião expressa pelo director geral da UNESCO, Sr. René Maheu, na abertura dos trabalhos, a conferência reconheceu unanimemente que, se cada um tem o direito de participar na vida cultural da comunidade - como o estipula a Declaração universal dos direitos do homem - as autoridades responsáveis têm o dever de fornecer a cada um os meios de uma tal participação.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado na coluna « Notícias do Futuro», jornal «Notícias da Beira», Moçambique, 16-12-1970
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CIDADE
E VIDA QUOTIDIANA (*)
[ 1970 +- ] - Contestado recentemente em Espanha, onde esteve a dirigir um simpósio organizado pelo Colégio de Arquitectos de Burgos, o sociólogo Henri Lefèbvre mostrou, mais uma vez, que o seu pensamento aberto e claro (logo, polémico), se não subordina a fórmulas, mesmo que os contestatários radicais a isso o forcem.
«Vocês puseram-me um lenço na garganta para que eu vomite receitas. Não o conseguirão» - disse ele aos elementos mais extremistas que, entre os 120 jovens intelectuais reunidos em Burgos, pretendiam salientar-se pela sua impaciência e pelas suas perguntas impertinentes.
O tema do simpósio era aliciante e não admira que tenha reunido em Burgos, uma cidade espanhola não muito grande mas culturalmente activa, tantos intelectuais: a linguagem, a cidade e a vida quotidiana era o tema.
Como se sabe, Henri Lefèbvre, professor na Universidade de Nanterre, não se tem alheado dessas preocupações ao longo da sua carreira de escritor: Crítica da Vida Quotidiana (dois enormes volumes de sistematização), A Vida Quotidiana no Mundo Moderno, A Linguagem e a Sociedade, Contra os Tecnocratas, Introdução à Modernidade, são títulos suficientemente explícitos.
Aliás, a sua maior repercussão como pensador foi conquistada não só pelo carácter polémico das posições assumidas, muito pouco académicas para um professor universitário, mas também pela sua «Sociologia do quotidiano», análise vibrante, original e exaustiva de um campo que até então parecera menosprezável aos olhos dos especialistas.
Contra uma sociologia imobilista e fechada, contra o pensamento cerrado que fazia da escola sociológica alemã um permanente e despótico obstáculo ao progresso, Henri Lefèbvre, mercê do seu talento didáctico, colocou ao alcance do leitor mediano os grandes problemas da sociologia, sem os degradar. E sem nos defraudar.
Foi um dos primeiros sociólogos que não falaram só para peritos. Daí a sua actualidade e a sua permanência. Abre-se às preocupações do homem comum e comunica. Tudo quanto há de mais contrário ao espírito de sistema e à abstracção, foi ele que sustentou a vanguarda da crítica mais contundente ao sistema estruturalista, cujo formalismo indignadamente denunciou.
Mas a sua actividade de escritor não pára: na Colecção de bolso «Idées» o autor de A Linguagem e a Sociedade publicou nada menos do que dois novos títulos: O Manifesto Diferencialista e A Revolução Urbana, ensaios de Prospectiva urbanista que hão-de merecer mais pormenorizada referência numa destas crónicas.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado em «Notícias do Futuro», jornal «Notícias da Beira», Moçambique, com outros título e sem data identificada mas que deverá ser o ano de 1970, a julgar pelas datas dos restantes files <lefèbvre>
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1-2 - <70-10-31-ls><lefèbvre-6> leituras do afonso
ENTRE RIGOR E VERDADE(*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «O Século lustrado», 31-10-1970, na coluna do autor «O Futuro em Questão»
Contestado recentemente em Espanha, onde esteve a dirigir um simpósio organizado pelo Colégio de Arquitectos de Burgos, o sociólogo Henri Lefèbvre mostrou, mais uma vez, que o seu pensamento aberto e claro (logo, polémico) se não subordina a fórmulas, mesmo que os contestatários radicais a isso o forcem.
