UM PROFETA DO SÉCULO XXI :
INÉDITOS E PUBLICADOS
DE AFONSO CAUTELA
1-9 - <illich-76-0-ie>- depois de uma revisão algo cuidada, será necessário localizar a fonte de onde este texto foi copiado e, portanto, onde veio publicado: seria no caderno sobre Illich, edição «Frente Ecológica»? - a verificar na primeira ocasião
<illich-76> sc terça-feira, 25 de Junho de 2002
I PARTE
CRISTÓVÃO COLOMBO
NO MEIO DE CHACAIS
Escrito em 17/4/1974
Entre a Apologia e a Contestação, a Economia e a Ecologia, entre Herman Khan e Ivan Illich é evidente uma imensa gama de críticos, os que vão do perfeito conformismo à radicalidade absoluta.
Até há pouco, havia ordens que pereciam intocáveis: havia mitos que ninguém discutia e todos idolatravam; os tempos modernos, porém, assistiram a uma generalizada iconoclastia e a crítica tem-se radicalizado à medida que a opressão se intensifica, à medida que a Abjecção e suas estruturas homicidas - e sua tarefa de obscurantismo, confusionismo e morte, - vão sendo reconhecidas pelos próprios escândalos que ocasionam.
Descobriu-se, inclusive, que o crime se pode ocultar (disfarçar) sob rótulos de "reconhecida utilidade pública»; e os famosos serviços a bem da humanidade, o famoso progresso, os milagres do conhecimento e da ciência (toda a retórica positivista e oitocentista) foram a pouco e pouco desmistificados, reduzidos às suas reais proporções de instrumentos ao serviço de ideologias reaccionárias.
Para quem está mergulhado no próprio caldo cultural que pretende analisar é, no entanto, difícil fugir a lugares-comuns, ídolos, rotinas, convenções, evidências, é difícil distanciar-se e avaliar, ajuizar. Habituados durante anos (séculos) a respeitar certas ordens de valores, julga-se ter avançado muito na crítica quando, afinal, um pouco depois e mais longe, se verifica ter ficado apenas num grau de conformismo.
De facto, onde acaba o conformismo e começa a revolta, onde acaba a revolta e começa a verdadeira inaceitação radical do abjecto ?
A crítica radical à ciência e à técnica, por exemplo, é facilmente apelidada de confusionismo retrógrado pelos defensores da ordem material violenta: estipulado, convencionado, mecanicamente aceite por essa ordem que ciência e técnica são progresso (façam o que fizerem e matem o que matarem), quem conteste os mitos da ciência e da técnica logo levará o labéu de confusionista.
Quem contestar a ordem alopática e económica, as academias em vigor, as autoridades desta e daquela matéria, as eminências, os ilustres e jubilados, as sumidades, é, de certeza, facilmente apodado de reaccionário, de obscurantista, de retrógrado, de esotérico e inimigo das luzes.
Aquele que, em nome da imaginação cientifica, criticar a ciência fossilizada e estabelecida; em nome da imaginação económica e sociológica, contestar a ordem economista e sociológica fossilizada; em nome da imaginação personalista, rejeitar mitos, mentiras, erros e crimes da ordem alopática vigente, será perseguido ferozmente.
E como as maiorias seguem, inevitavelmente, o conservadorismo, o reaccionarismo de academias e académicos, eis que o inovador, o crítico, o contestatário, está em péssima posição e em muito maus lençóis.
Na história das ideias repete-se sempre a história de Galileu , Colombo, Freud, Fernando Pessoa, Reich, rodeados de fariseus e oportunistas, de raivosos cães de fila ...
E a tarefa do pensamento livre agiganta-se à medida que a abjecção (a contestar) aumenta de poder e se enraíza. Hoje, perante a hediondez atingida pela sociedade industrial e do Desperdício, pela Sofística moderna, Marcuse deixa de ser avançado radical para rapidamente se transformar num crítico moderado, quase conformista.
Os que conseguem hoje ir mais longe na contestação política da sociedade industrial, são os eco-políticos, mas não é difícil, nos mais avançados, reconhecer ainda (na terminologia que os trai) convencimento de ídolos já podres da sociedade podre que analisam.
Comparados à gigantesca tarefa que hoje se coloca ao filósofo (entenda-se: crítico), ao pensador (entenda-se: contestador radical), os calvários de Freud, Colombo, Galileo, Reich são quase nada ... Eles tiveram de enfrentar uma sereníssima academia de bonzos o raivosos cães de guarda da ordem estabelecida; hoje, é toda a matilha de guarda ao sistema tecnoburocrático que um simples homem de bem tem que aguentar, se resolve dizer que o rei vai nu.
Porque o saber dá o poder, o crítico tem hoje que enfrentar todo o poder desse saber, porque ao saber e seus ídolos lhe cumpre opor-se, porque a toda a Sofística se opõe. E como vão fundas as raízes desta Sofistica, como mordem os dentes dos (vampiros) sofistas ...
Em todas as épocas o exercício livre da imaginação levou à fogueira, ao pelourinho, ao hospital, à prisão, ao cemitério... à crítica. Em todas as épocas o inovador pagou preço alto pelas ideias novas que trouxe à famigerada "cultura". Mas hoje - mais do que nunca - em que os servidores da Sofística têm por eles toda a força da industriocracia coligada (de que são zelosos e bom pagos funcionários) é verdadeiramente suicida a atitude do que imagina novas hipóteses, do que critica a ordem, do que contesta o sistema.
CIÊNCIAS HUMANAS
E se é no sistema das chamadas "ciências humanas" que se concentra hoje o veneno, aí tem de ser metida a bomba ...
Exemplo nítido da vanguarda crítica avençada, a contestação ecológica pode facilmente ser considerada por oportunistas e fariseus saudosismo reaccionário. Exemplo frisante é o das "novas fontes de energia" não poluentes preconizadas pelos movimentos anarco-tribalistas da tecnologia leve (doce ou ligeira).
Este mesmo neo-tribalismo, teorizado embora por um respeitável pensador do sistema - Edgar Morin -, é alvo facílimo de remoques "progressistas", assim como o foram os naturistas (acusados de quererem regressar à Natureza quando tudo gritava industrialização para a frente é que é o caminho), assim como são e serão ainda por algum tempo todos quantos tenham o bom senso, a coragem e a lucidez de recusar, sem contemplações, toda a porcaria, toda a Abjecção que nos impingem sob o nome e o alibi do "Progresso".
Claro que um lutador da causa ecológica não espera que os atingidos - depredadores, açougueiros, carniceiros - respondam, ou que o façam de flor na mão e sorriso nos lábios. Deve esperar que se mobilizem contra ele todas as forças do imobilismo, do obscurantismo, do conformismo e do impossibilismo, todos os defensores do gigantismo e dos grandes sistemas "providenciais", os funcionários do progresso o da industriocracia, os adoradores do gadget.
Deve esperar tudo isso. Mas deve também procurar alguns aliados nesta incómoda posição de franco-atirador, deve, no meio da refrega, esperar que lhe estendam a solidariedade de uma ideia, do uma mão amiga, a certeza de que não está completamente só no meio de chacais ...
II PARTE
IVAN ILLICH
Escrito em
4/8/1974Este ensaio é dedicado a Urbano Tavares Rodrigues, que pela primeira vez me referiu a existência de um autor chamado Ivan Illich
Estratégia ecológica implica uma concepção unitária do Meio Ambiente, da Doença e, portanto, da acção a empreender para de raiz debelar a doença, modificando o Ambiente.
Esta concepção unitária opõe-se, por sua vez, radicalmente e sem concessões, a um estilo de trabalho que dividiu e subdividiu actividades para melhor as inutilizar umas às outras.
Daquilo a que chamo Sofística Moderna, a manobra do tecnicismo ou especialismo ainda não foi suficientemente denunciada como raiz e motor da degradação ambiental e como travão, depois, à estratégia ecológica.
Sem uma concepção unitária do Ambiente, que de raiz contrarie os alibis do especialismo e do tecnicismo, não existe estratégia - e sim tácticas isoladas que interminamente vão adiando os problemas do Ambiente e a sua solução.
Quando alguns ambientalistas de esquerda dizem que não tem importância definir o campo de factos e fenómenos abrangidos pela palavra Ambiente - quando eles afirmam de que é uma mera questão vocabular ... estão escamoteando este facto básico que é o da concepção unitária do Ambiente que conduzirá a uma estratégia unitária também. Única, então, a que se poderá aplicar a designação de estratégia ecológica.
Ora tal como se encontra dividida e subdividida a administração pública - sectores, departamentos, secretarias, ministérios, secções - a unidade do Ambiente nunca pode ser apreendida e compreendida como realidade única e nunca pode portanto ser posta em prática a estratégia que lhe corresponde. Apenas será possível realizar políticas do Ambiente, sempre parciais, sempre negando o princípio básico da acção ecológica.
O médico diz que do doente só se ocupa do fígado, o lavrador diz que só ao Ministério da Agricultura dá contas, o engenheiro sanitário diz que o momento não é propício para pôr em prática uma política de saneamento básico que abranja todo o País, o por aí adiante: enquanto houver razões deste e daquele especialista, é impossível ter uma concepção unitária dos interesses reais e vitais da população o do indivíduo: Porque a população existe feita de pessoas reais e não só de fígados soltos...
Com este alibi do especialismo está intimamente ligado o alibi do monumentalismo.
