1-3 - <82-01-14-ie-bd> scan domingo, 17 de Novembro de 2002 - e continuamos a respirar, 20 anos depois...

O AR IRRESPIRÁVEL

QUE RESPIRAMOS (*)

(*) Este texto de Afonso Cautela, foi publicado com este título na revista «Come e Cala» (Lisboa) , dirigida por Beja Santos, em 14-1-1982

[14-1-1982] - Num colóquio há tempos realizado sobre poluição do ar na Universidade Nova de Lisboa, foi afirmado que Lisboa batia o recorde do Mundo em «fumos negros».

O que é isso de «fumos negros» e até que ponto são prejudiciais para a saúde do lisboeta que respira toda essa porcaria?

São os escapes sujos que, visivelmente, lançam no ar de Lisboa fumos mal queimados. É uma situação anómala e grave, mas de tal maneira entrou nos seus hábitos que já ninguém, mesmo as autoridades responsáveis, liga importância.

Em qualquer outra cidade europeia os «fumos negros» são severamente punidos por lei e não há quem se atreva a deixar os tubos de escape sujos. E muito menos empresas públicas de transportes públicos, absurdo dos absurdos que ninguém consegue compreender nesta cidade.

Embora se estude há trinta anos a gravidade da poluição atmosférica na cidade de Lisboa, nenhuma medida foi tomada até hoje na defesa da saúde pública pelas entidades ditas responsáveis.

Continuam a efectuar-se medições dos níveis de poluição; o Grupo de Trabalho sobro Poluição do Ar (GTPA) publica mensalmente o relatório dos resultados, mas o problema continua a agravar-se nos aglomerados urbanos.

Quer dizer. Enquanto se mede, as indústrias poluem e as pessoas adoecem.

Verifica-se não haver coordenação de esforços entre os vários organismos que analisam a qualidade do ar, nem vontade política (governo) e organismo executivo que mande cumprir as medidas necessárias à vigilância e penalização das situações mais graves. Uma vez instalada a fonte poluidora, não se trata de evitar prejuízos, mas de «minimizá-los».

Em Lisboa, os níveis de poluição atmosférica são largamente excedidos em relação aos padrões "standard" estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (O.M.S.).

É necessário actuar para que essa situação de «alto risco» seja modificada.

O anidrido sulfuroso concorre, em grande parte, para várias doenças graves do aparelho respiratório, e são-lhe imputados incalculáveis prejuízos de saúde.

Detectar pelo cheiro quando o chumbo adicionado à gasolina atinge níveis preocupantes, deveria ser acompanhado de uma rigorosa vigilância sobre os que fazem essa adição e com que responsabilidade.

Para vigiar a penalizar, porém, além de decretos específicos é necessário que exista um poder executivo que os imponha. Mas quando as empresas nacionalizadas são muitas vezes os principais poluidores, será o problema uma questão de executivo? Até agora nem a Comissão Nacional do Ambiente nem a Secretaria de Estado do Ambiente preenchem o requisito de assumir toda a responsabilidade em matéria de poluição.

O G.T.P.A. limita-se a arquivar dados que mensalmente «publica» e envia para organismos e entidades que, alegremente, os atiram ao cesto dos papéis. Com toda esta actividade medidora gasta o povo português algumas centenas de milhar de escudos.

Durante 30 anos, entre 1950 e 1980, manteve-se uma rede de Controlo da Poluição do Ar da cidade de Lisboa, que no seu máximo chegou a funcionar com 25 estações fixas. Remodelada já este ano, a nova rede conta apenas com 14, mais ou menos exploradas por entidades públicas e privadas: Quimigal - 4; Siderurgia - 8; EDP -3; INSA - 5; C.M.L. - 7; Petrogal - 4.

A rede agora remodelada, sob os auspícios de consultores técnicos da OMS e do PNUD, consta de várias estações fixas para medir poluentes, não só em Lisboa, mas no Barreiro, Seixal e Almada.

De vez em quando os jornais falam do perigo que o chumbo adicionado à gasolina pode representar para os que, na cidade, respiram os gases dos escapes dos automóveis.

