HERBERTO MARCUSE:

TEXTOS AC DE 1973, 1979 E 1988

 

 

 

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<marcuse-1-ls>= leituras selectas - - inédito ac de 1973 (parcialmente publicado?) – os anos cruciais - os dossiês do silêncio – polémicas ac com o meio ambiente – mein kampf – os guardas do gulag – da esquerda à esquerda

 

A CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA

E A ESQUERDA DISTRAÍDA (*)

 

[(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», 1976 ]

12/4/1973 - No debate que, em 13 de Junho de 1972, o semanário Le Nouvel Observateur promoveu sobre Ecologia e Revolução, Herbert Marcuse salientou, muito a propósito, a capacidade que o Sistema tem para recuperar o que o critica. Daí a actualidade que a contestação tomou em todo o mundo, e daí que não haja hoje praticamente parte alguma em que não se fale e pratique o reformismo, que é precisamente a resposta do Sistema às críticas recebidas.

Se a crítica ao Sistema, efectuada por uma certa esquerda, alguma vez foi relevante, em relação às metamorfoses, regra geral subtis, que o Sistema e seus mecanismos de opressão vai tomando, essa crítica encontra-se hoje desactualizada e em adiantado estado de esclerose o comportamento político (que lhe fica) contíguo.

Esquece uma certa esquerda necrófila (entregue às glórias do passado), imobilista (incapaz de acertar o passo prospectivo com os acontecimentos), dogmática ( cristalizada em fórmulas feitas e em lugares comuns), esquece que o Sistema depressa cria imunidade aos ataques vindos do espaço exterior, tal como os insectos saem mais fortes quanto mais fortes são as doses de DDT que lhes aplicam. E os ratos.

Esquece uma certa esquerda, distraída e ultrapassada, que o Sistema para sobreviver lança mão de mecanismos repressivos e opressivos, muito menos claros do que outrora, mais subtis, muito mais enganadores porque se disfarçam sob as formas do proteccionismo, do paternalismo e do reformismo. Mecanismos capazes de enganar, portanto, os próprios esquerdistas, que, mal informados da evolução e das mutações verificadas nos processos contra-ofensivos do Sistema, sem o sentido crítico da História e sem consciência total da Abjecção totalitária (sem consciência ecológica) se deixam enredar neles, deles sendo os primeiros sequazes.

PERDEU VIRULÊNCIA

Se a crítica de certa esquerda teve alguma relevância, há anos, perdeu essa virulência quando perdeu a consciência e a noção do conjunto totalitário em que o Sistema se define e age.

Até, que mais não fosse, por contra-ofensiva à pressão das esquerdas, à existência de um Bloco Socialista, à descolonização do Terceiro Mundo e a todos os fenómenos "esquerdizantes", as direitas tomaram providências e, é evidente, deixaram de querer apanhar moscas com vinagre; começaram a usurpar a terminologia democrática; falam de salários e de justiça social; falam de reivindicações e do direito à greve; a direita chega a fingir que esquece o seu gosto pelo autoritarismo e até fala de diálogo, preconiza formas demoparlamentares, fala de um "partido monárquico" ou de um deputado maurrasiano; enfim, a fome do Mundo liofilizou-se através dos organismos internacionais encarregados disso e, de ajuda com as encíclicas sociais, a direita pode manifestar-se condoída pela sorte dos subdesenvolvidos; inventou-se a democracia cristã, houve mesmo bispos e padres propostos para o Prémio Nobel (que nunca falta nestas manobras recuperadoras do Sistema) que se tornaram famosos pela sua irreverência e, soi disant, inconformismo; celebram-se contratos de trabalho entre classe operária e classe patronal, reconhece-se que a "luta de classes" deve ser adoçada pela convivência das classes; a burguesia, mesmo, gosta de novelistas neo-realistas, lê a obra completa de Jorge Amado e Alves Redol, compra e põe nas estantes, vai ver os filmes inconformistas de Joseph Losey e, de propósito, é capaz de voar a Paris para ver "Decamerone" ou outra estreia aconselhada não pelo Le Figaro mas pelo Le Nouvel Observateur; raro é o dia em que as maiores personalidades mundiais não aludem à reforma educativa, no âmbito da OCDE, da UNESCO, do Conselho da Europa em Estrasburgo, etc; à reforma hospitalar, à reforma assistencial; já se "assiste" o trabalhador, de contrário ele emigra; já não se consente no desemprego, antes pelo contrário, há organismos especializados para garantir o pleno emprego e a procura excede a oferta no mercado do trabalho; a direita vai aprendendo, recuperando, assimilando o que antes fora a crítica feita por certa esquerda ; a tortura bárbara e crua evita-se e só em casos especiais se pratica, mesmo os "progroms" começam a ser mais raros, ninguém quer ver-se comparado a Hitler ou a Estaline, dois nomes que se impopularizaram através das conjunturas; a direita sabe que as formas indirectas, infiltrantes, difusas, são mais eficazes: duram mais tempo, atingem mais fundo, depositam-se no inconsciente colectivo que é a melhor reserva humana de conformismo, não suscitam ódios dos partidos inimigos, nem sequer são notados porque imponderáveis e invisíveis; preconiza-se mesmo, em discursos não menos humanitários e de não menor sentido social, o estímulo ao cooperativismo (agropecuário) e à organização sindical dos trabalhadores.