Que quero eu dizer com monumentalïsmo ? O que há a fazer, só se pode fazer em grande. Escassez de água ? Ah! Isso reclama tubagens poderosas, trabalhos morosos, mão-de-obra especializada, planos complicadíssimos e - naturalmente - só daqui a 4, 5, 6 ou mais anos teremos as obras em vias de conclusão. Até lá, aguentemos.
Energia ? Também não é nada fácil obviar de um dia para o outro à escassez. Exigem-se equipamentos caros, equipas de técnicos (que não temos ainda em número suficiente, embora se formem muitos e bons nas nossas Universidades), visitas de estudo ao estrangeiro, enfim, uma tecnologia avançadíssima que havemos de importar com uma diplomacia bem orquestrada, e pagar em bons dólares (que evidentemente nos escasseiam e que teremos de ir pedir de empréstimo, ficando empenhados até aos cabelos ...).
Habitação decente e humana ? Também não é nada fácil, desde já, cobrir as necessidades básicas em matéria de habitação. Há que dar tempo ao tempo, os planos de urbanização estão em curso, muitos deles não podem revogar-se, há que legislar de novo, etc., etc. .
A CADA UM SUA ESPECIALIDADE
E A RESPONSABILIDADE PARA NINGUÉM
É assim que, com o alibi do especialismo, o alcoolismo se considerará desligado da surménage e do ruído, o congestionamento de tráfego não se vê em ligação com o consumo de drogas farmacêuticas cada vez mais violentas, a mortalidade por cancro jamais se associa à agricultura química e as doenças cardiovasculares nunca se consideram em função dos óleos e cereais refinados;
é assim que a cárie infantil raramente se liga ao consumo de gelados e o suicídio com os programas de televisão, a inflação, a frustração afectiva, a alienação profissional, os imundos ambientes de trabalho, o habitat infra-humano;
se é verdade que, após um século de evidência ecológica, já se relaciona o tifo com as águas inquinadas e a cólera com as imundícies junto das barracas de habitação, e se é certo que não é possível já a ninguém hoje escamotear a relação que há entre silicose e a sílica das minas - tudo isso no entanto entrou na rotina para aí cristalizar e tornar-se de novo facílimo escamotear a relação entre o cancro do pulmão e os fumos do Barreiro;
tão difícil, que foram planeados inquéritos epidemiológicos no Barreiro para averiguar que suspeitas ligações poderia haver entre ambiente degradado e algumas doenças com maior incidência por ali ...
Teima-se talvez bastante e por exemplo na ligação entre cancro do pulmão e tabaco - mas essa é outra manobra que pretende com um culpado menor descartar culpados maiores, culpados que são efectivamente todos os factores da degradação ambiental, muitos deles indiscriminados mas alguns tão responsáveis como o tabaco ou o alcatrão no desencadear daquela patologia.
(Não é por acaso que a demagogia anda também e sempre tão ligada aos alibis do especialismo e do tecnicismo. E é demagogia o que se faz quando com um culpado menor se está a tentar encobrir um culpado maior).
Outras relações que, por altamente inconvenientes aos lucros do Sistema, há ainda maior relutância em estabelecer e denunciar: o ruído dos cães domésticos com algumas neuroses, o ronco das motoretas com perturbações cardíacas e a predominância de loucos em Portugal devido ao ambiente (efectivamente só de loucos e para loucos ...) de asfixia, de tortura quotidiana e de sistemático aviltamento da pessoa que, parecendo ter-se institucionalizado durante o fascismo, vai ser muito difícil de diagnosticar como doença colectiva, a extirpar rapidamente.
Outro tipo de relacionação fundamental mas que nunca se faz é, por exemplo, o da poluição biológica das praias e a poliomielite ou as hepatites. Não se nega aqui que a poliomielite seja contraída por "vírus" que se encontrem nas águas poluídas, mas se há crianças que o contraem e outras não, a relacionação mais normal, mais real, mais científica, mais causal e menos fraudulenta a fazer é entre resistência orgânica ou imunidade natural e águas poluídas. Culpar só o vírus é uma visão teológica perigosa como todas as visões teológicas e, na perspectiva de uma estratégia ecológica, uma mitologia demagógica, um falseamento deliberado dos dados.
MULTIPLICAR ESPECIALIDADES,
COMPLICAR O SISTEMA PARA O TORNAR INDISPENSÁVEL
Indicam estes exemplos - os que um leigo pode conhecer e portanto bem modestos face aos que os entendidos poderiam compilar com muito mais conhecimento de causa ... - indicam estes exemplos, digo, que a medicina será sintomatológica, reformista e reaccionária porque não lhe convém ser outra coisa e enquanto não se basear numa concepção ou teoria unitária do Ambiente, logo da Doença, logo do ataque à doença.
Uma medicina sintomatológica será presa de forças centrífugas que a dispersam em mil e uma especialidades, em mil e um específicos, não porque seja esse o interesse da saúde humana e nacional mas porque é esse o interesse das indústrias criadas a partir precisamente dessa multiplicação inflacionária de "especialidades" médicas.
Todas as indústrias farmacêuticas - mas nem só estas - pressionarão de fora a medicina para que continue a ser sintomatológica, promovendo por todos os meios o prestígio da hiper-especialização, chegando a acusar de retrógrado ou obscurantista o raro médico que ainda teime em ser de "clínica geral", que teime em ser apenas companheiro do doente, ajudando-o a emancipar-se enquanto doente.
Se hoje a Medicina é um sistema altamente complicado, foi porque se complicou propositadamente a Doença, para tornar o sistema cada vez mais totalitário e autoritário, para tornar o doente cada vez mais dependente dele, para o alienar e colonizar cada vez mais face à prepotência, à omnipotência do sistema.
Ao proclamar estes princípios de estratégia ecológica revolucionária não se pretende acusar nenhum profissional - porque os há que resistem e resistiram à inércia, à engrenagem, ao sistema - mas denunciar o sistema que fomenta um tipo de actuação errada, criminosa, fraudulenta, aleatória, anti-humana.
DESCOLONIZAR O DOENTE
FACE À INSTITUIÇÃO MÉDICA
De tudo isto se induz claramente que a auto-suficiência revolucionária dos grupos ou indivíduos só é possível a partir desta concepção unitária do Meio Ambiente.
Porque a dependência em que indivíduos e grupos estão de sistemas gigantescos, de engrenagens implacáveis, de alienações inelutáveis, é uma consequência da especialização e do tecnicismo.
Se há um técnico para isto e outro para aquilo, se eu não posso dar um passo sem que seja um técnico a dar por mim esse passo, é evidente que fico na dependência total desse técnico, só me fica a chance de recorrer, em cada nova emergência, a um novo técnico.
Desta dependência resulta todo o grau de alienação para com as instituições já descrito por Ivan Illich e resulta que o projecto revolucionário é o que faz caminhar os indivíduos e grupos para a independência, a emancipação, a descolonização cada vez maior do indivíduo e do grupo; reaccionário será o que torna essa independência, essa emancipação, essa descolonização cada vez mais apertada e irreversível.
Pensadores da Democracia como António Sérgio ou Ivan Illich não se cansaram de sublinhar que o projecto revolucionário assenta na emancipação do homem em relação às instituições (sempre) opressoras.
No caso do Doente, é evidente que o caminho do progresso médico está em promover a emancipação do Doente e não em o fazer escravo absoluto da instituição médica. No caso do consumidor (o doente é um caso particular do consumidor, ele consome indústria médica ...), quanto mais eu estiver na dependência da água que a grande
companhia me (não) fornece, quanto mais estiver na dependência do gás que a grande companhia (não) distribui, mais me tramo, mais me lixo. Mais colonizado estou, escravizado que fico às santas instituições que dizem servir-me para melhor se servirem elas e seus dividendos.
Se em vez de armazenar de Inverno a água para consumir de Verão, se em vez de armazenar de Verão a energia (solar) para consumir de Inverno, estiver, de Inverno e de Verão, no Outono e na Primavera, na dependência dos tais monopólios, dos tais serviços públicos, das tais instituições, dos tais sistemas monumentais e gigantescos que nos "servem", - quando lhes apetecer a eles deixar de me servir, estarei na condição de oprimido e reprimido, de colonizado. Na condição de absoluta dependência.
ANDA TUDO LIGADO
Parece ter ficado claro de que maneira a Sofistica Moderna - através dos seus difundidos alibis do especialismo, da divisão do trabalho, da tecnicidade, - explora, humilha, coloniza e oprime os homens.
De que maneira o cientifismo e a tecnocracia (mesmo a que é praticada por ideologias ditas de esquerda) são indispensáveis à Exploração e de que maneira a Sintomatologia anda sempre ligada ao reformismo reaccionário.
Parece ter ficado claro de que maneira a Sofistica Moderna contraria a Revolução e de que maneira a Sofística Moderna inunda a maior parte dos programas políticos que se dizem revolucionários (e talvez o sejam na Política, na Economia, na Indústria, mas não o são no campo da existência, da cultura, da prática humana).
Claro parece ter ficado também porque só uma concepção unitária do Meio Ambiente é revolucionária e conduz a uma estratégia revolucionária em toda a acção que vise o fenómeno humano.
Posto isto, compreende-se que todo o reaccionário, da esquerda ou da direita, sempre que se trate de lutar contra o obscurantismo da Sofistica Moderna, reaja nos termos clássicos do insulto e da calúnia.
Compreende-se que as propostas de Ivan Illich sejam condenadas, por reivindicarem a subversão das instituições.
