GEORGE ORWELL:
VISIONÁRIO DO TERROR TECNOCRÁTICO
INÉDITOS E PUBLICADOS DE AC
EM 1984, 1986 E 1991
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1-5 - <orwell-md-1-3> quinta-feira, 6 de Novembro de 2003
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1-3 - <orwell-1-ls> = leituras selectas - temas recorrentes – os dossiês do silêncio
VITÓRIA DO «BIG BROTHER» (*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital» (Crónica do Planeta Terra), 11/10/1986
11/10/1986 - Pode acontecer que um "tema proibido" ( daqueles que tacitamente todos calamos porque seria heresia anti-social sequer citá-los) venha de repente à luz da ribalta e os holofotes se fixem nele como em vedeta de última hora caçada na chegada ao aeroporto.
Curiosa e inopinadamente aconteceu com a "informática" e respectiva ditadura, tema que automaticamente se tornou secreto, a partir do momento em que ficou claro que ao processo de informatização sistemática se devem pelo menos dois (pelo menos) dos mais chorados flagelos do mundo actual: o incremento do desemprego e a devassa da consciência individual e da vida privada .
É certo que o assunto foi badalado, há dois anos, quando se publicitou, a propósito da data, um livro propositadamente esquecido, o romance de George Orwell "1984".
É certo que relatórios de qualquer extinto Instituto Damião de Góis deverão ter, de fugida, citado o perigo para a Democracia do tal sistema computarizado de dados.
Enfim, na ficção e na semi-ficção, ou entre ecologistas fanáticos e radicais como o autor destas crónicas nestas crónicas, os alertas terão sido dados, de forma mais ou menos indirecta, não fosse magoar-se o sistema e o santo nome do "Big Brother
MUDOU A TÁCTICA
Que se faça agora uma reunião oficial de especialistas a dizerem cobras e lagartos da respectiva especialidade ( a lavagem aos cérebros pela informática) e dos perigos para o cidadão comum, é caso para suspeitar de que a táctica de enredo mudou para melhor resultar.
Sim, porque a táctica de tramar o próximo pode mudar e muitas vezes já ficou provado que a melhor forma de silenciar um assunto-tabu é badalá-lo até à exaustão e antes que gente incómoda dele fale em termos obscenos.
Uma ditadura das antigas e clássicas terá dificuldade em perceber isto. Mas uma ditadura informática percebe (até) de dialéctica e sabe que as leis da lógica do absurdo têm razões que a razão desconhece. Não é com vinagre que se apanham moscas: e uma Comissão encarregada de nos proteger de outras comissões encarregadas de nos vigiar, no que respeita à devassa dos dados da nossa vida íntima e privada, é habilidade que se deve registar com elogios.
Em democracia "limpa", só ligeiramente musculada para não destoar, a táctica da bordoada muda de aparência para no fundo continuar igual. E quanto aos "beneficios da Informática" ela mudou por antecipação da jogada.
Talvez porque os computadores (sempre espertíssimos) tenham ensinado aos centros internacionais de decisão uma cruel verdade: convém não confiar exagerada e abusivamente na estupidez humana, quer dizer, na passividade das massas. Mesmo uma ditadura branquinha e de veludo como a informática pode chegar o dia em que o cidadão lhe veja as tripas, lhe tope as garras e lhe descubra as fauces.
REFINAR A FICÇÃO
A táctica, por isso, mudou: vamos pôr os dados na mesa e deixar que os jornais , durante uns diasitos, digam dos perigos, dos exageros, dos abusos...
Depois, arranja-se uma comissão que nos vai "proteger" desses abusos, desses perigos, desses exageros cometidos, como é óbvio, por outras comissões. E, depois, já esses abusos, exageros, perigos, poderão ser perpetrados livremente e sem mácula, sem que ninguém diga "ai", porque (lembrai-vos) , além do Grande Irmão que por nós vela, em tudo e sempre, lá está a Comissão que nos protege e dirá "ui" por nós.
Quem voltar a falar, então, na ditadura informática, é ameaçado por telefonemas e cartas anónimas. O silêncio e o segredo voltaram ao redil. A ditadura informática, depois deste interregno breve, voltará a ser assunto proibido.
Táctica de mestre, a da comissão protectora, e que talvez não tenha sido prevista por Orwell. Pois não: o que só prova como na realidade os factos ultrapassam a ficção, refinando-a.
