<paz-1> os dossiês do silêncio – movimentos sociais empalmados pelas máquinas – mein kampf – inédito ac de 1983 – ligar ao caderno «o lobo vestido de avózinha»
OS TRAVESTIS
DAS BOAS CAUSAS
19/11/1983 - As bombas subterrâneas rebentam durante duas semanas, o mundo treme de antípoda a antípoda e os pacifistas de aviário promovem bombásticas marchas ditas da paz (dos cemitérios).
Quem pode ser pároco numa freguesia destas, pacifista de coração no meio desta carnavalada, desta hipocrisia estrutural, destas vedetas do travesti belicista elevado à categoria de religião moderna?
Com uma opinião pública narcotizada por meia dúzia de cassetes, pelo pietismo e mediatismo das boas intenções pacifistas chegadas aos corações no correio da véspera, o mundo treme de ponta a ponta, da Europa à China, sob o impacto das megatoneladas que eles continuam fazendo rebentar nos poços das suas experiências nucleares obviamente subterrâneas. São os testes termo-nucleares que todos fingem não notar, não ligando o efeito à causa que o provoca.
Antes da paz ou dicotomia Paz-Guerra, há uma outra dicotomia que condiciona aquela: Verdade-Mentira, assistindo nós a um espectáculo de travesti, belicistas mascarados de pacifistas na mais pífia e ostensiva das amálgamas.
No entanto, há ainda ingénuos na Terceira Idade que não notam e embarcam na marcha.
Está-se em plena guerra sísmico-nuclear e querem que alinhemos na cantoria pacifista. Qualquer pacifista que o seja, desde sempre, porque pelo exemplo e pela experiência mostrou estar do lado dos pacifistas de todos os tempos, qualquer pacifista que do coração o seja antes desta hipocrisia e deste espectáculo de travesti, encenado à pressa, é evidente que não pode vestir-se de neo-pacifista de aviário. Remete-se ao silêncio discreto da sua consciência insultada pela palhaçada em cena.
DE LANÇA EM RISTE CONTRA O PECADO
Ora pró ora anti, ora a favor ora contra, não faltam beneméritas cruzadas na sociedade industrial onde exactamente os direitos mais elementares do Homem e da Natureza são constantemente violentados.
Ninguém de bom coração - que afinal somos todos, no remanso doméstico, no calorzinho do nosso borralho íntimo - contestará a licitude e a legitimidade indiscutíveis de coisas tão belas, tão boas, tão justas como defender a paz e atacar a guerra, proteger a Natureza e abominar a Poluição.
Não faltam as chamadas causas nobres, logo puxadas a si pelas máquinas partidárias, sempre prontas a tirar delas dividendos: a Paz e a Natureza são hoje das mais propaladas, mas não menos dignas de amores e favores são, outrossim, a Criança, a Juventude, a Música, o Património Cultural, as Energias solares, o Artesanato, etc
Exércitos de salvação, por seu turno, extremamente bem intencionados, andam por este tempo e mundo de lança na mão, investindo contra os maus da Fita: a Fome, a Poluição, o Tabagismo, a Droga, a Prostituição, o Cancro, a Infidelidade Conjugal, os Lixos nauseabundos, etc .(quem quiser o catálogo completo, envia-se cópia ).
Esta divisão do Mundo em Bons e Maus, parece-me demasiado simples e simplória para ser verdade.
Como demasiado simplório me parece que uma causa, só porque é justa, possa discricionariamente e demagogicamente ser instrumentalizada por qualquer bicho careta, sem mãos nem moral para pegar nela.
Confundir-se a legitimidade de uma causa - em favor da Paz ou da Natureza - com aqueles interesses imperialistas que, sendo exactamente os seus opostos, completamente a instrumentalizam e prostituem, esta e que é a questão,
Do maniqueísmo deles, blocos que dividiram o Mundo em Bons e Maus, não nos façam a nós, simples cidadãos, cúmplices. Assiste-nos um dos direitos fundamentais do Homem: o Não Alinhamento a nenhuma das superpotências nucleares.
O LOBO VESTIDO DE AVÓZINHA
Não adianta tentarem lavar-nos o cérebro, com subterfúgios, ou invocando a autoridade moral de personalidades, autoridades, entidades ou organizações internacionais, tipo ONU, suposta e alegadamente acima de toda a suspeita, porque não há nenhuma que o possa estar.
