1-4 - <87-01-01-ie> domingo, 15 de Dezembro de 2002-scan .

NO REINO DOS SOFISTAS

[ 3-1-1987, «A Capital», Crónica do Planeta Terra] - Quando as ligas para a defesa dos direitos do Homem fazem ouvir os seus sonoros protestos a propósito das penas de morte decretadas por governos que decidiram , assim, resolver alguns dos seus problemas internos, penso na folha de vencimentos de qualquer miserável trabalhador deste País democrático e pluralista em que treze por cento é para o Imposto Profissional, onze por cento é para a Caixa de Previdência ( ???) ,quatro por cento é para o Fundo do Desemprego, etc

Pergunto eu, afinal, para onde pende a justiça: se para aqueles que os Estados , coerentemente, condenam à morte, se para aqueles que, incoerente e democraticamente, com cuidados maternais e todo o respeito pelos direitos do Homem, os Estados condenam à vida.

Não ouço ninguém implorar clemência para estes condenados à Vida, concluindo assim que desta condenação faz parte, além do roubo legal e autorizado (Impostos, Previdência, Reforma, Desemprego), sermos devidamente manipulados até à morte para nos mantermos convencidos de que estamos vivos.

NAS RUAS DE LISBOA

Com a desculpa de que vai fazer grandes obras de (fachada e) pavimentação nas ruas de Lisboa, a Câmara deixa esburacar até ao inverosímil os passeios, por onde o peão passa a ser terminantemente proibido de passear ou sequer de passar.

Quando as obras impedem que o peão se aventure para o "meio da rua" , que espaço fica afinal para o peão se locomover? Será que para as consecutivas vereações , Lisboa é uma cidade sem peões onde só os "autos" têm direitos?

CERTAS FIGURAS GRADAS

Onde vão certas figuras gradas, geralmente muito faladas na TV, buscar o poder que as mantém inabaláveis no Poder, para lá de todas as reconhecidas e públicas denúncias de "imoralidades" gritantes, é um dos mistérios que já não chegam a surpreender, por fazerem parte integrante deste "Portugal secreto" de cifra sebastiânica.

Afinal, o mal não era, como se dizia, do "soarismol", porque a peste de tais figuras transita para governos onde Soares e o soarismo desapareceram.

NADA DE NOVO NA FRENTE

"Novo" tornou-se a palavra de ordem para políticos em particular e publicitários em geral. Desde as "novas tecnologias" até às "novas democracias" e "novas repúblicas" , toda a gente quer o novo. E os "velhos" onde irão metê-los? Porque não encontram, como o Mao Tse Tung, o meio termo dialéctico entre o novo e o velho? Porque se caminha na corrente de maior facilidade que é a de seguir o "novo" como slogan proclamado por todas as modas? As quais modas, como se sabe, são um dos motores que accionam e auto-reproduzem até ao infinito o sistema triunfal e infernal que leva a rica vida de ir matando os ecossistemas.

OS DEFENSORES DE ALQUEVA

Os defensores de Alqueva e outros colossos piramidais não se cansam de provar, com "números", que as "pequenas barragens" eram inviáveis para Portugal e não resolviam nada dos nossos problemas de abastecimento eléctrico.

Acaba de ser anunciada, em Fevereiro de 1986, a construção de "pequenas barragens" no Algarve, ao abrigo, evidentemente, do Plano Agrícola Comum que a C.E.E. impõe e do Banco de Fomento Nacional.

Desde que a problemática da integração mande, eis que os defensores do "small is beautiful", passam, por magia, a ter razão. Embora ninguém lha dê, evidentemente, e os alucinados defensores de Alqueva continuem apregoando as suas queridas megalomanias.

PRAGAS

Ratos são uma praga , se houver uma firma química que quer ratizar. De contrário, quem liga a bicho?

Percevejos, idem. Piolho e lêndeas começam a ser matéria de "epidemia" (nas escolas para impressionar mais a opinião pública, alvo destas campanhas) se acaso uma firma lança um novo produto piolhoso e quer vendê-lo evidentemente.

E água, para lavar isto tudo?