PROCESSO IRREVERSÍVEL
As ditaduras que a democracia autoriza e fomenta não se impõem, é evidente, pelo fácies sanguinário mas conquistam corpos e mentes numa "boa" e com boas maneiras, com falinhas mansas, com paisagens tranquilas.
A ditadura informática, que já se sabia existir mas era sempre negada oficialmente, surge agora como uma revelação oficial, quando o Ministro da Justiça, Mário Raposo, dá o tom oficial ao encontro de especialistas que em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, lugar pouco dado a heresias, resolveu finalmente alertar oficialmente para os perigos dos computadores. Perigos ou, mais eufemisticamente, exageros.
Claro que os especialistas não se encontraram para assumir posição radical contra a ditadura informática. Ela está aí, escorreita, de pedra e cal, há uma Infor-jovem para lavar os cérebros logo desde pequeninos, todo o mundo elogia os computadores, todos lhe rendemos vassalagem e é evidente que temos e teremos a devassa que merecemos.
Agora que o processo se tornou absolutamente irreversível e em que o sistema informático já nos apanhou a todos na rede e nos vigia dia e noite, sem saída nem alternativa, eis que a bonomia das comissões protectoras aparece a defender os direitos do cidadão, como quem conta o final da anedota, sempre o mais picante.
Sim, porque uma democracia que viole, assim, como a informática está fazendo, os direitos do cidadão, na sua privacidade e na sua identidade, pode vir a ser acusada de conotações totalitárias... E as democracias democráticas têm uma imagem de marca a defender.
O MAU PASSA A SER BOM
A posição moderada do faz-que-faz-mas-não-faz é assim a única possível face à irreversibilidade do processo: vamos aprender a viver e a coabitar com as ditaduras que temos, já dizia o outro. Não adianta, pois, tomar posições radicais, ou eco-radicais, dizer agora que os computadores são a Super-Polícia.
Consumada a instituição, indissociável de todas as outras instituições, há que aguentar, enquanto oficialmente se cria uma comissão oficial encarregada de nos proteger.
A comprovar que ela funciona melhor do que no romance de Orwell e que já conseguiu, a tempo, condicionar as mentes para aceitar o inevitável, é este comentário ouvido a um espectador do filme "1984" : "Felizmente que Orwell se enganou na profecia e que em 1986 as coisas ainda não estão assim tão perfeitas como Orwell as profetizou..."
As coisas estão tão perfeitas e elaboradas relativamente à profecia que, por isso mesmo, o comum dos cidadãos não dá por ela. Ora isto prova que a tese dominante do romance "1984" vingou em toda a linha: a vitória do Big Brother está consumada quando bem for sinónimo de mal, paz sinónimo de guerra, beleza sinónimo de fealdade... E assim por diante.
O cidadão foi informaticamente condicionado a achar bom aquilo que porventura e sem esse condicionamento talvez achasse mau.
Haver quem não se tenha apercebido ainda que em 1984 as teses de Orwell já estavam ultrapassadas por terem atingido o máximo requinte de nem sequer se dar por elas, é a vitória absoluta do Grande Irmão.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital» (Crónica do Planeta Terra), 11/10/1986
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1-3 - <orwell-2-ls> = leituras selectas - temas recorrentes – os dossiês do silêncio – o deus da informática – quanto me custa a classe científica – a ditadura informática – diário de um idiota
VIVA A BIOTRÓNICA
OS IDIOTAS DO ANO 2000(*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital» (Crónica do Planeta Terra), 22/9/1984
22/9/1984 - Acalmem-se, não estou a elogiar ninguém.
Idiotas somos nós, os que temos apenas a arma das ideias para nos defender da nova ordem biotrónica e biocrática que avassala o Globo e promete tomar o Poder universal até ao ano 2000.
Resistir até desistir é o nosso lema de idiotas militantes, votados outrossim e segundo outra hipótese, a destino talvez mais higiénico e radical: o extermínio puro e simples da raça, em câmaras de gás, quando os Robôs do Ano 2000 tomarem definitivamente e totalitariamente o Poder.
Por enquanto, ainda não deixámos de ser, enquanto idiotas pagadores de impostos, a sua (deles) má consciência, espinha de safio atravessada nas goelas. Ainda não proibiram o 1984 de George Orwell e antes e empalmaram.
Tudo indica, como Orwell profetizou, que a Paz é o novo nome da Guerra.
