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<81-01-15-de-ie> = diário de um escritor falhado – ideia, texto e tese de 5 estrelas -
POLUIÇÃO PARA O POVO,
CASAS ECOLÓGICAS PARA OS ENGENHEIROS (*)
(*) Este texto, de que particularmente gosto e que faz subir bastante a minha auto-estima, deve ter sido publicado no semanário «Barlavento»15/1/1981 . Parece-me também que já o tinha teclado.
15/1/1981 - " Depois do Petróleo, o Dilúvio" era o título de um ensaio escrito em 1973 e publicado em 1974, onde me permitia comentar as teses de Ivan Illich à luz dos acontecimentos recentes da guerra do Kipur e respectiva interrupção da torneira petrolífera.
Nessa altura, os ingénuos e bem intencionados acreditavam que era preciso exercer uma pedagogia intensiva no sentido de divulgar as alternativas à crise e permitir às pessoas desligar do circuito totalitário para ligar ao circuito convivial das auto-suficiências.
Suprema ingenuidade essa, com efeito. Divulgar as alternativas só serviu, afinal, para os donos do Poder mandarem vir rapidamente as bibliografias mais exaustivas e actualizadas, mandarem construir as suas próprias casas ecológicas, adoptar eles próprios, com Crédito da Caixa Geral dos Depósitos, os bons e suaves princípios das tecnologias leves, enquanto nas direcções-gerais, nos ministérios, na Assembleia da República, nos jornais, mandavam o escriba debitar o já crónico e habitual discurso, anterior a 1973, do expansionismo, da indústria pesada, das vantagens que há em entrar no Mercado Comum, do crescimento e do desenvolvimento, enfim, do energivorismo paranóico
De caminho, enquanto lhe plagiavam as teses e as ideias, mandavam calar o ecologista, cobriam-no de ridículo, acusavam-no de alarmismo, catastrofismo, dramatismo, etc
A mudança foi, para eles, vertiginosa e vantajosa. Enquanto os ecologistas se digladiam entre si, os engenheiros pesados organizaram-se para se documentar sobre todas as energias limpas e tecnologias leves, onde os seus bancos poderiam investir com toda a segurança.
MENTALIDADE ENERGÍVORA
É o fenómeno mais interessante depois do 25 de Abril. Enquanto as campanhas para a industrialização e poluição do País prosseguiam, enquanto a mentalidade energívora ganhava tons de ave canora e prima dona em todos os areópagos científicos onde , em Lisboa, se fazem colóquios, enquanto a neurose expansionista passava a psicose e a histeria se transformava numa epilepsia desenvolvimentista, os próprios engenheiros que discursavam nos colóquios e congressos para a entrada no mercado comum, já se preparavam para fazer a barbinha com água aquecida por colectores solares, planos.
Na biblioteca do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, segundo nos relata um seu habitual frequentador, os livros de temas eco-energéticos e eco-alternativos "desapareceram praticamente da circulação..." . Ou, o que dá no mesmo, "estão sempre requisitados por pessoas que os levam e tornam a levar..." Em requisição permanente sempre fica mais barato do que fotocopiar a 15 tostões. E não são ecologistas, com certeza, que frequentam a biblioteca desta catedral da ciência e da tecnologia.
Se as medidas de fundo preconizadas há 10 anos pelos ecologistas, não são ainda hoje adoptadas no Planeamento de Países como Portugal, à beira da bancarrota como constantemente nos asseguram, não é porque os mais altos responsáveis do Planeamento Energético , não conheçam essas soluções e alternativas. Conhecem-nas e praticam-nas para si próprios. Mas, ao nível do País, a situação de Bancarrota acelerada, é-lhes vantajosa e tudo farão para a prolongar até à total derrocada no Abismo. Mas os alarmistas e catastrofistas continuam a ser, evidentemente, os ecologistas. Eles que investem na Bancarrota são os salvadores da Pátria, de Deus e da Família.
Da Família deles, pelo menos, pois já estão construindo casas ecológicas de campo, com autosuficiência energética e condições de climatização natural aprendidas nos manuais das tecnologias alternativas. Quando a catástrofe vier, eles retiram-se para os seus abrigos.
Se nada dizem ao povo, nem aplicam, a nível nacional, a tecnologia intermédia que eles próprios já estão usando em sua própria casa, é porque convém aos interesses que eles servem, manter a crise, agravar a inflação, deixar o povo no permanente e trágico dilema "Petróleo ou Morte". Eles não querem engarrafamentos, na hora fatal da fuga à cidade. Quando Lisboa tiver que ser evacuada, eles serão os primeiros a sair, antes de haver engarrafamentos.
Manter a escassez, energética ou qualquer outra, é absolutamente necessário à sobre-exploração. Quando a carência não existe, inventa-se. Quando existe, aproveita-se.
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(*) Este texto, de que particularmente gosto e que faz subir bastante a minha auto-estima, deve ter sido publicado no semanário «Barlavento»15/1/1981 . Parece-me também que já o tinha teclado.