<trabalho-6> os dossiês do silêncio – ideias para o novo milénio – ecologia e trabalho - VI
A ESCASSEZ FABRICADA(*)
29/10/1988 - Inimaginável, há poucos anos, era que o tempo, esse imponderável, esse bem gratuito, universal e eterno, tivesse dono.
Os proprietários do tempo, aliás, são tão inimagináveis como os da água, do ar, da natureza, da energia solar, bens gratuitos, todos eles, mas que se tornaram em poucos anos propriedade privada das empresas que os exploram.
Como sempre distraídos, os alegados ecologistas ainda não tiveram tempo de ler Michel Bosquet, o nome que André Gorz utilizou para falar dos temas iconoclastas, para radicalizar à esquerda a análise crítica da engrenagem tecno-burocrática.
Também, em séculos mais recuados era inimaginável que a palavra "exploração" fosse alguma coisa mais do que uma aventura bem sucedida nos confins da Natureza ( oceano, deserto, floresta tropical, pólos) e no entanto a palavra "exploração" hoje está carregada de conotações classistas: a exploração do homem pelo homem tornou-se lugar comum e a luta de classes, como se sabe, é o principal deformador do sentido etimológico das palavras, no sentido favorável da classe dominante.
Explorar o espaço, o tempo, a natureza, a energia, a água, o ar, o sol, já se tornou assim lugar-comum deste "tempo-e-mundo", onde a escassez fabricada dos bens à partida gratuitos e universais, determina a breve prazo a sua gestão em termos de rarefacção capitalista.
Talvez o espanto não se justifique, entretanto, agora que surgem os "donos do tempo", até porque, por enquanto, se trata de uma metáfora, aliás simpática, de uma simpática firma de ar condicionado...
Quem primeiro chega, primeiro se avia, e os "donos do tempo", com esta metáfora risonha, estão apenas a sugerir uma realidade não metafórica e já implícita nos procedimentos bem reais e violentos da actualidade laboral.
Como se sabe, um dos primeiros bens gratuitos e naturais a ser "apropriado" - a terra - , constitui afinal o paradigma de todas as posteriores apropriações. Por isso, as chamadas tecnologias apropriadas são hoje a chave para nos libertarmos de escravidões seculares, mostrando que a exploração do homem pelo homem é indesligável da exploração da Natureza e da manipulação do homem pelo homem.
Tão antigo é o fenómeno da "terra como propriedade privada" que a história se construiu praticamente sobre esse truque sublime dos primeiros descendentes de Adão e Eva... Houve mesmo quem proclamasse , com base em S. Tomás de Aquino, que a posse da terra era um fenómeno tão natural e congénito como a cor dos olhos.
A luta dos descamisados pela posse de um centímetro de terra ensanguentou épocas e países inteiros. Às vezes e em circunstâncias particulares, há mesmo mortais que nem sequer ao palmo e meio de terra, o necessário "caixão pra cova", têm direito, como lembra na canção do Nordestino "Morte e Vida Severina", o João Cabral de Melo Neto, para quem o caixão era o latifúndio.
E pronto: aí está a abominável palavra "latifúndio", que se desgastou, depois do 25 de Abril, até ao inverosímil, tornando-se inaudível. Latifúndio, no entanto, como João Cabral de Melo Neto nos conta em "Morte e Vida Severina" , exprime a imensidão da miséria, o abominável da exploração, o cancro que eterniza o "apodrecimento da história" (Lenine).
A famigerada "aceleração da história" e a não menos famigerada "complexidade dos tempos actuais", leit motiv dos divulgadores de terceira (vaga) como Alvin Toffler, talvez resida afinal e principalmente aí: às apropriações clássicas da terra e do trabalho, que desapossaram o indivíduo das suas técnicas de libertação, seguiram-se as apropriações do que era até então inimaginável de ser apropriado, antes da providencial crise ecológica surgir: no que monta aos bens físicos da Natureza, o sol, a água, o ar puro, a harmonia da paisagem, etc.; no que monta aos bens invisíveis, a apropriação das almas, dos sentimentos, das emoções, dos afectos, das inteligências, das vontades, acelerou-se com a "manipulação do homem pelo homem", com a propaganda e a publicidade, o fenómeno mais espectacular do século XX, bem descrito por Jacques Ellul na ''Histoire de la Propagande'' e por Jean Marie Domenach, ensaísta da revista "Esprit", no livro "Propaganda Política".
Súbita memória ilustrada e a cores desse fruto tentador e sumarento que Lenine, Hitler e Salazar , entre outros, sugaram até ao caroço, é a exposição de cartazes da propaganda política do Estado Novo, actualmente na Biblioteca Nacional, em Lisboa.
"Política do Espírito" lhe chamava António Ferro e nunca um slogan político foi tão verdadeiro.
De facto, nunca se viu política do espírito tão perfeita como a "manipulação do homem pelo homem" operada pelos peritos do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) mais tarde Secretariado Nacional de Informação (para aliviar consciências) e mais tarde ainda "mass media", etc.
Mergulhados todos neste magma, submersos pelo oceano da informação, feitos "homem unidimensional", só se conhece um antídoto contra o cerco: a cabeça que produza ideias. Mas não chegou o português ao ponto mais baixo do conformismo, da apatia e da resignação calada?
Essa é pelo menos a tese de Vasco Pulido Valente, na crónica d' O Independente (14.10.1988). Para este cronista ilustre da actualidade política, estamos atolados no pântano da nossa autodegradação, sem sequer dizer ai, com medo de dizer ui.
Ora como Vasco Pulido Valente é dos que pensam com ideias - coisa rara e já tão pouco vista - são de registar as suas palavras, que a posteridade talvez possa confirmar como o aviso solene e dramático feito, in extremis, aos portugueses, para que readquiram rapidamente a sua identidade, sob pena de aniquilação total. Ou sob a designação astuta de «integração europeia».
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(*) Publicado no jornal «A Capital», ( Crónica do Planeta Terra), 29/10/1988 -