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1997: CARTA

AOS RESPONSÁVEIS DE ALQUEVA

26/11/1997 - Chegámos, em 1997, a estes himalaias de perfeição democrática: o maior e mais grave problema deste pequeno País de pequeninos problemas, o tema controverso por excelência e que devia, de há muito, ter estado sujeito a debate público permanente, tornou-se no assunto-tabu por excelência. Com todos a dizer Amen, Amen. Espero bem que, depois de lerem esta minha carta, comecem a bater no peitinho querido, soluçando «mea culpa, mea grande culpa».

Rodeado de silêncios & silenciamentos por todos os lados - grupos ditos ecologistas, autarquias, líderes de opinião, revistas ditas do Ambiente, etc. - Alqueva está a tentar consumar-se (embora me pareça que não vai haver orgasmo) na paz dos túmulos, enquanto o país se agita com os grandes, enormes, tremendos problemas do ministro incorruptível que se demite, do governador igualmente incorruptível que igualmente se demite, disto e daquilo.

O País, como os portugueses sabem, significa pura e simplesmente o show-off, o mundo virtual que os órgãos mediáticos querem, a chamada dramatização que dá entradas bombásticas de telejornal, o que induz 5 decilitros de adrenalina por minuto e por telespectador.

Não sendo os únicos a concorrer para o estado de sítio permanente que é hoje esta democracia, não sendo os únicos a concorrer para o obsceno unanimismo em torno do maior crime perpetrado contra um País, os senhores dos media podem bem reivindicar lugar cimeiro na lista (interminável) de nomes (ir)responsáveis implicados na consumação deste holocausto nacional que é, desde já, Alqueva.

Não sei nem quero saber de dados técnicos, de argumentos económicos, nem sequer de impactos ambientais e outras larachas com que se têm masturbado todos os responsáveis do projecto e respectiva corte de coniventes. O facto de se ter democraticamente proibido de o dizer, não implica que Alqueva deixe de ser o crime que é. E esse é para mim o busílis da questão.

Aos 64 anos, quase na reforma («retraite» como dizem muito adequadamente os franceses) já poucas coisas ou nenhumas me emocionam ou atemorizam. Sopas e descanso é todo o meu sonho. É a vantagem de ser velho: vamos tendo um pouco mais de lucidez e de realismo para dar às coisas a importância que elas têm: ou seja, nenhuma.

Mas Alqueva assusta-me. Pelas consequências apocalípticas que terá num país onde os episódios apocalípticos se sucedem em cadeia, basta que alguns milímetros de precipitação caiam com maior generosidade sobre o território.

E aproveito para dizer também o que penso da demagogia dos alegados ecologistas que mandam para o clima global e para as famigeradas alterações climáticas a nível planetário (só agora deram por isso, os marotos!) as culpas do que é apenas o processo de desertificação nacional encetado há meio século por Salazar com a eucaliptação & anexos (monoculturas & etc), e que sucessivos governos democráticos têm prosseguido com afinco.

Se há alterações climáticas graves a nível planetário - e é evidente que há - a verdade é que o País - sabe-se lá se por protecção da Nossa Senhora de Fátima - não tem sido causticado nessa proporção: e o que sucedeu este Inverno de 1997, não foi a zanga do clima nem do endiabrado El Niño mas os disparates sistematicamente cometidos em nome do progresso na desorganização do espaço, no desordenamento do território, na desertificação da paisagem, na desarborização, no assoreamento dos cursos de água, etc. , etc.

De todas as imagens que as televisões sadicamente coleccionaram, durante o temporal que, em Novembro de 1997, varreu Alentejo e Algarve, houve uma que retive e que me provocou, mais do que qualquer outra, um arrepio de pavor: Mértola, a belíssima vila alentejana (onde pontifica o memorável arqueólogo Cláudio Torres) aparecia parcialmente submersa, com uma ligeira subida de nível das águas do Rio Guadiana.

Para os esquecidos, convém lembrar que a barragem de Alqueva é no rio Guadiana...

Muitos das muitas dezenas que estão cúmplices na construção do maior lago artificial da Europa (num país onde nem cabe o lago do Campo Grande e onde se formam lagos suíços ao fundo da Avenida 24 de Julho em Lisboa), certamente também viram Mértola meio submersa e certamente também perceberam que estava ali, apenas, em miniatura, em holograma, em estilo croquis do LNEC, o que virá a acontecer, em proporções reais, quando o tal maior lago estiver construído e quando, como é normal, tiver que descarregar o excesso para o Rio Guadiana sempre que uma chuvada maiorzinha o exigir.