ARBORICÍDIO

Quando a defesa do património arquitectónico se tornou moda, logo arautos do discurso sofistico saíram a demonstrar, "com números", que recuperar e restaurar velhos edifícios saía mais caro do que construir novos.

Com o advento de uma certa consciência pública alertada para os vandalismos e crimes dos burocratas contra árvores seculares e respectivas quão preciosas raízes que Lisboa ainda guardava, os respectivos serviços camarários tinham de inventar o alibi, sofisma ou justificação para o crime do arboricídio.

E vieram então epidemias , mais ou menos inventadas, a justificar, todos os anos, as razias que as árvores de Lisboa sofrem, não havendo ninguém que até hoje explique para onde diabo vai tanta lenha - e se é para o senhor presidente se aquecer na longa invernia que tem feito.

TEREMOS O QUE MERECEMOS?

A teimosia em consentir as margarinas no mercado alimentar é prova de que o Estado, por enquanto e até ver, não tem o mínimo respeito pela saúde do consumidor - sempre que se trate de afrontar qualquer grande empório, de óleos e petróleos.

Verdade seja que o consumidor também não vê um palmo adiante do nariz e basta que a publicidade lhe grite, martelando, para ele acreditar.

Teremos os ácidos sulfúricos que merecemos?

CAMIÕES-GIGANTES

Para o discurso oficial da chamada Segurança Rodoviária, a hecatombe das estradas portuguesas tem culpados visíveis.

Antes de mais e como não pode deixar de ser, o automobilista, cheio de vícios e defeitos; depois, o álcool, o que também não deixa de ser verdade; em terceiro lugar o mau estado das estradas ; e finalmente, o parque automóvel, velho e degradado

Ao indicar as causas, no entanto, ignora-se a principal: a presença em estradas inadequadas do chamado "veículo longo", figura de pavor que de repente inundou o trânsito rodoviário e de que nunca se diz que tem culpas no cartório da Mortandade.

As estatísticas encolhem-se: mas se fossem a fazer o inventário, encontrariam, certamente, na origem dos mais graves acidentes, esses gigantescos monstros de morte e destruição, produto acabado de uma certa estrutura chamada "acumulação capitalista".

Os "monstros" da estrada, aliás, incluem-se na linhagem de transportes perigosos e tóxicos, dos camiões-cisternas circulando com tudo quanto é matéria tóxica, venenosa, inflamável, o diabo!

No meio disto, o inocente sofisma é sempre o motorista ou o veículo ligeiro o culpado, mesmo que os "camiões gigantes" e os "veículos longos" tivessem passado de exótica raridade merecedora de notícia para a regra rotineira do que já não é noticiado.

Mesmo quando claramente está na origem de graves e mortíferos desastres.

 

ANTI-POLUIÇÃO

[ 6-9-1986, «A Capital», Crónica do Planeta Terra] - Que a luta anti-poluição passa pelo centro da "luta de classes" era a tese de um livro publicado em 1976 com reportagens sobre ambiente em Portugal, tese que ninguém dos progressistas quis compreender, perguntando alguns onde estava a "luta" , visto não se ver greves nem outras manifestações de rua por causa da poluição...

Agora que no rio Alviela, após uma luta popular persistente de mais de 20 anos, o governo decidiu , em 1980, avançar com um projecto despoluidor ( três estações de pré-.tratamento, uma de tratamento biológico e a maior rede de drenagem de águas residuais do País) agora que, depois de uma espera irritante, se chega ao momento da verdade, a velha tese (implícita) do já referido livro de 1976, volta à actualidade.

Ao sofisma em causa, chama-se "poluidor-pagador", princípio que tem inspirado as políticas europeias (OCDE e CEE ) de combate à poluição e defesa do Meio Ambiente.

Ora como referiu explicitamente o Secretário de Estado do Ambiente, as pequenas unidades industriais poluidoras "não têm condições absolutamente nenhumas de instalar "mecanismos de pré-tratamento dos efluentes.