A voz do dono toma vários registos, veste várias peles, camufla-se de diversas formas: o lobo vestido de avózinha é uma fábula aplicável hoje à situação de travesti que se verifica a nível nacional e internacional.
Não é pelo facto de o Prof. Barahona Fernandes, personalidade acima de toda a suspeita, ter subscrito a Marcha da Paz, apoiando-a com uma assinatura, ou por ela, Marcha, vir alegadamente integrada em manifestações decretadas pela ONU, que a Marcha da Paz deixa de ser o que é, ou deixou, mais uma vez, de correr à matraca os verdadeiros pacifistas que nela queriam incorporar-se.
Agora já sem disfarces, o lobo ainda consegue no entanto iludir espíritos tão inocentes como o do Prof.. Barahona. Acima, ao que parece, das convulsas guerras reais da Terra, eles conseguem não ter visto nem ouvido o que tão claro ficou em cartazes, anúncios de jornal, cacetada nos pacifistas independentes e etc
ORGULHOSAMENTE SÓS
Bem pensantes, entretanto, com seu infalível poder de infiltração, surgem neste espectáculo de travesti, demagogicamente apregoando as virtudes de uma campanha pela paz de que só agora, e repentinamente, os vemos tão paladinos.
Sábado, dia 12 de Novembro, um semanário inseria artigo de opinião, da autoria de Fernando Pereira Marques, sociólogo, sobre o famigerado tema da paz, igualmente acobertando e travestindo, em desculpas pueris, a pura e simples realidade surreal-abjeccionista , sem paralelo em mais nenhuma parte do Mundo, de vermos aqui os movimentos sociais instrumentalizados por partidos políticos.
A que vem, pois, o articulista atirar-nos com um argumento exógeno, ou seja, a vitalidade e a independência dos movimentos pacifistas em países como a RFA e os Estados Unidos?
Pois essa é que é a diferença e é nisso que consiste aqui e agora o essencial da questão: o facto de em Portugal se terem asfixiado e instrumentalizado os movimentos sociais mais interessantes do nosso tempo é que torna o caso português hoje único no Mundo e digno de vir a figurar num próximo tribunal Bertrand Russell.
Não sabe o movimento pacifista internacional o que aqui se passa e melhor será que continue a não saber; não sabe o movimento anti-nuclear o que aqui se passa e melhor será que continue a ignorá-lo; não sabe o movimento ecologista internacional o que aqui se passa em matéria de partidos verdes e ainda bem que não sabe. Antes ignorados que vaiados.
Orgulhosamente sós no Mundo, os movimentos sociais portugueses foram pura e simplesmente sorvidos pela gula insaciável das máquinas. Há quem tenha por eles um particular e devorador apetite. Mas esses apenas aproveitam, inteligente e oportunamente, o espaço deixado vazio por culpa daqueles que, numa área vocacionada para a liberdade e para a independência dos cidadãos, se estiveram e estão nas tintas para ajudar os movimentos sociais a ser o que são, quer dizer, válvulas de segurança de qualquer sociedade que se não queira totalmente e totalitariamente fechada.
NÃO-ALINHAMENTO, ESSÊNCIA DA DEMOCRACIA
Se há um partido organizado, disciplinado, que ritmicamente vai digerindo os movimento sociais - defesa da Mulher, da Criança, da Terceira Idade, da Juventude, da Paz, da Natureza, do Património Cultural, dos Desempregados, etc., - a três factos se deve esse apetite:
1 - A debilidade ideológica intrínseca de pacifistas, ecologistas, alternativos, juvenis-estudantis, que nunca souberam demarcar-se a tempo e hora dos blocos imperialistas hegemónicos, definindo um espaço de não-alinhamento que deveria ser o seu;
2 - A falta de apoio e de finanças locais aos grupos e associações com garantia da sua independência face aos poderes apoiantes;
3 - A passividade, a ignorância, a cegueira moral e política dos democratas e sociais democratas que aqui deviam ter visto e dado apoio a esses movimentos, conferindo-lhes a força que seria a própria força e a própria essência da Democracia.
Agora assobiem-lhe às botas.
Resignados secularmente à nossa apagada e vil tristeza, que ao menos os respeitáveis anciãos não nos queiram também lavar o cérebro e convencer-nos de que o panorama é brilhante e de que vivemos em democracia.
Não, professor Barahona: o que se passa nos movimentos sociais em geral e no pacifista em particular, é apenas um espectáculo de travesti só para adultos com sólida formação moral.™™™