<80-10-26-NT> <ppcp-1> pistas para um conto policial - ficções 26/10/1980

 

O MISTÉRIO DOS CARGUEIROS NAUFRAGADOS

 

Lisboa, 26 /10/1980 - Consultando a lista de cargueiros afundados durante os anos de 1978, 1979 e 1980, salta à vista a frequência de desastres, explosões, afundamentos, desaparecimentos «misteriosos» ou naufrágios em condições que testemunhas e entidades responsáveis confessam «estranhas» ou «impossíveis».

O afundamento da plataforma petrolífera «Alexander Kielland» por exemplo, era considerado «impossível» ... antes de acontecer.

Entre as várias hipóteses possíveis para explicar esta frequência, eis que a mais cruel e desabrida imaginação se recusa a colocar aquela que é provavelmente a mais lógica e a mais próxima de ser a causa verdadeira. A causa que «explica» tantos desastres inexplicáveis. E a hipótese entre todas inimaginável - como quase tudo o que hoje sucede no campo dos impactos ecológicos provocados pelo terror tecno-industrial - é que a lógica desse sistema de destruição leva os proprietários de cargueiros à sua destruição.

Dado que os seguros são, muitas vezes, quantias substanciais e atractivas, torna-se mais rentável (a palavra mágica da civilização do holocausto) destruí-los do que mantê-los, especialmente se já se encontram na fase de receber frequentes e caríssimas reparações em estaleiros como os da Lisnave, cada vez mais congestionados.

Mesmo parados, em qualquer porto, o aluguer é, normalmente, tão elevado, que nenhum armador tem interesse em manter paralisados cargueiros em geral e petroleiros em particular.

Melhor solução, porque mais económica: afundá-los, de preferência com cargas de resíduos perigosos e tóxicos, eles também com problemas de arrumação e despejo por todo o Mundo, por causa das campanhas dos perigosos ecologistas.

Junta-se assim o útil ao agradável, ou seja, de uma cajadada (afundamento «acidental») matam-se dois coelhos: cargueiro com o prazo de validade já ultrapassado e resíduos que não tenham onde cair mortos.

Se o afundamento de cargueiros obedece de facto a esta «lógica», é evidente que vamos assistir, ritmadamente, a esse espectáculo, até que as agências noticiosas, quando a coisa se banalizar, deixem de dar a notícia.

Se as duas razões apontadas são causa dos afundamentos, é óbvio que a série não vai parar: o que irá parar, evitando o escândalo e se é que o escândalo ainda é possível quando se tornou rotina, são as notícias dos afundamentos.

Como se sabe, o que hoje em dia não é notícia, especialmente notícia de telejornal, ou não vem na Internet, não existe.

Maremotos, ondas gigantes em mar calmo, e outras estranhas (ou apenas anómalas) ocorrências são hoje frequentes nos noticiários das agências internacionais. Verifica-se também que esses desastres têm o ar de «vir às ondas», quer dizer, de vez em quando regista-se uma «revoada» de desastres idênticos, em vários locais do globo.

Mero e puro acaso, dirá o místico de serviço.

A hipótese de um movimento ecologista internacional que estivesse a tentar sabotar o progresso e o desenvolvimento da magnífica sociedade industrial, é plausível, até porque os ecologistas se têm notabilizado por usar meios terroristas de acção e não se coíbem de colocar bombas onde cheira a progresso.

Outra hipótese, mas esta de rejeitar à partida, porque já todos os sismólogos, antropólogos e outros especialistas em progresso afirmaram que tal hipótese não tem sentido nem faz lógica nenhuma, é de que estas séries de desastres com cargueiros possam ter origem nos famosos rebentamentos subterrâneos de bombas atómicas no atol da Muroroa (França), deserto do Nevada ( USA) e no perímetro de Semipalatinsk (URSS), os tais rebentamentos que também não existem, porque as agências noticiosas internacionais raramente os noticiam.

E os que raramente noticiam, nunca chegam aos telejornais e à Internet: motivo mais que óbvio para que nunca se tenham realizado os 5.798 rebentamentos subterrâneos de bombas termonucleares que já se realizaram.

Especialmente as bombas francesas, que rebentam no Atol da Muroroa, parecem ter o seu maior impacto sísmico nos mares e oceanos.

No deserto do Nevada (USA) e no Semipalatinsk (URSS) os reflexos sísmicos são principalmente na parte emersa da crosta ou plataforma continental, até porque aquelas duas superpotências, com a experiência de 16 anos que já têm, podem teleguiar os sismos com muito maior rigor e segurança.

Não é preciso falar de guerra sísmico-nuclear, porque ela é um facto. Mas a verdade também é que não existe, porque as agências noticiosas internacionais não falam disso, muito menos os jornais e telejornais, e muito menos a Internet-que-sabe-tudo-de-tudo, alguma vez registou essa palavra.

Estamos no domínio da pura ficção científica.

Mais uma hipótese, vulgar mas plausível, para explicar esta série de cargueiros afundados, é que começa a existir um stock de cargas indesejáveis, de lixos e detritos, de substâncias venenosas, tóxicas ou explosivas, que os proprietários têm sérias dificuldades em armazenar, porque os espaços estão cada vez mais congestionados, porque há países com legislações de meio ambiente muito severas e porque, no fim de contas, é muito fácil - a pretexto de naufrágio acidental - deixar no fundo do oceano as cargas que de outra maneira criariam inúmeros e mesmo incalculáveis problemas.