Mas do que se trata, afinal, com essa sua famosa "inversão das instituições»?
Trata-se pura e simplesmente de obter o núcleo, o nódulo original da unidade de onde parte todo o projecto revolucionário.
Trata-se de recolocar o homem em sistemas alternativos de auto-suficiência, trata-se de voltar às raízes e aí fundar o homem.
É evidente que um homem a quem for concedido - num plano de reforma agrária naciona1 - um palmo de terra arável e dela puder retirar com o seu grupo (família ou cooperativa) o fundamental do seu sustento, está em situação de gradualmente ir dispensando todos os técnicos e super-técnicos da complicada sociedade monolítica, do grande sistema, da infernal engrenagem das instituições em dependência recíproca. Está em vantagem de autobastança. Está na via da autoconstrução.
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<illich-76-> sc terça-feira, 25 de Junho de 2002
2
EMANCIPAR O CONSUMIDOR
DESINSTITUCIONALIZAR OS SERVIÇOS
Escrito em
23/Novembro/74Quando a tecnocracia "ataca" nos sectores do inorgânico e do material, quando se limita às estradas e pontes, às siderurgias e celuloses, ao betão e ao cimento armado, não é caso para o ambientalista se manifestar.
Mas o caso muda de figura quando a Tecnocracia decide invadir o campo vivo, quando ataca no "fenómeno humano", quando para lá de explorar entra a manipular os indivíduos, a saúde, a liberdade, o trabalho, o afecto, o corpo de cada cidadão.
O caso muda de figura e de nome: chamando-se então, com mais propriedade, Biocracia.
É essa Biocracia que os adeptos do anti-Sistema, os militantes das Alternativas, têm vindo a denunciar nos últimos anos.
Biocracia é a Tecnocracia aplicada ao campo do organismo vivo, e os exemplos sucedem-se numa aterradora frequência, mostrando à saciedade que, não contente em congestionar e poluir o mundo de lata automóvel, não contente em multiplicar os "gadgets" e os supérfluos, a Tecnocracia pretende ir mais longe e pretende fazer do homem matéria de "engenharia".
Surgem então vocábulos novos, regra geral acompanhados de simpósios internacionais, realizados em hotéis de luxo e com mesas da presidência cobertas de pano verde, sobre o qual se vêem garrafas de água do luso.
Surgem os famigerados seminários de técnicos para decidir:
a organização das relações humanas na empresa;
o futuro das transplantações;
o uso dos testes psicotécnicos;
a indústria alimentar na robotização das gerações futuras; a ofensiva farmacêutica na alienação do doente; etc.
A REACÇÃO CONTRA ILLICH
Quando, no livre exercício da imaginação criadora que é o seu oficio, Ivan Illich torna público mais um livro seu, é clássica a reacção: uma cáfila de zelosos funcionárias do Sistema cai-lhe em cima e vá de morder no enguiçado magriço até mais não.
Desta feita, houve um intermediário: Michel Bosquet, valendo-se da documentação armazenada por Ivan Illich, escreveu no semanário «Le Nouvel Observateur» um artigo subordinado ao titulo «Quand la Medecine Rend».
Embora Michel Bosquet seja uma admirável figura de pensador e de jornalista, embora a sua formação marxista não o tenha impedido de manter lúcido e aberto o espírito crítico, permito-me discordar do seu método de actuação.
Consentir que sobre determinados temas incida o "debate" é já, de certo modo, um colaboracionismo com as manigâncias do Sistema.
O debate, a controvérsia, é um dos derradeiros alibis a que o Sistema recorre, quando se vê cercado de argumentos irrespondíveis por todos os lados, para sobreviver e fingir que ainda podo ter (alguma) razão.
Ter aberto um debate sobre se a Medicina é ou não fábrica de doenças e doentes, parece à primeira vista uma atitude irreverente, mas acaba por ser ainda bastante conformista.
Não sei se o próprio Ivan Illich se daria ao trabalho - como o fez Bosquet - de argumentar com números e estatísticas, em tal caso. Para quem conheça um pouco do seu pensamento anarco-convivialista, o problema é claríssimo e não necessita de números. Essa afirmação, que só a fariseus escandalizará - a Medicina, arte de fazer doentes - é perfeitamente lúcida e lógica, se a virmos inserida no contexto geral de onde nunca deveria ter sido arrancada.
A Medicina não é mais nem menos culpada, no campo da Biocracia, daquilo que faz e dos resultados a que conduz. Mas qualquer pessoa, sem precisar de ir a Paris, percebe que a Medicina entraria em contradição mortal consiga própria se, de facto, fosse a "arte de curar" em vez de ser a arte de adoecer.
Os tecnocratas da Medicina (que tendencial e realmente a dominam hoje) não se coíbem de afirmar, de proclamar que ela é uma Indústria. Até se orgulham disso. Já largamente abordei o problema no opúsculo «Do Biocídio à Biocracia» (Colecção Mini-Ecologia, n°- 3) e no n°. 1 da Col. "Sine Qua Non'' (Edições M.E.P.).
A partir do momento em que a Medicina está instituída como indústria, seguirá fatalmente a tendência de todas as indústrias que é alargar o mercado para o seu produto.
Considerando o doente um consumidor, eis que só um parvo, um ingénuo ou um tecnocrata ainda perguntará porque está interessada a Medicina em fazer doentes, em vez de os curar, e parque não quer nem pode ela fazer outra coisa:
Na opinião de Ivan Illich, as instituições têm um forte instinto de sobrevivência e não abdicam assim dos privilégios. Ora a Medicina é uma instituição: logo, pela simples lógica e sem precisar de recorrer à exaustiva demonstração estatística de Michel Bosquet, a Medicina tende a perpetuar-se através de uma suposta, inventada, pré-fabricada inevitabilidade.
O que nós, ambientalistas, teremos a censurar á Medicina não é, pois, que ela seja uma indústria e que como tal actue, fabricando doentes. Contraditório seria é que a Medicina, em vez de fabricar doentes, os eliminasse. Estaria a arruinar-se como indústria o que, então sim, sob o ponto de vista económico, seria censurável e a todos os títulos desastroso.
A BIOCRACIA VEM MULTIPLICAR O NEGÓCIO DA TECNOCRACIA
Como logo se percebe, a Medicina viva interligada aos interesses, à inércia, à rotina e à lógica interna de outras sacrossantas indústrias e instituições.
Uma relação claríssima, por exemplo, é a que existe com a instituição ou indústria automóvel.
Será preciso, ó meu Amigo Michel Bosquet, você desunhar-se a mostrar estatísticas, para demonstrar que o automóvel serve para fornecer contingentes admiráveis de estropiadas à indústria médico-traumática, à indústria hospitalar ?
O automóvel será, como por simples observação diária se comprava, um das pilares da nossa sociedade da abundância, que não poderá abrandar no seu ritmo de fazer mortos e de alimentar assim a indústria funerária que, coitada, também precisa de ajuda. Não devem ser só os médicos a comer.
Tudo isto é explicável sem grandes esforços a partir de Ivan Illich e de uma das suas ideias-chave: a medicalização da saúde, a institucionalização da Medicina, a industrialização do homem.
Quer dizer: não foi por acaso que a Tecnocracia se aperfeiçoou em Biocracia. Tornando os partos cada vez mais violentos, fomentando toda a indústria alimentar degenerativa, ela, a Tecnocracia, triplicou o negócio que enquanto Tecnocracia não era suficientemente próspero para as suas ambições de lucro.
O CANCRO CONTRIBUI PARA O CRESCIMENTO ECONÓMICO
Apontámos alguns exemplos de como a Tecnocracia, através da Biocracia (ver lista alfabética de manipulações Biocráticas) multiplica directamente o negócio.
Mas não quer isso dizer que muitos outros campos da Tecnocracia não contribuam, menos directamente, quer dizer, com nexos causais menos óbvios - para a proliferação da indústria propriamente biocrática.
As centrais nucleares é claro exemplo disso. Se se pensa que pode haver revolução social, humana e política (quer dizer, liquidar literalmente a Biocracia, ou manipulação do homem pelo homem, forma reforçada da exploração do homem pelo homem) basta raciocinar sobre o contingente de cancros e degenerescências genéticas que as centrais produzem, fabricam. Com o protesto da distinta classe médica ? Eis o que me parece bastante para duvidar. O que vemos e ouvimos, maiormente, é o aplauso e o agrément explícito dela, embora a atitude mais frequente seja o prudente abstencionismo.
Como se calcula, com os cancros prosperará o negócio das bombas de cobalto, que se não me engano devem pertencer ao mesmo ramo fabril das outras ... bombas, e prosperará todo o negócio ligado ao enxerto de órgãos, de pernas, de orelhas, de narizes, de bisturis, de modo a satisfazer as necessidades das futuras gerações de "abortos", de meninos mais ou menos mongólicos, de diminuídos mentais e físicos, enfim, de talidomídicos em geral, indústria admirável essa que assegurará a prosperidade de outras tantas indústrias biocráticas, o crescimento económico das nações.
TESES SIMPLES E REVOLUCIONÁRIAS
Só o facto de os eminentes técnicos, os excelsos especialistas, os magníficos mestres, os insuperáveis catedráticos não terem tempo de raciocinar (tão ocupados andam em saber e ter conhecimentos), pode explicar que teses tão simples, tão óbvias, tão humanas e terra a terra como são as teses de Ivan Illich sofram esse complicativo processo de controvérsia em que entrou, por exemplo, o já referido «Le Nouvel Observateur» (porque a controvérsia é comercial, também e evidentemente).
