1-3 - <73-06-05-ie-mk> terça-feira, 3 de Dezembro de 2002-scan
TRISTES RECORDAÇÕES
DE UM DIA MUNDIAL (*)
[ 73-06-05] - Entre os vários e distintos oradores que, por dever de ofício, tive ensejo de ouvir e devidamente apreciar durante as comemorações do Dia Mundial do Ambiente, em 1973, o Dr.. Arnaldo Sampaio, Director-Geral de Saúde, foi o único a deixar-me optimista. O único que não desiludiu a esperança de alguma coisa se ir modificar na mentalidade com que temos vindo a proceder em relação à vida e aos fenómenos da vida, na sua inter-relação complexa com o Ambiente.
Se até aqui a mentalidade dominante o que fez foi separar os dois mundos - Ambiente a um lado, Homem a outro - a grande reviravolta consiste precisamente em recusarmos essa separação e com a Ecologia reformularmos tudo de novo à luz dessa indissolúvel unidade.
Mau grado o «absoluto optimismo» com que Monsieur Philippon (orador convidado às comemorações e alto funcionário do Ministério do Ambiente francês) classificou a política do seu País nesse domínio, mau grado a Era ecológica a que ele se referiu e à completa mutação de consciência em que os últimos acontecimentos nos mergulharam, a mentalidade que verificamos ainda existir em certos especialistas (que continuam profundamente empenhados na separação abismal dos dois mundos - Ambiente e Homem, a pretexto de objectividade científica), abordando com uma cínica calma aquilo que eles próprios minimizam sob a designação de «poluentes» para aqui e de anti poluentes para acolá, deixou-me verdadeiramente aterrado, mais do que surpreendido.
Evito citar nomes dos que mais me aterrorizaram, esperando apenas que essa raça de técnicos míopes que nos conduziu ao caos actual não continue a prevalecer e que o seu especialismo, o seu dogmatismo dito científico, a sua « objectividade» que é apenas escapismo e desculpa para não enfrentar de frente e na globalidade os problemas que só existem globalmente e para se furtarem aos compromissos de uma ideologia radical, - estejam em vias de desaparecer, trucidados pelos acontecimentos. De contrário, são eles quem nos conduzirá definitivamente ao charco; precisamente porque nada mudou na mentalidade que lá nos conduziu, antes pelo contrário.
Levar uma noite inteira, perante uma assembleia que, inquieta, espera notícias claras e urgentes sobre o Apocalipse ecológico, a discutir mecânica de fluidos, dispersão de efluentes, taxas máximas admissíveis de toxicidade, até onde e como se pode poluir o resto que resta desta imundície toda, deixa francamente pessimista e desesperado o mais pintado.
Perante uma tal minúcia de poluentes, quem pode acreditar numa alternativa inteligente e humana, numa saída possível para este impasse de porcaria em que já estávamos mas onde se empenham em nos afundar ainda mais?
Se alguma coisa tem de mudar e de raiz e depressa é esta microcefalia dita científica, o coisismo técnico, a soberba dos computadores que podem, sabem e querem tudo.
Se alguma coisa tem de mudar é esta esperança cega no computador e de que só ele resolve o que a inteligência e a imaginação do homem nunca poderão, porque os computadores nos classificam de empiristas e de cálculos qualitativos. É o cúmulo!
Se a polémica tem de estalar, pois que seja aqui e já, nesta antinomia de base: ecologia contra poluentes. Quem está de um lado, não pode estar do outro e reciprocamente.
Voltando à exposição do Dr. Arnaldo Sampaio, um dos poucos oradores além do Eng.. Correia da Cunha e do Dr. Marcelo Rebello de Sousa, onde se vislumbra o desejo, embora inseguro, de mudar, frisou, ele suficientemente que já hoje é universalmente admitida a causalidade ambiencial no desencadear da doença.
Segundo os neo-hipocráticos, essa tese já vem de Hipócrates... e ontem como hoje a tese de que 90 %. das doenças são doenças de Ambiente, não constitui surpresa em si mesma. Surpresa foi, para mim, ouvi-la na boca de um técnico a quem está confiada em Portugal Continental a Direcção-Geral de Saúde, e portanto a Medicina Alopática ou Sintomatológica que, por definição, se opõe a Medicina causal, ambiencial ou ecológica.