Não sendo com vinagre que se apanham moscas, é óbvio que a nova ordem Burotrónica arranjará maneira limpa, eficaz e sem resíduos nem poluição (!!), de limpar a raça de idiotas que ainda prolifera sob formas mais ou menos disfarçadas, desde o jornalista pelintra aos pobres famigerados do Terceiro Mundo.
BIPOLARIZAR PARA REINAR
Hoje, no entanto, há esperança para o jantar. O banquete de canibais ainda não começou. Para bem das classes trabalhadoras ou laboriosas, a Bipolarização em Portugal acelera, o que só irá acelerar também a luta de classes e respectivo desfecho.
O Mundo, aqui, está cada vez mais dividido em duas metades, como preconizaria La Palice, nosso filósofo nacional: a metade dos irremediavelmente Bons e a dos incuravelmente Maus.
De um lado, os técnicos, do outro, os jornalistas. De um lado os sábios do Computador; do outro, os analfabetos da Era Informática. De um lado, os que condenam , do outro os condenados. De um lado os Médicos, do outro os doentes.
Etc., até ao infinito, nada escapa à Bipolarização, que substitui a Lepra e a Peste das Idades médias. Dividindo em duas partes a realidade, a luta de classes pode finalmente clarificar-se e a Revolução (informática) declarar-se. Sem necessidade de recorrer à guerra atómica.
Abolindo os termos intermédios, a dialéctica (que foi sempre o mito dos idiotas), as meias tintas, os factores de moderação e diálogo, o pluralismo, a democracia, os blocos centrais que só atrapalham, de novo se ouve, nítido, o crê ou morres de antigamente, o tudo ou nada, o preto ou branco.
Morrer ou ser morrido, caçar ou ser caçado, roubar ou ser roubado, não haverá mais hipótese de terceira via, nem de superação hegeliana pela síntese dos dois contrários antitéticos.
Bipolarização é antecâmara para sua excelência a ditadura. Quanto mais enfraquecer, até desaparecer, o grau intermédio ou amortecedor, mais violentos serão os choques, recontros e confrontos entre o Bem e o Mal.
No caso vertente dos idiotas que nós somos teimando em Resistir, o Bem é incarnado pela ditadura dos computadores e o Mal pelos que, apelando ao resto de rosto humano que ainda nos resta, querem resistir à Robotização, negando-se ajoelhar frente ao Deus Informática.
NÓS, ANALFABETOS DO ANO 2000
É neste contexto bipolar que regressa a velha querela contra o analfabetismo, que tantos complexos conseguiu criar a pessoas e povos por não terem ainda conseguido ascender à classe alfabeta, nem alinhar pelo sistema de organização comercial imposto à maioria pela minoria negociante.
Inopinadamente e apanhando muitos de nós descalços, aparecem os "novos analfabetos da Era informática", na frase expressiva do Dr. Morbey Rodrigues, vice-presidente da Associação Industrial Portuguesa, elemento da Comissão Organizadora do Seminário sobre Tecnologias de Informática e Desenvolvimento Económico.
A alfabetização clássica ( referimo-nos à Cartilha Maternal do João de Deus) foi uma necessidade imposta por esse desenvolvimento económico que, só vendo números, atirou para a berma da vida e da sociedade, com o anátema de analfabetos, todos quantos, tendo embora a sua cultura própria, não tinham a instrução da engrenagem negocista nem se encontravam aptos, com ABC, aritmética e História Pátria, a participar da nova Idade Económica exigida por governos e patrões urbi et orbi.
"Analfabeto", a partir de agora, e referindo ainda a expressiva metáfora de Morbey Rodrigues, "é o que não for capaz de dialogar com o micro-computador."
Exacto. E quem não for, levante um braço. Mas o anátema não acaba aqui. Além de analfabetos somos estúpidos, visto que ainda não soubemos alfabetizar-nos , nem pôr-nos em dia, com todos os "mass media" a metralha -nos, de manhã à ceia, as vinte e quatro horas do dia.
Mas, além de analfabetos e estúpidos - arre - somos ainda retrógrados, os poucos que, por inércia, recusam a robotização em que navegam já, satisfeitos e altivos, os luminares dos mais importantes organismos que nos governam.
O futuro luminoso - o "homem do Ano 2000" dizem - que os computadores nos preparam, é apenas e por enquanto empanado pela meia dúzia de idiotas George Orwell, bichos que ainda não tendo percebido os rumos da História, a Felicidade Totalitária, continuam a constituir, por entre corredores electrónicos e luzidios, as más consciências, as ovelhas ronhosas, os velhos do Restelo!