Os naturistas demonstraram há muito que a medicina alopática é fundamentalmente sintomatológica, logo reformista, logo fomentando o mal que depois diz ir combater. Enquanto for sintomatológica, a medicina terá todo o interesse em fabricar doenças e doentes, de contrário nega-se como indústria, nega-se como negócio e comércio que deve ser, que tem de ser.
Como instituição de caridade - paternal, reformista - ela fabrica os "pobres" a quem depois há-de dar a esmola. Sem pobres, o que seria dos que pretendem, com eles, comprar a virtude e os céus ?
Acusa-se Ivan Illich de nos complicar a vida quando ele vem contrariar o jogo das instituições e sua engrenagem triunfalista mas homicida e suicida, quando ele põe à mostra a careca da questão energética; acusou-se de "criar" tremendos problemas à sociedade quando ele propôs a desinstitucionalização do Ensino, mas só quem se desabituou de pensar, de imaginar - profissão essa que é a de Ivan Illich - não compreende que as propostas de Ivan Illich são todas, precisamente, no sentido de simplificar pela raiz aquilo que o carácter institucional dos serviços complica, por natureza, por função, por necessidade intrínseca de fazer prosperar a próprio negócio.
É óbvio que a medicina não pode aceitar os pressupostos das alternativas das medicinas naturais, não pode aceitar a «descolonização do doente" (como não pode aceitar a "descolonização do aluno») porque é dele, doente, que se alimenta o negócio.
Mas é óbvio que toda a engrenagem médica (astronomicamente cara, congestionada, reclamando cada. vez mais vorazmente mão-de-obra e mais vidas, mais corpos, mais doentes) é obvio que a engrenagem escolar, é óbvio que a engrenagem energética não consentirão alternativas aos seus monopólios, precisamente porque simplificar a vida será subverter os monopólios que de cada vez maior complicação vivem: o monopólio da saúde, o monopólio do saber, o monopólio da energia.
Apontei algumas hipóteses de trabalho sobre esta subversão num ensaio publicado em livro intitulado «Depois do Petróleo, o Dilúvio». Muito claro, no entanto, me parece ter ficado, quem é o único beneficiário desta subversão e desta simplificação naturista: o chamado consumidor é o único que largamente, profundamente e decisivamente beneficiará das alternativas.
Mas - cuidado, amigos ! - o consumidor é amestrado para adorar o sistema e as respectivas instituições. Para o supor indispensável e infalível. Para, inclusive, ladrar contra Ivan Illich e Michel Bosquet, quando estes lhe vão dizer a verdade e só a verdade.
Enquanto colonizado, longamente colonizado pela ditadura médica que o coloniza, o doente julga que tudo será, para ele, mais complicado se tiver que dispensar o "conforto", a eficácia, o gigantismo da santa madre instituição, da respeitada e temida medicina. O doente – reduzido a consumidor - julga que não pode passar sem os monopólios da Água, do Petróleo, da Energia. Julga que não pode ter saúde, fora do monopólio da Saúde que é a Medicina. Julga que não pode passar sem médico como não pó de passar sem canalizador, sem o técnico que lhe repare o esquentador, sem o especialista que lhe aperte as torneiras, sem o fornecedor que lhe distribui a botija, sem o funcionário que lhe põe o clic já está.
Mas este engano é que se lhe tornará fatal.
Na dependência da engrenagem em geral e da engrenagem médica em especial, o consumidor em geral e o doente em particular é manipulado e frustrado, sempre, sem possibilidades de auto-bastança, de alternativas, de cada vez que o técnico falha, não comparece, vai a banhos ou saiu para o fim de semana.
De cada vez que chama o médico e o médico não comparece - o que sucede com frequência assaz verificada - eis o doente em transe, ei-lo em verdadeiro pânico, pois julga que médico e saúde andam indesligáveis.
Educar uma criança é prepará-la para uma progressiva auto-suficiência e o naturista - consumidor que soube emancipar-se gradualmente da tirania da indústria médica o da tirania da indústria alimentar (entre outras tiranias) - dá um dos exemplos mais educativos e mais belos para um verdadeiro futuro de libertação humana, democrática e popular.
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(*) O artigo de Michel Bosquet intitulado «Quand la Medecine rend Malade» foi publicado no semanário «Le Nouvel Observateur», números e 520, de 21 e 28 de Outubro de 1974.
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INEVITABILIDADE DA UTOPIA
Escrito em
1/Abril/l972Fábrica de mitos por definição e natureza, cada instituição apoia-se nesses mitos e deles se alimenta para subsistir. A mitologia não existe sem instituição, mas a instituição também não existe sem a mitologia que a estrutura em sistema.
A análise que Ivan Illich processa em relação à instituição escolar tem valor exemplar pois aplica-se, com idêntica vantagem e proveito, a todas as outras instituições que a escola tem exactamente a missão de fazer "evidências" indiscutíveis, através da mentalização que pratica e da manipulação ou modelação "educativa", do condicionamento que é sua função.
Ao incidir sobre a Escola, Ivan Illich está, implicitamente, a falar das outras de que não fala explicitamente. No ensaio «Inverter as Instituições», exemplifica com casos vindos de outros sectores.
"Uma sociedade que define a medicina como a arte de prolongar a vida merece ser governada por economistas, que se definem a si mesmos como os arquitectos do crescimento permanente e ilimitado".
Aplicando-se a criticar, neste caso, o sector hospitalar, ele apreende uma estrutura que é geral e comum a todas as instituições da Abjecção: o mito do crescimento ilimitado "contaminou" também aqueles sectores onde a qualidade se não poderia nem deveria sobrepor à quantidade. Mas sobrepõe. E, como tal, Illich denuncia o mito que aqui tem então o nome de crime.
Illich não efectua a crítica de pessoas. Não fulaniza. Mais do que as próprias instituições visadas, é para os mecanismos de abjecção comuns a todas elas que dirige as suas análises. Quando critica a Medicina, não está a pôr em questão este ou aquele funcionário dessas "instituições" (mais ou menos vítima de uma engrenagem a que não pode renunciar e da qual depende inteiramente). Tão pouco a própria instituição hospitalar é o alvo fundamental. O que ele visa é a mitologia ou estrutura generalizada, que assume apenas variantes morfológicas conforme o sector em que se aplica mas provém de uma estrutura comum e geral.
E é aqui que irrompe, necessariamente, a acusação principal contra Illich: a de utopista.
Mas em que consiste a utopia de Illich ?
Pode facilmente verificar-se que o seu pensamento se distingue, em relação a uma ilustre plêiade deles, exactamente por se colocar numa perspectiva não já e não só crítica mas de contestação. Ele situa-se, por esse esforço de independência e lucidez, mentalmente "fora" do sistema.
Por isso o analisa como um todo e por isso alveja a totalidade, preconiza não as reformas mas a Revolução.
Por isso é um profeta da Utopia.
Repare-se que ele quebra o ciclo no ponto onde precisamente se torna vicioso: as pessoas (todas) estão convencidas da indispensabilidade do sistema e da inevitabilidade de todos os seus mitos, porque a escola não tem outra função do que convencê-las disso. Heresia e utopia são os nomes dados pelo Imobilismo e pelo Conformismo a todo o que e a tudo o que porventura se afirme não alinhado com os dogmas da inevitabilidade.
Utopia não é mais do que a permanente contestação das "evidências", que só são evidentes porque um aparelho encarregado disso o afirma dia e noite, sem confronto com nenhuma oposição que o conteste.
É o famoso "homem unidimensional" de Marcuse, a que só o pensamento utópico ou herético ou alternativo ou plural pode oferecer alguma eficaz resistência.
"Os sagrados sistemas produtivos que são as escolas". Mas nem só as escolas. Vivemos num contexto de instituições todas elas sagradas, intocáveis, inquestionáveis nos seus fundamentos. Constantemente Illich acentua o carácter de sacralidade (de mito) conferido às instituições pelos seus obedientes funcionários, funcionários que, depois, é óbvio não poderem exercer a mínima distanciação e a mínima análise crítica da totalidade. A não ser análises parciais, necessariamente reformistas e portanto reaccionárias.
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1-9 <illich-md-1-5>
<illich-1> os dossiês do silêncio – para uma sociedade paralela – inédito de 1981 – leituras
A OFICINA DE CUERNAVACA:
ECOS EM PORTUGAL
1981 - São escassas e praticamente nulas na imprensa portuguesa, as referências ao Centro Intercultural de Documentação (C.I.D.O.C.) (que começámos já em artigo anterior por analisar).
Com efeito, (e tal como já dissemos), esta "oficina de ideias", fundada em Cuernavaca por Illich e Valentina Borremans, em 1966, continua a emitir mensagens de esperança para a construção, difícil mas não impossível, de um mundo alternativo.
Justo é, no entanto, assinalar que a "Revista Crítica de Ciências Sociais", dirigida em. Coimbra pelo Prof. Boaventura Sousa Santos (da Faculdade de Economia), incluía no número 3 não só um extenso ensaio de Illich sobre a sua nova obsessão (o trabalho) - " As Alternativas Tecnológicas e as Três Dimensões da Opinião Pública" - o que viria a ser a única recensão noticiosa surgida em Portugal sobre o "Guide to Convivial Tools", de Valentina Borremans, também já comentado no artigo anterior.
