<verdes-1> ecorealismo – mein kampf – entrevista-testamento-> revisão da matéria - sábado, 13 de Julho de 2002
PARA QUE SERVEM OS VERDES? (*)
Ao grito de guerra da tecnologia - mais, mais, mais - os «verdes» contrapõem a exigência do planeta e da humanidade: melhor, melhor, melhor.
15/11/1981 - Além de protestar contra a poluição, sem que ninguém lhes dê ouvidos, estarão os «verdes» condenados a desempenhar uma função meramente decorativa e paisagística?
Têm ou não os ecologistas um espaço político próprio, independente, que possa permitir aos cidadãos canalizar críticas e descontentamentos que todas as outras formas de reivindicação organizada já não satisfazem?
Têm ou não os ecologistas capacidade para apresentar «alternativas de qualidade», num quadro político onde todas as forças em presença professam, da direita à esquerda, a religião do número, uma economia exclusivamente de quantidade?
É ou não possível levar à prática o salto qualitativo que os ecologistas defendem em todos os campos da vida, exigência que exactamente os distingue e demarca de todos os quadrantes políticos organizados, sejam ou não parlamentares?
Enfim, como poderão os «verdes», nas freguesias onde residem, ser o fermento de um mundo novo, os enzimas de uma mudança qualitativa, as vozes dos que não têm tido voz, os interlocutores conhecidos e reconhecidos com o poder local estabelecido?
Que poderão as «verdes» fazer na terra onde residem, para mudar a vida e transformar o Mundo?
INIMIGO PRINCIPAL E FRENTES SECUNDÁRIAS DE LUTA
O caso das «poluições instaladas» é o mais flagrante exemplo dos combates que já estão perdidos à partida.
É, portanto, o exemplo de uma luta que os ecologistas devem colocar em linha secundária das suas prioridades.
Muitos já perceberam - se porventura têm estado atentos à realidade e à prática, de alguns portugueses - que as lutas travadas contra a poluição já instalada são não só ignoradas como desviam os «verdes» do inimigo principal.
De facto, as energias dos que lutam na frente ecologista, devem ser reservadas e canalizadas para o alvo principal, não se deixando os verdes distrair com alvos secundários.
A poluição (já instalada) é um desses alvos secundários. Até porque compete aos organismos oficiais do Ambiente tratar desses problemas e resolvê-los.
Para os ecologistas, eles são antes uma forma de distrair ou intoxicar as atenções. De como a árvore pode encobrir a floresta.
As fábricas que já se encontram instaladas, não vão sair de lá, por mais protestos que as populações apresentem, por mais queixas que sejam formuladas.
Mas atenção: não significa que tais lutas não devam ocupar o lugar relativo num contexto estratégico coerente, que nunca pode nem deve perder de vista onde está o inimigo principal e onde estão os inimigos secundários.
As atenções dos verdes devem, por exemplo, concentrar-se no «que está para vir» - isso sim, ainda pode ser evitado - no que se planeia, no que se promete regra geral como um grande progresso e desenvolvimento para a localidade.
Os «postos de trabalho» que vai criar é, regra geral, o grande argumento para instalar uma indústria destruidora.
É sobre os «planos de desenvolvimento» que os verdes deverão ter a maior atenção e agir a tempo. Conhecer a fundo que tipo de indústrias se tencionam instalar. Que quantidade de água e de energia vão gastar essas indústrias. De que maneira vão ser alterados os hábitos da vida local. Até que ponto a independência dessa vida local será comprometida. Que problemas de segurança e de silêncio colocam as indústrias previstas.
Comparado ao que já está, o que se prepara para vir é que deve ser a grande preocupação do ecologista.
DEFINIÇÃO PELA NEGATIVA - ACÇÃO PELA RESISTÊNCIA PASSIVA
A função dos verdes define-se bastante pela negativa.
Pela resistência à destruição e aos vandalismos.
Pela oposição que consegue manter aos quadros ideológicos vigentes veiculados pelas organizações políticas dominantes.
Pelo espaço alternativo que, nesta posição de resistência, acaba necessariamente por criar.