Resultado à vista, embora não explicitado por ninguém : instalado um sistema de poluição , os mais poderosos vão instalar a parte que lhes compete mas os mais pequenos não podem, sendo eliminados na concorrência.

A concentração capitalista tem, pois, na anti-poluição o seu aliado de vanguarda. Médios os e pequenos tendem a desaparecer, para ficar apenas os grandes. É isto que algumas vozes isoladas tem vindo a dizer e a escrever há uns bons 15 anos. É isto que tem posto nos antípodas ecologia política ou ecologismo crítico e poluição ou ambientocracia, como estratégias de sinal contrário.

Sofisma que muitos ainda não querem compreender, mesmo quando ficarem pelo caminho os pequenos industriais de curtumes, devido à luta anti-poluição em que todos parecem estar de acordo.

Anti-poluição desta é, como se vê, o contrário de ecologia e de luta ecologista como alguns poucos tem tentado dizer no meio da geral surdez de alegados ecologistas.

 

DEIXAR O PEPINO CRESCER

Anos depois de os "acidentes industriais graves" terem entrado na rotina dos noticiários, anos depois de só as "fugas radioactivas de centrais nucleares" fazerem listas negras que ocupam livros inteiros, anos depois de perecerem populacões inteiras e zonas extensas ficarem interditas a qualquer forma de vida, anos depois de Seveso e Three Mile Island, a CEE entendeu emitir a directiva 82/501/CEE relativa aos riscos de acidentes industriais graves em certas actividades industriais, directiva à qual Portugal terá de dar cumprimento a partir da data da adesão.

Resultado: quando a Norma chega, já o povo está suficientemente "esclarecido" para aceitar os desastres como preço do progresso, como fatalidade, sem lhe passar pela tonta cabecinha que o melhor para evitar os desastres industriais graves é não admitir que os desastrosos empresários os implantem. De raiz. Como diz o povo, de pequenino se torce o pepino.

Quando a norma surge, porém, o sofisma já está instalado e o povo pronto a receber o progresso, limitando-se a colar no focinho a máscara antigás que lhe dizem para afivelar.

Linda e sofistica gente a desta Europa-cloaca.

INTOXICAÇÃO MACIÇA

Comunicação social justifica a sua rasteira forma de informar pelas exigências de um público também rasteiro . Mas o público está condicionado pela intoxicação maciça de publicidade e de propaganda que lhe lavam o cérebro. Exige aquilo que o condicionaram para exigir. Em que ficamos? Mais do que um sofisma, bem evidente, temos um "ciclo vicioso".

SINERGIAS

Através dos jornalistas , que não servem afinal para outra coisa, a Empresa Pública das Águas Livres anunciou aos consumidores que vão ter a "melhor água das capitais europeias" .

Nenhuma das reportagens aparecidas sobre a visita às novas instalações da E.P.A.L. , incluindo a minha, referia o pormenor dos "reagentes químicos" que vão ser usados no "fabrico" da tal melhor água da Europa e arredores.

Moral da fábula, em que os animais são os consumidores: além de serem estes a pagar o custo das grandes obras (22 milhões de contos) a qualidade da água que lhes é, ou vai ser, oferecida, segundo os padrões europeus de qualidade, é uma panóplia de produtos químicos em ignorada sinergia.

O sofisma não é fácil de topar: quando se fala em qualidade, pensa-se na água que irá alimentar as indústrias e não na que o consumidor mete no buxo, com mais químicos do que OH2 propriamente dito.

A classe com poder de compra e algum discernimento, deixou de beber água da torneira e paga a de garrafão.

Por quantos carrinhos, pois, paga o consumidor o estupendo beneficio de Lisboa se intitular a cidade que tem a melhor água das capitais europeias?

Que saibamos e para já, paga por três. Até ver.

Entre os reagentes químicos, são de reter, para já, alguns nomes: Ozono, Sulfato de Alumínio, Carbonato de Cálcio, Anidrido carbónico, Cloro, Hidróxido de Cálcio.

Com tanto cloro- claro! - quem vai ter boa água é o estômago industrial, para o qual, aliás, descontando o alarido jornalístico, é feito todo o empreendimento.