Aí, nessa noticia, surge a expressão "tecnologia radical" , de Peter Harper, mostrando como a nomenclatura alternativa é rica e diversificada. Depois das "tecnologias doces" e "leves" propostas, entre outros, por Robin Clark, depois das "tecnologias intermédias" de Frederico Schumacher (há um livro seu felizmente traduzido em português, " Small is Beatiful" ), depois das "tecnologias democráticas" de Lewis Mumford, depois das "tecnologias conviviais" como querem Valentina e Illich, depois das "tecnologias libertadoras" como lhes chama Murray Bookchin e como nas edições "Frente Ecológica" se tem preferido designá-las, não pára a lista de nomes para designar coisas sensivelmente diferentes-iguais.
Boaventura Sousa Santos fornece, naquela recensão noticiosa, uma síntese muito útil da riqueza contida no "Guide", tal como o artigo de Gorz-Bosquet "o arquipélago da convivialidade" como já assinalámos.
Também no "apêndice" que escreveu à tradução portuguesa da "Energia e Equidade" (Sá da Costa, 1975), Boaventura Sousa Santos fala de Illich e do que considera o seu "projecto de política radical de sobrevivência". Radical e de sobrevivência é sem dúvida a tese illichiana: ele prova que não há crise de energia, antes pelo contrário, a sociedade continuará a destruir o planeta na sua marcha energívora para o abismo da super-abundância de uns, necessariamente a super-escassez de outros.
Os nºs 109 e 110 de catálogo do "Guide to Convivial Tools", são duas obras de Murray Bookchin, pensador norte-americano (Califórnia) de tendência acrata e cuja reflexão "tecno-política" tem sido frequente e quase constante.
O seu célebre ensaio " Towards a Liberatory Technology" seria marcado na edição portuguesa ("Para uma Tecnologia Libertadora", Via Editora, 1976) por tristes vicissitudes. Trata-se de uma edição quase apócrifa e bastante mutilada relativamente ao original, como a tempo denunciou a equipa da revista " A Urtiga".
JOSÉ CARLOS MARQUES E O RENASCIMENTO RURAL
A-propósito: é a esta equipa em geral e a José Carlos Marques em particular que se deve a atenção mais persistente e a informação mais abalizada no campo das tecnologias alternativas, de que os cadernos "Ecologia e Sociedade", dirigidos por José Carlos Marques na Editora Afrontamento (Porto) várias vezes se fizeram eco.
O número 10 dessa colecção, por exemplo, abria com uma homenagem ao E.F. Schumacher, figura totalmente desconhecida até então em Portugal. "Felicidade, Tecnologia e Produção de Massas" era o texto desse economista escolhido para inaugurar uma colectânea sobre "Tecnologia de Aldeia, Tecnologia do Futuro", em que igualmente se podiam ler textos de Robin Clarke (" A Tecnologia Suave") e seu célebre quadro dicotómico, de J. Mc Dowell ("O Conceito de Tecnologia de Aldeia"), de A.S. Kenkare ("Tecnologia para o Mundo não desenvolvido").
Textos de inegável interesse , no mesmo sentido do "renascimento rural", eram publicados no número 4 da mesma colecção, a que José Carlos Marques soube conferir nível internacional, por isso mesmo se condenando ao ostracismo nacional.
O TECNOFASCISMO SEGUNDO MICHEL BOSQUET
Mas voltando a Murray Bookchin: ele viria a ter melhor sorte nas mãos da revista " A Ideia", onde, no número 16 - Inverno de 1980 - , surgiria o seu "Manifesto Ecológico" (original aparecido 10 anos antes) e posteriormente um outro estudo sobre os equívocos do movimento anti-nuclear.
Aliás, é de Bookchin um dos alertas mais solenes aos equívocos de uma eco-tecnocracia que Michel Bosquet, sem evasivas, denomina "tecno-fascismo" e que, é claro, tem ilustres representantes no nosso meio artístico-intelectual... alguns dos quais advogam álcool combustível e solar plano para melhor incrementar a "sociedade neo-esclavagista".
Em Outubro de 1980, a vinda a Portugal de Ivan Illichn ( que a contra-gosto e "marginalmente " participaria no Congresso "Aprendizagem e Desenvolvimento", onde o francês Edgar Morin seria a vedeta) pretextaria breves referências e notícias nos órgãos de Comunicação Social.
No jornal "Portugal Hoje" publiquei a entrevista que Illich me não quis dar, depois de falarmos durante uma tarde ...inteira. Em compensação, ofereceu-nos a hipótese de mini-editar na "Frente Ecológica" (oficina artesanal de ideias como ele diria...) o seu estudo "O Trabalho-Sombra", oferta que a organização do Congresso nos recusaria, publicando-o mais tarde, em 1981, na sua revista em papel couché "Aprendizagem e Desenvolvimento". O seu a seu dono.
CONVIVIALIDADE OU CATÁSTROFE
As alternativas de vida à morte que nos é imposta e vendida, existem e são possíveis.
Qualquer das verbas gastas com os planos megalómanos de um gigantismo macrocéfalo, com o "desenvolvimento da destruição", daria para fomentar o progresso de muitas comunidades, combater muita fome e muito desemprego, libertar muitas pessoas da doença e de outras servidões e escravaturas mais ou menos neo-coloniais.
Os próprios organismos especializados da ONU anunciam o que se poderia fazer de útil com o inútil gasto em armamento.
Mas ao puxar as atenções para o escândalo "guerra", para o armamento, obviamente detestado por todos os povos, os organismos da ONU fecham os olhos para a "outra" guerra, aquela que leva , regra geral, rótulos pacíficos tais como o de "desenvolvimento". Esta é a guerra ecológica de que os organismos da ONU não falam, porque obviamente também a fomentam, como prova a F.A.O., a O.M.S., a O.M.M., o PNUD e seus programas de desenvolvimento. A dicotomia proposta, internacional e oficialmente, é assim falsa.
Mas não sabemos de mais ninguém, além de Ivan Illich, que o tivesse dito e glosado ao longo de todos os seus livros e...linhas.
Trata-se, na perspectiva convivial, de pôr frente a frente dois mundos ou duas concepções do Mundo: o desenvolvimento monopolista ou imperialista e, ao outro lado, a convivialidade da sobrevivência possível nas alternativas ao monopólio.
Esta é que é a guerra verdadeira e real (os ecossistemas resistindo ao sistema) à qual serve de biombo hediondo o cenário de mísseis reciprocamente apontados pelas superpotências que só aparentemente se digladiam mas que, no fundo e realmente, movem a grande guerra contra a humanidade. Guerra que, sob a forma de "modelos de desenvolvimento", vai somando genocídios, etnocídios e ecocídios até à catástrofe do confronto final.
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<illich-2> os dossiês do silêncio – para a história da ideia ecológica – ecoleituras
IVAN ILLICH
EM EDIÇÃO PORTUGUESA
1980 - Quando, em princípios de 1976, o Centro Intercultural de Documentação (C.I.D.O.C.) teve que encerrar as suas actividades de "escola livre" por dificuldades financeiras, era uma luz que se apagava nessa pequena cidade do México chamada Cuernavaca.
Era uma esperança que morria não só para a América Latina mas para todo o mundo e Terceiro Mundo escravizado à ditadura do (sub) desenvolvimento monopolista, do imperialismo industrial.
O C.I.D.O.C. tinha , no entanto, criado raízes. O trabalho gigantesco de Valentina Borremans, que dirigia a Biblioteca de Cuernavaca, não ficou totalmente destruído com essa vicissitude que o C.I.D.O.C. teve de enfrentar, dez anos depois de criado.
Ivan Illich associara o seu nome ao C.I.D.O.C desde o início, participando como "guia" em muitos seminários para estudantes do Terceiro Mundo , vindo anos depois a fixar-se em Kassel, na República Federal da Alemanha, em cuja universidade ainda lecciona.
O C.I.D.O.C. não encerrava, no entanto, após dez anos de actividade, sem um incidente que marcaria a definitiva rutura de Illich - ex-prelado - com a Igreja Católica a que pertencera e que proibiu os eclesiásticos de frequentar o Instituto de Cuernavaca, terrível antro de subversão...
Os ensaios que Ivan Illich ia publicando, reflectiam, entretanto, a base documental em que se apoiava - única no Mundo - e eram, muitas vezes, a versão para o público dos textos que guiavam os seminários por ele dirigidos no Centro de Cuernavaca.
Mas todos os estudantes que aí tinham a possibilidade de chegar, podiam igualmente mergulhar nessa documentação e dela extrair preciosas alternativas de vida à maquina trituradora do desenvolvimento omnipotente que nos seus próprios países grassava.
AS FERRAMENTAS CONVIVIAIS
Em 1978, dois anos depois de o espólio bibliográfico do C.I.D.O.C. ter sido oferecido ao Colégio da cidade do México, surgia um dos livros mais estranhos desta década, espelho de um labor de investigação singular: era uma quase interminável lista de livros e autores...
"Guide to Convivial Tools" se intitulava este catálogo organizado por Valentina Borremans, com prefácio de Ivan Illich.
André Gorz, assinando com o nome de Michel Bosquet no semanário " Le Nouvel Observateur", saudava esse "insólito catálogo" como "o arquipélago da Convivialidade, não sabemos se em contraponto ao arquipélago de Gulag mas de certeza numa alusão directa ao livro de Illich " A Convivencialidade", traduzido em português e editado, em Fevereiro de 1976, por Publicações Europa América.