TRIBUNAIS DO POVO

Mas há uma certa esquerda que ignora toda esta estratégia de recuperação e continua criticando nos termos em que o fazia há muitos anos atrás. E é essa esquerda, (necrófila, saudosista, cristalizada em determinada fase histórica) que entende meter o franco-atirador no gueto, acusando-o de traição e reacção; é essa esquerda paralítica que ameaça de "tribunal sumário" e do povo o homem lúcido e consciente, atento aos factos e às realidades não iludido por mitos e fantasmas, é essa esquerda pequeno-burguesa e revisionista, liberalesca e parlamentar, reformista e pró-sindical, que nada fez para evoluir e actualizar-se (nem sequer ter ideias, que é a única faina patriótica num mundo de tarados e de imbecis), mas que, provocatoriamente, com um desaforo de desvergonha, quer obrigar os outros a ficar tão imóvel e cristalizada como eles.

OLÍMPIO DA DIREITA BAIXA

Eduardo Olímpio surge-me inopinamente dessa outra ala esquerda; ele que escreveu um livro de poemas intitulado O Franco-Atirador , ele que eu supunha perto das minhas preocupações e solidário na mesma segregação sofrida de sacristas e doutores pequeno burgueses, únicos com direito a levantar cabeça, opressores deste lumpen proletariado intelectual a que ele Olímpio e eu Afonso nos orgulhamos de pertencer; ele que eu julgava tão longe da esquerda necrófila, eis que se apresenta, pela direita baixa, acintoso, verrinoso, a querer-me processar (também!) , julgar e condenar. Tudo em processo (muito) sumário.

Só é pena que o Olímpio, ao fim e ao resto, recente foragido para esse campo de mortos, seja tão mau representante dessa outra e certa esquerda necrófila. Mas, ao fim e ao resto, foi ele que se me atirou desta feita às canelas e é a seu pretexto que deverei formular a minha própria defesa.

OS MECANISMOS DE OPRESSÃO

Esquecem os necrófilos passadistas, que os mecanismos de opressão, hoje, passam pelo conforto, como ontem passavam pela fome, pelo desemprego, pelo chicote ou pela violência; ainda se gasta muito disto (à esquerda e à direita) , mas os mecanismos de opressão que conseguem hoje alienar mais profunda e definitivamente os homens, embrutecê-1os e neutralizá-los, não são tão claros, tão evidentes, tão tradicionais.

E é disso, de ignorar as novas e terríveis armas da opressão doce, que se pode acusar, em absoluta consciência, uma certa esquerda distraída. Ela é que será, em tempo próximo, passível de tribunal da história e julgada; não os poucos que se limitam a ser testemunhas de acusação e de defesa do seu tempo, a estar lúcidos no meio do ecocídio generalizado.

Veremos, afinal, quem é que a humanidade vai julgar. Diga-se, aliás, que é esse o único julgamento que espero e desejo. Esse o juízo que estimo e respeito, não as histéricas convulsões da esquerda necrófila dos Eduardos em transe, acusando-me de mirabolâncias que são afinal, apenas, os fantasmas das suas próprias e ensandecidas cabecinhas, contaminadas também pela doença geral, lavadas pelos subtis processos de manipulação intensiva.

Ignora a esquerda distraída que dos próprios instrumentos de prosperidade, do próprio desenvolvimento económico, do próprio crescimento tecnológico e da própria explosão industrial (instrumentos em princípio muito solicitados pela esquerda necrófila) faz a direita (disfarçada de esquerda coexistente e progressista) os seus instrumentos de ataque, a sua arma de guerra.

A grande descoberta das direitas( que a esquerda ainda não conseguiu assimilar, provando a tese de Marcuse que a direita tem uma capacidade de encaixe e recuperação muito maior e mais veloz) foi utilizar o desafio das críticas, dizer que ia fazer e, fazendo ou fingindo, conseguir objectivos precisamente opostos aos , em princípio, preconizados pela esquerda.

É isso que a esquerda míope nunca mais vê, miopia que neste caso se pode ir classificando de crime.

