1-4 domingo, 19 de Janeiro de 2003 - <nuclear-4-ie> os dossiês do silêncio – a sociedade do tecno-terror – os retrocessos do progresso – as datas do século

AINDA «THREE MILE ISLAND»:

ENERGIA NUCLEAR MAIS SEGURA DO QUE NUNCA (*)

(*) Publicado no semanário «Gazeta do Sul», 23/6/1979

23/Junho/1979 - Pelo que deixou a claro e a descoberto, mas também pelos enigmas e dúvidas que veio lançar no já obscuro domínio da indústria nuclear, a acidente de Three Mile Island será cada vez mais uma data-chave nos tempos modernos.

Talvez as futuras gerações, as que conseguirem sobreviver ao holocausto nuclear, venham a falar de um tempo «antes» e de um tempo «depois» de Three Mile Island. Por causa deste acidente, muita coisa já mudou mas muito mais coisas ainda irão mudar.

Ainda não se sabia até onde as coisas poderiam piorar e o ambiente já andava saturado de elogios à segurança da indústria electro-nuclear.

«Este acidente permitiu verificar que os meios técnicos de segurança contra semelhantes problemas são suficientes. . . » podia ler-se logo no meio das notícias do dia 29, horas depois dos técnicos confessarem que tinham perdido totalmente o controle sobre o reactor e que tudo a partir de agora, podia acontecer a 16 Km de Harrisburg (cidade de 80.000 habitantes) e a 320 Km de Nova Iorque.

Tudo poderia acontecer quando, já em 29 de Março, «vestígios de vapor radioactivo eram detectados a 25 Km da central».

Em declarações à Televisão Portuguesa, no dia 6 de Abril de 1979, a engª Isabel Torres, da Direcção Geral de Energia e autora do livro editado pela Arcádia «Centrais Nucleares e Meio Ambiente», não só elogiava as condições de segurança em que funcionam as centrais nucleares, como manifestava o seu regozijo por ver as medidas de emergência que os norte-americanos conseguem pôr em prática, em caso de catástrofe iminente.

«Não morreu ninguém» – afirmava a engª Isabel Torres, glosando a mesmísima afirmação feita por James Schlesinger, secretário de Estado da Energia das Estados Unidos, no filme transmitido pelo Telejornal das 20 horas no domingo, dia 8 de Abril de 1979.

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Dias antes, milhões de pessoas em todo o Mundo tinham lido as notícias de Three Mile Island:

(France Press, 29.3.79)

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(ANOP, 30.3.79)

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(F.P., Reuter 30.3.1979).

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(F.P. Reuter 31.3.79)

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(Reuter, 31.3.79).

(Reuter, 31.3.79).

(ANOP, 2.4.79)

(ANOP. 2.4.79)

*

(Reuter, 2.4.79)

(Reuter, 2.4.79)

(ANOP, 3.4.79)

(ANOP, 3.4.79)

(3.4.79)

(4.4.79)

(5.4.79)

(5.4.79) . .

(4.4.79)

(4.4.79)

(5.4.79)

(5.4.79)

(5.4.79)

(5.4.79)

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Enquanto os jornais publicavam estas e outras notícias da catástrofe que esteve para acontecer, do acidente que foi o maior da história nuclear, dos planos de emergência e do estado de alarme que esteve para ser decretado, das pessoas que chegaram a ser evacuadas e das que fugiram sem esperar qualquer ordem para isso, enquanto todo o mundo se voltava para Three Mile Island à espera do pior, os mesmos jornais faziam-se eco do que, à mesma hora, acontecia em Lisboa, no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, onde o Prof. Axel Romagna, do Centro de Oceanografia da Bretanha, serenamente, beatificamente, estoicamente, debitava para técnicos portugueses:

«Não temos a menor ideia sobre qual o impacto ecológico de uma central termonuclear no litoral.» (31.3.79).

Para dizer isto foi pago o sr. Axel Romagna , que acrescentou:

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Comentando Harrisburg, a revista «Triunfo» de Barcelona, chamava-lhe, com efeito, «Apoteose do cinismo nuclear».

No caso da engenheira e suas sensacionais afirmações à RTP, eu diria que é mesmo a apoteose da apoteose da apoteose.

Num rápido esboço do que poderia acontecer na península ibérica, a revista «Triunfo» escrevia o seguinte, num artigo de Pedro Costa Morata:

«A de Caroña, no Norte de Burgos, tem apenas , a uns 30 quilómetros, a cidade de Miranda do Ebro.

«A de Vandellós, na costa de Tarragona, está na proximidade de numerosas localidades piscatórias principalmente, sendo a primeira que despeja directamente no mar.

« Das quatro centrais em construção (num total de 7 reactores) a de Almaraz está situada em zona de baixa densidade de população; a de Ascó numa comarca bastante povoada; a de Lemoniz , numa das zonas de maior concentração demográfica da Europa; e a de Cofrentes a uns 70 Km de Valência na cabeceira de uma horta rica e povoada.»

«Se um acidente «tipo Harrisburg» se produzisse na central de Zorita e a nuvem radioactiva tomasse a direcção de Madrid, provavelmente toda a população interposta, mais de 3 milhões, se veria submetida a doses de exposição excessivas. Mais do que a evacuação, que é impensável, seria a fuga desordenada, produzindo-se mais vítimas por confusão e pânico do que pela própria radiação.

«Se sucedesse em Lemoniz, no caso de que chegasse a funcionar e se desse o acidente, a mortandade medir-se-ia por dezenas de milhar em poucos dias, tendo em conta que a potência de um reactor é seis vezes superior à de Zorita e que a população bilbaína está concentrada a 15/20 Km.»

(In semanário «Triunfo», de Barcelona, 7.Abril.1979)

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(*) Publicado no semanário «Gazeta do Sul», 23/6/1979