"Libertar o Futuro" (D. Quixote, 1973), " Inverter as Instituições" (Moraes, 1973), "Educação Sem Escola" (Teorema, 1974), "Energia e Equidade" e "Limites para a Medicina" (Sá da Costa, 1975) e " A Convivencialidade" (P.E.A. 1976) seriam assim as traduções de Illich aparecidas em língua portuguesa.
Sem falar dos ensaios "contra" Illich que logo beneméritas editoras se apressaram a publicar também, não fosse o público aperceber-se rapidamente da verdade e fazer a revolução por suas próprias mãos.
É disso que se trata, evidentemente, ao falar de Illich, de "convivialidade", de tecnologias libertadoras, do C.I.D.O.C. como universidade livre para um mundo alternativo e de "Tecno-política", titulo de uma série de mensagens que Valentina Borremans continua a publicar na pequena oficina de reprografia de Cuernavaca, e das quais referimos, entre as mais recentes, algumas de maior premência para o leitor português.
O já citado artigo de Gorz (Michel Bosquet) sobre o "Guide" foi o último documento desta série que nos chegou.
"Técnicas Autoritárias e técnicas democráticos" é o expressivo título de um artigo de Lewis Mumford, membro do Conselho Executivo da "Sociedade para a Históría da Tecnologia" e autor de livros como "Técnica e Civilização" e " A Cidade na História".
Em outro documento-chave que nos chega de Cuernavaca, Valentina Borremans aborda, sob o título " O contrário da saúde administrada", o tema das alternativas terapêuticas, as tecnologias de reapropriação da saúde que podem constituir saídas à "medicalização da Medicina", essa neo-escravatura que Illich aprofundara no seu "Nemésis Médical".
Sob a aparência de um contributo crítico à Medicina, ambos os autores desmontam afinal todo o sistema totalitário e anti-democrático de um desenvolvimento industrial que significa subdesenvolvimento humano.
"Os novos ideólogos, praticantes e especializados, impõem de forma anti-democrática, como metas sociais, a necessidade dos serviços que eles monopolizam" - diz-se no estudo que Valentina Borremans apresentou ao seminário Dag Hammarskjold, realizado em Upsala (Suécia) , em Junho de 1977.
A série documental "Tecno-Política" assinala ainda, entre os seus últimos textos policopiados, que nos chegam em idioma castelhano, duas reflexões fundamentais sobre as relações entre tecnologia e política: " A desvinculação entre paz e desenvolvimento", discurso apresentado em 1980 por Illich na Conferência sobre a Investigação da Paz na Ásia no Contexto Global, em Yokohama (Japão).
A importância da informação económica na prática efectiva de uma democracia de base popular, é matéria de um estudo realizado por Paul Hawken, investigador norte-americano, sobre "desintermediação", outra das ideias-chave no pensamento illichiano que, ao longo dos anos, tem irradiado - e continua a irradiar, graças à perseverança de Valentina Borremans - do Centro de Cuernavaca.
Verdadeira capital do Mundo Alternativo.
CONSTRUIR ALTERNATIVAS, ORGANIZAR A RESISTÊNCIA
Como provam os items referenciados no "Guide to Convivial Tools" - 858 autores, 169 publicações periódicas e centenas de endereços de associações, grupos de trabalho, centros de investigação, etc - não é a matéria-prima que falta à construção do mundo alternativo. Antes pelo contrário: a própria abundância de informação pode bloqueá-la, pode paralisar o investigador mais meticuloso que se vê submerso num oceano bibliográfico...
O que falta, portanto, nos lugares e países que queiram construir uma democracia real, com base no controle popular das tecnologias apropriadas, é organização. Pedagogia da organização: como fazer o que é necessário e urgente fazer. Multiplicar as informações disponíveis, debater as opções políticas, saber como resistir às urgências e emergências de um desenvolvimento que joga exactamente no efeito surpresa e do "facto consumado" para invadir localidades e regiões, alertar - e prevenir - para os "planos megalómanos" que em nome do progresso se preparam para continuar a destruição dos ecossistemas, e apontar as eco-alternativas possíveis a esses planos de uma macro-indústria macrocéfala e megalómana, projectar alternativas viáveis, práticas, imediatas, descentralizadas, independentes, é apenas o que falta.
Que estranha maldição tem impedido, por exemplo, que se concretizem entre nós iniciativas como a do C.I.D.O.C. e a do Grupo para o Desenvolvimento da Tecnologia Intermédia?
PRIORIDADE ABSOLUTA À TECNOLOGIA INTERMÉDIA
Absolutamente prioritário, em Portugal, é obviar ao cataclismo do macro-desenvolvimento destrutivo que se prepara e a "tecnologia intermédia" proposta por E. F.Schumacher assume a vanguarda dessa luta pelo controle democrático das alternativas tecnológicas apropriadas.
Bom guia nesse caminho de libertação nacional é o livro já editado em Portugal - "Small is beautiful" - a obra mais conhecida e discutida do célebre economista alemão radicado na Grã Bretanha, Ernst Frederich Schumacher.
"Small is beautiful" - título original do famoso livro que se mantém na tradução portuguesa - tornou-se desde a sua publicação em 1973 sinónimo de economia e tecnologia intermédia, de "economia em que as pessoas também contam". A crítica feita ao sistema económico vigente, a Leste e a Oeste, assume tanto maior pertinência quanto é certo que Schumacher se converteu à "tecnologia intermédia" no auge de uma brilhante carreira de Economista.
Refugiado em Inglaterra, ele voltou à vida académica como investigador cientifico em Oxford, sendo simultaneamente conselheiro económico do governo britânico para a reconstrução da Alemanha.
Durante as décadas de 50 e 60 documentou sobre problemas do desenvolvimento numerosos governos.
Fundador do Intermediate Technology Development Group (Grupo para o Desenvolvimento da Tecnologia Intermédia), foi durante anos conselheiro económico do Departamento nacional de Carvão, do Reino Unido e Conselheiro económico do Governo da Birmânia em 1962 e da Índia em 1966.
As críticas que desfere contra a Economia de Exploração hoje vigente , quer no Bloco Capitalista quer no Bloco Socialista, baseiam-se portanto numa longa carreira de investigador, professor e Economista Político .
Schumacher morreu em 1977, dias antes da publicação do seu livro "Guide for the Perplexed". Mas não morreram as suas teses, difundidas hoje por todo o Mundo onde começa a compreender-se que a Ecologia e o Eco-desenvolvimento são inseparáveis na luta dos povos e dos explorados contra o imperialismo industrial.
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<illich-3> os dossiês do silêncio – para a história da ideia ecológica
ILHAS CONVIVIAIS
NA BIBLIOGRAFIA
DE LÍNGUA FRANCESA E ESPANHOLA
1980 - "O arquipélago da Convivialidade" como lhe chamou André Gorz (que assina Michel Bosquet quando escreve no "Le Nouvel Observateur") continua a povoar-se em língua francesa e castelhana.
Em outro artigo referimos nomes, datas e publicações que ponteiam um itinerário bibliográfico sobre "teonologias democráticas" ao alcance do leitor português.
Queremos hoje falar das "ilhas conviviais" que vão surgindo em outros idiomas e editores.
Parafraseando o título da já citada "Tecno-Política" - série de mensagens policopiadas que nos chegam de Cuernavaca (México) - a editora Seuil, de Paris, lançou uma preciosa colecção (inaugurada aliás com um livro de Ivan Illich) intitulada "Techno-Critíque" dirigida por Pierre Dupuy, economista, politécnico e investigador no Centro de Investigação sobre o Bem-Estar denominado, por abreviatura, C.E.R.E.B.E.
Note-se que, deste autor, em colaboração com Serge Karsenty, também do C.E.R.E.B.E., a editora Socicultur, de Lisboa, publicara , em 1977," A Invasão Farmacêutica."
O mais recente volume que nos chega desta colecção "Techno-Critique" é um estimulante debate sobre o movimento ecologista, realizado em França com a participação, entre outros, de Castoriadis e Cohn-Bendit, dois políticos a quem a Ecologia atrai. O livro chama-se " De L'Écologie à l'autonomie".
A colecção "Techno-Critique", que abriu com "Nemésis Médical", de Illich - um ensaio sobre "a expropriação da saúde" que em edição portuguesa se intitulada "Limites para a Medicina" - publicou obras tão interessantes e provocantes como " La Croissance...de la famine! - Une Agriculture repensée" , de René Dumont; "Énergie et Equité", de Ivan Illich; "Paul Goodman et la Reconquête du présent", de Bernard Vincent (estes dois últimos volumes já foram editados em Portugal); "La Culture des Autres", de Hugues de Varine; "Bien Naitre", de Michel Odent; " La Nouvel Ordre de la Faim", de Albert Provent e François de Ravignan; " L'École à perpetuité", de Heinrich Dauber e Étienne Verne; "L' Intoxicatíon Vaccinale", de Fernand Delarue: "Le logement est votre affaire", de John F.C. Turner; "Le Temps qu’on nous vole", de Jean Robert; "L’Impasse Industriel", de Ingmar Granstedt.
MISÉRIAS DA OPULÊNCIA
A propósito de Jean-Pierre Dupuy, investigador do C.E.R.E.B.E., que dirige a colecção "Techno-Critique") , merece especial comentário o livro de que é co-autor com Jean Robert: chama-se "La Trahison de l'Opulence" e podia perfeitamente traduzir-se para " misérias da opulência", já que é sobre as contradições intrínsecas da sociedade industrial que estes dois sociólogos longamente discorrem.
