1-3 <alberon-md-1-3>quinta-feira, 6 de Novembro de 2003
1-2 < 92-07-09> -leituras – ideia ecológica
7036 caracteres <alberoni><diario>
9-7-1992
ALBERONI CONTRA BARBÁRIE TECNOLÓGICA
FILÓSOFO DO SENSO COMUM AINDA ALIMENTA POLÉMICA
Na lista dos livros que aguardam recensão noticiosa, o ensaísta e sociólogo italiano Francesco Alberoni tem prioridade de passagem.
«Best seller» da Bertrand, verdadeira galinha dos ovos de ouro para o editor que nele apostou, vê sucessivamente reeditados os seus títulos já traduzidos em português e sempre com renovado êxito. Acaba agora de sair a sua obra de fundo e de mais largo fôlego: «Génese».(*)
Mas se o pensador italiano caiu no goto do público, o mesmo não se poderá dizer das élites que, segundo parece, o detestam, sabe-se lá por que razões do inconsciente colectivo. André Lepecki, por exemplo, no jornal «Público», embora lhe dedique uma página, só vê equívocos, tautologias e truísmos no popular autor.
No jornal «O Independente», com aquela ligeireza tão nossa conhecida, D. Ana Isabel Bastos classificava o livro na habitual rubrica «O pior» e terminava a sentença com esta lapidar piada de caserna: «a obra magna da prosápia por este Júlio Roberto da filosofia». De prosápia, afinal, sabem, os jovens que, mal saídos das fraldas, começam a julgar a torto e a direito, donos do mundo e de quem cá anda.
Sendo Alberoni sociólogo de movimentos sociais e não de brotoejas individualistas como estas, lamenta-se que não venha a incluir nos seus estudos casos tão típicos e exemplares da nossa etnografia intelectual. Mas matéria-prima é o que não lhe falta na actual paisagem sócio-cultural portuguesa. Ele teria, como investigador de patologias profundas, boa matéria de análise nestas reacções do actual «pathos» criptocrítico e criptogâmico.
A reacção dos intelectuais de serviço a Alberoni pode significar não só uma certa «dor de cotovelo», mas um incómodo profundo às vagas de fundo que ele desvela. Assim como o medo guarda a vinha, guarda também a falta de talento e de ideias que pode estar por detrás dela.
Ora, Alberoni, que se limita a ensaiar hipóteses para definir teses que interpretem factos -- unicamente com o objectivo de encontrar aquilo que permanece para lá do que muda, a essência para lá das aparências, o universo para lá do diverso --, é claro como água, explica e simplifica em vez de complicar, tem ideias em vez de vender teorias.
Por isso, o estatuto de elite hermética não lhe gruda. Ora, tudo isto são motivos suficientes para o «gang» da chamada filosofia «hardcore» no activo não gostar dele. Como se sabe, a glória de muitos ensaístas faz-se exactamente na base de ninguém os (poder) perceber. Ainda hoje, nos círculos académicos da nossa «inteligentzia», a condição «sine qua non» de se passar por inteligente é ser ininteligível.
O que explica, muito boamente, as raivas contra Alberoni, que simplesmente se limita a pensar e a dizer, com clareza meridiana, para toda a gente entender -- e não só os entendidos ou especialistas -- o que pensou. Filósofo do bom senso e do senso comum? E vai daí? Quem decretou que era proibido?
FUNDAMENTALISMO ECOLÓGICO
Com esta sua obra de fundo, «Génese», Francesco Alberoni traça um quadro dos movimentos sociais através da história, não já e apenas numa focagem ensaística, monográfica e parcelar, mas de largo fôlego, global e sistemática, mostrando a árvore da abjecção contemporânea desde as raízes, pelo lado das correntes que se lhe têm oposto e resistido. Correntes que hoje confluem no «fundamentalismo ecológico»... Na ronda que efectua pelos movimentos de oposição e resistência que floresceram na Europa (e nem só) e para chegar, no último capítulo, à definição de ecologismo, o autor historia antecedentes e raízes culturais que o fizeram deflagrar (explodir).
Continua por definir o ecologismo como ideologia política, mas o livro de Alberoni dá um dos mais valiosos contributos. Depois de tantos ecoequívocos e ecotravestis, é a primeira vez que vemos um homem de pensamento inscrever o ecologismo no contexto cultural profundo que lhe pertence, como análise e discussão dos próprios conceitos de progresso e civilização: quer dizer, a ecologia como ciência subversiva de todas as ciências; a alternativa ecológica como tecnologia apropriada, limpa e nacional que torne obsoletas todas as energias e tecnologias pesadas e poluentes; o realismo ecologista como dialéctica que ultrapassa a utopia tecnocrática de partidos, ideologias e estratégias (de paz ou de guerra). Finalmente, a análise ecológica como crítica da barbárie tecnológica e uma proposta de civilização sem aspas.
OS «APANHA-BORBOLETAS»
Ecologistas, a esta luz, e como Alberoni os enquadra, deixam de ser os «apanha-borboletas», os «amáveis terroristas» e os «díscolos» que têm querido fazer deles (como as esquerdas estalinistas badalavam na década de 70); deixam de ser os «alarmistas», «utopistas», «reformistas» e «reaccionários» (infâmias que esquerda e direita, leste e oeste, lhes têm propincuado); deixam de ser as caricaturas que tecnocratas e economistas deles desenharam, para serem apenas o que são e o que sempre foram na profecia e na palavra dos seus precursores: a vanguarda cultural da civilização.
