<sistema-9> inédito ac de 1987
ESBOÇO DE UM TEXTO MAIS QUE FALHADO !!!!!!
OS PANGLOSSES
3/7/1987 - Não faltam os Panglosses a anunciar que este mundo é o melhor dos mundos possíveis, pelo menos enquanto os negócios deles e seus patrões continuarem prósperos.
Por mais que a caracterização do sistema esteja feita, em termos definitivos, por mais que os factos desastrosos demonstrando a inviabilidade de uma engrenagem desastrosa se acumulem, por mais provado que esteja o equívoco - o retrocesso humano a que se teima em chamar progresso -, há sempre um Pangloss, bem pago, para cantar as virtudes da indecência e da pouca vergonha.
A esperança maçónica no progresso mesmo que mate e esfole e tal como tem sido praticado, não desarma, mesmo depois de todas as críticas que de quase todos os quadrantes - sem acções nos negócios lucrativos da indústria homicida - começaram finalmente a ser feitas, sem medo.
Porque o medo é componente fundamental do sistema totalitário do progresso industrial e tecnocrático que temos, igual a retrocesso humano e moral.
Há Panglosses de vários tipos mas todos apostados em defender e manter o status tecno-industrial, mesmo quando ele mete água por todos os lados como é hoje o caso no fenómeno chamado "crise ecológica das sociedades".
Se alguns desses Panglosses parecem defender pontos de vista num plano de neutralidade científica, mostrando-se tecnocratas seguros do seu dogma, outros logo se percebe (ao saber-se-lhe a proveniência) em favor de quê, de quem e de que interesses fazem eles a apologia do status tecno-industrial, que conduziu o Planeta e a Humanidade ao beco sem saída actual.
Um senhor inglês chamado Benne, por exemplo, apostado em desfazer, com as habilidades da sua cartola de prestidigitador, as aquisições críticas do padrão alimentar instituído pela industrialização, é apenas o presidente de [---].
Mal andaria a um homem encarregado, pelas altas funções que ocupa, de promover as tecnologias alimentares mais abjectas - desde aditivos a radiações - , que não inventasse de noite todas as atoardas possíveis contra a qualidade biológica dos alimentos, para as dizer de dia.
De admirar, talvez, é que uma revista espanhola de consumidores - órgão do movimento de consumidores chamado [---] não se limite a noticiar o livro do senhor Benne, saído em Espanha com o título [---], mas faça o seu descarado elogio.
Estes movimentos em defesa do consumidor fazem-me lembrar aqueles militantes republicanos contra o analfabetismo que preconizavam a eliminação física sumária dos analfabetos para erradicar assim a praga do analfabetismo.
Estes movimentos em defesa do consumidor, sempre prontos a dar uma mãozinha aos guardiães do sistema, também precisavam às vezes de uma boa alta autoridade contra a corrupção que os metesse na ordem.
Logo quando foram dados os primeiros alertas da crise ecológica, apareceu na Grã Bretanha um senhor de nome John Maddox, dizendo em livro que isso era tudo obra de pessimistas incultos e que, no fundo, as indústrias como a nuclear têm sempre um lado bom.
Paternal como todos os panglosses, ele propunha que se corrigissem anomalias eventuais do sistema, jamais admitindo que o mal estivesse radical e estruturalmente ligado ao próprio sistema.
Maddox convidava a ter esperança na utopia tecnocrática e proclamava que o Apocalipse é invenção de reaccionários ecologistas. Os males da tecnologia teriam que ser corrigidos pela própria tecnologia .
Em livro da colecção "Diagramas" sobre "Radioactividade", da editorial Estúdios Cor, o sr. seu autor, também comete a proeza de descobrir, nessa data, que a Radioactividade só tem vantagens, relegando para o limbo da superstição as posições críticas contra o actual biocídio praticado em todas as frentes incluindo a radioactiva.
Ao contrário do que é costume na literatura dos Panglosses, este senhor não compara a energia nuclear à faca (que também pode matar, como dizia o outro...) mas ...ao fogo: "Não é porque o fogo pode matar que a Humanidade abdicou de progredir com ajuda do fogo!" proclama ele, com ar vencedor .
Há sempre , também, um senhor governador das Celuloses que vem defender o Eucalipto, insultar os ecologistas porque são contra o Eucalipto, as celuloses e portanto o progresso, proclamar as virtudes históricas do "globulus", tal como aconteceu, em [---], no "Diário de Lisboa", onde todo o espaço de uma página foi pouco para a rebrilhante teoria de mais este amigo da Natureza☻