A TOTALIDADE UNIDIMENSIONAL DA ABJECÇÃO

Além da característica enunciada por Marcuse - o chamado poder de encaixe, capacidade de recuperação e rapidez de resposta que tem o Sistema para aquilo que o critica - têm de comum ainda os mecanismos de opressão as circunstâncias seguintes:

1 - atingem, indiscriminadamente todas as classes, todos os seres humanos, todos os que se encontram economicamente mais débeis e numa dependência maior do meio ambiente e que, portanto, são os mais sensíveis: a água dos oceanos envenenada, o ar poluído, a hecatombe automóvel, o biocídio químico dos solos, a violência da alopatia e da cirurgia, todos os sectores do ambiente, em suma, levam de comum terem abolido as classes... Ou melhor, instaurado uma nova luta de classes entre sensíveis e insensíveis. De facto, a matança é indiscriminada, independente de raça, classe, idade, sexo ou crença religiosa; como soe dizer-se;

2 - a não espectacularidade do homicídio ambiente, é outro factor típico, específico desta opressão que certa critica ainda não atingiu: a infiltração lenta e insidiosa ( e nem só da radioactividade, a mais insidiosa de todas), a contaminação subterrânea e clandestina, característica típica e específica do homicídio ambiente, explica que não se torne visível ao observador de rotina que é sempre o observador prejudicado por pré conceitos e pré-juízos de grupo, partido, tertúlia ou escola de pensamento e ideologia; como é insidiosa e lenta, ninguém dá pela invasão, pela infiltração, pela contaminação (palavra que, por isso, se prefere à marota palavra "poluição");

3 - Absoluta generalidade, para lá de blocos, ideologias, regimes;

4 - Economia absoluta deste tipo de opressão: a opressão ambiente, com efeito, não precisa de burocracias, serviços, dactilógrafas, funcionários, policiamento ou cacetete; está estabelecida e age por si, a qualquer hora, sempre, em todas as circunstâncias; a opressão pelo ruído, por exemplo, que é só por si um programa que nem o mais requintado arquitecto de concentracionários poderia inventar, não precisa de nada nem de ninguém para se exercer; melhor, são as próprias vítimas da opressão pelo ruído que o produzem, ficando assim completamente gratuitos estes belos servidos prestados à comunidade...

5 - A opressão ambiente acirra a guerra civil entre os homens porque, sendo a fonte da opressão ambiente, abstracta (embora manifestada a níveis concretos, locais) e o carrasco um alvo invisível, ou tão vasto que se torna inalcançável, que deixa de ser alvo, a revolta dos indivíduos ainda não completamente condicionados dentro da jaula vira-se contra os próprios, que se entredevoram na mesma jaula, num canibalismo ecológico que foi a grande invenção dos concentracionários nazis: como se sabe, bastava deixar que, nos campas de morte, os prisioneiros se esfacelassem uns aos outros, sem suplementares despesas com a exterminação.

6 - A principal característica da opressão ambiente, porém, além das cinco enunciadas, é passar despercebida ao pretensamente mais evoluído, mais crítico e mais lúcido, mas que no entanto continua condicionado, até certo ponto, pela totalidade "unidimensional" da Abjecção.

Resulta daqui que essa totalidade unidimensional pode continuar a usar o crítico, sem qualquer oposição da esquerda necrófila (anterior à consciência ecológica), que dorme a sono solto e repetindo a espaços, com um olho aberto e outro fechado, os slogans da mitologia tecnocrática, já repetidos há vinte anos, no alvor da matança, quando começou o ecocídio acelerado e a opressão/repressão ambiente em escala planetária.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica»,  1976

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A SUPERDIMENSÃO

DO «UNIDIMENSIONAL» MARCUSE

UMA LEITURA PESSOAL E INTRANSMISSÍVEL

DE AFONSO CAUTELA (*)

[In Semanário «Edição Especial», Lisboa, 5-8-1979 ] - A "popularidade" de Marcuse, se lhe adveio em parte da revolta estudantil e da "new left" em geral, bem como do impacto publicitário que esta obteve nos anos sessenta (bem sabia o Poder que se gestava nela o melhor alibi para reforçar a Repressão), vai no entanto radicar numa identidade de fundo com a "revolta total" de muitos outros movimentos cuja filiação se deverá, in extremis, ir procurar a um estado de espírito que permanece através de épocas históricas várias: a heresia que, no fundo, irmana existencialistas, surrealistas, dadaístas, "hippies", "provos", militantes da resistência activa e da não violência, ecologistas, acaba por ser um denominador comum sem que os próprias actores da tragédia se apercebam disso.

A vanguarda da história nem sempre tem consciência global de si própria. Digamos que Marcuse foi uma dessas consciências providenciais que sempre surgem para, de vez em quando, fazer o ponto da situação. Mas não será por isso que todos aqueles revoltados e contestatários vão reclamar-se de Marcuse como pai espiritual. "Les beaux esprits se rencontrent" e coincidências sempre as houve, ou o "inconsciente colectivo" não fosse uma realidade há muita demonstrada.