«Vocês puseram-me um lenço na garganta para que eu vomite receitas. Não o conseguirão» - disse ele aos elementos mais extremistas que, entre os 120 jovens intelectuais reunidos em Burgos, pretendiam salientar-se pela sua impaciência e pelas suas perguntas impertinentes.
O tema do simpósio era aliciante e não admira que tenha reunido em Burgos, uma cidade espanhola não muito grande mas culturalmente activa, tantos intelectuais: a linguagem, a cidade e a vida quotidiana era o tema.
Como se sabe, Henri Lefèbvre, professor na Universidade de Nanterre, não se tem alheado dessas preocupações ao longo da sua carreira de escritor: «Crítica da Vida Quotidiana» (dois enormes volumes de sistematização), «A Vida Quotidiana no Mundo Moderno», «A Linguagem e a Sociedade», «Contra os Tecnocratas», «Introdução a Modernidade» são títulos suficientemente explícitos.
Aliás, a sua maior repercussão como pensador foi conquistada não só pelo carácter polémico das posições assumidas, muito pouco académicas para um professor universitário, mas também pela sua «sociologia do quotidiano», análise vibrante, original e exaustiva de um campo que até então parecera menosprezável aos olhos dos especialistas.
Contra uma sociologia imobilista e fechada, contra o pensamento cerrado que fazia da escola sociológica alemã um permanente e despótico obstáculo ao progresso, Henri Lefèbvre, mercê do seu talento didáctico, colocou ao alcance do leitor mediano os grandes problemas da sociologia, sem os degradar. E sem nos defraudar.
Foi um dos primeiros sociólogos que não falaram só para peritos. Daí a sua actualidade e a sua permanência. Abre-se às preocupações do homem comum e comunica. Tudo quanto há de mais contrário ao espírito de sistema e à abstracção, foi ele que sustentou a vanguarda da crítica mais contundente ao sistema estruturalista, cujo formalismo indignadamente denunciou.
Em face de uma «praxis» humanista, à qual se terá de referir a verdade e o erro, mesmo científicos, mesmo positivos e experimentais, Lefèbvre empenha-se em definir a consciência histórica e em avaliar o seu peso, com ela argumentando contra as tentativas tecnocráticas de reduzir a cultura a um choque mecânico de comportamentos individuais ou colectivos.
O grande lastro da História, que o teórico estruturalista parece querer ignorar, tem neste ensaísta francês um polémico e ardente prosélito; contra a evidencia aritmética, o complexo movimento humano de fluxo e refluxo, de lutas e contradições, pode aparecer menos susceptível de rigor analítico, menos científico, menos definitivo, mas, inegavelmente, é mais verdadeiro.
Entre rigor e verdade, o abismo já cavado pelo positivismo lógico e pelos idealismos de cunho racionalista parece agora mais grave e profundo. Sinal de uma crise também mais grave que arrasta, através da linguagem, o poder de corromper, maciçamente, populações inteiras e conduzi-las assim para a mentira, em nome da verdade... científica.
Num livro fascinante e fecundo, (1) H. Lefèbvre, discutível como todo o ensaísta polémico, tenta mostrar até que ponto se podem mistificar a verdade e a ciência, em seu próprio nome, quando se perde de vista a finalidade de que são meros meios, o ideal humano de toda a investigação e de toda a acção.
Mas a sua actividade de escritor não pára: na colecção de bolso «Idées», o autor de «A Linguagem e a Sociedade» publicou nada menos do que dois novos títulos: «O Manifesto Diferencialista» e «A Revolução Urbana», ensaios de prospectiva urbanista que hão-de merecer mais pormenorizada referência numa destas crónicas.
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(1) «A Linguagem e a Sociedade», de Henri Lefèbvre, Ed. Ulisseia, Lisboa, 1968.
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «O Século lustrado», 31-10-1970, na coluna do autor «O Futuro em Questão» ■