A proposta de «Alternativas de Qualidade» é, de facto, a grande função informativa dos verdes.
Na energia, na alimentação, na agricultura, na economia, na educação, nos consumos, nos tempos livres é a qualidade mais do que a quantidade o que tem de mudar.
É na qualidade que os eco-activistas são radicais. É pela defesa da mudança qualitativa que eles se distinguem e demarcam de todas as ideologias vigentes e dominantes.
São, se quiserem e como metáfora, o «Partido da Qualidade», face a todos os partidos que professam a religião do Número, da Quantidade, do Crescimento.
Ao grito de guerra de toda essa tecnocracia enraivecida - mais, mais, mais - respondem os verdes com o grito de guerra exigido pelo Planeta e pela Humanidade inteira: melhor, melhor, melhor.
PROCURA OS ALIADOS NATURAIS
Se pensam desenvolver um trabalho de animação ecologista no local, devem os verdes procurar não só os que pensam de maneira idêntica mas dos que visam objectivos semelhantes.
Devem procurar os que, na freguesia, se encontram mais afins das suas posições.
São aliados naturais dos verdes os desempregados, os jovens à procura do primeiro emprego; os reformados; os sem partido; o militante de movimentos proteccionistas e conservacionistas; os comités de antipoluição, os escutistas; os elementos ligados a colectividades culturais e de recreio ou a associações de defesa do Património Cultural; últimos representantes de artes, oficios e indústrias artesanais; comités de acção antinuclear; comissões de moradores; cooperativas de produção e de consumo; grupos ou associações em defesa do consumidor; enfim, a Pessoas Humana em geral é a grande e melhor aliada dos verdes!
Se os problemas ecológicos são de facto planetários e ultrapassam as fronteiras por ter dimensão internacional, a verdade é que a acção concreta, a animação e o trabalho de campo se devem realizar no âmbito da freguesia.
Os casos que os ouvintes e leitores levantam são quase sempre casos pontuais de poluição já instalada. A luta pela vida e pela qualidade, porém, não se esgota em casos mais ou menos graves de poluição já existentes.
Acontece mesmo que a destruição ecológica se faz e pode fazer mesmo que haja poluições visíveis ao cheiro e aos sentidos.
DEFINIR A FISIONOMIA LOCAL
Para o trabalho de inventariação ecológica da freguesia devem os verdes recorrer às fontes documentais próximas e afastadas: a biblioteca municipal ou distrital, será o caso mais frequente.
Aí devem os verdes procurar monografias que contenham dados para a definição da fisionomia ecológica local.
Não necessita de ser um trabalho erudito ou exaustivo, mas lúcido e elaborado com espírito crítico.
As Câmaras ocultam, regra geral, as informações sobre pontos de água, mas os verdes têm o direita de exigir esses e outros dados que, através dos Serviços Cartográficos do Exército, fazem parte do património documental da Câmara mas que esta, alegando sigilo ou mesmo segredo (de estado... ), normalmente afasta dos olhos curiosos.
Colher informações que os serviços oficiais regra geral negam e sonegam é, portanto uma das grandes funções dos verdes.
Saber junto das autarquias ou dos organismos centrais quais são os planos a médio e longo prazo para a região, é a grande « missão» dos ecologistas.
No campo da prospectiva ecológica - da futurologia - o trabalho informativo, procurando saber o que ao sistema convém ocultar - é o campo de acção privilegiado dos verdes.
Descobrir e fazer circular a informação antes que seja tarde e que o irremediável se consume, é verde.
É também verde e ainda função informativa, coligir dados que caracterizam ecologicamente a região: temperatura, pluviosidade, radiação solar, etc entre os dados climatéricos; povoamento florestal. linhas de água, lençóis subterrâneos, variedade morfológica e geológica, etc, entre os dados biofísicos; artes e ofícios, literatura oral, hábitos e costumes que definem a fisionomia tradicional da região entre os dadas culturais.
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(*) Publicado no «Jornal do Caçador», Nº 126, 15/11/1981 ☼