1-1 <80-12-12-ecc-> = ecos da capoeira – os dossiês do silêncio

A MARCHA PRÓ PROGRESSO(*)

12/12/1980 - Já se vê a saída do túnel e somam-se as realizações que vão beneficiar a "economia portuguesa" e o desenvolvimento do País, que dizem todos estar muito subdesenvolvido.

Tenhamos então em conta os beneméritos progressos operados por quem pode, no sentido de sermos, em breve, quase tão bons, tão ricos, tão cancerosos e tão poluídos como os melhores, do Mundo da Europa.

Petrogal volta à carga (6.8.1980) ,com a prospecção sísmica das jazidas petrolíferas que ela teima em descobrir: não poupa assim os concelhos de Torres Vedras, Arruda, Sobral, Alenquer, Vila Franca de Xira, Loures, Barreiro e Moita.

Ponto muito importante a bem "da nossa economia" (nossa quer dizer, tua, minha, do povinho, em suma) é que as despesas com estas prospecções, à partida falhadas, porque já toda a gente sabe não haver pinga de petróleo por aqui, é que "o investimento requerido é inteiramente suportado pela Petrogal". Como as outras "gais" todas que deram à luz depois do 25 de Abril, com as nacionalizações, eis-nos todos a pagar estas despesas com as sondagens . Tome nota o povo português: já sabe que é para seu beneficio, portanto pague e não bufe.

OUTRO ALTO BENEFÍCIO

Outro alto benefício igualmente acatado por jornais de toda as cores, é o Douro navegável. Ninguém sabe como, mas eles gritam todos que vai haver navegabilidade em barda, Douro abaixo, douro acima. A radioactividade provinda da futura central de Sayago, a 12 Km de Miranda do Douro, não precisava de tantos "affadigatos" a tornar navegável o Douro. Moncorvo diz que vai mandar, rio abaixo, o minério. Mas, segundo um célebre colóquio realizado no IST sobre o Plano Siderúrgico, as mais iminentes autoridades classificaram o projecto Douroviário como uma peluda ficção de cabecinhas louras/loucas.

Mas o desenvolvimento e a nossa ofegante marcha para a Europa não cessa.

Ferve sempre. E os jornais que se dizem de esquerda reproduzem , com a mesma naturalidade, a mesma neutralidade, as telexadas que reproduzem os da direita, ao ecoar a última do Almanaque americano "The Book of Lists".

Almanaque que mande uma boca sobre Portugal em situação de cauda, e eis os jornais, progressistas da direita e da esquerda, reproduzindo logo, não vá acabar-se: "Portugal é um dos países com capacidade técnica para produzir um engenho nuclear dentro de sete anos."

Eis um motivo de orgulho para os portugueses. Depois do bacalhau com batatas, com efeito, é uma central nuclear o que um bom patriota mais ama na vida.

Um engenho nuclear para atirar a quem, é que o Book of Lists, não disse. Nem os jornais que, a papel químico, se limitam a reproduzir a treta toda que os outros despejam aqui, se ocuparam de comentar como era e para quem.

Engenho Nuclear? Oh que honra ! Veiga Simão interrogado por Canal 2, porém, disse que Portugal não queria engenhos. Tínhamos à vondo com os engenheiros que há. Mas centrais nucleares, isso sim: jamais o túnel português poderia dispensar tamanha luz à nossa escuridão.

Que gente competente a gente tem. E como levam a sério o papel de apascentar este enorme povo de carneiros. Sem ofensa, claro, que os há para todos os gostos, bons e tenrinhos .- - - - -

(*) Publicado, provavelmente, no semanário «Cidade de Tomar", este texto sublinha, mais uma vez, os megaplanos que os megalómanos levaram alimentando: entre os megaplanos acarinhados por todos os governos pós 25 de Abril, a prospecção sísmica de jazidas petrolíferas esteve em foco em 1980 . Feliz ou infelizmente, nunca mais se falou dos resultados. Quando voltarão à carga?