Enquanto esta geração de idiotas não for exterminada (de preferência sem dor, quer dizer, a computa-dor) são um empecilho na bem programada revolução , projecto verdadeiramente (inter)nacional que nos deve empolgar a todos, quer dizer, todos os que estiverem na onda, integrando-se nas novas exigências da alfabetização informática, computadores em todas as escolas.
ABAIXO MÉTODOS ARTESANAIS
A Informática conseguirá o que métodos artesanais não conseguiram: banir do caminho o factor humano do desenvolvimento económico, esse empecilho à robotização total e totalitária.
Mas a coisa agora vai, até porque aí os dois blocos rivais estão de acordo. Só resulta caricato que ainda se fale no "homem do Ano 2000", quando se deveria com propriedade falar de Robô do Ano 2000, ou do Boneco Biotrónico do futuro!
Pequenas contradições devidas à lógica artesanal aristotélica ainda em vigor, as quais irão também desaparecer, face à Lógica informática que começa e acaba por abolir a lógica artesanal antiga pela qual alguns idiotas ainda se guiam.
Como lembra Orwell, a lógica informática do Futuro dirá que "guerra é paz", "amor e ódio", "despotismo é liberdade", etc.
A enorme percentagem de analfabetos clássicos que todos os anos, por ordem da U.N.E.S.C.O., levam roda de "vergonha" ou "nódoa" nacional, a enorme percentagem destes marginais – o tema «iliteracia» provoca sempre orgasmos em toda a classe dirigente, em toda a elite bem pensante - , pode no entanto vir a ser a grande vantagem para os novos imperadores da Informática, pequenos e grandes empresários.
Escusam de ir aprender pela Cartilha Maternal do João de Deus. Não tendo que passar pela alfabetização ordinária e artesanal, pelo humilhante a-e-i-o-u, poderão finalmente, metidos no computador com uma lima de unhas - sem dor, portanto - passar logo à fase da alfabetização cibernética. C'u escafandro.
Não é, pois, problema como exterminar os novos analfabetos, atendendo a que os outros, os que não conseguiram aprender o a-e-i-o-u, já hoje fora de moda, podem perfeitamente servir para carne de canhão.
Vamos a isto, senhor Ministro da Educação.
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital» (Crónica do Planeta Terra), 22/9/1984
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UMA FASCINANTE
FÁBULA MODERNA (*)
[Leituras de Verão», «A Capital», 25-7-1991] - Espelho fiel da actualidade política, ontem, hoje e amanhã, a obra do escritor inglês George Orwell continua a contar reedições consecutivas, sem que as suas histórias de antecipação percam verosimilhança e força.
A crítica do autoritarismo não perdeu, infelizmente, oportunidade. E o sistema totalitário da tecnocracia nunca foi denunciado com tanta veemência como no seu «1984», romance de antecipação publicado em 1949.
Fábula política do século XX, «O Triunfo dos Porcos»(') não teve tão grande sucesso como o «1984», mas o seu impacto no imaginário contemporâneo não é menor, nem menor a força com que denuncia o despotismo dos regimes totalitários e também dos chamados democráticos sob a capa da tecnocracia.
Nada escapa à análise deste escritor inglês, nascido na Índia em 1905 e falecido em Londres em 1950, misto de profeta e vidente, que veio combater na Guerra Civil de Espanha, pelo lado das forças anarquistas, depois de romper com a extrema esquerda.
Sob a forma de uma história entre os animais de uma quinta («Animal Farm» é o título original), George Orwell relata neste livro, publicado pela primeira vez em 1945, a degeneração do processo revolucionário russo, mostrando por alegoria como o idealismo pode ser traído pelo poder, pela corrupção e pela mentira. São apenas 120 páginas de leitura apaixonante, que certamente despertarão o apetite para outros livros do autor publicados em língua portuguesa: além do célebre «1984», com edições sucessivas, pode ler-se «Homenagem a Catalunha » (Livros do Brasil), «Na Penúria em Paris e em Londres» (Antígona) e «Recordando a Guerra Espanhola» (Antígona).
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(1) George Orwell, «O Triunfo dos Porcos», Ed. Publicações Europa América
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado em «Leituras de Verão», «A Capital», 25-7-1991■