Mas também é verdade que o filósofo de Berkeley acabaria par não se reconhecer em muitos dos filhos e sobrinhos que lhe arranjaram: os activistas de Baaden-Meinhof, por exemplo, ou os "novos filósofos" alemães, últimos abencerragens evoluídos de um velho anti-comunismo primário.

Chamado a prestar declarações pelo semanário "L'Express", Marcuse (um tanto irritado com os jornalistas e com a celebridade) tentava em Setembro de 1968 insurgir-se contra as amálgamas:

"Oponho-me principalmente à justaposição do meu nome e da minha fotografia com as de Che Guevara, Debray, Dutschke, etc. Porque estes homens arriscaram e arriscam verdadeiramente as suas vidas no combate por uma sociedade mais humana. Enquanto eu apenas participo com ideias e palavras".

Resposta modelar onde se espelha toda a ambiguidade em que Marcuse é mestre. Ao mesmo tempo que elogia os revolucionários, diz que não quer misturas com eles. O seu lugar na Universidade de S. Diego correria perigo?

Numa coisa ele era sincero: mal sabia Marcuse as voltas que a história dá e as surpresas que os movimentos de guerrilha viriam trazer.

O FMI subsidiando o governo dos sandinistas (a notícia é de há uma semana), dois meses depois de financiar a tirania sangrenta de Somoza, podia ser apenas uma das menores surpresas...

Mas sabia Marcuse (e é isso que o torna um filósofo incómodo, um supersínico moderno!) que quando o desespero toma a forma de luta armada, os imperialismos acabam por reconhecer duas coisas, ao deliberarem recuar e suspender a chacina:

a) Sem facilitar demasiado a vida aos guerrilheiros, convém no entanto que, de dois em dois anos, no panorama mundial das ditaduras, vá caindo um Somoza de podre: isto dá um grande alento aos somozas das democracias parlamentares para continuarem apodrecendo países como o nosso;

b) Sobre os destroços de um país esvaído em sangue, poderão as multinacionais do terror tecno-industrial instalar a super-ditadura do desenvolvimento económico (crescimento industrial infinito), tanto mais que há um álibi gritante: trata-se de países tão carecidos, tão pobres, tão subdesenvolvidos, que só a Caritas e a Cruz Vermelha não chegam para as encomendas; e a FAO acorrerá com toneladas de pesticidas (fabricados do petróleo...) e a OMS com carregamentos de medicamentos (químicos também...) onde, eventualmente e sem querer, algumas vacinas poderão disfarçar esterilizantes.

POR ISSO O DIZEM PROFÉTICO

Cruel é que em Marcuse tudo isto está subentendido. Avista-se no fundo do seu pensamento, como num lago de águas calmas. Por isso o dizem profético.

Tal como outros filósofos contemporâneos (Lévy-Strauss e Merleau-Ponty, por exemplo), o autor de "Eros e Civilização" tentou pensar o impensável, quer dizer, teorizar a "lógica do Absurdo" que é, ou tem vindo a ser (acentuando-se), a história deste Tempo-e-Mundo. Já Lenine dizia que só nos restava "obviar ao apodrecimento da história".

Os malefícios que tal ginástica "dialéctica" implica, só têm, entretanto, equivalente nos perigos que o próprio ecossistema Terra corre, manipulado pelos megaengenheiros, à mercê dos imperialismos que puseram este mundo a ferro e fogo, quer dizer: Plutónio, Petróleo e Poluição.

Radicalizar, como fez o filósofo da Universidade da Califórnia, a crítica a esta sociedade ensandecida e levar essa crítica até às (pen)últimas consequências, pode aparentemente prefigurar a Utopia: não alinhar hoje em nenhum dos blocos imperialistas, de facto, releva da "loucura".

(A menos que se tenha petróleo no subsolo, é impossível fazer uma revolução não alinhada. Quem, senão o Irão, iria em pleno século da irreligiosidade e da catástrofe, realizar e impor a revolução islâmica, na linha das grandes tradições e liturgias? )

Daí que Marcuse apareça, com certa razão, rotulado de utopista. Mas perante a Utopia Tecnocrática que conduz em acelerado a humanidade à Neo-Barbárie vigente, eis que se transforma em "realismo do Milagre" a utopia de todas as cidades do sol. Não é um ideal para ficar melhor. É pura e simplesmente um caso de vida ou de morte. Trata-se exclusivamente de salvar a pele. Isto é realista.

A MAIS ANTIGA TRADIÇÃO PRIMORDIAL VIVA

Em certo sentido, o único seguidor lógico das premissas de Marcuse seria David Cooper, quando fez as malas e abalou para o Tibete... O pirronismo marcusiano, ao constatar a sociedade fechada (com arame farpado electrificado de alta tensão...) aponta inevitavelmente e em derradeira instância para uma saída vertical, para uma dimensão que é costume designar de transcendente, para uma dimensão que é costume designar de transcendente, para uma redenção só reencontrável no rigor de uma disciplina ascética de algum mosteiro tântrico e nas implicações subversivas de todos os fundamentos imanentes em que assenta o "logos' ocidental: falo da lei kármica e das implicações revolucionárias que ela tem, a inversão de valores que provoca (o que não deixa de ser outro perigo político a que Marcuse conduz, mais um "malefício da sua dialéctica"...)