Conforme Alberoni torna transparente, o movimento ecológico sempre existiu, levando hoje esse nome «restritivo» a corrente de fundo que, através da história, resistiu, na clandestinidade, às vezes como ciência oculta, contra sevícias e desmandos do chamado progresso. Progresso a que alguns sempre chamaram «barbárie tecnológica», como hoje está aí à vista na perfeição científica e tecnológica conseguida pela guerra dos «ataques cirúrgicos».
Sempre houve movimentos que se opuseram à lógica de morte em nome de uma lógica da vida. Afinal o ecologismo não é nenhuma novidade. Verdadeiro ovo de Colombo, como Alberoni mostra com meridiana clareza, o ecologismo é mesmo feito de evidências e redundâncias. Mas, como dizia o romancista e dramaturgo suíço Max Frisch, falecido há semanas em Zurique, «estamos num triste tempo-e-mundo em que é preciso lutar pelas evidências».
À lupa dos ecologistas, já em 1973, no primeiro grande choque petrolífero, era óbvio onde a barbárie tecnológica nos levaria. Era óbvio o que iria acontecer.
Mas o fascismo tecnológico, aliado dos ecofascismos «verdes» que entretanto surgiram, como gigantescos travestis, preferiu amarrar as ecoestratégias, nomeadamente as energias limpas, calá-las, inutilizá-las, metê-las no gueto, deixando-nos estrangulados pela monodependência do petróleo.
Esta guerra (que foi a penúltima antes do apocalipse...) ficou com data marcada desde a crise do Kipur, em finais de 73. Queriam o quê? O que veio exactamente a suceder. Só não podem dizer que, desde 1973, ninguém avisou. Pelo preço (em vidas e genocídios) a que nos começa a ficar o petróleo, será que as mil energias e tecnologias limpas ainda não são rentáveis, como os Veiga Simão todos andaram a proclamar estes 18 anos?
E será que ainda não é o momento de fazer de livros como o de Alberoni o
manifesto de uma nova civilização contra a barbárie?
-----
(*) «Génese», Francesco Alberoni, Bertrand Editora
+
1-1 < 91-04-23-ls> leituras do afonso
23-04-91
<alberon2>
ALBERONI 2
Filósofo do bom senso e do senso comum, é agora evidente que a camarilha dos críticos autopromovidos o quer pôr fora da circulação.
Ao historiar as vagas de fundo que dão rumo à história, torna-se incómodo a certa gente, que vê denunciadas as raízes da abjecção de que abundantemente se alimentam e em que abundantemente dejectam.
+
1-1 < 90-08-22-ls> leituras do afonso
<alberon3>
ALBERONI 3
O SENTIMENTO ESTÁ NA MODA(*)
22-8-1990
[(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital» , «Leituras de Verão», em 22 de Agosto de 1990 ]
Francesco Alberoni é aquele autor que todos acabamos por ler em livro, às escondidas ou às claras, se por acaso não o lemos já e também, regularmente, na sua coluna semanal do «Diário de Lisboa».
De facto ele aborda as questões que todos os seres humanos «sentem» como fundamentais e aborda-as de uma forma que, não sendo vulgar nem superficial, também não é erudita nem solene. Investigador dos «movimentos sociais», Alberoni tem a arte de nos falar da gente como gente, sem cinismos de niilista, sem fantasias de telenovela, sem preconceitos de erudito, sem hermetismos doutorais de filósofo encartado.
Mas também não cabe no rótulo restritivo de simples divulgador dos outros autores ou de mero publicista. Ele é criativo, na medida em que investiga a alma humana, embora por caminhos academicamente pouco ou nada ortodoxos.
Por isso e muito justamente, as reedições dos seus livros(*), mesmo em português, sucedem-se. Seja «Enamoramento e Amor» (sétima edição), seja «A Amizade» (também já em sétima edição), seja «O Erotismo»(4ª), seja «O Altruísmo e a Moral» ou «Público & Privado» (3ª), a obra de Alberoni não cessa de interessar sucessivas vagas de leitores, aliciando-os não pelo que neles haja de mais rasteiro ou medíocre mas exactamente pelo contrário: por aquilo que há neles - o coração - de mais nobre e precioso.
Deve ser o último dos moralistas, no sentido em que se dizia que Romain Rolland era o último dos românticos. Mas a julgar pelo redemoínho de interesse que se polariza em torno dos livros de Alberoni, de certo modo herdeiro das ilusões místicas e anti-niilistas, a julgar pelas camadas de leitores que este novo «romântico» sucessivamente vai conquistando, o romantismo encontra-se não só de boa saúde como está cada vez mais na moda, jovem e cheio de vida, enquanto os académicos dos novos terrorismos mentais, sempre prontos a proclamar a morte dos sentimentos e da imaginação, não deixaram de ser o que sempre foram: nados-mortos.
No momento em que, perante uma estante cheia de títulos e autores, à espera
de vez, se depara ao leitor o grande embaraço da escolha - qualquer livro de
Alberoni, mesmo em releitura ou em reedição, é a solução: desempata qualquer
embaraço, resolve qualquer problema de escolha. Daremos sempre por bem empregado
o tempo em que o lemos.
----------
(*)Obras de Francesco Alberoni, editadas pela Bertrand
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital» , «Leituras de Verão», em 22 de Agosto de 1990 ■