Retomando, com efeito, as teses de Illich, os dois técnicos do Centre de Recherches sur le Bien Etre têm a preocupação (e talvez a petulância) de corrigir o mestre, andar mais na Sociologia do que na Filosofia. Principalmente, eles não querem cair na armadilha a que as "ultrapassagens" do marxismo pela esquerda podem levar os menos lestos. Dessas titânicas e ambiciosas démarches têm resultado "derrapagens" perigosas e "uma regressão teórica e estratégica" do marxismo, como assinalou Patrick Viveret, no "Le Nouvel Observateur".
O CONTROLE DEMOCRÁTICO DA TECNOLOGIA
Publica-se em Barcelona, pelo editor Gustavo Gíli, uma das colecções de tecno-política mais importantes que conhecemos, intitulada "Tecnologia e Sociedade".
Murray Bookchin (cujo aparecimento em língua portuguesa já sublinhámos) aí surgiu com a obra "Por uma Sociedade Ecológica". Para Bookchin, o inimigo do homem e da natureza, o destrutor da biosfera é o Estado e o seu gigantismo e centralismo intrínsecos. O "princípio" de dominação que regeu o decurso da civilização humana até à actual situação de impasse - dominação do homem sobre a mulher, do adulto sobre a criança, da humanidade sobre o mundo natural, da cidade sobre o campo, de uma classe sobre outra e de certas burocracias sobre áreas inteiras do globo – é, para o pensador acrata, o Estado. Viver e sobreviver significa, portanto, criar , através de tecnologias apropriadas, alternativas a esta dominação.
Recolha de vários autores, a colectânea "Recursos del Medio Ambiente" apresenta, nesta colecção publicada em Barcelona, uma "perspectiva socialista" dos temas de economia ecológica.
Mas muitos outros volumes apontam para o ponto-chave deste movimento alternativo: o controle democrático das tecnologias apropriadas. Citamos, entre os mais significativos, os seguintes: " El Control popular de la tecnologia", de David e Ruth Elliott. O primeiro é professor da "Open University" e dedicou-se ao estudo das relações entre tecnologia e sociedade. Ruth Elliott foi investigadora nos temas de sociologia industrial, tendo dedicado sete anos na London School of Economics às atitudes e prerrogativas da direcção empresarial. Actualmente é investigadora por conta dos sindicatos operários.
A autogestão de bairro e o poder das comissões de moradores é, por seu turno, a assunto analisado num outro volume da colecção "O poder dos moradores - o novo localismo", de David Morris e Karl Hess. Os autores partem do pressuposto de que as pessoas querem o controle das suas próprias vidas e melhorar a qualidade da vida comunitária. O espírito do novo localismo norte-americano - a auto-suficiência, a colaboração e a participação - surge assim deste resumo de todo o processo de evolução da gestão auto-participada dos moradores nos Estados Unidos.
DUAS NOVIDADES SOBRE ECOLOGIA DO TRABALHO
De dois autores já anunciados em edições de língua portuguesa - Illich e Schumacher - duas novidades nos chegam de França: em "Good Work", E.F. Schumacher vai mais longe na crítica à sociedade industrial e ajuda-nos a responder a perguntas tais como: " Que podemos fazer? Por onde começar?". Em " Le Chômage Créateur", que Illich sub-intitula "posfácio è convivialidade", encontram-se minuciosamente expostas as teses alternativas ao fenómeno "desemprego" que Michel Bosquet, inspirado no filósofo de Cuernavaca, divulgara em «Le Nouvel Observateur" e de que as edições "Frente Ecológica", em Portugal, se fizeram eco num pequeno caderno sobre "Ecologia e Descanso - será o Desemprego uma força revolucionária?".
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<illich-4> os dossiês do silêncio – ecoleituras – para a história da ideia ecológica – lido, com música, aos microfones da RDP, no programa semanal de ecologia que por ali mantive – a data precisa desta crónica é a do congresso internacional de educação nela referido
IVAN ILLICH
E EDGAR MORIN EM LISBOA
1980? - Entre os acontecimentos que podem dar maior alegria aos ecologistas portugueses, citamos hoje, a abrir, a presença em Portugal, num Congresso Internacional de Educação promovido pelo Instituto Piaget, de figura mundialmente conhecida e discutida que é Ivan Illich, pedagogo, filósofo, profeta da nova sociedade pos-industrial.
Ivan Illich fundou no México, em Cuernavaca, o CIDOC, Centro Intercultural de Documentação, de onde irradiou, durante muitos anos, a contestação mais radical à sociedade tecnológica e suas alienações.
Em Março de 1976, no entanto, Ivan Illich teve de extinguir o CIDOC, vendo-se a braços com uma situação insustentável.
As dificuldades financeiras tiveram um papel determinante no fim do CIDOC, duplamente ameaçado pela recessão e pela inflação mundiais. Primeiro devida à grande subida do custo de vida, estes últimos anos, no México. Depois por os estudantes, que frequentavam o CIDOC, terem cada vez maiores dificuldades em abandonar as universidades dos seus Países e viajar por conta própria.
Claro que muitas instituições teriam estado interessadas em garantir financeiramente a continuidade do CIDOC, mas a preço de quê? Até que ponto a independência de Illich ficaria comprometida?
Entre a morte da instituição e a perda da sua autonomia espiritual, Illich faz uma escolha que é, no fundo, o retrato da sua mais profunda personalidade.
Claro que não foi fácil para este homem difícil uma tal decisão. Ele dera ao CIDOC tudo: tempo, inteligência, energia e, principalmente, ele sacrificara a sua anterior condição de padre e prelado da Igreja, para se dedicar a este outro apostolado, o da Educação.
Mas não é a altura de contar aqui a carreira exemplar de Ivan Illich, sempre obediente à lei da sua consciência, fossem quais fossem as pressões e os riscos que corria.
Lembremos apenas, porque o tempo é pouco, que Ivan Illich escreveu livros fundamentais para a libertação do homem e para a construção da sociedade pós-industrial, sem esquecer as sociedades que se encontram ainda na fase pré-industrial do crescimento. Ao optar pelo México, aliás, ele deixou claramente evidenciado que a sua utopia tem bases na realidade concreta do mundo actual.
Nos seus livros ele propôs um mundo de tecnologias alternativas e de formas de vida que se desenvolvem no respeito à identidade dos povos, das etnias e das culturas, na convivialidade inter-cultural de todas as diferenças, sem o respeito das quais não pode existir unidade da espécie humana.
Nos seus livros, ele criticou os sistemas que alienam o homem e destroem os ecossistemas do Planeta Terra. Começou pelo sistema de ensino - onde as suas teses sobre cultura e analfabetismo ainda hoje soam a heresia - levando progressivamente a sua contestação à energia, à medicina e a outros sistemas que sustentam o actual status quo mundial de guerra permanente.
A obra de Ivan Illich está largamente traduzida em português, basta-nos salientar aqui dois títulos importantes: " Os Limites de Medicina" e "Libertar o Futuro".
Um outro ensaísta, Michel Bosquet, que levou ainda mais longe as teses de Ivan Illich, tem também duas obras de fundo editadas no nosso País: " Ecologia e Política" é uma delas e, mais recentemente, " Ecologia e Liberdade", dois livros que retomam as raízes de Ivan Illich, propondo alternativas de vida às sociedades fechadas do nosso tempo.
Illich inaugura uma pedagogia da pessoa humana que, muito próxima de Paulo Freire e da corrente personalista de Emanuel Mounier, introduz, no entanto, os dados fundamentais de uma moral energética, fundamento não utópico mas realista de um mundo onde a dignidade e os direitos de consciência dependem clara a directamente do respeito que o homem tiver pelos direitos da Natureza e da Ordem do Universo. Doutrina tão antiga como o Mundo e que está contida no segundo princípio da Termodinâmica.
Também Edgar Morin vai estar presente neste Congresso Internacional de Educação a decorrer em Lisboa e também Edgar Morin deu um contributo fundamental ao despertar da consciência ecológica contemporânea.
O seu itinerário de pensador inquieto - da Sociologia à Antropologia, da Política à Ética - é a busca de uma verdade que o mediato histórico por vezes oculta na sua excessiva proximidade. É preciso recuar, às vezes, para ver melhor o conjunto da frase...
Sem uma futurologia ecológica não é possível imaginar uma pedagogia humanista que desde logo não seja anacrónica e não fique ultrapassada.
Preparar as novas gerações - mas para que Mundo? O que temos, ou o que desejamos?
Edgar Morin, tal como Ivan Illich , é ponte de passagem para uma sociedade alternativa e diversificada, onde o direito à diferença está , desde logo, inscrito como um dos direitos fundamentais do homem, tal como o destino do homem futuro se inscreve nos seus genes.
Os ecologistas vivem longos períodos de hibernação. Meses e meses, ninguém ouve falar desses piolhos verdes, que alguns consideram praga e outros benção.
De vez em quando há sinais de que ainda vivem. De vez em quando, o correio ou o telefone trazem uma mensagem. Às vezes a mensagem vem por telepatia, como aconteceu na recente visita a Portugal de Divaldo Pereira Franco, o mais célebre orador da actualidade.
Os ecologistas , portanto, não dormem. Pelos vistos, apenas hibernam. A sua função de "sementes para um mundo novo" (função agrícola) e a sua condição de "sal da terra" (função de condimento e culinária) não lhes permite um surto espectacular à luz do dia. Até porque há coisas mais imediatas em que pensar.