À luz da lei kármica, a luta de classes, por exemplo, e de uma maneira geral o Sofrimento, o Mal, a Injustiça, estariam neste palco porque a ordem ou justiça universal é inexorável. E muita gente há ainda para expiar o que fez outrora. Não se sabendo, por exemplo, que destino estará reservado, numa reincarnação, aos actuais fabricantes de cancros e petroquímica, por exemplo.

De qualquer maneira, a rampa de lançamento para práticas iniciáticas de índole esotérica, parece-me das consequências mais interessantes de um pensamento que plana muito mais terra a terra.

"Quando se desespera de tudo, é que surge a Esperança" diz a Bíblia dos cristãos.

Preferiu-se, no entanto, enfatizar Rudy Dutchke e os revolucionários de rua como herdeiros das teses do filósofo da Ambiguidade. De facto entre um terrorista e um monge lamaísta medeia o infinito. Mas denunciadas todas as ordens do poder instituído, surge claro para alguns uma alternativa absoluta: a ordem espiritual dos Antigos da mais antiga tradição primordial viva. David Cooper bebeu deste cálice.

SOCIEDADE DO DESPERDÍCIO E DA PILHAGEM

Outro contributo (in)directo do seu pensamento poderá ter sido a ideia de uma Recusa ou Greve Geral de cidadãos à Sociedade do Desperdício e da Pilhagem, greve que na prática ainda não se viu concretizada, mobilizados que andam os grevistas a consolidar o sistema com suas reivindicações parciais ou corporativistas. Ficou claro, nas ruas de Maio 68, as confederações que se afrontavam.

Supuseram alguns, por exemplo, que quando a central atómica de Three Mile Island esteve por um fio, o pânico seria suficiente para rasgar a teia de conformismo do "homem unidimensional", para desencadear uma onda de recusa tal que subverteria em breve o sistema nuclear e nem só. Afinal, parece que mesmo derretendo o reactor, ainda não será o suficiente para mobilizar a humanidade na sua própria autodefesa, em greve geral contra o crime institucionalizado do nuclear e nem só. Assim por diante.

Os factos parecem assim dar razão ao cinismo de Marcuse, havendo quem bichane esta coisa terrível e potencialmente fascista: "a humanidade afinal tem o que merece..." E «adapta-se a tudo», o tal condicionamento dentro dos arames farpados do concentracionário onde lhe tiram os dentes para fazer botões e a pele para fabricar sabonetes.

Uma coisa é certa: a humanidade tem os engenheiros que merece, tendo vindo, alguns, veiculados pela RTP, dizer que o acidente da Pensilvânia só vinha provar a grande segurança dos técnicos. Se fosse daqui a um ano, Marcuse poderia ter visto, ilustrado e já a cores, sistema Pal, a tese fulcral da sua reflexão sobre o abismo.

A engenheira Isabel Torres, da EDP, agiu na prática como a mais sabedora discípula do mestre. Sem desfaçatez, até. Certíssima da legitimidade que assiste ao esplendor do tecnocinismo, quando toda a humanidade se demite de um direito suposto fundamental: o direito à vida, o direito a defender-se dos carniceiros tecnoburocratas.

Horas antes da engenheira, aliás, John Schlesinger, secretário de Estado da Energia dos EUA, perfilhava a mesmíssima tese da engenheira electro-nuclear.

OS FILHOS DO JOVEM MARX

Viu Marcuse que à entrada para a teoria sobre a Revolução estava o conceito marxista de "alienação", escamoteado entretanto e prudentemente pelos seguidores com o bom e consabido pretexto: era um Marx muito verde, muito juvenil o que teorizou a alienação...

Sem ela, a luta de classes cingir-se-ia então e para já à "exploração do homem pelo homem", ficando a "manipulação do homem pelo homem" (cobaia das experiências deles no mar, na terra, no espaço...) para denúncia posterior, séculos depois.

Marcuse não quis esperar, nem mais um dia. E a sua crítica à "manipulação do homem pelo homem", redundando na denúncia da alienação, atingia em pleno coração o imperialismo dito socialista, situação já expressa no desabafo de Merleau-Ponty: "Não se pode ser comunista, não se pode ser anticomunista".