A hipótese da destruição deliberada de navios com cargas poluentes de primeira classe, torna-se tanto mais verosímil quanto mais terríveis forem estes poluentes e maiores dificuldades, por culpa dos ecologistas, haja onde os lançar.

É uma hipótese de ficção científica mas, observando a lista de cargueiros partidos, naufragados, desaparecidos, etc, é caso para a gente exclamar: «Si non e vero, é benne trovato».

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PISTAS PARA UM CONTO POLICIAL

Eis apenas 3 ocorrências de um conjunto que poderá, em 3 dias, ter sido muito mais vasto:

- Em 15 de Dezembro de 1979, o petroleiro turco «Turco Treis», transportando 18 mil toneladas de gasóleo e com 37 homens de tripulação a bordo, está em dificuldades a 80 milhas ao largo do Cap Ortegal, perto da Corunha, na Galiza.

- A 16 de Dezembro de 1979, a RAF perde todas as esperanças de encontrar os sete marinheiros de um barco de pesca perdido ao largo das costas escocesas, enquanto as pesquisas prosseguiam para encontrar três arrastões franceses em dificuldade ao largo da Cornualha.

Os dois botes de salvamento do «Ocean Monarch» foram de facto encontrados vazios por um avião de reconhecimento da RAF.

- Ao largo da Cornualha, ainda a 16 de Dezembro de 1979 , continuam as pesquisas para encontrar o arrastão bretão «Atria», desaparecido com 5 homens a bordo, o «Kerguen», com seis marinheiros e um terceiro não identificado.

Eis apenas 3 ocorrências, entre 15 e 17 de Dezembro de 1979, período durante o qual, foi um pandemónio nos mares circundantes da Europa: cargueiros e petroleiros naufragados, mortos, desaparecidos, explosões, incêndios, etc

De tudo isto os jornais portugueses, como d'habitude, fizeram-se eco omisso ou parcelar.

Os que publicaram alguns dos acidentes, preferiram o que meteu foto: de facto, tratando-se de um helicóptero das Reais Forças Aéreas de Sua Magestade Britânica que içou os tripulantes em perigo, a coisa foi telexada, falada e, por alguns media, anunciada.

Já do desastre do estreito de Ormuz, com o «Energy Determination», um dos maiores superpetroleiros que navegam (navegava) nos mares do Mundo, sumiu: partiu-se em dois mas nem uma notícia houve por esses jornais fora.

Metade foi rebocada até a um porto dos emiratos árabes unidos e o armador de Hong Kong teve que lhe rezar os responsos enquanto recebia os 63 milhões de dólares do seguro. Um armador de super, nunca perde tudo. E a bandeira era, ao fim e ao cabo, liberiana.

Mas a tempestade que assolou os mares da Europa originou ainda outro acidente : o já citado petroleiro turco «Tirgo Treis» , transportando 18 mil toneladas de gasóleo e com 37 homens na tripulação, esteve em dificuldades ao largo de Cap Ortegal, perto da Corunha, na Galiza, nesse mar Cantábrico que não é para brincadeiras.

Curiosamente, houve telefoto do helicóptero da RAF a içar nas costas da Cornualha os tripulantes do cargueiro grego «Skopello Sky» e mais ainda a Reuter se ocupou a contar como tinham sido salvas 525 passageiros de uma embarcação à deriva na tempestade, amarrada à plataforma petrolífera construída pela Texaco e com cem toneladas de capacidade.

Chamada «Hermod» - pormenorizava ainda a notícia - a barcaça foi construída para alojar centenas de trabalhadores, tendo começado a adornar quando duas das amarras se partiram com a fúria das vagas.

Mas os jornais e a Reuter já não disseram, por exemplo, que a RAF perdera as esperanças de encontrar os sete marinheiros de um barco de pesca perdido ao largo das costas escocesas, bem assim três arrastões franceses da costa bretã, em dificuldades ao largo da Cornualha.

Dois botes do «Ocean Monarch» - assim se chamava o barco de pesca perdido - foram encontrados vazios.

Mas dos bretões também não houve mais notícias: o «Atria» , desapareceu com 5 homens a bordo, o «Kerguen» com seis e há um terceiro não identificado que não se sabe quantos homens levou consigo.

Mas ao largo da Corunha, na Galiza, 37 homens estavam também em perigo no já citado petroleiro turco «Turgo Treis», com 18 mil toneladas de gasóleo.

Na última linha, havia uma vaga referência à poluição possível das costas da Corunha... Mas não acharam os jornais suficiente razão para publicar, num dia em que se publicavam, aliás, os resultados das eleições autárquicas, só por si suficientes para fazer vender papel, ocupar espaço e abafar todos os mortos e feridos no mar.

Ainda bem, no entanto, que era gasóleo e petróleo, ou barcos de pesca o que naufragou. A gente assim soube.

Se fosse o «Pacific Fisher» a descarregar na mesma costa bretã, no porto de Cherbourg, a sua carga de Plutónio vinda do Japão, nem uma linha de telex porventura haveria.

E, no entanto, um «Pacific Fisher» que naufrague será o último. Pois com ele será o fim do mar, da Terra e do Homem.

Simples, não é?