Os ecologistas são minorias, grupos de elite, que continuam, na sua oficina de alquimistas, a trabalhar apenas para salvar o Planeta. E provável que nem sempre encontrem as melhores condições ecológicas para desabrochar. E é nesses casos que a semente, em vez de germinar, hiberna. Na próxima semana iremos ver como é, para contar como foi.
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<illich-5> os dossiês do silêncio – ecoleituras – para a história da ideia ecológica
IVAN O TERRÍVEL,
PROFETA DAS ALTERNATIVAS
Outubro de 1980 - (este texto duplica parte do que foi digitalizado em <illich-4> ) - Em Outubro de 1980, esteve em Portugal, para participar no Congresso Internacional de Educação, promovido pelo Instituto Piaget, a figura mundialmente conhecida e discutida que é Ivan Illich, pedagogo, filósofo, profeta da nova sociedade pós-industrial.
Ivan Illich fundou no México, em Cuernavaca, o CIDOC, Centro Intercultural de Documentação de onde irradiou, durante muitos anos, a contestação mais radical à sociedade tecnológica e suas alienações.
Em Março de 1976, no entanto, Ivan Illich teve de extinguir o CIDOC, vendo-se a braços com uma situação insustentável.
As dificuldades financeiras tiveram um papel determinante no fim do CIDOC, duplamente ameaçado pela recessão e pela inflação mundiais. Primeiro devido à grande subida do custo de vida, estes últimos anos, no México. Depois, por os estudantes que frequentavam o CIDOC terem cada vez maiores dificuldades em abandonar as universidades dos seus países e viajar por conta própria.
Claro que muitas instituições teriam estado interessadas em garantir financeiramente a continuidade do CIDOC, mas a preço de quê? Até que ponto a independência de Illich ficaria comprometida?
Entre a morte da instituição e a perda da sua autonomia espiritual, Illich fez uma escolha que é, no fundo, o retrato da sua mais profunda personalidade.
Claro que não foi fácil para este homem difícil uma tal decisão. Ele dera ao CIDOC tudo: tempo, inteligência, energia e, principalmente, ele sacrificara a sua anterior condição de padre e prelado da Igreja, para se dedicar a este outro apostolado, o da Educação.
Mas não é altura de contar aqui a carreira exemplar de Ivan Illich, sempre obediente à lei da sua consciência, fossem quais fossem as pressões e os riscos que corria.
Lembremos apenas, porque o tempo é pouco, que Ivan Illich escreveu livros fundamentais para a libertação do homem e para a construção da sociedade pos-industrial, sem esquecer as sociedades que se encontram ainda na fase pré-industrial do crescimento. Ao optar pelo México, aliás, ele deixou claramente evidenciado que a sua utopia tem bases na realidade concreta do mundo actual.
Nos seus livros ele propôs um mundo de tecnologias alternativas e de formas de vida que se desenvolvem no respeito à identidade dos povos, das etnias e das culturas, na convivialidade inter-cultural de todas as diferenças, sem o respeito das quais não pode existir unidade da espécie humana.
Nos seus livros, ele criticou os sistemas que alienam o homem e destroem os ecossistemas do Planeta Terra. Começou pelo sistema de ensino - onde as suas teses sobre cultura e analfabetismo ainda hoje soam a heresia - levando progressivamente a sua contestação à energia, à medicina e a outros sistemas que sustentam o actual status quo mundial de guerra permanente.
A obra de Ivan Illich está largamente traduzida em português. Basta-nos salientar aqui dois títulos importantes: "Os Limites da Medicina" e "Libertar o Futuro".
Um outro ensaísta, Michel Bosquet, que levou ainda mais longe as teses de Ivan Illich, tem também duas obras de fundo editadas no nosso País: "Ecologia e Política" é uma delas e, mais recentemente, "Ecologia e Liberdade", dois livros que retomam as raízes de Ivan Illich propondo alternativas de vida às sociedades fechadas do nosso tempo.
Illich inaugura uma pedagogia de pessoa humana que, muito próxima de Paulo Freire e da corrente personalista de Emanuel Mounier, introduz, no entanto, os dados fundamentais de uma moral energética, fundamento não utópico mas realista de um mundo onde a dignidade e os direitos de consciência dependem clara e directamente do respeito que o homem tiver pelos direitos da Natureza e da Ordem do Universo. Doutrina tão antiga como o Mundo e que está contida no segundo princípio da termodinâmica.
PELA ISCA (DA FALSA FARTURA) MORRE O CONSUMIDOR
(parcialmente já reproduzido em file da série illich) - Retomando as teses de Ivan Illich, os sociólogos Jean-Pierre Dupuy e Jean Robert, ambos investigadores do CEREBE (Centre de Recherches sur le Bien Etre) têm a preocupação e a petulância, no seu novo livro publicado em Paris - " La Trahison de l'Opulence" - de corrigir o mestre, andar mais na Sociologia do que na Utopia. Principalmente, eles não querem cair na armadilha a que as "ultrapassagens" do marxismo podem levar os menos lestos. Dessas titânicas e ambiciosas démarches têm resultado "derrapagens" perigosas e " uma regressão teórica e estratégica" do marxismo, como assinala Patrick Viveret, no "Le Nouvel Observateur"
Por outro lado, viu-se que o "desenvolvimento das forças produtivas" conduz, em certos casos, a fenómenos de contra-produtividade: o sistema médico (produzindo mais doenças do que as que cura...) e o sistema de transportes (afastando as pessoas em vez de as unir...) foram dois campos analisados exaustivamente por Ivan Illich e retomados no livro dos dois sociólogos de Paris.
Quer dizer: a crítica marxista ao capitalismo é necessária mas insuficiente. Mas as críticas pós-marxistas como a de Illich, mostram-se perigosas. Não escapam elas ao reconhecimento de que a "mercadoria" está no centro do totalitarismo que se observa no capitalismo industrial, por mais liberais e democráticas que se digam politicamente essas "ditaduras".
O "progresso" mata tanto no capitalismo como no socialismo. Ora sendo o progresso um mito intangível da teoria marxista, vemos de que modo os sociólogos se encontram aflitos para conciliar este progresso que mata (e aliena, manipula, corrompe, intoxica, etc) com o marxismo clássico. Sem alternativas de vida viáveis, temos os sociólogos chamando utopistas aos que pensam, sonham, constroem essas alternativas.
Contradições como estas duas, tornam incurável a medicina, imoral a moral reinante, deseconómica a economia vigente, em suma, utópica a sociedade que temos e realista a que temos que ter, caso queiramos (sobre)viver. Ivan Illich está vingado...
O anonimato da "ditadura" ou dos mecanismos que agem como tiranias subliminais nas fluidas democracias do consumo, é outro aspecto que aflige os autores: quando o inimigo deixa de ser a classe patronal ou outra entidade concreta para se transformar no "mercado", no "plano" ou no "partido", as coisas complicam-se, e complicam-se definitivamente quando a vítima se torna carrasco de si própria através das tais diabólicas engrenagens anónimas. Todos accionamos o mecanismo que nos tritura, inclusive o ilustre sociólogo quando faz sociologia.
" A Traição da Opulência" não é só título do livros. Com a isca do consumo e da pseudo fartura, ata-se o consumidor à pedra que o levará para o fundo. Quando o petróleo se tornou irreversível e uma "necessidade" para milhões de consumidores, estes são informados de que o petróleo matará o Globo Terrestre e de que serão eles, consumidores, os culpados enquanto consumidores que dependem 70% dele e dos produtos dele derivados.
Eis a traição.
IVAN ILLICH, VIAGEM AO UNIVERSO HUMANO
Se o ar e a água já têm hoje os seus advogados de defesa na administração pública, a "imperiosa necessidade" de recuperar o direito a habitar de uma maneira activa o meio ambiente", só é reivindicada até agora por movimentos cidadãos.
Assim escreve Ivan Illich no artigo em língua espanhola intitulado "La reivindicación de la Casa", publicado inicialmente no jornal "'El País" de Madrid (5 de Junho de 1983) e posteriormente difundido pelo Centro de Cuernavaca, México.
É este um dos últimos documentos da série "Tecno-Politica" (Apartado 479 - Cuernavaca - México) que Valentina Borremans organiza e regularmente nos envia.
Da autoria de Valentina Borremans recebemos também a comunicação ao colóquio realizado em Bruxelas (27 /Setembro/1982) sobre Tecnologia Apropriada.
Na sua órbita em torno do universo humano, as preocupações de Illich apontam agora para a casa, para o sistema ''habitação'', logo após um período em que intensivamente analisou o que ele chama "trabalho-sombra" e, no seu livro mais recente, o "género vernacular", abrangendo temas como o da "economia paralela" ou sector "quaternário da economia", na sequência do sector terciário ou de serviços em que o sistema vigente se considera dividido.
A obra sobre este sector "quaternário" da economia, encontra-se já editada em língua francesa, na editora Seuil, com o título ''Le Genre Vérnaculaire".
Criticando a "habitação" actual, Ivan Illich não lhe chama casa mas garagem, naquele seu estilo tão peculiar com cheiro a utopia. De qualquer modo, o sonho de Illich toca a realidade, quando nos lembramos que a palavra Ecologia, tal como a palavra Economia, têm um radical comum - eco - , prefixo que significa exactamente "casa" , "habitação" . Estará Illich chegando , como num círculo perfeito, ao ponto de partida da sua viagem ao universo humano?■