1-2 - <80-05-24-ie> quinta-feira, 2 de Janeiro de 2003
NO LNETI ESPECIALISTA BRASILEIRO
REVELA "SEGREDOS" DA INFORMAÇÃO NUCLEAR (*)
[ 24-5-1980]
Neste momento, existem à disposição da Humanidade 3 milhões de informações sobre energia nuclear, centralizadas pelo Information Nuclear International System (I.N.I.S.).
No entanto, se o leitor tiver muita curiosidade em saber alguma coisa sobre segurança dos reactores ou sobre os planos de avacuação das cidades em caso de catástrofe atómica, é bem possível que o I.N.I.S. não possa responder e que esse "item" não conste dos 3 milhões até agora arquivados.
Mistérios e paradoxos do nosso tempo, explicados da maneira atraente e autorizada por um especialista na matéria, o doutor Ivan Marchesi, que deu uma conferência sobre o tema no Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial.
Através do I.N.I.S., fundado em Viena em 1970, Portugal e Brasil são, com efeito, dois dos muitos países que efectuam intercâmbio de informação nuclear com aquela organização internacional, dependência da Comissão Internacional de Energia Atómica.
Daí o interesse que há na cooperação entre os dois serviços homólogos, e daí o interesse de visitas como esta do doutor Marchesi, director executivo da Comissão Nacional de Energia Nuclear, do Brasil, cujo espírito de humor, que é uma das notas marcantes da sua personalidade, ficou bem patente na conferência que proferiu no LNETI.
Ele veio a convite do serviço que em Portugal desempenha idênticas funções, instalado no ex-Laboratório da Física e Engenharia Nucleares, em Sacavém, e agora também integrado no LNETI , espécie de hidra que detém hoje em Portugal o mais importante domínio sobre a informação científico-tecnológica fundamental.
AS PARTES "SECRETAS" DA INFORMAÇÃO
Relativamente ao trabalho efectuado em Portugal pelo "agente de ligação com o INIS", dirigido pela drª Maria Alcina Costa, o serviço brasileiro revela um incremento muito superior ao nosso, devido ao desenvolvimento que a indústria nuclear, através da concessionária exclusiva Nucleobras e do acordo com a República Federal da Alemanha, sofrer esta década no Brasil.
A transferência de "tecnologias sensíveis", como esta, foi referido pelo orador como dos aspectos mais difíceis daquele acordo. Não é possível a um país superdesenvolvido revelar todos os segredos a um subdesenvolvido
Tal como a informação, a tecnologia tem também que ser rateada, existindo uma parte "secreta" que a nenhum preço se transmite ou comunica, sob pena de o sistema nuclear mundial se esbarrondar. Esta zona de "segredo" - susceptível de fascinar os amadores de novelas de espionagem - contrasta com a abundância, torrencial, de dados ou "itens" circulantes. Desde que sejam inócuas, do ponto de vista ideológico ou político, há milhões de informações em circulação...
"Acelerar o desenvolvimento da ciência da informação" como disse Marchesi, nomeadamente em matéria tão "sensível" como a nuclear, não significa portanto, ao nível dos
mass media ou órgãos de comunicação social, que os povos andem mais bem informados.
Pelo contrário, a quantidade colossal de "itens", ao ritmo de 70 mil por ano, pode até contribuir em grande parte para impedir que se dê a informação mais útil ao público.
Tente o leitor saber, por exemplo, no mapa de Portugal, quais são e quantas são (10? 15?) as aldeias de Portugal onde a Empresa Nacional de Urânio - EP vai explorar este minério, e não conseguirá saber tão simples coisa.
"Apesar de eficaz e computarizado", o sistema designado na Brasil Centro de Informação Nuclear só responde o que interessa ao sistema. Quanto ao serviço português de ligação com o INIS, a funcionar desde 1970 e em colaboração com o brasileiro desde 1973, tem visto a sua eficácia muito limitada por não dispor de processamento automático de dados, recorrendo ao processo lento, antiquado de linguagem escrita ou impressa...
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(*) Este texto de Afonso Cautela terá ficado inédito ☻