Espero bem que, com esta antevisão da grande catástrofe, com este ensaio geral do que será o grande espectáculo, já tenha começado nestas alminhas santas, implicadas no maior crime nacional, o processo de um santificador remorso.

Estou apenas o desejar o que é justo. A César o que é de César.

Se é verdade que estou assustadíssimo - pelas gerações que vão cá ficar, quando eu brevemente me for - não estou interessado em tirar os sonos a ninguém, embora considere que, por maiores cérebros e diplomas que tenham, são infra-humanas estas criaturas que defendem Alqueva ou estão coniventes (o célebre «Nim») com ela.

Se é verdade que estou assustadíssimo, depois de ver Mértola submersa só com alguns milímetros de chuva e sem que as barrragens espanholas tenham anunciado qualquer descarga, também sei - tenho a certeza - de que justiça cósmica se fará.

O coração do sagrado que reside no tesouro megalítico alentejano vai ser profanado da maneira mais atroz.

O arqueólogo Cláudio Torres está preocupado, e muito bem, com os 20 Km de sagrado de Foz Coa: com uma província inteira de sagrado - o Alentejo - não está nada incomodado. Pode fazer companhia a outro ilustre historiador, a vedeta televisiva José Hermano Saraiva, que em declarações ao semanário «O Diabo»(18/11/1997) dizia das figuras de Foz Coa que eram «garatujas» que nem sequer tinham monumentalidade que valesse a pena...

Textualmente dixit: «As gravuras claro que têm algum interesse, mas quando eu penso que se gastaram milhões com Foz Coa e, por exemplo, se deixa arruinar o Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, que é a peça mais representativa que temos da arte em Portugal no século XVIII, que para mais está ligado à figura de um grande estadista, não posso estar de acordo.»

Sem dúvida: este senhor é a peça mais representativa do nosso museu de sumidades.

Não quero tirar os sonos a ninguém mas espero bem que, perante a arrepiante ousadia de desafiar energias que remontam a antes da Atlântida (ou seja, à Lemúria, Pátria de nós todos) e que são, de certeza, energias da criação primordial, as dezenas de (ir)responsáveis pelo apocalipse de Alqueva, fiquem com a consciência (se é que a têm) um pouquinho mais pesada.

Falando de consciência, de alma, de sagrado, de Lemúria ou Mu, de tesouro megalítico, é o momento de me espantar, verdadeiramente, com o silêncio, também, dos actualmente grandes cérebros de um alegado esoterismo português.

Se não me espantam os silêncios e silenciamentos de economistas, chefes de partido, construtores de barragens, vendedores de cimento armado, exímios jogadores da Bolsa, ecologistas, ambientalistas, especialistas de impacto ambiental e até de arqueólogos e historiadores (que gritam contra a barragem de Foz Coa mas dizem Amen-Sim-Senhor à de Alqueva) , já me espanta um pouquinho mas também não muito o silêncio dos que publicam livros, fazem conferências, dão cursos, abrem centros sobre a geografia sagrada de Portugal. Não é o muro de erudição teórica atrás do qual se entrincheiram que os irá defender de remorsos, insónias e pesadelos.

Não tenho nada a ver com o destino que estas alminhas de Deus querem dar às respectivas almas (tê-las-ão?). Mas era bonito, era coerente, era airoso e de muito bom tom que, quem tem hoje , neste País, uma tão grande fatia do poder mediático (e nem só) tivesse um acto de coragem, uma atitude de nobreza, um descargo de consciência, um momento de lucidez para, ligando a bota com a perdigota, vir dizer ao rebanho de ineptos e leigos (que somos nós, os ignorantes) que Alqueva não é só uma megalomania do regime fascista, um crime económico, um atentado contra o eternamente sacrificado povo alentejano, um desastre financeiro, um incremento de 100% dos riscos sísmicos numa zona sísmica, um apocalipse ambiental, um etnocídio (Aldeia da Luz), que Alqueva não é só a certidão de óbito de um País outrora chamado Portugal, mas - à luz dos que têm ou dizem ter, um mínimo de noção do que é o sagrado, que Alqueva representa o absoluto e irreversível sacrilégio.

Amen.

Afonso Cautela☻☻☻