Mas o impasse veio a ser quebrado com a súbita consciência de uma outra luta de classes sobreposta às duas citadas: a "exploração da Natureza pelo homem" tinha a peculiaridade de dar apenas alguns dias de vida a esta pobre geração que ia agora crescendo e preparando-se para ocupar os gabinetes alcatifados dos chamados grandes centros de decisão. Alguns desta geração já viram duas coisas:

a) Tiravam o diploma de doutores para depois se empregarem como varredores da Câmara (humilhante mas ecológico);

b) Um gabinete, por mais estofado e com rendinhas nas janelas, está igualmente à mercê de uma fuga radioactiva em qualquer das duzentas centrais que eles disseminaram por esta Terra...

Maio de 68, de qualquer maneira, ainda não foi a geração da ultrapassagem. Terão ainda que derreter muitos reactores para que a greve de Paris se estenda ao universo. Alguns aguardam o regresso de Karl Marx para ele teorizar as duas lutas de classe que lhe ficaram na gaveta: "a manipulação do homem pelo homem" e a "exploração/manipulação da Natureza pelo homem".

Entretanto, os Ecologistas procuram um Marx...

ESQUERDISMO, DOENÇA INFANTIL DO COMUNISMO

"Esquerdismo, doença infantil do Comunismo": foi mais ou menos com estes doces epítetos que a ortodoxia marxista recebeu mais este discípulo do jovem Marx em luta com o Marx adulto.

Idêntica sorte iria suceder a Edgar Morin, Henry Lefèbvre, Roger Garaudy, Erich Fromm, Wilhelm Reich...

Mas já Marcuse, deitado no divã de Freud e com mais trunfos do que estes antigos filiados do PCP, conduzia as hostes da "nova esquerda", levando-a no final dos anos sessenta a descobrir potencialidades de que ela própria se espantaria. Nunca a contestação estudantil supôs chegar a Maio de 1968.

Mas só para virmos a ter, pontifical, António José Saraiva a escrever sermões da montanha contra o MFA, valeu a pena o combate nas barricadas de Paris contra os bonzos de Vincennes. "O último sociólogo enforcado nas tripas do último filósofo", oh! manes da contestação, onde isso vai!

Gozam todos, neste momento, de boa saúde, é claro, Saraiva incluído, e mais estruturalistas do que nunca na ressaca das pós-barricadas, dando razão aos eurocomunistas que acusam os marcusianos de pequeno-burgueses, e de terem conduzido alguns jovens a saídas místico-religiosas. Como se isto fosse mais cancerígeno do que defender petroquímicas, nuclear, gigantismos espaciais, etc!

Para um mundo assim "atomizado", eis que religar tudo a tudo (tarefa que era a da religião e que passou a ser a dos filósofos nas sociedades profanizadas), acaba por ser (até por semântica) sinónimo de yoga, religião ou... Ecologia.

"Religar tudo a tudo", velha aspiração desde que se perdeu a unidade primordial, enquanto aspiração nunca atingida, é o cancro inextirpável da sociedade ocidental

As eco-alternativas ou tímidas saídas para o "absurdo", o campo de concentração tecno-industrial (crescimento económico infinito) apresentam-se assim como um retrocesso e os "mass media", babados de gozo, cultivam até ao orgasmo este equívoco que lhes pagam para alimentar.

Tentar o salto qualitativo para fora da paranoia tecno-terrorista, que utopia, que salto mortal!

ESPÉCIE DE PRÉ-FABRICADO DO MUNDO TECNO-INDUSTRIAL

Mas que remédio senão saltar. Descobrir do "homem unidimensional", espécie de pré-fabricado do mundo tecno-industrial, dedicou-se Marcuse a radiografar na aparente liberdade das democracias ocidentais o que há nelas de ditadura e violência, de patologia repressiva.

Teoriza assim o "beco sem saída" que faz o fascínio e o perigo (político) da sua obra.

Entre dois totalitarismos, o "homem sanduíche" acabaria por se comer a si próprio, quando não o tivesse sido por um dos dois vorazes canibais: URSS e EUA.

Daí o aparente parentesco de Marcuse com correntes anarquizantes, última fase de apodrecimento das ideologias liberais quando não conquistam o poder...

A "imaginação no poder" tornou-se o dístico habitual nas paredes de Paris após o Maio de 1968. O professor aconselhava os alunos: "Sejam realistas, exijam o impossível", outra forma de propor outra boca para a sanduíche totalitária.

A crítica ao "pesadelo climatizado" da sociedade americana não o tornaria indesejável ao "american way of life", como aconteceu a Henry Miller.

Em troca dos benefícios prestados pelo esquerdismo que Marcuse incrementa, o professor da Universidade da Califórnia continuou a ser acarinhado pelo Establishment. De tal maneira que haviam de convidá-lo a escrever um relatório para a CIA.

O niilismo de Marcuse, assim comprovado, pode levar a cedências, traições e compadrios pouco recomendáveis.

"Se Deus não existe, tudo me é permitido"- diria um personagem de Dostoievsky.

A chatice é que naturalmente Deus existe mesmo... O que vem estragar os planos destes niilistas todos.

