<sistema-7> os dossiês do silêncio – o sistema contra os ecossistemas – a engrenagem – inédito ac de 1987 – tese de 5 estrelas – inventários da catástrofe
AS CONTRADIÇÕES
DO MACRO-SISTEMA
Lógica da destruição e alarmismos apocalípticos - Quem é pessimista e quem é optimista? - Ciclos viciosos, escaladas, processos descontrolados, rupturas e desequilíbrios - Consciência ou ignorância, informar ou calar? - Quem fomenta o desespero?
3.Julho.1987 - Mexer nos assuntos ditos ecológicos é sempre desagradável (no mínimo) e cheira quase sempre mal, seja qual for o nível de abordagem. Só os eco-equívocos, do tipo campismo-escutismo-caravanismo, pintam o quadro de cores róseas, permitindo que, para alguns, ecologia signifique boa vida e férias ao ar livre.
Mas se se entende por ecologia os problemas de "penico", a nível autárquico - esgotos, saneamento básico, lixos, dejectos humanos, resíduos - qualquer pessoa sensível vira a cara, com razão, a cheiros pestilentos e montanhas de fealdade .
Durante muito tempo os ecologistas como o sr. Afonso Cautela foram confundidos com uma espécie de trapeiros que andavam sempre à procura de alimento nos caixotes e contentores municipais do lixo.
Ainda hoje, por parte do público e de algumas elites ambientais, há uma certa tendência para assimilar "ecologismo" com lixos e lixeiras , confusão que não é de todo inocente como logo se compreende.
Se se entende por ecologia as relações globais dos elementos físicos da Terra e como crise ecológica os fenómenos de macro-amplitude verificados na biosfera, então torna-se pânica e todos os salvadores da Pátria, todos os Panglosses, todos os avestruzes a acusam de assustar o Zé Povinho, todos a consideram uma nova psicose apocalíptica e , como tal, desagradável, deseducativa das novas gerações, pessimista, derrotista, imprópria para crianças e jovens, mesmo pornográfica e com cenas eventualmente chocantes.
Ninguém consegue negar que os factos existem: mas muitos defendem que , até onde for possível e até quando for possível, esses factos sejam disfarçados, mascarados, desviados, liofilizados.
OS FACTOS
Desequilíbrios climáticos;
sismos provocados por bombas nucleares subterrâneas
a camada de ozono da alta atmosfera destruída por "sprays" e "jactos" sem que se faça alto a nenhuma dessas causas que produzem aquele efeito;
evapo-transpiração
metais pesados cancerígenos
eutrofização
escalada agroquímica
eis apenas uma pequena listagem dos vários casos e exemplos que, ao caracterizar especificamente a crise ecológica, a definem como um beco sem saída, um ciclo vicioso, uma escalada logarítmica, um processo irreversível, enfim, uma explosão apocalíptica de desastres e catástrofes.
O curioso da questão é que há gente ainda a considerar que, mandando calar os jornalistas ou metendo no gravador outra cassete, todo aquele quadro, real, concretamente real, desaparece por encanto.
O curioso da questão é que haja tanta gente mais preocupada em não afligir a gente do que a ter consciência crítica da situação e a enfrentá-la.
O curioso da questão é que se prefira meter, como o avestruz, a cabeça na areia, acusando entretanto de catastrofismo e alarmismo os que tentam, ainda, fazer alguma coisa antes que seja definitiva e irremediavelmente tarde.
MAIS FACTOS
A taxa mundial de suicídios em subida logarítmica;
A toxicodependência juvenil fomentada por delinquentes senis que demagogicamente fazem apelos contra a droga e a dependência;
Uma medicina que provoca mais doenças do que aquelas que trata;
A total apatia de governantes e outros responsáveis perante o quadro negro de poluições em escalada;
A asfixia das megalópolis pela poluição atmosférica e o gigantismo urbano que ainda não deixou de crescer em nenhum país do Mundo;
A morte de mares e oceanos por derrames petrolíferos, contentores radioactivos e cargueiros carregados de cargas venenosas, tóxicas e explosivas;
eis mais alguns exemplos de situações reais concretas que se podem pintar em cores mais ou menos negras, conforme o momento político que se atravessa e o efeito de alarme que se queira extrair, mas que não deixam de constituir "ciclos viciosos", "escaladas logarítmicas", "becos sem saída", "cercos que se apertam", "turbinas que crescem de velocidade sem travão que as modere", etc. etc
Os factos são isso, independentemente do aproveitamento oportunista ou ocasional que os políticos e demagogos façam desses factos.
OS QUÍMICOS
Ciclo vicioso aparentemente sem saída é o dos produtos químicos para combater pragas na agricultura, pragas que, por esse tratamento, se tornam cada vez mais frequentes e incontroláveis.
