1-1<89-01-13-dl> = diário de um leitor muito militante

RESÍDUOS NUCLEARES

A QUEM OS PRODUZ

13/1/1989 - Tal como acontece ao eterno cadáver que cresce até ao infinito na peça de Eugene Ionesco "Comment s'en débarrasser", os produtores de resíduos nucleares andam de Herodes para Pilatos sem saber onde depositar o menino.

O menino cresce, de dia para dia, e as 300 centrais nucleares não cessam , como qualquer ser humano, de obrar excrementos radioactivos de sua natureza.

É de esperar que o discurso dos organismos internacionais se inflame e dispare no céu do sublime.

A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) deu sinal de sua graça, em 19 de Setembro de 1988, na sua 32ª conferência geral, em que se fez aprovar , por unanimidade, uma proposta no sentido de "cada país se responsabilizar pelos lixos nucleares que produz. "

A terra a quem a trabalha, os lixos a quem os evacua: está certo, é a linha correcta da doutrina marxista-leninista.

Mas o autor da proposta, o francês Jean Pierre Copron, teve um rasgo que ultrapassa a medida higiénica tomada: ele consegue ver com o olho de trás o que os outros não teriam visto com os dois da frente.

Disse ele estas palavras de oiro:

" Se a causa nuclear me parece ser defendida a longo prazo, penso que a protecção do ambiente é uma das suas principais justificações. Será este, talvez, amanhã o argumento-chave a favor desta energia."

Logo, logo, parece que estamos a ler o texto ao contrário, que a casaca do senhor Copron está vestida do avesso. Mais não: o erro de óptica é nosso, ele é que vê bem as coisas com o tal olho de trás.

Para não deixar dúvidas desta acuidade visual, Copron diria ainda que "na ausência de novas descobertas científicas, hoje previsíveis, a energia nuclear é um dos raros meios hoje disponíveis para fazer face ao crescimento das necessidades energéticas , sem provocar desequilíbrios ecológicos de maior."

Não há cérebro europeu que aguente um discurso assim tão lúcido, tão consensual, tão progressista, tão sublime.

Ou antes: o Jean Pierre limitou-se a pôr à mostra as tripas de um discurso na aparência bonzinho, reformista, apaziguador e de medidas até (na aparência) sensatas.

À luz do esclarecido Jean Pierre, percebe-se a inversão de marcha das intenções europeias em política do Ambiente: o objectivo de qualquer agência ou de qualquer CEE, quando fala de Ambiente, não é defender o Ambiente, é dizer que vai proteger-se o Ambiente com aquilo que tem sido até agora a massacrá-lo.

O objectivo deste discurso lúcido (e só na aparência perverso ou insólito) é preparar um quadro "suportável" e "decente" para que o fascismo energético do tipo electro-nuclear continue vigente e sem embargos de maior."

A política do Ambiente é isto: uma forma de prorrogar, eternizar, irreversibilizar os tecno-fascismos de que o electro-nuclear é a ponta de lança mais bicuda.

Dos políticos e defensores do Ambiente nos livre, portanto, o Diabo já que dos inimigos da terra e arredores me livrarei eu. ☻☼