1-2 <75-07-23-ie> sexta-feira, 24 de
Janeiro de 2003-novo word - <hfe75>
DO AMBIENTE
QUE SE VIVIA EM 1975
23/JULHO/1975
Texto significativo do ambiente que se vivia em 1975 e dos equívocos de uma
revolução que ainda não eram totalmente apreendidos como intencionais, é a
proposta apresentada por «trabalhadores da cultura» ao encontro de 23 de Julho
de 1975, realizado na Associação Portuguesa de Escritores.
O revisionismo abria as fauces (a pretexto das «contradições inerentes ao
PREC») para engolir tudo quanto era movimento intelectual, social, cívico ou de
cidadãos, tragando-os na voragem sem fim da neurose totalitária estalinista.
Agravavam-se as chagas cancerosas da vida portuguesa, desde sempre e até hoje
cada vez mais agravadas, com as sucessivas neuroses totalitárias dominando a
cena, desde o salazarismo ao liberal selvagismo dos anos oitenta e noventa.
Muito ao estilo da época , a «moção apresentada pela «Frente Ecológica»
ao referido encontro na Associação Portuguesa de Escritores, propunha-se tomar
algumas decisões com base em alguns considerandos.
Descontando o anacronismo do estilo, bastante datado, extrai-se deste
documento uma ideia de «frente comum de todos os movimentos sociais», ideia que
ainda não deixou de ser actual, antes pelo contrário, torna-se mais actual à
medida que os totalitarismos de todos os matizes se enfurecem e endurecem na
insana luta contra o povo deste país.
Eis o texto, discutido e já não se sabe se aprovado, na referida reunião de
«trabalhadores da cultura», em 23 de Julho de 1975:
« Trabalhadores da cultura, reunidos na Associação Portuguesa de Escritores,
em 23 de Julho de 1975, verificam com a maior apreensão que:
- - O desemprego tende a agravar-se, tanto nos sectores intelectuais como
nos sectores de trabalho manual;
- - Criadas, com a libertação do 25 de Abril, as condições objectivas para a
Revolução Cultural, condições que mais se alargaram e consolidaram após o 28
de Setembro e após o 11 de Março, o subaproveitamento do trabalho em geral e
do trabalho criador em particular, continua;
- - Os critérios para apreciação e selecção de valores continuam a ser os
que vigoravam antes do 25 de Abril, sem nada se ter alterado nos processos de
acesso e promoção às múltiplas actividades que uma Revolução, em princípio,
deveria exigir de todos os portugueses não reaccionários e não
contra-revolucionários;
- - Enquanto se continuam a dar oportunidades a reaccionários e
contra-revolucionários, essas oportunidades são negadas aos que maiores
garantias dão de estarem interessados no processo revolucionário,
independentemente de partidos e, regra geral, sem filiação partidária;
- - Serviços, partidos, estruturas, autarquias, departamentos e poderes
entravam, por todos os meios, iniciativas, acções e comportamentos que visam
dinamizar o processo revolucionário e colocar-se ao lado das ordens emanadas
dos mais altos escalões da Revolução;
- - O clubismo partidário, tanto como o oportunismo, o carreirismo, a
burocracia, o legalismo fascista ou pseudo-democrático, a corrupção
remanescente, etc., continuam a ser culpados de paralisação , atrofias,
desaproveitamentos, subempregos e desempregos no sector do trabalho cultural
tanto como no sector braçal;
- Perante estes e outros factos, que os trabalhadores (reunidos no dia 23 de
Julho) consideram profundamente graves face à nova ordem revolucionária que os
deveria julgar e condenar sem apelo - embora nada disso aconteça ou dê mostras
de vir a acontecer - decidem:
- - Pôr de parte todos os separatismos partidários ou de grupo, de forma a
empreender uma estratégia comum de defesa e ataque às estruturas reaccionárias
e contra-revolucionárias;
- - Constituir a Frente Literária da descolonização Cultural;
- - Realizar, durante o mês de Agosto, em localidade próxima de Lisboa e
durante um fim de semana, com sessões intensivas de manhã, à tarde e à noite,
um Encontro, que constitua o ponto de partida para uma auto-organização
literária dos trabalhadores da cultura subaproveitados ou desempregados;
- - Considerar inadmissível e a priori contra-revolucionária, neste momento
da vida do País, a situação de inaproveitamento e desemprego vivida por um
grande número de trabalhadores condenados, antes e depois do 25 de Abril, à
passividade, à mediocridade, ao abandono pelos donos e mandarins da cultura
burguesa estabelecida;
- - Denunciar, com nomes, datas e documentos confirmativos, situações,
serviços, partidos e todos quantos entravam o processo revolucionário,
entendendo que a Revolução Cultural consiste exactamente na instauração dessa
dialéctica crítica ao processo revolucionário e seus sabotadores;
- - Dar conhecimento frequente de todas as diligências feitas no sentido
dessa Revolução Cultural, aos órgãos soberanos da revolução que nos merecem
confiança e nos quais depositam toda a sua boa fé revolucionária;
- - Organizar grupos de trabalho com projectos concretos de acção
revolucionária (dinamização cultural junto das populações, acção cultural das
comissões de moradores ede trabalhadores, comunas agrobiológicas, cooperativas
de edição e distribuição, organização de manuais práticos para uso das
populações, jornal de vigilância crítica e Revolução Cultural, etc) ,
projectos a enviar, no mais curto espaço de tempo, aos órgãos supremos da
revolução que lhes poderão dar ap+oio e incentivo material;
- - Fazer da Frente Literária uma Frente Comum com a Frente ecológica, a
Frente Feminista e outras organizações unitárias - a partidárias -
interessadas na descolonização cultural do povo português como sinónimo de
Revolução Cultural deste País;
- - Utilizar desde já os tempos de antena postos à disposição da frente
Ecológica para dar conhecimento ao País deste e de outros comunicados, de
forma a mobilizar para a revolução Cultural o maior número de adeptos;
- - Entregar este comunicado na redacção dos jornais, esperando que o
imobilismo e a passividade não se tornem, uma vez mais, cúmplices de um
comportamento contra-revolucionário por parte dos órgãos de informação nem
sempre atentos ao que deviam estar.☼