<trabalho-4> os dossiês do silêncio – ideias para o novo milénio – ecologia e trabalho –IV - inéditos ac de 1981

ENTRE A ESPERANÇA E O APOCALIPSE

24/10/1981 - Já apontámos aqui de que maneira o trabalho se relaciona com o Meio Ambiente e porque é, portanto, também um problema ecológico.

A fisiologia da pessoa humana que reage às condições do Meio Ambiente não é, no entanto, o único aspecto a considerar.

A maneira como o trabalho ou os conflitos de trabalho determinam uma cadeia de efeitos em recíproca interdependência, reproduz de maneira flagrante o modelo de relações que encontramos num ecossistema.

A maneira como todo o tecido das relações sociais é afectado pelas vibrações produzidas em determinado ponto, faz-nos lembrar um verdadeiro ecossistema, quer dizer, uma série de elementos em sustentação recíproca e simultânea.

Se o fenómeno ecológico se caracteriza pela interdependência simultânea de vários factores, podemos considerar um conflito laboral e suas múltiplas consequências no tecido social como um problema de Ecologia Humana.

EXEMPLOS DA ACTUALIDADE

Mais uma vez vamos recorrer a exemplos colhidos na actualidade mundial.

Uma luta muito recente dos trabalhadores franceses vem pôr em foco as relações da Ecologia com os mais graves problemas da vida e da sobrevivência humana. Entre os quais se contam, evidentemente, os problemas do trabalho.

Como se sabe, o programa que levou o novo governo francês à vitória nas últimas eleições, previa, no campo energético, medidas imediatas que iriam restringir as centrais nucleares.

O programa teve o apoio da maioria e, portanto, o governo ganhou.

Curiosamente, mal se começa a pôr em prática a redução do Parque Nuclear Francês, os trabalhadores que se encontram aí ocupados, reagem de maneira enérgica.

O que se verificou com a central de Catteton, no Leste da França, a alguns quilómetros da fronteira com o Luxemburgo, é bastante revelador do que poderá alastrar às outras centrais em construção.

Os manifestantes, apoiados pelo Sindicato CGT, retomaram o estilo das lutas no campo siderúrgico ao longo dos últimos três anos. Greve em todo o estaleiro, bloqueio do comboio Luxemburgo-Zurique, vagões de carvão despejados, estradas bloqueadas.

Note-se que, entretanto, outra central sindical, a CFDR, que sempre apoiou o programa socialista de desnuclearizar a Franças continua fiel a este programa e não apoia portanto as manifestações da CGT que pretendem a intensificação do programa electro-nuclear, até à fase dos sobre-regeneradores.

Como se vê, portanto, este conflito de características inéditas no campo da luta anti-nuclear, levanta uma questão muito curiosa ao estudioso da Ecologia Humana.

Uma questão de vida e de sobrevivência. Uma questão de qualidade de vida. Uma questão ecológica.

Vejamos atentamente os dados da situação.

Enquanto o governo de François Mitterrand procura reduzir o número de centrais nucleares, congelando a construção de algumas e anulando outras em projecto, enquanto esta medida é tomada, não só em cumprimento de um programa que o eleitorado sancionou votando nele em maioria, mas em nome da vida e da qualidade, da segurança e portanto dos supremos direitos e interesses de toda a população, eis que os trabalhadores, ligados aos estaleiros das referidas centrais, reagem de maneira enérgica contra esses propósitos de melhorar a vida em geral, por considerarem que é a sua vida e os seus interesses de trabalho que vão ser lesados.

Sentem-se prejudicados e encetaram greves para protestar. O grande argumento invocado pelo sindicato que apoia os grevistas é, evidentemente, o desemprego.

O DESEMPREGO

A desocupação tem, na sociedade industrial, duas acepções aparentemente antagónicas.

Se é desemprego, considera-se dramática. Não há - diz-se - qualidade de vida sem emprego certo.

Mas se é tempo livre, se é férias, considera-se um direito fundamental do trabalhador e todos evidentemente o desejam.

Em qualquer dos casos, o que nos interessa sublinhar é que o tempo de trabalho e o tempo livre são temas profundamente ligados à Ecologia Humana.

Os ócios, o trabalho criador, a forma como as cadências e as cadeias de montagem permitem ou não permitem uma relação rítmica do homem com a sua actividade, tudo isto são problemas que relacionam o ser vivo com o ambiente que o condiciona.

Também a liberdade e a dignidade das pessoas anda muito ligada ao meio de trabalho que as cerca.

Por sua vez, o próprio rendimento da sua actividade depende de factores físicos como a luz, a temperatura, a posição, o arejamento.

Falar de trabalho é falar fundamentalmente de um problema ecológico.

A polémica que se está a verifica r em França sobre a indústria nuclear tem ainda outros aspectos que interessam a um curioso da Ecologia.

Enquanto, até agora, os trabalhadores se aliavam normalmente aos grupos e comités de luta anti-nuclear, nos mais diversos países, enquanto o Poder contrariava essa luta, eis que se assiste, em França, ao inédito e ao insólito: enquanto o Poder luta para acabar com as centrais nucleares, eis que os trabalhadores se opõem por óbvias e justas razões de emprego.

COMO SAIR DA CONTRADIÇÃO

Como sair desta contradição é o problema que actualmente se coloca aos responsáveis pela política energética francesa.

Tanto mais que os grupos do movimento anti-nuclear reacendem também as suas batalhas.

Uma das mais renhidas travou-se, mais uma vez, perto de La Hague, que é como se sabe o grande centro de reprocessamento de combustíveis irradiados, situado na Península da Bretanha, perto do porto de Cherbourg.

Em La Hague convergem cargas de combustíveis irradiados transportados de vários países, nomeadamente o Japão.

Um armazém ou cemitério de resíduos como o de La Hague põe problemas de segurança verdadeiramente colossais.

É natural que os ecologistas tenham feito de La Hague um alvo predilecto da sua luta.

Com La Hague é toda a Europa que está em risco de se fundir. Isto sem falar já do risco que há, iminente, quanto às toneladas de resíduos radioactivos transportadas pelo mar. Basta pensar num dos muitos acidentes com navios cargueiros que todos os dias acontecem.

O último navio que chegou ao porto de Cherburg transportava trezentas toneladas de combustíveis irradiados provenientes do Japão.

Brice Lalonde e uma centena de militantes defrontaram-se com as forças da Polícia, quando tentavam impedir o desembarque dessas 300 toneladas de resíduos radioactivos.

De um lado, há confrontos dos que lutam pela vida contra o Plutónio fabricado em La Hague.

Do outro lado, há confrontos dos que lutam pelo emprego e querem portanto que as centrais nucleares continuem a proliferar.

Uns visam o médio e o longo prazo.

Outros, o imediato.

Uns trabalham para que a geração de amanhã ainda tenha um bocado de Terra habitável.

Outros trabalham para manter o seu nível de vida e de consumos.

A grande opção está aí, na encruzilhada, entre a vida e a morte, entre a esperança e o apocalipse.