1-3

 

        <80-05-20-ie-ecc> quinta-feira, 2 de Janeiro de 2003-scan

20/MAIO/1980:

PEDRO NUNES AMEAÇA:

NUCLEAR OU MORTE (*)

 

[ 20/MAIO/1980]

"É um crime continuar a queimar "fuel" nas centrais térmicas" - declarou o Prof. Pedro Nunes durante a conferência que proferiu no Instituto Britânico sobre "O Desafio Energético Português" e na qual traçou um quadro apocalíptico do que poderá ser a década de 80 em Portugal, na quase total dependência energética de uma fonte cada vez mais cara e mais rara, o petróleo.

Técnico da Companhia Nacional de Petroquímica e Professor do Instituto Superior Técnico, Pedro Nunes considera que é "pura loucura" basear no petróleo o desenvolvimento industrial, que prevê intensivo e apontou o nuclear e o carvão como únicas vias para ultrapassar a crise e atenuar a nossa dependência do petróleo árabe.

As reservas hidroeléctricas não têm, em sua opinião, qualquer significado e muito menos a energia solar ou eólica, meros casos individuais sem peso no que ele chama a Macroeconomia dos grandes consumos. Mesmo o carvão, a seu ver, tem todos os defeitos: "é trabalho intensivo, é difícil de minerar e tem altos custos sociais".

Facilmente, portanto, o Prof. Pedro Nunes, introduz, como única saída, a energia nuclear, de que fez, aliás claramente o elogio e por vezes em termos bastante ingénuos. Afirmar de que não houve até hoje acidentes graves com centrais nucleares, com efeito, só por ingenuidade.

Mas como os reactores clássicos a urânio têm os dias contados, devido à raridade deste mineral, o conferencista aposta nos reactores de neutrões rápidos, apesar dos graves problemas de segurança que põem e que ele reconhece. Mas tudo se resolverá com tecnologia e legislação adequada. Ainda há pouco tempo a URSS inaugurou o seu primeiro reactor de neutrões rápidos no Ural e a França tenta arrancar, há uns anos, com o "Superfénix" mas até hoje avariou sempre. Com neutrões rápidos, pelos vistos, as coisas andam um bocado lentas.

Como exemplo da nossa ruína energética, Pedro Nunes apontou a central térmica do Carregado que fornece Lisboa nos "picos" de consumos e que vai este ano consumir em "fuel" 16 milhões de contos. Dois dos 4 grupos previstos para a Térmica de Setúbal - de "dimensão mundial" como disse - vão igualmente queimar "fuel", facto que o técnico da Petroquímica já classificara, várias vezes, de crime económico e energético.

Em troca, entre os usos "nobres" que o fuel pode ter, citou a Petroquímica, que produz objectos de uso duráveis. Tão duráveis que não há nada na Terra capaz de os bio-degradar (destruir e reintroduzir no ciclo natural).

Prosseguindo o seu elogio da energia nuclear, sustentou que o quilovátio hora dessa origem é metade do que a partir do "fuel", afirmação que não leva em conta, com certeza, o aumento dos custos provocados na instalação de centrais nucleares a partir, precisamente, da inflação generalizada que o preço do petróleo acelera exponencialmente. E esta aceleração exponencial foi arduamente repetida na sua exposição. Acontece porém que, ao declarar o preço do quilovátio nuclear mais barato, o orador aponta o preço do fuel actual mas os preços dos reactores há 7 anos, antes ou logo depois da crise petrolífera de 1973 (guerra do Kipur):

" 72% do petróleo em que baseamos a nossa dependência energética passa pelo estreito de Ormuz" - com este argumento estratégico de peso, adensava a atmosfera de pânico que desde o início vinha sendo criada pelo quadro apocalíptico de petróleo em aumento constante de preços.

A Arábia Saudita, nosso principal fornecedor, prepara novo aumento.

Daí que nos fique uma única solução: "Temos de ir para o nuclear e o carvão, sob pena da nossa estrutura económica entrar em colapso."

Não tendo citado algumas das muitas alternativas energéticas limpas hoje absolutamente viáveis, e tendo citado outras pondo-lhe só restrições (solar e eólica), minimizando por outro lado o sector eléctrico que os próprios técnicos deste campo consideram ainda com enormes potencialidades a explorar, fechando todas as portas, saídas e alternativas torna-se, portanto, relativamente fácil "empurrar" os portugueses para o beco nuclear.

"Estamos encurralados" - reconheceu o conferencista, que entretanto afirmou situar as suas opiniões e posições pró-nuclearistas numa perspectiva Macro-Económica. Não obstante, concordou que 75% dos consumos são hoje domésticos e de pequenos ou médios industriais (têxteis, mecânicas), havendo, por outro lado, possibilidades práticas de reconverter muitos desses consumos que poderiam aprovisionar-se em fontes energéticas as mais diferenciadas.

Através destes "pequenos consumidores" parece mais viável influenciar, com diversificação de fontes energéticas em pequenas unidades produtoras, os graves problemas a nível da citada Macroeconomia.

Deixariam de ter sentido, portanto, as acusações que se fazem ao eólico, ao solar, ao maremotriz, ao biogás, ao metanol, etanol e gasogénio a partir de detritos orgânicos, enfim, a todas as alternativas dimensionadas a uma escala mais reduzida, deixariam de ter sentido as acusações de que não se pode alimentar uma Celulose com pilhas fotovoltaicas.

Se é possível satisfazer milhares de pequenos consumos pela via das energias brandas, livres, limpas e ecológicas, é evidente que as Grandes Energias seriam destinadas aos consumos que aquelas outras alternativas não pudessem, por natureza, satisfazer.

Os 50 milhões de contos que hoje custa uma central nuclear (que brevemente se transformaria em peça de museu por falta de urânio ou por qualquer acidente incontrolável) dariam para disseminar, já, uma rede de unidades geradoras de várias alternativas energéticas de escala humana, pelo que toda a argumentação cataclísmica e catastrofista em relação à nossa dependência energética só terá razão de ser enquanto os interessados nessa situação trágica quiseram mantê-la para, à última hora, impor o nuclear como única saída do que saída não tem.

Saídas e alternativas existem e são tantas que o orador até não teve ocasião de citar algumas das mais importantes (o caso do gás metano a partir dos detritos orgânicos).

Não são vias energéticas que faltam, mas a vontade de as pôr em prática.

----

(*) Este texto de Afonso Cautela deverá ter ficado, pelo teor, inédito