1-5 < 98-05-25-ie> ideia ecológica - terça-feira, 15 de Abril de 2003-novo word - <hfe-13>

25-10-98

«FE» JULHO 1983

 

No âmbito de reuniões efectuadas em Lisboa, na sede da Base FUT - Frente Unitária dos Trabalhadores - e com vista à criação de um órgão ecologista designado «Ecologia em Diálogo» (que herdasse a dinâmica do apontamento radiofónico na Antena 1 com o mesmo título), foi elaborado um documento, entre outros, sobre a conjuntura ecologista nesse momento.

Divulga-se agora para ilustrar um pouco do que então, o ano de 1983, se passava quanto à independência do ecologismo e algumas cobiças que já se desenhavam com o desejo expresso de o controlar (ou controleirar, como então se dizia).

«A questão que se coloca aos ecologistas portugueses na presente conjuntura - Julho de 1983 - é a de mostrar ao poder que têm direito a ser ouvidos como sector representativo da vida e da opinião pública.

A verdade, porém, é que os ecologistas não têm neste momento meios objectivos de mostrar que possuem essa representatividade, enleados num ciclo vicioso que decorre do próprio sistema jurídico legal que regula e regulamenta a representação democrática de indivíduos e grupos.

Somos minoria numérica exactamente porque nos faltam meios de acesso aos órgãos de comunicação social que permitam amplificar a nossa voz e fazê-la chegar a uma potencial base de apoio . O direito de acesso a esses órgãos por seu turno, tem-nos sido vedado porque não somos nem um partido, nem uma classe profissional, nem um grupo de pressão suficientemente organizado e agressivo para impor ao poder esse acesso e esse direito .

A questão é que ter a razão e a verdade não dá automaticamente direito a difundir essa verdade pelos órgãos de comunicação social que a façam chegar a quantos nela estão potencialmente interessados.

A curto prazo não vemos saída para este bloqueio, a menos que o Governo cumprisse a promessa solenemente feita pelo Dr. Mário Soares , durante o almoço que ofereceu em 1 de Abril de 1983 a cerca de três dezenas de ecologistas.

Com efeito, quer Mário Soares, quer Jaime Gama, prometeram o acesso dos ecologistas aos grandes órgãos de comunicação social como a RTP e a RDP.

No que respeita ao ponto mais sensível da luta dos ecologistas - a energia electro-nuclear - é muito possível que o IX Governo vá cumprir o que prometeu no seu programa apresentado à Assembleia da República e que proceda a um debate público sobre a chamada «opção nuclear».

Mas além desse debate estar há muito anunciado e em curso, não sabendo os ecologistas que novidades lhe poderá imprimir o novo governo, não temos ilusões quanto ao perigo que oferecem estes métodos aparentemente democráticos de impor ao país a energia mais antidemocrática do mundo que é o nuclear.

Fala-se em debate no discurso oficial e é possível que se proceda a um seu simulacro mas apenas para que a decisão - certamente já tomada - tenha a cobertura «moral» de uma consulta popular.

Tão pouco temos dúvidas quanto ás fraudes que tal debate pode permitir. E tão pouco ignoramos a desigualdade de forças em presença. Com os meios de comunicação social a que o poder tem acesso de um lado e do outro os ecologistas sem um única publicação em que possam defender os seus pontos de vista, é evidente que não pode haver debate nem diálogo mas apenas monólogo . E enquanto esta relação de forças não for alterada - dando aos ecologistas meios de difusão pública que não têm - melhor será ao poder, por uma questão de primária deontologia, nem sequer falar em debate.

Se esta relação de forças quanto ao acesso da comunicação social se mantiver, o chamado esclarecimento da opinião pública para que decida sobre o nuclear será apenas mais uma ficção para acrescentar às restantes.

Um debate totalmente viciado à partida não pode conduzir a resultados que mereçam o nome de democráticos.

1/Abril/ 1983 -  O maior «bluff» da história do movimento ecológico em Portugal foi, certamente, o célebre almoço que Mário Soares ofereceu , em 1 de Abril de 1983, dia das mentiras, a três dezenas de ecologistas e no qual, entre outras medidas, o Partido Socialista prometia abrir os grandes meios da comunicação social à voz e à razão dos ecologistas.

O Partido Socialista ganhou as eleições, foi poder (Governo) e nunca abriu os órgãos de comunicação social aos ecologistas.

Entre os convidados presentes na reunião de 1 de Abril, dia das mentiras, citam-se:

 

«ECOLOGIA EM MOVIMENTO»:

PROJECTO CÍVICO DE INTERVEÇÃO POLÍTICA

Ecologistas hoje somos alguns. Amanhã - e se queremos que haja amanhã- teremos que ser todos.

16-19/Abril/1983 - «Pôr em marcha um projecto cívico de reflexão e intervenção sobre os graves problemas do Ambiente que afectam a população portuguesa» era o objectivo do grupo que, em 1983, lançou, sob a designação de «ecologia em Movimento» , uma série de iniciativas, entre as quais se destaca um ciclo de filmes e colóquios na Fundação Calouste Gulbenkian, entre 16 e 19 de Abril daquele ano.

Dizia o seu manifesto de apresentação :

Se te interessar este trabalho de pensamento, cultura, informação e animação ecologista, vem estudar connosco os dossiês mais urgentes.

Há trabalho para todos.

Queremos ser, como colectivo, uma voz independente e fazer das ideias uma arma, em defesa da vida e da natureza.

Sem desprezar a acção (imediata, não violenta) postulamos, na luta ideológica, a inteligibilidade crítica como o campo privilegiado do nosso trabalho.

Pensar a realidade e os problemas humanos dos nossos compatriotas é a nossa maneira cívica de fazer política.

«Ecologia em Movimento» não quer ser apenas um repetidor mecânico de slogans, cassetes, ideias feitas, frases ocas.

A imaginação também é para nós uma ferramenta de trabalho. Ultrapassar o bloqueio das dicotomias viciosas geradas nas ideologias de superestrutura que dominam o sistem, é a nossa meta e o nosso método.

Errando se caminha, por isso se caminha pondo à prova , na experiência, postulados geradores de acção.

Somos um desafio às instituições anquilosadas do poder, aos aparelhos e mecanismos corporativos.

Hipótese e experimentação - convém lembrá-lo - são duas operações do método científico. Ciência para nós é assim um esforço dialéctico de compreender a realidade em movimento para em movimento a transformar.

Entre a poesia e o rigor, o sonho e os factos, a utopia e o realismo, a estética e a política, «Ecologia em Movimento» será a dialéctica criadora, o desenvolvimento e o progresso que propomos.

Vem trabalhar connosco neste projecto de aventura e esperança.

Ecologistas hoje somos alguns. Amanhã - e se queremos que haja amanhã- teremos que ser todos.

16/ Maio/ 1983

Integravam o grupo de lançamento de «Ecologia em Movimento», os seguintes nomes: