OLÁ, MEU CARO IEVTUCHENKO
INÉDITOS E PUBLICADOS AC
EM 1965, 1967 E 1990
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UM MEDIANEIRO DA COEXISTÊNCIA(*)
[(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «O Século» , página «O Século de Domingo», em 28/4/1967 ]
Parcialmente no semanário «L’Express»
e na íntegra em edição Julliard, com prefácio de K. S. KaroI, Ievtuchenko
publicou em França a sua autobiografia (« Autobiographie» Précoce») , pouco
depois de regressar daquele país que visitou em Fevereiro de 1963.
Um discurso de Khruschtchev, em Maio do mesmo ano, acentuava que Ievtuchenko falara a auditórios de vários milhares de pessoas amigas da União Soviética, o que devia ser creditado a favor do poeta. Em Dezembro do mesmo ano aparece no Brasil a primeira versão portuguesa da autobiografia.
Se em quatro anos os acontecimentos na URSS cambiaram de direcção, nem por isso essas confissões de Ievtuchenko perderam oportunidade e a sua releitura — proporcionada agora pela edição portuguesa (**) — oferece matéria de reflexão vária.
Escrita exactamente aos 30 anos, logo causa surpresa a segurança com que um poeta tão jovem fala da sua carreira literária e da maneira como agiu para se lhe manter fiel. Ainda que a certa altura hesitasse entre a poesia e o futebol, as letras acabaram por vencer e dez anos apenas demorou para ele a celebridade. Não é, portanto, o que na literatura do Ocidente, em termos decadentistas, se poderia considerar um poeta «maldito» — antes pelo contrário.
Poeta «público», na múltipla acepção desta palavra, goza das qualidades mas também dos defeitos que tal cargo implica. Na II parte desta autobiografia, Ievtuchenko esforça-se mesmo por opor ao conceito de poesia maldita e de poeta «fora da lei», o conceito de poesia social e de poeta-funcionário, ilustrado pelo seu próprio exemplo.
A frisar o contraste, cita os poetas que na literatura russa viveram demais a poesia e acabaram por morrer dela: Puchkine e Lermontov, mortos em duelo; Blok, morto num incêndio que dissimulou suicídio; Iesenine, enforcado; Maiakovski, com um tiro nos miolos. Opondo os dois conceitos de poesia (talvez inconciliáveis) e professando em definitivo essa «retórica da fraternidade» que enche tantas páginas do inferno literário, depois de hesitar entre a carreira literária e a carreira futebolística (como nos confessa), acabou por adoptar a literatura que entretanto considera «negócio mais escuro que o futebol.»
Célebre aos 34 anos (vai fazê-los em 18 de Julho próximo) – o nome de Ievtuchenko rompeu uma muralha de silêncio que muitos outros, injustamente, não quiseram ou puderam romper: e se por um lado tem contribuído para disseminar uma falsidade – a falsidade de se proclamar quanto é querida a olhos profanos a poesia - , por outro lado essa popularidade tem-lhe servido, no seu próprio país, para assumir com certa impunidade, atitudes e posições de intransigência crítica , idêntico ao astro de futebol que, por força e pressão da sua esmagadora publicidade, serve de bandeira para uma aparente coexistência pacífica – Ievetuchenko tem vindo a satisfazer, consciente ou inconscientemente – uma habilidosa diplomacia entre blocos e a distrair (com um mito) as atenções de conflitos reais.
Salutar, entretanto, é o carácter polémico que acalenta as suas confissões contra Estaline e contra a «clique» dos escritores que fez da literatura uma burocracia subsidiária do Governo, com a corte de perseguidos, presos e torturados que a História viria a revelar depois de 1956. Uma coisa – argumentar-se-á – dá talvez para a outra.
«Autobiografia Prematura» acompanha de perto o degelo que se verificou na União Soviética após as perseguições movidas por Estaline, antes e depois da segunda guerra mundial. Reflecte, portanto, o movimento liberalizador que se opôs, primeiro às ocultas e depois claramente (oficialmente) , após o XX Congresso do Partido e o relatório secreto de Kruschtchev, a um dos períodos mais duros do socialismo soviético.
Reflecte ao mesmo tempo a visão de um poeta que ama a sua pátria e procura distinguir o povo da classe governante que do povo se divorcia. Ievtuchenko não poupa os cínicos e os dogmáticos, como não poupa os arrivistas e os burocratas que julgam – segundo as suas palavras – servir a causa da Revolução só porque exibem os emblemas exteriores do partido. Já na escola, Ievtuchenko vivia esse espírito de rebelião que lhe valeu, segundo nos conta, uma sólida reputação de desordeiro.
Com a morte de Estalin, em 1953, inicia-se o terceiro e último capítulo que é talvez por isso o mais significativo da obra, já que narra de perto a luta empreendida por Ievtuchenko contra os que negavam o direito de criticar os aspectos deploráveis da Revolução durante a vigência estalinista.
É dentro desta linha «dorsal» que se inserem os vários episódios, eventos e considerandos que constituem motivos de pitoresco agrado no livro do jovem poeta soviético: os episódios da escola e as brincadeira de infância ; os anos dramáticos da guerra; a expedição à estepe casaquistanesa, feita com seu pai, onde trabalhou de picareta e onde (confessa) aprendeu a não ser niquento nem piegas; a fraternidade que pode e deve ligar as pessoas e a mútua ajuda que se devem; o primeiro poema que publica, pelo qual recebe 350 rublos que depois atira ao Rio Moskva; as tentativas falhadas de encetar uma vida boémia; o contacto com escritores ocidentais que modelaram a sua cultura (Hemingway, Whitman, Rimbaud, Baudelaire, Verhaeren, Verlaine, Rilke, T.S. Eliot, Robert Frost, Thomas Mann, Joyce, Knut Hamsun, Freud, Proust, Steinbeck, Faulkner, Saint-Éxupery, Nietzsche...) ; as amizades da adolescência e os que o orientaram na carreira literária ; a procura de uma via poética que, valendo-se das aquisições experimentalistas, não anquilosasse o sentimento e falasse igualmente a todos os que sofrem; as tentativas de fugir de uma literatura programada; os primeiros contactos com a classe dos literatos oficiais; o primeiro livro publicado aos 19 anos («Os Prospectores do Futuro») ; etc.
Esta fastidiosa enumeração só tem por objectivo mostrar até que ponto Ievtuchenko radica a sua obra e a sua concepção da poesia numa tradição ocidental. Os valores culturais permanecem para ele válidos, apesar das estruturas históricas onde se geram e a sua visão do Mundo coincide, no aspecto da moral prática ou de ética aplicada, com a tradição humanista e liberal de uma herança que, segundo alguns, mais do que seguida ou superada, devia ser destruída. A mitologia de Ievtuchenko é simples e filosoficamente bastante elementar, mesmo tradicional. O seu élan é afectivo, ao nível do instinto, e a sua adesão à vida de uma ingénua, portanto optimista, espontaneidade.
A maior «virtude» desta autobiografia será assim , para muitos, o seu maior defeito. Para os que julgam uma literatura realista radicalmente incompatível com qualquer deixa romântica ou neo-romântica, Ievtuchenko – impenitente romântico – constitui certamente uma charada muito difícil de solucionar a contento; tão difícil de solucionar, pelo menos, como o seu vício de viajar, de visitar países onde em regimes políticos diferentes do seu, um acolhimento caloroso fez dele o medianeiro da coexistência e da fraternal compreensão entre os povos.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «O Século» , página «O Século de Domingo», em 28/4/1967
(**)AUTOBIOGRAFIA PREMATURA - Ievtuchenko — Trad. de António Neves Pedro — 190 págs formato bolso — Publicações Dom Quixote — Capa de Lima de Freitas — 1967 – Col. «Pequena Biblioteca» — 40$00
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<ievtuchenko-2-ls>2572 caracteres
LEITURAS DE VERÃO (**)
RETORNO A IEVTUCHENKO
[ 90-08-16-] - Serve esta novela «Ardabiola»(*), que mais não seja, para retomar contacto com Ievgueni (Eugénio) Ievtuchenko, um poeta soviético da era Krutchev que, na segunda metade dos anos sessenta, abalou os meios editoriais e políticos do Ocidente, empunhando a bandeira do anti-estalinismo, nomeadamente com o livro «Autobiografia Prematura», que as Publições Dom Quixote de então editaram em língua portuguesa. Que saudades.
Acontece que esse livro, típico da era Krutchev e suas ambiguidades, não fica esquecido nem ofuscado por esta novela, que de certo modo acusa a transição para a era Korbachev... E de era em era, de degelo em degelo, se consome uma vida que o escritor talvez tivesse desejado diferente. Creio poder surpreender-se, muito em surdina e nas entrelinhas, essa nostalgia, nas páginas de «Ardabiola», a inconsistente história do cientista que quer descobrir uma planta anti-cancerígena, com base na mistura genética de outras plantas que a tradição popular demonstrou possuirem altas virtudes terapêuticas. Já era então possível, na URSS, fazer o elogio da ciência popular, sem se ser acusado de reaccionário ao serviço da burguesia. Progressos.
Hoje com 57 anos - uma boa idade para começar tudo do zero - , Ievtuchenko foi o típico intelectual oferecido em holocausto à nação soviética pelos arautos do 20º Congresso e talvez tivesse esgotado, com «Autobiografia Prematura», o essencial do que tinha para dizer como funcionário do Partido. Menos optimista agora (com «Ardabiola») do que então ( com a «Autobiografia»), relativamente aos frutos da revolução bolchevique (onde isso tudo já vai), Ievtuchenko deixa transparecer, nesta história, em estilo pobre e pouco fulgurante, dúvidas e mágoas que na época de Krutchev já seriam abusivas mas que faziam prever a época Gorb.
Sem o impacto que a outra sua obra teve, mesmo em Portugal, onde a «Autobiografia» ainda motivou uma visita do autor a Lisboa, a novela «Ardabiola», já com muito pouco de confessional, transmite uma sensação de esterilidade e mesmo de senilidade que entristece, atendendo à mensagem vibrante e calorosa que o poeta, então sob o signo de Maiakovsi e Essenine nos deixara.
Se esta novela servisse para reactivar o interesse do público português por Ievtuckenko e estimular a reedição , em língua portuguesa, da «Autobiografia», que a Dom Quixote publicou em 1967, seria com certeza um dos seus mais apetecíveis méritos.
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(*) «Ardabiola», de Ievgueni Ievtuchenko, Ed. Difusão Cultural
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(**) In «A Capital» , «Leituras de Verão», 16 (23?)-8-1990
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CARTA A IEVTUCHENKO
DE UM SEU COMPANHEIRO DE ESCOLA
Lisboa, 6/8/1965
Aqui onde o meridiano é por sinal o de Greenwich
e faz o sinal da cruz (exacto) com o paralelo 38
antípoda (por acaso) de Hiroxima e Nagasaqui
aqui onde a solidão e os ratos
fazem um barulho incómodo no sótão mais alto
do solar velho (a cair de velho e podre)
aqui onde não temos ponta ( de lança, de cigarro, de agulha hipodérmica) por onde se pegue
e os beijos se entremeiam de zorragues
onde a completa alienação vai de par com o ódio
amarelo e também completo
onde o sol nos insulta e a chuva nos molha
as calças precisamente no sítio mais suspeito
lembrei-me de ti, meu caro Evtuchenko, para um cavaco
escrevo-te ainda em pijama, meio ensonado
e não vou falar-te do meu desemprego profissional
nem dos meus 32 anos à cabeceira da morte
Juro-te que sou o mesmo de quando há séculos nos conhecemos
eras tu um aluno ainda bem comportado da escola oficial.
Não mudei. Não mudámos. Por isso te falo
certo de que nos ouviremos.
Tu hoje sabes muita coisa, meu caro Evtuchenko:
não daquelas coisas que se aprendem
mas que se vivem
neo-romântico, fanático da velha ternura das primitivas comunidades
de que os lunáticos e loucos sempre falaram
e pelas quais alguns cristos foram pregados a um madeiro
tu que falaste com encarcerados e suicidas
eternos utopistas da condição humana
tu que tens a raiva ou a lepra
dos mortos incorrigíveis que continuam vivos na morte
tu que vens seguindo a lição dos eternos revoltados
ou revolucionários sem bombas
tu que tratas por tu todos os homens, a Leste e a Oeste,
tu que falas dos condenados à Esperança
e dos condenados à Vida
portas abertas de todas as celas
bíblicos profetas do Fim e da Origem
escalando o Impossível
tu que és talvez o último descendente das estrelas diurnas
o último corruptor de bispos ou incendiários da Renascença
o último dos Incas poderosos
o mais generoso discípulo de Hermes
tu que desafias com o teu verbo em fogo
e a tua força cósmica uma civilização esclerótica
pudica, puritana e maldita
tu companheiro dos por isso malditos
companheiros de cave e de caserna
dos lúcidos encarcerados da vida
andróginos apaixonados destilando a Lua
num travesseiro sujo
camaradas na Ignorância e nossos camaradas na Fome
os da fraternidade fratricida
tu, meu caro Ev, sabes ainda as palavras
com que se pode (ou deve) falar de amor
Sem te importares com tanta coisa importante
e tanta gente inteligente que há
falas de amor sem olhar ao escândalo
sem receio sequer do insecticida que mata
indiscriminadamente
sem temor das chuvas negras e ácidas que vão caindo
no Algarve ou no Sara por esse mundo fora
Porque embora eles digam que o ar é higiénico
meu caro Tuchenko, hão-de jurar primeiro
que se acabaram os cogumelos na horta
Se querem poesia que fiquem com as couves
e as bombas podem levá-las até ao meio-dia
antes das pontes
Se a ciência trabalha como eles dizem para o bem-estar da espécie
diremos que a espécie vai muito bem obrigado
e que ainda respira (ou é apenas estertor?)
diremos que sim senhor o progresso
e viva o homem que se aclimata a tudo às bombas inclusive
conforme a bomba que mata e se for esse o clima
Mas se eles percebem de cogumelos mais do que nós
não é verdade que nos podem bem envenenar o almoço?
E aqui, meu caro Ev, é que está o Busílis
Que eles mandem até compreendo
pois mais ninguém quereria tal fardo de trampa
e porque por isso para isso os fizeram para isso nasceram
Mas se progresso é progresso e nós temos 32 anos
20 depois de Hiroxima
a comer progresso ao pequeno almoço, almoço e jantar
se progresso é progresso
muito obrigado outra vez mas não queremos
vamos antes falar do vento e dos vinte anos
em que o vento tem soprado
por cima das praias japonesas
os efeitos radiosos da última descoberta termonuclear
e depois a paz - claro, a paz - a excelentíssima paz
que foi esta guerra de vinte anos
em que as excelentíssimas pessoas falam
de coisas importantes, progresso & civilização Lda
É isto o que ouvimos e é disto que, dia e noite, falamos
Vamos assentar nisto por uma vez
Nenhuma tenda política nenhum hospício religioso
nenhum bazar económico nenhum asilo ideológico
nenhuma cela mística
nenhuma cabala nenhuma ciência oculta ou revelada
nos obriga a não matar mas a morrer de morte natural
Apenas a verdade apenas nós
(mediuns efémeros que só aqui viemos para crer
na verdade oficial em que nos mandam crer)
nos obriga a não matar mas a morrer
E se o negócio é trocar por lentilhas a Civilização
pela última vez diremos não:
o ascensor que poupa passos e rins
o telefone que evita a lenta comunicação escrita
e faz do homem Objecto
o lindo objecto que sempre foi
a cirurgia às amígdalas e a droga des-sensibilizante
(para nós cuja doença é sentir demais)
as distracções interplanetárias
que evitam ver as planetárias urgências, carências e necessidades
e tantas energias, tantas, meu irmão Tuchenko
tantas barragens e silicóticos das barragens
e pontes - tantas pontes - jardins suspensos desta Babilónia
e o seguro de vida
para vidas tão inseguras como estas nossas
e (senhores!) o imposto pois claro profissional
além do de sangue
a campainha de porta, esse dispositivo mágico
que evita, por simples compressão digital,
o esforço vibratório da Aldraba
e a rádio - remédio para as nossas terríveis insónias -
e a televisão e o olho electrónico
e os antibióticos e tudo, tudo, meu caro Ev,
o que facilitou a vida
fechando as portas possíveis da liberdade
tudo o que manieta, ensurdece, cala, paralisa e atrofia
a nossa fome, a nossa sede, a nossa raiva
tudo isso agradecemos mas de vez e acabou-se
Quer eles, os engenheiros da bomba universal
e da universal gargalhada, gostem ou não
queiram ou não queiram
Eles, os que temem os poetas mais do que uma blenorragia
(não é, amigo Ev?),
eles os que não estão nada satisfeitos contigo
e connosco, eles os do genocídio
que não gostam de quem goste de se matar
por conta própria, por única conta própria
Mas queiram ou não queiram, gostem ou não gostem
a evidência com que falamos disse tudo
II
Meu Caro Evtuchenko
Da tua bola que comparas à poesia
eu também podia falar e no entanto
aqui, neste lugar da terra,
neste lugar de um mundo ainda com fronteiras
e alguns (poucos) enigmas
à tua bola com metáforas
prefiro esta carta sem elas:
a doutrina, meu caro, a doutrina é sempre pura
e eu tenho a tua idade: 31 anos
sem autobiografia precoce porque a felicidade não tem história
e apesar do tédio, do futebol e do resto
sou feliz
A tua bola de futebol tão parecida à poesia
porque tu as comparas
continua a girar-me nos dedos
e obriga-me a pensar:
é preciso não ter país
ou ser de um país mais violento de um país jovem
de um país por nascer
As dúvidas acumulam-se e não sei nada
absolutamente nada das tuas certezas
nem dos teus 31 anos sem nada de comum comigo
Admiro a tua linguagem e admiro-me
que acredites na ternura
«o único capital que vale a pena acumular» - dizes tu
Apesar dos «pequenos cínicos»
dos «pequenos dogmáticos»
dos «pequenos arrivistas»
e oportunistas
apesar deles tu acreditas na ternura
a que vier talvez na voz desconhecida
talvez a que poisar levemente sobre o teu sono
talvez a que dissemos apenas no papel
porque o meu país não é o teu país
embora a poesia seja o nosso comum país
e o teu corpo robusto não é o meu corpo doente
a tua memória tenaz que guarda milhares de versos
e os diz às multidões
não é nem será nunca a minha
embora a tua idade seja a minha idade
Aqui vai, Ev, a longa carta que te escrevi
e não poderás ler
porque amanhã haverá outros homens
iguais aos que há hoje
e o futuro
o futuro continua a ter a forma
de um enorme cogumelo envenenado
pintado a néon e ao qual dão acesso
as avenidas capitalistas de um lado
os kolkoses e as comunas do outro
Nesta carta nos meus versos
falei de mim muitas vezes
mas tu vens dizer que não é vergonha
um poeta ser elegíaco e falar da morte
uma vez ao menos em cada duas vezes
onde afirma a vontade ou alegria de viver
Tu podes dar-nos talvez uma linha de rumo
uma ordem ao nosso caos
um remédio à nossa vida sem sentido nem saída
abrir as portas para a fraternidade possível
nós que só temos a miséria das palavras
Eles hão-de estranhar
que um poeta se autobiografe
pois não calculas como são progressistas
os críticos do meu país
a tal ponto que monopolizaram em proveito único
e próprio o próprio progresso
Os críticos daí e os críticos daqui
os pequeninos «ventres que escrevem»
à espera do poeta e da sua impaciência
(ou da sua doença?)
confundem muito, coitados,
diria mesmo que confundem tudo
e quase todos têm os seus diplomas
a sua bolsa de estudo
a sua medalha de bom comportamento
Nem sei o que fariam de ti se confessasses aqui
entre-dentes e só metade
das fraquezas ou dúvidas ou revoltas
que na tua biografia confessas
Não estou a cantar com isto a identidade de fados
longe de mim a loucura
de supor idênticas simetricamente idênticas
as nossas circunstâncias
pois de comum apenas temos a idade: 31 anos
Tu és mundialmente famoso
e eu faço por existir
por esgaravatar até encontrar saída
Mas a Terra - e só isso há de comum entre nós
de redonda não tem porta de quintal
nem talvez ponta por onde se pegue
Dizes que o Pasternak
à despedida
segundo um costume russo muito antigo
te beijou na boca
Dizes cada uma, meu caro
dizes as coisas com tanta harmonia e despretensão
que eu vou ver se acredito ou ouvi certo
Enfim, costumes velhos - dizes tu
e nem sequer me apetece contar-te
como se beija na boca à portuguesa
Com a virtude suprema da clareza
contas a tua vida e em tudo o que tocas
pões encanto
por isso falaste por todos os que não podem
pôr na voz a virtude suprema e encantadora da clareza
A luta - ao que parece - na pátria comum da poesia
continua igual mas continua
para nós a ser a luta da verdade
« O poeta tem o dever de se apresentar
aos leitores com os seus sentimentos
actos e pensamentos (...)de se entregar
impiedosamente, à sua verdade.»
Se o dizes, não é assim tão grande o abismo
nem tão impossível o diálogo
a poesia ainda é para ti
esta mística ponte da verdade
para lá das fronteiras que dividem os homens
e se viste erguer
num bairro escondido de Moscovo
«a gigantesca estátua à liberdade»
que um louco teu amigo concebeu
saberás que as palavras são as mesmas:
e se tu as disseste a tantos corações
que da tua boca as ouviram
não adianta repeti-las
Mas quanto eu gostaria que me lesses, Ev
ou que dissesses na tua voz ao teu povo os versos que escrevi
doente
e com os olhos talvez pisados
de sono, de medo ou de lágrimas
Lisboa, 6/Agosto/1965
AFONSO CAUTELA■