O combate químico às doenças humanas tem o mesmo carácter de ciclo vicioso, de escalada imparável, de progressão logarítmica, tal como provam as doenças iatrogénicas, a última em data das quais se chama imunodeficiência ou deficiência imunitária, fenómeno que sob o rótulo de sida se continua espalhando como praga e peste medieval, e continuará enquanto não for formulado nos seus verdadeiros termos causais, ambientais ou ecológicos.
Doença típica e terminal de todo um sistema, ela continuará progredindo até à extinção da espécie enquanto se teimar na metodologia de estudo e investigação errada.
Uma ciência sofística que funciona por lógica invertida e que considera causa o vírus, que é precisamente o efeito e não a causa, tem que conduzir igualmente a ciclos viciosos, inversões radicais, processos descontrolados síndromas apocalípticos.
Mais temível que a imunodeficiência - síndroma ambiental de uma sociedade podre - é que toda a abordagem dita cientifica do fenómeno esteja invertida, deixando que ele se processe e progrida sem controle.
Apocalíptica, portanto, não é a visão ecológica, mas a visão sintomatológica e tecnocrática que os ecologistas denunciam.
A destruição da camada de ozono da alta atmosfera por "sprays" e "jactos" dos supersónicos, denúncia que foi feita pelos ecologistas há mais de 10 anos, ainda não alterou um milímetro a situação.
O que é que será portanto apocalíptico: reconhecer a situação e agir para a controlar, ou deixar que ela se torne irreversível?
O que é mais apocalíptico: a consciência ou a ignorância e a teimosia?
O CICLO DO CARANGUEJO
É costume descrever também, como "ciclo vicioso" o "ciclo da pobreza" imortalizado na obra do geógrafo Josué de Castro, "O Ciclo do Caranguejo".
Quando as pessoas se alimentam dos seus dejectos, fecha-se o ciclo que, na melhor das hipóteses, se poderá chamar vibrião da cólera ou qualquer outra manifestação patogénica do ciclo hídrico.
Mas ciclo vicioso é também o da fome-pobreza-fome, porque sem alimento um povo não conseguirá ter energia para trabalhar e sair da pobreza e mantendo-se pobre não conseguirá alimentar-se e ter forças para combater a pobreza. Etc.
Note-se , porém, que nas sociedades ricas o ciclo vicioso , o "comer os próprios dejectos" faz igualmente sentido: sem reciclagem de poluentes e sem tecnologias não poluentes, os ricos estão igualmente no "ciclo do caranguejo", condenados a comer, beber, respirar, consumir os próprios dejectos, já que as várias poluições se transmitem ao ambiente - solo, ar, água - de onde o ser humano, mesmo rico, tem que retirar o alimento.
(Este tema, quase por estas palavras, já o glosei há uma boa meia dúzia de anos, e gostaria de localizar agora esses textos.)
SOB O SIGNO DE DARWIN
A nível mais filosófico, o quadro também não aponta para grandes optimismos.
Pois não será o homem, à luz da ciência experimental - a zoologia e mais recentemente a Etologia - uma espécie estruturalmente predadora e não será a destruição do seu próprio meio e de si próprio a evolução natural das coisas, prevista pelas leis da ciência?
Não será então um pouco contraditório, que se gritem raios e coriscos contra a pocilga que mata milhares de peixes numa barragem aprazível, mas logo a seguir invocar a indignação dos senhores pescadores que se viram assim privados de ser eles os predadores dos barbos e robalos mortos com a poluição pecuária?
A tonalidade de ciclo vicioso volta a surgir nas múltiplas contradições flagrantes do sistema que vive de ir matando (os ecossistemas).
Haverá, a médio e longo prazo, alguma coisa a modificar para alterar este fatalismo evolucionista do homem a caminho do holocausto nuclear e portanto das cavernas?
( Lembro o que escrevi a propósito de Hubert Reeves e seu livro "Um pouco mais de azul").
A destruição de peixes em barragens por descargas de indústria pecuária não deixa de ter outro aspecto contraditório, ouvindo os que se queixam do acidente.
Afinal a pecuária corresponde a um modelo carnívoro de vida e desenvolvimento que se tem como intocável e até como o único viril, e é estranho que as pessoas aceitem de boca aberta a parte boa (a comezaina de porco e arredores) mas já repudiem esta mesmo inflação de proteína animal quando ela, sob a forma de resíduos e dejectos, é jogada para uma barragem matando milhares de peixes que os pescadores se preparavam para desportivamente pescar.
Aliás e voltando a Darwin, a teoria evolucionista e todas as ideologias político-económicas que nela se apoiam (todas, menos a ideologia ecologista) leva em si própria a lógica da autodestruição, paradoxo que ainda não vi nenhum dos ideólogos evolucionistas, mesmo preocupados com a paz e a ecologia, resolver.
O facto de o mundo caminhar para as cavernas e o homem para o macaco é incompatível, de facto, com a visão idílica e metafísica de uma teoria que teima cegamente em dizer que o mundo veio das cavernas e o homem do macaco.☻