Pegunto: Será mais um daqueles perigos sobre os quais se gosta de especular só para assustar as pessoas, ou estamos de facto perante mais um escandaloso atentado contra a saúde pública?

Em minha opinião, e na opinião dos que pensam em termos de realismo ecológico, tudo quanto se disser contra o chumbo na gasolina ainda é pouco. Atentado contra a saúde pública e verdadeiro escândalo nacional, acho que ainda são palavras suaves. É uma daquelas coisas que, embora toleradas, passam todas as marcas do intolerável. E não sou só eu que o digo. São os iminentes cientistas que até dizem saber bem estas coisas.

Que dizem os entendidos em poluição?

Para se obter gasolina com maior grau de octanas, é geralmente sabido que se costuma adicionar-lhe chumbo.

Em Portugal, o teor de chumbo na gasolina chega a atingir, durante largos períodos de tempo, percentagens que se tornam facilmente detectáveis pelo cheiro do escape dos automóveis.

Já é mais difícil reconhecê-lo e distingui-lo do simples monóxido de carbono - quando essas doses baixam e se tornam menos perceptíveis pelo olfacto; neste caso, só análises realizadas com aparelhagem própria poderiam determinar a percentagem de chumbo adicionada.

De resto, nada se conhece sobre a legislação que regula esta actividade, os limites (se é que estão estabelecidos) admissíveis, quais os serviços encarregados de fazer essa operação (adição do chumbo à gasolina) e até que ponto ela pode ser controlada por departamentos que se ocupam com a saúde pública ou por ela sejam responsáveis.

Porque a verdade é esta: apesar da maneira despreocupada como se lança chumbo no meio ambiente - através da gasolina dos automóveis - o chumbo é um dos poluentes com mais perigosos efeitos na saúde humana.

Veneno dos mais violentos, o chumbo inibe a síntese dos glóbulos vermelhos, pode provocar alterações bioquímicas no cérebro e afectar o desenvolvimento mental das crianças. Podem observar-se alterações bioquímicas no homem, a partir de 20 microgramas de chumbo por decilitro de sangue.

Nos habitantes das cidades, a concentração média de chumbo é de cerca de 30 microgramas por decilitro; num sexto de crianças examinadas em Manchester, encontraram-se mais de 50 microgramas; dores de cabeça, anemia, perda de apetite, irritabilidade, falta de coordenação dos movimentos - tudo pode acontecer.

Ratos em que foi injectado chumbo viram reduzida a sua capacidade de resistência às infecções bacterianas. O efeito no sistema de defesa biológica dos animais é tão agudo que aqueles caem em estado de choque, morrendo - afirmou o Dr. Nicholas Diluzido, director do Departamento de Fisiologia de Tulane (Washington), em 1972.

Este cientista declarou a um subcomité do Senado que tal efeito pode servir para explicar a morte súbita de muitas crianças.

O chumbo destrói as células do fígado, órgão encarregado de detectar e destruir as endotoxinas, produzidas pelas bactérias. Segundo aquele cientista, a susceptibilidade dos animais às toxinas aumenta de 100 mil vezes.

Os pobres residentes nas cidades são os mais afectados pelo chumbo existente nas tintas estaladas dos prédios velhos, assim como pela poluição atmosférica, o lixo, os carros abandonados e o uso indiscriminado de pesticidas.

A concentração de chumbo nos esqueletos de indianos do século XIV é dez vezes mais fraca que nos esqueletos dos cidadãos de hoje. O exame dos glaciares da Gronelândia revelou o seguinte: Os gelos formados entre o ano 800 antes da nossa era e o ano 1750 têm um teor de chumbo mais ou menos constante. Entre 1750 e 1940, o teor de chumbo quadriplicou. De 1940 a 1965, multiplicou-se novamente por três. Para onde vamos?

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(*) Este texto de Afonso Cautela, foi publicado com este título na revista «Come e Cala» (Lisboa) , dirigida por Beja Santos, em 14-1-1982♦♦♦