O QUE SERÁ MAIS CÍNICO?

O que será mais cínico: a filosofia de Marcuse ou uma multinacional da química?

O filósofo, no fundo, traduz em ideias uma constante ou situação que a multinacional domina pelo poder efectivo.

O que a multinacional hoje sabe melhor do que Marcuse sabia ontem é que a Utopia Tecnocrática matará a Terra; e que a utopia ecológica depende, rigorosa, obstinada e absolutamente de um milagre.

É nesse sentido, creio, que se fala de utopismo. A dialéctica transforma-se assim num contra-relógio entre os que defendem e os que massacram a Terra.

Árbitro: seria Deus se não o tivessem matado também.

Pelo que o dilema 1980 é claro: Se Deus não existe, o Homem está condenado por arrastamento, com a morte, breve, da Natureza.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, 5 estrelas e com muita honra, foi publicado no semanário «Edição Especial», Lisboa, 5-8-1979 , onde o Fernando Dil fez o favor de lhe acolher as prosas

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MODAS DA ONDA OITENTA

A MORTE DO PAI (*)

 

Nem Marcuse sonhava a (revira) volta que o «marketing» iria dar ao seu «homem unidimensional»

«Entre nunca mais ver o pai e nunca mais ver televisão, a maioria dos jovens escolheu a segunda hipótese.»

(Sondagem realizada nos EUA)

[In «Crónica do Planeta Terra», «A Capital», 12-3-1988] - 1 - A chamada «síndroma dos anos 80», em que a juventude com alto e médio poder de compra é considerada protagonista de um alegado movimento social típico da época, parece-me poder resumir-se num tópico, para lá da aparentemente variada morfologia, que abrange moda, vestuário, telediscos, carreiras de sucesso, meios visuais, dançomania, ginástica aeróbica, alguma droga pelo meio e, enfim, na casta mais culta, Milan Kondera, Shepard, Wim Wenders, etc.

Se alguém, como eu, anacrónico e envelhecido, vendo de fora o fenómeno, verifica que o fenómeno obedece a tudo aquilo que o sistema quer - haver quem consuma o que o sistema produz e faz as empresas prosperar -, atiram-lhe com os anátemas previamente estabelecidos pelo sistema contra quem ousar afrontá-lo.

Não tarda nada que o recalcitrante esteja no grupo dos irrecuperáveis.

A nova onda oitenta - dizem-nos - é de consumir, sem remorsos nem má consciência, ao ritmo repetitivo da bateria, até que o cérebro adormeça (adoeça).

A nova onda oitenta - dizem-nos - veste-se com uma moda que não é moda, mas que logo se torna moda enquanto antimoda.

No fundo, o que a nova onda quer dizer, sem o dizer, é:

Não há valores, borrifem-se na moral, o valor supremo é consumir, acender um cigarro no último cigarro, partir no penúltimo LP o último LP.

2 - Lisonjeada por secretarias de Estado e revistas supostamente colaboradas por intelectuais, quiçá sociólogos, a juventude incha só por inchar, e o simples facto de matar o pai dá ao filho o estatuto de boa pessoa.

Tudo isto, claro, não porque a juventude seja intrinsecamente perversa, mas porque o «marketing» lhe instilou, intoxicando-a, a suficiente perversidade para a tornar uma máquina de consumir até ao extermínio.

Mas nada de sustos, porque a juventude dos anos oitenta, a que se quer típica de uma nova vaga, nem coragem para matar uma pulga tem, quanto mais o pai. Por mais que o «marketing» a incite a isso, gritando-lhe ao subconsciente que a vida não vale nada e os «velhos» só servem para dar as notas com que os jovens comprem as mercadorias que o sistema quer vender.

O fenómeno dos anos 80 é pretensamente complexo, mas é tão simples como uma mercadoria mal empacotada.

O bota-abaixismo - ou panmerdismo como dizia Zé Afonso - sempre foi boa matéria-prima para os empresários investirem. Editores traduzem Kondera, porque não, e os distribuidores esmeram-se nas fitas de áurea derrotista, as que proclamam o valor de não haver valores.

Num mundo sem valores, os valores do imperialismo industrial ocupam todo o espaço «vide» como um dilúvio.

Se é de uma moral da irresponsabilidade que o sistema precisa, tira da arca os esteticismos todos, neutralismos e actos gratuitos, escova-os e coloca-os na onda.

Os esteticismos, e todos os neutralismos do tipo «tecnocrático», fizeram sempre um jeitão aos espertalhões das empresas que exploram o grande negócio de explorar a alma dos jovens.

3 - O pendor dito «esteticista» desta nova vaga dos anos oitenta facilita o comércio de várias coisas, incluindo as almas dos jovens.