Entre os factores ambienciais da doença não é desdenhável o factor medicamentoso, assim como o alimentar (indústria alimentar) e aquilo a que se podem chamar os « alimentos» ou o «consumo provocante» próprio das sociedades de consumo: marijuana, tabaco, chá, café, estimulantes, açúcar, alucinogéneos, estupefacientes, etc
Por certo que o Dr. Arnaldo Sampaio não levou tão longe as suas ilações, mas o que eu pretendo ao tomar a liberdade de as tirar é justificar o meu optimismo, a partir do momento em que vejo, num alto posto da Saúde Pública em Portugal, finalmente admitida a tese mais humanista e mais progressista deste século: a génese ambiencial da Doença. Só não compreende o alcance verdadeiramente fantástico dessa tese quem não possua, mesmo rudimentar, uma teoria geral do Ambiente.
Diga-se, em abono da verdade, que entre os muitos e ilustres oradores do Dia Mundial do Ambiente, também não vislumbrámos que houvesse tal teoria para lá de um pragmaticismo bastante rudimentar e empírico... Esse, sim, empírico.
Sem tal teoria, porém, não há Ecologia nem se abre a porta da tal «era ecológica» de que falou Jean Baptiste Philippon. «A história do ambiente confunde-se com a história do Mundo».
É verdade, mas há que aplicar sempre e em todas as circunstâncias essa extraordinária verdade! Sem ela, sem uma teoria geral do Ambiente que é uma teoria geral da «civilização» onde temos o azar de estar, nada mudará. Porque só muda algo ao nível da estrutura, da raiz. E a estrutura, a raiz é, neste caso, o sistema de mitos a substituir, a alterar, a revolucionar!
O alibi estatístico, o alibi do especialismo, o alibi da tecnicidade e da objectividade, o alibi da ciência a um lado e da ideologia a outro, o alibi da infinita divisão das ciências (a cada um sua especialidade e a responsabilidade para nenhum), enfim, os alibis que cuidadosamente se encontram sumariados, um a um, nuns ensaios de gaveta que talvez sobrevivam ao apocalipse, são os sintomas infelizmente seguros de uma mentalidade retrógrada.
Aos que verdadeiramente querem definir posição é aqui que têm de a definir. O que se prepara com tais alibis, o que se pretende preparar é um mundo onde o terror deste esteja apenas computarizado, é um mundo onde os índices de toxicidade dos poluentes sigam aumentando, matando, adoecendo, sufocando populações, enquanto sobre os cadáveres e os doentes e a vida, os especialistas - talvez de máscara aperrada ao focinho - continuam medindo, medindo, medindo, discutindo acesamente os índices máximos admissíveis, cujas tabelas ainda por cima dizem cada uma o seu e como já se assistiu recentemente em semanário de prestígio, a propósito dos índices que um disse do ar do Barreiro e o outro veio rebater, levando nisso até de manhã!
Ou recusamos este tipo de polémica suicida sobre os nossos cadáveres, sobre a doença dos nossos filhos e sobre a morte institucionalizada porque os computadores a determinaram, ou teremos de facto direito a que nos façam, sob o alibi do número, sob o alibi da ciência, sob o alibi da matemática, sob o alibi do cálculo, sobre o alibi dos computadores (todos espertíssimos e bons rapazes) o lindo funeral em que estão empenhados e que já começaram a fazer-nos.
Sofistas do século XX, devemos saber que estes necrófatas têm resposta para tudo: menos para a posição radical de recusa aos seus dejectos mentais, se começarmos e acabarmos por em bloco os rejeitar Ou eles, ou a vida: eis a escolha, o embaraço da escolha!
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(*) Este texto de Afonso Cautela, que o Afonso Cautela subscreveria com a mesma lata no dia de hoje, foi publicado no livro «Ecologia e Medicina», edição «Gazeta do Sul» (Montijo), 1977, por favor e gentileza do meu inesquecível e querido amigo Dr. Rocha Barbosa, a quem fiquei devendo mil atenções.
(*) Este texto de Afonso Cautela, a que não retiro hoje uma vírgula, foi publicado no livro edição do autor, «Contributo à Revolução Ecológica», Paço de Arcos, 1976 ☻