O «acto gratuito», que já em André Gide, que o teorizou, não era novidade, aparece requentado porque dá lucros chorudos e bem pouco gratuitos a galerias de arte (?), vendedores e autores de mamarrachos, ao bem organizado «marketing» do moderno, pós-moderno e, se for preciso, se der também lucros, do antimoderno.

Se for preciso e o marketing o decretar, retomam-se as teorias do homem lúdico (Homo ludens, Huizinga), que brinca por brincar, pinta por pintar, escreve por escrever, fornica por fornicar, etc., etc..

E já hoje se diz, com razão, que a obra esteticista de José Régio, por exemplo, é uma bela múmia. Verdade seja que os neo-realistas, da arte comprometida, também.

4 - O tempo, como as modas, passa depressa, os mealheiros dos empresários obrigam a tanto como o «noblesse oblige».

O «feed-back» instala-se neste raciocínio em pescadinha de rabo na boca, quando, em vez de um sociólogo que não toma posição, aparece um crítico, velho e caturra, que decide amar a juventude em vez de a explorar e grita a verdade.

Então aí, a juventude, toma partido pelo carrasco que a condicionou a gostar dele, morde quem se atreva a defendê-la, exibe uma série de esquemas e lugares-comuns, postulados de fé elaborados pela religião do «marketing» e instilados, pela máquina da publicidade, até ao subconsciente da juventude e nem só.

A máquina ensina os jovens, por exemplo, a gritar mecanicamente que «não há valores». Atrás da juventude, as mercearias e outras multinacionais judaico-cristãs pensam que valores há, sim senhor, desde que traduzíveis em dólares, marcos ou libras.

Tinham de ser, pois, os Estados Unidos, pátria da religião do dólar, a mandar vir cartas nesta onda oitenta, reciclagem confessa da religião do «marketing».

Tinha de ser: nos Estados Unidos, a máquina do «marketing» já convenceu as novas gerações a esquecer ou ignorar os vinte milhões de pobres que vagueiam pelo extenso território do império ianque, fora os negros que também são milhões.

5 - Instalado, pois, o «panmerdismo» - assim lhe chamava Zé Afonso - como filosofia oficial de uma sociedade, só falta aos analistas da sociedade, chamados sociólogos, assumirem também esse panmerdismo na sua sociologia dos fenómenos juvenis.

Chama-se então «neutralidade» da ciência sociológica, aquilo que em estética se chamou «esteticismo» ou «arte pela arte» e que em ética ficou conhecido como «acto gratuito».

Tudo gratuito, pois, ciência, arte e moral, para maior lucro e glória das empresas ou das leis humaníssimas do «marketing».

Mas como a ética volta sempre a galope, porque é uma fatalidade humana mas não metafísica, classificará então de amoralismo ou anti-moralismo, classificará de cinismo, toda esta onda oitenta de rendição total aos mandarins do «marketing», que conseguiram dar a volta total prevista por Herbert Marcuse com o nome de «homem unidimensional».

Só que este «homem unidimensional - já não se entende como um valor abjecto mas como a vitória da propria exploração do homem pelo homem, sobretudo o que anteriormente - a ciência, a arte, a ética, a política - abria a boca para lhe denunciar a abjecção.

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(*) Este texto de Afonso Cautela, 5 estrelas, foi publicado na «Crónica do Planeta Terra», «A Capital», 12-3-1988

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1-1 < 69-00-00-ls-ie> leituras – ideia ecológica - quarta-feira, 9 de Abril de 2003-novo word

<marcuse-5>

  • MARCUSE POLÉMICO
  • ERICH FROMM, KARL MILLER, MARCUSE E FRANCISCO ESPADINHA
  • ED. PRESENÇA, LISBOA, 1969
  • [ Este texto terá sido publicado algures, não sei quando nem onde]

    Vem na hora, este livro. Marcuse parece definir-se melhor através dos seus opositores do que por si próprio. Não lhe gabaremos a clareza de exposição e ainda não percebemos como tão intrincado pensamento possa ter «inspirado» movimentos tão evidentes e transparentes de massas.

    Atribuições levianas que uma imprensa pouco sensata repercute, às vezes sem fundamento. Pelo menos é o que afirmam alguns dos jovens «leaders», que dizem não dever nada ao pensador alemão, emigrado de Frankfurt para a «livre» América.

    Erich Fromm, ex-professor também da mesma universidade alemã, reafirma a sua fé na tecnologia humanizada ( aquilo a que chama «revolução da esperança») e ataca Marcuse por querer fechar o círculo vicioso, conduzindo a um beco sem saída, a um novo niilismo.

    Assinale-se o notável prefácio de Francisco Espadinha, que saibamos o primeiro estudo sistemático, de algum fôlego, publicado entre nós sobre o discutido e discutível filósofo.

    Ainda bem que estão a entrar nos hábitos editoriais as obras de controvérsia. Dela – discussão – nasce mais vezes a luz do que do monólogo , de onde só sai dogma. ■